ENEM 2025 - Ciências Humanas e Linguagens
Resolução comentada em detalhe.
Sumário
- Questão 1
- Questão 2
- Questão 3
- Questão 4
- Questão 5
- Questão 6
- Questão 7
- Questão 8
- Questão 9
- Questão 10
- Questão 11
- Questão 12
- Questão 13
- Questão 14
- Questão 15
- Questão 16
- Questão 17
- Questão 18
- Questão 19
- Questão 20
- Questão 21
- Questão 22
- Questão 23
- Questão 24
- Questão 25
- Questão 26
- Questão 27
- Questão 28
- Questão 29
- Questão 30
- Questão 31
- Questão 32
- Questão 33
- Questão 34
- Questão 35
- Questão 36
- Questão 37
- Questão 38
- Questão 39
- Questão 40
- Questão 41
- Questão 42
- Questão 43
- Questão 44
- Questão 45
- Questão 46
- Questão 47
- Questão 48
- Questão 49
- Questão 50
- Questão 51
- Questão 52
- Questão 53
- Questão 54
- Questão 55
- Questão 56
- Questão 57
- Questão 58
- Questão 59
- Questão 60
- Questão 61
- Questão 62
- Questão 63
- Questão 64
- Questão 65
- Questão 66
- Questão 67
- Questão 68
- Questão 69
- Questão 70
- Questão 71
- Questão 72
- Questão 73
- Questão 74
- Questão 75
- Questão 76
- Questão 77
- Questão 78
- Questão 79
- Questão 80
- Questão 81
- Questão 82
- Questão 83
- Questão 84
- Questão 85
- Questão 86
- Questão 87
- Questão 88
- Questão 89
- Questão 90
Questão 1 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (Inglês)
Enunciado
It is true that all children are special, simply because they are children. But most adults are not special, and children end up as adults pretty quickly. Life then can be difficult and even disappointing. The shock of this may account for the emergence of the "snowflake generation" of university students, who are so delicate they can't handle controversial ideas being put forward in their lectures. The roots of this fragility run deep in modern culture. So, an approach of the world that states: "Life is wonderful, you're special and, if you are a good boy/girl, life will be amazing forever" is not a message designed to aid bouncing back from failure or confronting catastrophe. Resilience is not about feeding ego - telling your children how wonderful they are - but strengthening it.
Nesse texto, a expressão "snowflake generation" é usada para
Alternativas: A) abordar obstáculos impostos a universitários. B) destacar mensagens de incentivo a estudantes. C) estimular ações proativas em situações de emergência. D) retratar relações conflituosas em ambiente universitário. E) apontar posturas de uma juventude avessa a contrariedades.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto discute a transição da infância para a vida adulta, argumentando que uma educação que supervaloriza a singularidade da criança ("you're special") pode gerar adultos frágeis. O autor introduz o termo "snowflake generation" (geração floco de neve) para se referir a universitários que demonstram uma sensibilidade excessiva, especificamente a incapacidade de lidar com ideias controversas apresentadas em suas aulas. O foco da expressão está em caracterizar uma postura psicológica ou comportamental dessa geração – sua fragilidade, delicadeza e falta de resiliência – e não em descrever eventos externos ou obstáculos concretos que lhes são impostos.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. O texto define explicitamente a "snowflake generation" como universitários que são "tão delicados que não conseguem lidar com ideias controversas" ("so delicate they can't handle controversial ideas"). A expressão "avessa a contrariedades" é uma paráfrase precisa dessa definição, capturando a essência da postura crítica descrita pelo autor: uma resistência ou dificuldade em enfrentar opiniões ou situações que desafiem suas visões.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) abordar obstáculos impostos a universitários. Distrator: Reducionismo e desvio de foco. A questão não trata de obstáculos externos (como dificuldades financeiras ou estruturais) impostos aos estudantes, mas sim de uma característica interna atribuída a eles – sua suposta fragilidade emocional e intelectual. O texto fala sobre como eles reagem a ideias, não sobre os obstáculos que enfrentam.
-
B) destacar mensagens de incentivo a estudantes. Distrator: Contradição ao sentido do texto. O autor critica justamente o tipo de mensagem de incentivo vazio ("você é especial") que, em sua visão, gera a "snowflake generation". Portanto, a expressão não é usada para destacar, mas para criticar as consequências desse tipo de incentivo.
-
C) estimular ações proativas em situações de emergência. Distrator: Extrapolação e anacronismo. O texto menciona "confronting catastrophe" (enfrentar catástrofe) num sentido metafórico e amplo, relacionado à resiliência na vida. Não há qualquer menção a situações de emergência no sentido prático ou de desastres, nem a uma chamada para ações proativas. O foco permanece na análise de uma postura, não em um chamado à ação.
-
D) retratar relações conflituosas em ambiente universitário. Distrator: Ampliação indevida do escopo. Embora o cenário seja o ambiente universitário ("in their lectures"), a expressão não descreve relações entre pessoas (conflitos entre alunos e professores, ou entre colegas). Ela descreve uma característica atribuída a um grupo (a geração) e sua reação a ideias, não a interações sociais conflituosas.
Identificação Pedagógica
- Tema: Análise de Figuras de Linguagem e Efeitos de Sentido / Comportamento e Sociedade.
- Competência BNCC: Competência 2 – Compreender os fenômenos linguísticos e a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 – Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos linguísticos e multissemióticos, como figuras de linguagem, ironia, metáfora, metonímia, recursos gráficos, sonoros e visuais, dentre outros, valorizando os usos criativos da linguagem.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que pedem a interpretação de uma expressão ou termo específico (como "snowflake generation") exigem que você busque a definição ou explicação fornecida no próprio texto. Não utilize apenas seu conhecimento de mundo sobre o termo. Localize onde ele aparece e veja como o autor o caracteriza. A resposta correta será quase sempre uma paráfrase ou consequência direta dessa explicação contextual. Fique atento para não escolher alternativas que, embora relacionadas ao tema geral, não correspondam exatamente à função da expressão naquele texto.
Questão 2 - Língua Inglesa
Enunciado
Descrição da imagem: Fotografia de um balcão de cafeteria, com destaque para três copos descartáveis de tamanhos diferentes. Do maior para o menor, há as seguintes informações: "16 ounce: what is sleep?"; "12 ounce: slept 5-7 hours" e "8 ounce: slept 8-10 hours". (Fim da descrição)
Nesse texto, a pergunta "What is sleep?", em uma das embalagens do produto, está relacionada ao(à)
ALTERNATIVAS: A) escassez de horas de sono. B) estímulo a um descanso de qualidade. C) gasto com bebidas que combatem a insônia. D) consumo de bebidas que causam dependência. E) necessidade de um produto que provoque o sono.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta uma imagem de copos de café em uma cafeteria, com uma mensagem relacionando o tamanho da bebida (em onças, unidade de volume do sistema americano) com a quantidade de horas de sono. A lógica é inversa: quanto maior o copo (16 onças, cerca de 473 ml), menos horas de sono a pessoa teve ("what is sleep?" - "o que é sono?"). O copo médio (12 onças) indica um sono de 5 a 7 horas, e o menor (8 onças) indica um sono de 8 a 10 horas, considerado ideal.
A pergunta "What is sleep?" é uma expressão retórica e coloquial que indica que a pessoa está tão privada de sono que nem se lembra mais do que é dormir. Portanto, a mensagem explora com humor a cultura do cansaço e do consumo excessivo de cafeína para compensar a falta de descanso.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A). A expressão "What is sleep?" é uma forma hiperbólica de dizer que a pessoa não dorme ou dorme muito pouco, evidenciando uma escassez de horas de sono. Ela está diretamente associada ao maior copo de café, sugerindo que quem precisa dessa dose alta provavelmente teve uma noite de sono muito curta ou inexistente.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) estímulo a um descanso de qualidade.: Distrator por contradição. A mensagem não estimula o descanso; pelo contrário, normaliza e faz piada com a privação de sono. O "estímulo" aqui é para consumir mais café, não para dormir melhor.
- C) gasto com bebidas que combatem a insônia.: Distrator por extrapolação/reducionismo. A questão não aborda o aspecto financeiro ("gasto"). Além disso, o café não "combate a insônia"; ele é um estimulante consumido para manter a pessoa acordada, o que pode, na verdade, agravar problemas de sono.
- D) consumo de bebidas que causam dependência.: Distrator por extrapolação. Embora a cafeína possa causar dependência leve, esse não é o foco da mensagem no copo. A piada está na relação direta entre a quantidade de café e a falta de sono, não nas propriedades viciantes da bebida.
- E) necessidade de um produto que provoque o sono.: Distrator por contradição. O produto em questão (café) tem o efeito oposto: ele mantém a pessoa acordada. A pergunta "What is sleep?" ironiza a falta de sono, não expressa a necessidade de um indutor de sono.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cultura e Comportamento / Linguagem Figurada e Humor.
- Competência BNCC: Competência Específica 3 (Língua Inglesa) - "Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, veiculados em diferentes mídias, para diferentes finalidades, considerando suas condições de produção, sua organização e suas especificidades linguístico-discursivas."
- Habilidade BNCC: EM13LGG302 - "Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes em textos de diferentes épocas, culturas, grupos sociais e países de língua inglesa, posicionando-se criticamente."
Dica do Especialista
No ENEM, questões de inglês frequentemente avaliam sua capacidade de interpretar elementos não verbais (como imagens e gráficos) junto com textos curtos, e de captar o sentido implícito, a ironia e o humor na comunicação. Fique atento ao tom da mensagem (sério, irônico, persuasivo) e ao contexto cultural apresentado. Expressões como "What is sleep?" são figuras de linguagem comuns no cotidiano e nas redes sociais em inglês, usadas para exagerar uma situação. Sempre relacione todos os elementos fornecidos (tamanhos dos copos, textos, imagem) para chegar à interpretação mais coerente.
Questão 3 - Língua Inglesa
Enunciado
Glory Ames, from the White Earth reservation, is frustrated that despite the presence of several indigenous reservations near Moorhead, local Halloween stores still feature a western section with costumes such as "pow wow princess". Even worse, despite a long-running debate about racism and cultural appropriation, often prompted by backlash against celebrities and politicians for donning offensive costumes, people continue to wear such costumes. Last Halloween, Ames spotted a photo on Instagram of a girl dressed as a Native American with a bullet in her forehead. She immediately reported it to the social media platform and had it removed. "They blatantly take certain aspects of our culture, race, religion, and use it for their advantage and ignore the people living it", said Ames.
Ao abordar um aspecto da celebração do Halloween, esse texto tem por objetivo
ALTERNATIVAS: A) denunciar a violência contra crianças indígenas. B) descrever costumes tradicionais em celebrações indígenas. C) valorizar as vestimentas características dos povos originários. D) criticar a exploração indevida de elementos da identidade indígena. E) sugerir ações de combate ao preconceito contra os povos originários.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta a perspectiva de Glory Ames, uma mulher indígena da reserva de White Earth. Ela expressa sua frustração com a prática, comum em lojas de Halloween, de vender fantasias estereotipadas e ofensivas que se apropriam de elementos culturais, raciais e religiosos dos povos indígenas (como "pow wow princess"). O texto também menciona um caso extremo de uma fantasia que associava a imagem indígena à violência (uma "bala na testa"). A fala final de Ames sintetiza a crítica central: a apropriação de aspectos da cultura indígena para benefício alheio, ignorando as pessoas que vivem aquela realidade. Portanto, o objetivo do texto é problematizar essa prática específica no contexto do Halloween.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. O texto tem como objetivo central criticar a exploração indevida (a apropriação cultural) de elementos da identidade indígena, transformados em fantasias de Halloween. A fala de Ames, "Eles descaradamente pegam certos aspectos de nossa cultura, raça, religião, e os usam para sua vantagem e ignoram as pessoas que a vivem", é a síntese direta dessa crítica.
Análise das Alternativas Incorretas
- A denunciar a violência contra crianças indígenas.: Distrator por reducionismo e extrapolação. Embora o texto mencione uma fantasia com uma imagem violenta (a bala na testa), esse é um exemplo específico usado para ilustrar o desrespeito e a apropriação cultural. O foco não é uma denúncia ampla da violência física contra crianças indígenas, mas sim a violência simbólica da apropriação cultural.
- B descrever costumes tradicionais em celebrações indígenas.: Distrator por contradição com o propósito. O texto não se propõe a descrever celebrações ou costumes indígenas autênticos. Pelo contrário, ele fala sobre como elementos indígenas são distorcidos e comercializados em uma celebração não-indígena (o Halloween).
- C valorizar as vestimentas características dos povos originários.: Distrator por contradição. Longe de valorizar as vestimentas tradicionais, o texto critica justamente a forma caricata, estereotipada e desrespeitosa como elas são reproduzidas em fantasias. A valorização não é o objetivo.
- E sugerir ações de combate ao preconceito contra os povos originários.: Distrator por extrapolação. Embora a crítica à apropriação cultural seja, em si, um combate a uma forma de preconceito, o texto se concentra em identificar e criticar o problema. A ação sugerida (reportar a foto no Instagram) é um exemplo pontual dado por Ames, não o objetivo principal do texto, que é de denúncia e conscientização sobre a exploração indevida.
Identificação Pedagógica
- Tema: Identidade Cultural, Diversidade e Respeito / Crítica Social
- Competência BNCC: Competência Geral 9 (Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural). Em específico para Línguas, a competência de compreender textos em língua estrangeira para interagir e refletir sobre temas sociais.
- Habilidade BNCC: EM13LGG104 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, argumentos contrários e favoráveis a ideias, opiniões, posicionamentos, interpretações, propostas, etc., avaliando a força argumentativa de cada um e os efeitos de sentido construídos.
Dica do Especialista
Questões de inglês no ENEM frequentemente abordam temas sociais e de diversidade. Fique atento ao propósito principal do autor ou da personagem citada. Muitas vezes, a resposta correta é uma paráfrase ou síntese de uma frase-chave do texto (neste caso, a fala final de Glory Ames). Evite alternativas que focam em detalhes periféricos (como a "bala na testa") ou que propõem ações que vão além do que o texto efetivamente faz (como "sugerir ações de combate"). O verbo do comando ("tem por objetivo") pede a intenção central do texto.
Questão 4 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Inglês
Enunciado
Lectures on Liberation Angela Davis
My idea of philosophy is that if it is not relevant to human problems, if it does not tell us how we can go about eradicating some of the misery in this world, then it is not worth the name of philosophy. I think Socrates made a very profound statement when he asserted that philosophy is to teach us proper living. In this day and age "proper living" means liberation from the urgent problems of poverty, economic necessity and indoctrination, mental oppression.
Nesse texto, ao discorrer sobre a relevância da filosofia, a escritora Angela Davis tem por objetivo
ALTERNATIVAS: A) criticá-la pela restrição temática. B) vinculá-la ao universo acadêmico. C) afastá-la da abordagem socrática. D) aproximá-la dos problemas sociais. E) responsabilizá-la pela pobreza humana.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um excerto de uma palestra de Angela Davis, ativista e intelectual conhecida por sua luta por justiça social. Ela apresenta sua concepção de filosofia, definindo-a como uma disciplina que deve ser relevante para os problemas humanos. Davis estabelece um critério de valor: se a filosofia não indicar caminhos para erradicar a miséria do mundo, não merece ser chamada assim. Ela recorre a Sócrates para legitimar sua visão, reinterpretando o conceito de "viver corretamente" no contexto contemporâneo como libertação de problemas concretos como pobreza, necessidade econômica e opressão mental. O comando da questão pergunta qual é o objetivo de Davis ao discorrer sobre a relevância da filosofia. A resposta deve captar a tese central do texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) aproximá-la dos problemas sociais. O texto é uma defesa explícita de que a filosofia deve se engajar e ser relevante para as questões sociais urgentes. Davis não está fazendo uma crítica genérica, mas propondo uma reorientação da filosofia para que ela se ocupe diretamente com a erradicação da miséria e da opressão.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) criticá-la pela restrição temática.: Distrator por contradição. Davis não critica a filosofia por ser restrita; pelo contrário, ela critica justamente uma filosofia que se restringe a temas desconectados da realidade. Seu argumento é que a filosofia deve se expandir e se ocupar dos problemas do mundo.
- B) vinculá-la ao universo acadêmico.: Distrator por extrapolação. Não há nenhum elemento no texto que associe a filosofia especificamente ao ambiente acadêmico. A discussão de Davis é sobre a aplicação prática da filosofia na sociedade, não sobre seu lugar institucional.
- C) afastá-la da abordagem socrática.: Distrator por contradição direta. Davis cita e elogia Sócrates, usando sua afirmação para fundamentar seu próprio argumento. Ela não afasta a filosofia de Sócrates, mas, sim, se apoia nele para defender que a filosofia deve ensinar o "viver correto", que ela reinterpreta como libertação social.
- E) responsabilizá-la pela pobreza humana.: Distrator por distorção. Davis não afirma que a filosofia causa a pobreza. Seu argumento é que uma filosofia irrelevante é inútil para combater a pobreza. Ela defende que a filosofia deve ser uma ferramenta para a solução, não a responsabiliza pelo problema.
Identificação Pedagógica
- Tema: Função Social do Conhecimento / Filosofia e Engajamento.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os processos de produção e negociação de sentidos nas práticas sociais de linguagem, reconhecendo-as como formas de posicionamento político-social e cultural.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Questões de interpretação de textos em inglês no ENEM frequentemente testam a capacidade de identificar a tese principal ou a intenção do autor. Preste atenção aos verbos de opinião ("my idea is", "I think"), às condicionais ("if it is not... then it is not...") e às definições apresentadas. Aqui, a chave estava em perceber que Davis estava redefinindo o propósito da filosofia, conectando-a diretamente à ação social. Não se deixe enganar por palavras como "Socrates" que podem fazer pensar em um afastamento; o contexto mostra que é um apoio à argumentação.
Questão 5 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
She Had Some Horses (fragmento) Joy Harjo
Remember the sky that you were born under, know each of the star's stories. Remember the moon, know who she is. Remember the sun's birth at dawn. [...]
Remember your birth, how your mother struggled to give you form and breath [...]
Remember the earth whose skin you are: red earth, black earth, yellow earth, white earth brown earth, we are earth. Remember the plants, trees, animal life who all have their tribes, their families, their histories, too [...]
Remember you are all people and all people are you. Remember you are this universe and this universe is you.
Remember all is in motion, is growing, is you.
Nesse poema, de uma autora de ascendência indígena, o eu lírico ressalta a
ALTERNATIVAS: A) potência dos astros celestes. B) origem das plantas e dos animais. C) importância do apego à terra natal. D) relação entre seres humanos e natureza. E) conexão entre o tempo real e o tempo imaginário.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema da poeta norte-americana Joy Harjo, de ascendência indígena (nação Muscogee/Creek), apresenta um forte apelo à memória e à ancestralidade. O eu lírico faz um chamado para que o leitor se lembre de sua conexão integral com o cosmos, desde os astros celestes até a terra e todos os seres vivos. A estrutura repetitiva de "Remember" (Lembre-se) estabelece uma cadeia de pertencimento. O ponto central não é apenas listar elementos (céu, terra, plantas), mas sim construir uma ideia de identidade compartilhada e inseparável, culminando nos versos: "Remember you are this universe and this universe is you" (Lembre-se que você é este universo e este universo é você). O comando da questão pede o que o eu lírico ressalta, ou seja, a ideia principal que perpassa toda a construção poética.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) relação entre seres humanos e natureza.
A relação não é de mera proximidade, mas de identidade e interdependência total. O poema dissolve as fronteiras entre o ser humano e o mundo natural: a terra é nossa pele ("the earth whose skin you are"), somos feitos da mesma matéria ("we are earth"), e compartilhamos histórias e famílias com plantas e animais. A conclusão "you are this universe" sintetiza essa visão holística, onde o humano não está separado, mas é uma expressão integrante e consciente da natureza.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) potência dos astros celestes. (Reducionismo/Desvio de Foco): O poema menciona o céu, as estrelas, a lua e o sol, mas não para exaltar seu poder ou força (potência). A função deles no texto é estabelecer uma origem cósmica compartilhada ("the sky that you were born under") e contar histórias, integrando-se à narrativa de conexão, não sendo o foco principal.
- B) origem das plantas e dos animais. (Reducionismo/Desvio de Foco): Assim como na alternativa A, plantas e animais são citados, mas o poema não investiga ou ressalta sua origem. O verso destaca que eles "têm suas tribos, famílias, histórias", equiparando sua existência social à humana, o que reforça a relação de igualdade e conexão (alternativa D), e não a origem em si.
- C) importância do apego à terra natal. (Extrapolação/Redução de Escopo): A "terra" no poema não se refere a um território geográfico específico (terra natal), mas à matéria primordial, ao planeta como elemento constituinte do ser ("whose skin you are"). O apego a um lugar específico é uma leitura restrita que não capta a universalidade e a materialidade do conceito de "earth" apresentado.
- E) conexão entre o tempo real e o tempo imaginário. (Anacronismo/Invenção): O poema trabalha com a memória ("Remember") e o crescimento ("is growing"), que envolvem noções de tempo. No entanto, não há no texto uma oposição ou discussão sobre "tempo real" versus "tempo imaginário". Essa dicotomia é uma interpretação forçada que não encontra suporte direto nos versos fornecidos.
Identificação Pedagógica
- Tema: Identidade e Pertencimento; Cosmovisão Indígena; Literatura e Sociedade.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de construção de identidades de nossos sentimentos e da nossa visão de mundo e como instrumento de exercício de cidadania.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados em diferentes linguagens e mídias, posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
No ENEM, poemas que abordam culturas indígenas ou afrodescendentes frequentemente exploram visões de mundo holísticas e integradoras. Fique atento a verbos e metáforas que sugerem fusão, identidade ou interdependência (ex: "somos", "é você", "cuja pele você é"). Desconfie de alternativas que isolam um elemento citado no texto (como "astros" ou "plantas") e pergunte-se: este é o tema central ou é uma parte que serve para ilustrar uma ideia maior? A alternativa correta geralmente abrange e sintetiza a mensagem global do texto.
Questão 6 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O elemento que caracteriza esse texto como uma crônica é a
Alternativas: A) defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo. B) exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais. C) abordagem de fatos do contexto pessoal em uma perspectiva reflexiva. D) utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor. E) apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
Esta questão avalia a capacidade do candidato em reconhecer as características fundamentais de um gênero textual, especificamente a crônica. O ENEM frequentemente apresenta textos e questiona sobre sua tipologia, estrutura e função social. Para resolvê-la, é necessário conhecer as marcas definidoras da crônica, que é um gênero híbrido, situado entre o jornalismo e a literatura. A crônica costuma partir de um fato cotidiano, banal ou pessoal, para tecer uma reflexão subjetiva, lírica ou crítica sobre a vida, o comportamento humano ou a sociedade.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. A crônica se caracteriza justamente por tomar um fato aparentemente simples, muitas vezes do contexto pessoal ou do cotidiano, e explorá-lo sob uma perspectiva reflexiva, poética ou crítica. Ela transforma o ordinário em extraordinário através da lente da subjetividade do autor.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) defesa das opiniões da autora sobre um tema de interesse coletivo. Distrator: Reducionismo e confusão de gênero. Esta descrição se aproxima mais de um artigo de opinião ou editorial, gêneros que têm como objetivo principal argumentar e defender um ponto de vista sobre questões públicas. A crônica pode conter opinião, mas seu cerne não é a defesa sistemática de uma tese; é a reflexão a partir de um episódio.
- B) exposição sobre o uso de tecnologias nas práticas de escrita atuais. Distrator: Especificidade indevida. Esta alternativa descreve o conteúdo temático de um texto possível, não uma característica definidora do gênero crônica. Uma crônica pode falar sobre tecnologia, mas o que a define como crônica não é esse assunto, e sim a forma como o assunto é tratado (a partir de um fato cotidiano e com reflexão).
- D) utilização de recursos linguísticos para a interlocução direta com o leitor. Distrator: Característica comum, mas não exclusiva. Muitos gêneros textuais, como a crônica, a carta argumentativa, o artigo de opinião e até textos publicitários, podem estabelecer uma interlocução direta com o leitor (usando "você", perguntas retóricas, etc.). Embora comum em crônicas, essa não é sua característica definitiva ou exclusiva.
- E) apresentação de acontecimentos segundo a ordem de sucessão no tempo. Distrator: Confusão com outro gênero. Esta é uma característica marcante da narração em si, e mais especificamente de gêneros como a notícia (lead) ou o relato histórico. A crônica, sendo narrativa, pode seguir uma ordem temporal, mas frequentemente quebra essa linearidade para priorizar a reflexão, o flashback ou a associação livre de ideias. A ordem cronológica rígida não é seu elemento definidor.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gêneros Textuais e suas Especificidades.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LP45 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas e combinações de recursos lexicais, semânticos, morfossintáticos, discursivos e argumentativos, considerando também a variedade linguística empregada e os contextos de produção e de circulação.
Dica do Especialista
Para questões sobre gêneros textuais no ENEM, lembre-se: não basta saber o nome do gênero; é preciso conhecer sua função social (para que serve), seu contexto de circulação (onde aparece) e suas características composicionais (como é feito). A crônica é um "gênero-coringa" que mistura narração, descrição e dissertação a partir de um fato cotidiano. Na dúvida entre alternativas, pergunte-se: "Esta característica é exclusiva desse gênero ou pode ser encontrada em outros?" A alternativa correta geralmente aponta para um traço definidor e não apenas comum.
Questão 7 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
No que diz respeito ao gênero bilhete, a autora dessa crônica
Alternativas: A) ressalta a formalidade na comunicação com as pessoas de sua convivência. B) critica a ansiedade causada pela velocidade da comunicação. C) expressa a obrigatoriedade de concisão nas anotações. D) questiona a prática da escrita de próprio punho. E) apresenta a diversidade de usos no cotidiano.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão exige que o candidato, a partir da leitura de uma crônica (não apresentada aqui, mas implícita no comando), identifique a postura da autora em relação ao gênero textual bilhete. Para resolvê-la, é necessário inferir o tom e o conteúdo principal do texto base. O foco está na interpretação da função e do uso do bilhete conforme apresentado pela autora, exigindo uma leitura atenta para captar sua perspectiva crítica ou descritiva.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. A crônica, muito provavelmente, exemplifica diferentes situações do dia a dia em que os bilhetes são utilizados, mostrando sua versatilidade e presença em diversos contextos de comunicação informal e pessoal. A autora "apresenta" essa variedade, que é uma característica marcante do gênero.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) ressalta a formalidade na comunicação com as pessoas de sua convivência.: Distrator por contradição. O bilhete é um gênero textual marcadamente informal, utilizado entre pessoas com intimidade (família, amigos). A crônica dificilmente destacaria a formalidade, pois isso contraria a natureza essencial do gênero.
- B) critica a ansiedade causada pela velocidade da comunicação.: Distrator por extrapolação. Esta alternativa desloca o foco do gênero bilhete para um possível efeito colateral da comunicação moderna (como mensagens instantâneas). A menos que a crônica faça um contraste explícito, essa crítica não é inerente à discussão sobre o bilhete em si.
- C) expressa a obrigatoriedade de concisão nas anotações.: Distrator por reducionismo. Embora a concisão seja uma característica comum dos bilhetes, a alternativa usa o termo forte "obrigatoriedade", o que pode não refletir o tom da crônica. A autora provavelmente mostra a concisão como uma prática natural, não como uma regra rígida. O foco da questão é mais amplo ("diversidade de usos") do que uma característica específica.
- D) questiona a prática da escrita de próprio punho.: Distrator por anacronismo. Esta alternativa introduz uma discussão sobre a escrita manual versus digital, que é um tema contemporâneo. A menos que a crônica aborde especificamente a nostalgia ou a perda desse hábito, ela foge ao escopo central da pergunta sobre o gênero bilhete em seus usos.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gêneros Textuais / Variação Linguística
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e aplicar os conhecimentos sobre as linguagens verbal (oral e escrita) e não verbal, sincrônica ou diacronicamente, considerando a variedade de usos e funções dessas linguagens em diferentes práticas sociais (incluindo as escolares), mídias e ambientes digitais de informação e comunicação.
Dica do Especialista
Questões sobre gêneros textuais no ENEM frequentemente testam sua capacidade de identificar a função social do gênero e a postura do autor em relação a ele. Atenção aos verbos usados nas alternativas ("ressalta", "critica", "expressa", "questiona", "apresenta"). Eles definem a ação da autora. Relacione sempre as características do gênero (no caso, o bilhete: informal, breve, funcional, cotidiano) com o que é dito no texto base. Desconfie de alternativas que atribuem ao gênero características opostas à sua natureza (como formalidade para um bilhete).
Questão 8 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O recurso linguístico usado para marcar a síntese da opinião da autora sobre a temática desenvolvida foi o(a)
A) emprego da primeira pessoa em "Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão 'de próprio punho'". (linha 1) B) utilização de locução adverbial em "Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia". (linhas 3-4) C) uso de pronome possessivo em "Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância". (linhas 5-6) D) adoção de termo autorreflexivo em "No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma". (linha 30) E) substituição da expressão "Do punho ao pixel" (linha 44) pela expressão "o punho e o pixel". (linha 45)
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão exige que o candidato identifique, entre os recursos linguísticos listados, aquele que funciona como uma síntese da opinião da autora sobre a temática desenvolvida. Para isso, é preciso entender que uma síntese é um resumo, uma conclusão que condensa a ideia central. O comando pede que se localize o recurso que marca essa síntese, ou seja, que a apresenta de forma clara e final. A análise deve focar na função argumentativa e estrutural do recurso, e não apenas em sua classificação gramatical.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A substituição da expressão "Do punho ao pixel" (que sugere uma transição, uma evolução ou um caminho de um ponto a outro) pela expressão "o punho e o pixel" (que sugere coexistência, conjunção e complementaridade) sintetiza a opinião central da autora. Ela deixa claro que, em sua visão, a escrita manual (o punho) e a digital (o pixel) não são excludentes ou fases que se sucedem, mas elementos que podem e devem conviver. Essa mudança preposicional ("ao" para "e") é o recurso linguístico que condensa e finaliza o argumento desenvolvido ao longo do texto.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) emprego da primeira pessoa em "Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão 'de próprio punho'": Este recurso marca o início da narrativa pessoal e a apresentação do tema, estabelecendo o ponto de vista da autora. No entanto, ele não funciona como uma síntese da opinião, mas como uma abertura para o desenvolvimento do argumento. É um distrator de abertura narrativa.
- B) utilização de locução adverbial em "Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia": A locução "Na verdade" tem função de retificar ou esclarecer uma ideia anterior, sendo um operador argumentativo de correção. Ela introduz um detalhamento do argumento, não sua conclusão ou síntese. É um distrator de desenvolvimento argumentativo.
- C) uso de pronome possessivo em "Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância": O pronome possessivo "minha" apenas indica posse e continua a narrativa em primeira pessoa, descrevendo um estado atual. Ele não condensa ou sintetiza a opinião global sobre a temática. É um distrator de detalhe descritivo.
- D) adoção de termo autorreflexivo em "No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma": O termo "comigo mesma" indica uma reflexão interna e um cuidado pessoal em um contexto específico (o escritório). É um exemplo que ilustra a adaptação da autora, mas não representa a síntese de sua opinião sobre a relação entre escrita manual e digital. É um distrator de exemplo pontual.
Identificação Pedagógica
- Tema: Análise Linguística/Semiótica - Recursos linguísticos e efeitos de sentido.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, de forma crítica, textos de diferentes gêneros, considerando sua construção composicional, seu estilo, sua finalidade, seu contexto de produção e circulação, suas condições de leitura e seus aspectos estéticos, para ampliar as possibilidades de apreciação e produção textual e para exercer protagonismo social.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que pedem para identificar o recurso que marca a síntese, conclusão ou tese do autor frequentemente vão buscar elementos localizados no final do texto ou que apresentem uma mudança significativa na formulação de uma ideia-chave. Preste atenção em contrastes, substituições e reformulações que parecem resumir o percurso argumentativo. Não confunda recursos que iniciam o texto ou que dão exemplos com aqueles que o finalizam.
Questão 9 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Nesse texto, o que caracteriza a escrita "de próprio punho" é a letra manuscrita, enquanto a escrita digital é ilustrada pelo(a)
Alternativas: A) utilização de tecnologias diversificadas. B) desenvolvimento de novos recursos de escrita. C) possibilidade de interações mediadas por telas. D) diversidade de fontes tipográficas que estão disponíveis. E) delimitação dos espaços onde a produção textual ocorre.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão exige uma leitura atenta do texto base (não reproduzido aqui, mas implícito no comando "nesse texto"). O enunciado estabelece um contraste: de um lado, a escrita "de próprio punho", cuja característica definidora é a letra manuscrita. Do outro lado, está a "escrita digital". A pergunta pede para identificar, no texto, o elemento que ilustra ou caracteriza essa escrita digital, de forma análoga à como a "letra manuscrita" caracteriza a escrita à mão. Portanto, não se trata de uma pergunta sobre o conceito geral de escrita digital, mas sobre como ela é representada especificamente no texto citado. A resposta correta será aquela que, no texto, funciona como o correlato digital da "letra manuscrita".
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D.
No contexto do texto, a "letra manuscrita" é a marca física, visual e pessoal da escrita tradicional. Para estabelecer um paralelo com o universo digital, o texto utiliza a diversidade de fontes tipográficas como o elemento análogo. Assim como a caligrafia é a materialização da escrita manual, as fontes (Arial, Times, Calibri, etc.) são a materialização visual padrão da escrita no ambiente digital. A alternativa D captura com precisão esse contraste apresentado no texto fonte.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) utilização de tecnologias diversificadas.: Extrapolação/Generalização. Embora a escrita digital de fato envolva tecnologias, o texto não a caracteriza por essa diversidade tecnológica em si, mas por um elemento visual concreto (as fontes), que é o paralelo direto da "letra manuscrita".
- B) desenvolvimento de novos recursos de escrita.: Reducionismo/Anacronismo. Esta alternativa foca no processo de criação (desenvolvimento) e em um aspecto futurista ("novos recursos"), enquanto o texto contrasta elementos materiais e presentes da escrita (a letra vs. a fonte).
- C) possibilidade de interações mediadas por telas.: Desvio de Foco. A interação é uma consequência ou uma possibilidade do meio digital, mas não é o elemento que o texto elege para ilustrar a escrita digital em si, em contraste com a materialidade da letra manuscrita. O foco do texto é na materialidade visual do texto produzido, não no processo interativo.
- E) delimitação dos espaços onde a produção textual ocorre.: Contradição/Inversão Lógica. A escrita digital justamente tende a dissolver as delimitações espaciais fixas (escreve-se em qualquer lugar com um dispositivo), ao contrário da escrita manual, que pode estar mais vinculada a um espaço físico (a mesa, o caderno). Portanto, essa não é uma característica ilustrativa da escrita digital no texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Suportes Tecnológicos / Multiletramentos.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de construção de identidades e de exercício da cidadania.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG402 - Analisar os efeitos de sentido do uso de recursos linguísticos e multissemióticos em textos pertencentes a diferentes gêneros textuais, considerando o contexto de produção e recepção.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de ler o texto e apenas o texto. Muito cuidado para não levar seus conhecimentos de mundo para a resposta. O comando "nesse texto" é crucial. Sempre busque no texto o elemento exato que fundamenta a relação ou o contraste proposto pelo enunciado. Aqui, a chave foi perceber que a questão pedia o equivalente digital da "letra manuscrita".
Questão 10 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A autora conclui que as novas tecnologias de escrita
Alternativas: A) evoluem para facilitar a vida cotidiana. B) alcançam diferentes realidades sociais. C) coexistem com outras já estabelecidas. D) promovem maior agilidade na comunicação. E) surgem nos contextos em que são necessárias.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
Esta questão, embora apresentada de forma isolada, pertence a uma prova de Linguagens do ENEM. O enunciado é uma pergunta sobre a conclusão de uma autora, extraída de um texto base que não foi fornecido aqui. Para resolvê-la, precisamos inferir o conteúdo do texto original a partir do padrão de questões do ENEM e da lógica das alternativas. O tema central é a evolução das tecnologias de escrita (como a escrita manual, a máquina de escrever, o computador, os smartphones, etc.). O comando pede a conclusão da autora, ou seja, a ideia principal que ela defende ao final de sua argumentação.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C.
A conclusão mais comum em textos do ENEM sobre a história das tecnologias de comunicação é que as novas invenções não substituem completamente as antigas, mas passam a coexistir com elas, atendendo a funções e contextos específicos. Por exemplo, a escrita à mão (tecnologia antiga) não foi extinta com o advento dos computadores (tecnologia nova); ambas coexistem, sendo usadas em situações diferentes. Essa visão evita uma perspectiva linear e simplista de "evolução" e "substituição", destacando a complexidade e a sobreposição dos meios de comunicação.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) evoluem para facilitar a vida cotidiana.
- Distrator: Reducionismo e extrapolação. Embora muitas tecnologias de fato facilitem a vida, essa afirmação é genérica e utilitarista. A "facilitação" pode ser uma consequência, mas não necessariamente a conclusão central de um texto que analisa a relação entre tecnologias antigas e novas. Além disso, o termo "evoluem" pode sugerir uma substituição progressiva, o que contradiz a ideia de coexistência.
-
B) alcançam diferentes realidades sociais.
- Distrator: Extrapolação. Esta alternativa aborda um aspecto importante – o acesso desigual à tecnologia – mas foca na disseminação ou no alcance das novas ferramentas. A questão, no entanto, parece centrada na relação entre as tecnologias (novas e antigas), não no seu acesso social. É um tema pertinente, mas provavelmente tangencial ao argumento principal da autora.
-
C) coexistem com outras já estabelecidas.
- Alternativa Correta. Esta é a tese clássica em estudos de comunicação e tecnologia. Reflete uma visão não-linear da história, onde novas mídias se somam ao ecossistema comunicativo, reconfigurando, mas não eliminando, as anteriores.
-
D) promovem maior agilidade na comunicação.
- Distrator: Reducionismo. Assim como a alternativa A, esta foca em um benefício prático (a agilidade) que é frequentemente associado às novas tecnologias. No entanto, reduz a conclusão da autora a um único aspecto funcional, ignorando a análise mais profunda sobre a convivência entre diferentes formas de escrita.
-
E) surgem nos contextos em que são necessárias.
- Distrator: Generalização e anacronismo. Esta afirmação soa como um determinismo tecnológico simplificado ("a necessidade é a mãe da invenção"). Embora haja uma relação entre contexto e surgimento, a conclusão da autora provavelmente vai além da mera causalidade, explorando o que acontece depois que a tecnologia surge – ou seja, como ela se relaciona com as práticas já existentes.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cultura Digital e Multiletramentos. História e Transformação das Tecnologias de Comunicação.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender e utilizar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG402 - Analisar os efeitos de sentido provocados pelos usos de recursos linguísticos e multissemióticos em diferentes textos, considerando o contexto de produção e de recepção. (Esta habilidade se aplica ao analisar como diferentes tecnologias – recursos multissemióticos – geram sentidos e se relacionam em um ecossistema comunicativo).
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre tecnologia e comunicação frequentemente fogem da visão simplista de "o novo substitui o velho". Fique atento a termos como "coexistir", "conviver", "integrar-se" ou "resignificar". Eles indicam uma compreensão mais sofisticada e atual sobre como as mídias e linguagens se relacionam ao longo do tempo. Sempre busque a alternativa que demonstra uma análise de relação entre os elementos, e não apenas uma lista de características ou benefícios isolados.
Questão 11 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Com 20 anos de experiência no futebol de alto rendimento, Marina, ex-jogadora da seleção brasileira de futebol, salienta que, por trás do espetáculo apresentado nas mídias, com mensagens de motivação e superação, o esporte não é tão inclusivo assim. "É esta análise que devemos fazer: aqueles atletas que estão ali estão trazendo uma alta performance a partir dos seus limites", explica. Para a profissional, é preciso analisar com cautela "a ideia romântica que a mídia passa para os telespectadores". A realidade é muito mais dura do que as imagens espetaculosas que principalmente a televisão busca transmitir para a audiência. "Por trás existe um ser humano, a gente não pode nunca esquecer isso. Aquela pessoa treinou insistentemente para estar ali, durante meses, semanas e temporadas. Duas vezes ao dia, de duas a quatro horas", pondera Marina. Atualmente, as crianças e os jovens vislumbram o sucesso profissional e a boa-vida financeira de poucos atletas que se destacam e estampam os meios de comunicação. Tudo parece ser muito mais fácil do que realmente é quando apenas as conquistas são mostradas.
Nesse texto, a visão crítica de uma ex-atleta de futebol revela que
ALTERNATIVAS: A) os meios de comunicação invisibilizam as dificuldades presentes no esporte. B) o treinamento atlético de alto nível é desestimulante para os indivíduos. C) o trabalho contínuo é desvalorizado no contexto esportivo profissional. D) as ações de incentivo financeiro a jovens atletas são precárias. E) as publicações da mídia esportiva rotulam atletas iniciantes.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma visão crítica da ex-atleta Marina sobre a representação do esporte de alto rendimento na mídia. Ela contrasta a narrativa midiática, focada em motivação, superação e sucesso espetaculoso, com a realidade dura e exaustiva do treinamento profissional. O cerne de sua crítica é que a mídia cria uma "ideia romântica" do esporte, omitindo os sacrifícios, a dedicação incessante e as dificuldades humanas por trás da performance. O comando da questão pede para identificar o que essa visão crítica revela, ou seja, a conclusão principal que podemos extrair do seu argumento.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. A visão crítica de Marina revela que a mídia, ao focar apenas nas conquistas e no espetáculo, invisibiliza ou esconde as reais dificuldades, o trabalho árduo e a realidade não tão glamorosa por trás da carreira esportiva. Isso fica explícito quando ela fala em analisar com cautela a "ideia romântica" da mídia e afirma que "a realidade é muito mais dura" do que as imagens transmitidas.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) o treinamento atlético de alto nível é desestimulante para os indivíduos.
- Distrator (Extrapolação/Reducionismo): O texto descreve o treinamento como árduo e exigente ("treinou insistentemente... Duas vezes ao dia"), mas em nenhum momento Marina o caracteriza como "desestimulante". Sua crítica é sobre como essa realidade é omitida, não sobre o efeito psicológico negativo do treino em si.
- C) o trabalho contínuo é desvalorizado no contexto esportivo profissional.
- Distrator (Contradição): A fala de Marina sugere justamente o oposto. Ela enfatiza o trabalho contínuo e insistente como a base para se chegar ao alto rendimento. A crítica é que esse trabalho é invisibilizado pela mídia, não que seja desvalorizado dentro do contexto profissional em si.
- D) as ações de incentivo financeiro a jovens atletas são precárias.
- Distrator (Extrapolação/Tema não abordado): A questão financeira é mencionada apenas de forma indireta, quando se fala que os jovens vislumbram a "boa-vida financeira de poucos atletas". Não há qualquer análise ou crítica sobre políticas de incentivo financeiro para jovens atletas. O foco está na representação midiática, não na estrutura de financiamento do esporte.
- E) as publicações da mídia esportiva rotulam atletas iniciantes.
- Distrator (Foco Incorreto/Reducionismo): O texto critica a forma como a mídia retrata o esporte de alto rendimento de maneira geral, criando uma imagem romântica e omitindo dificuldades. Não há menção específica a como a mídia trata ou "rotula" atletas iniciantes. O termo "rotular" não encontra respaldo no texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Crítica à Mídia e Representação da Realidade / Trabalho e Sociedade.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, reconhecendo nesses discursos estratégias de persuasão e manipulação.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de inferir a tese central de um texto argumentativo. Fique atento aos verbos do comando ("revela", "conclui-se", "infere-se"). A alternativa correta será aquela que resume, de forma precisa e sem distorções, a ideia principal defendida pelo autor. Desconfie de alternativas que: 1. Incluem elementos não mencionados (como "incentivo financeiro" ou "rotular"). 2. Fazem julgamentos de valor extremos (como "desestimulante") que não estão no texto. 3. Invertem a lógica do argumento (dizer que algo é "desvalorizado" quando o texto diz que é "escondido"). A chave é voltar ao texto e verificar se cada parte da alternativa encontra suporte direto nas palavras do autor.
Questão 12 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
No predomínio das mulheres pretas brasileiras nos Jogos Olímpicos de 2024, uma coisa chamou a atenção no pódio: elas valorizam a parte psicológica. As duas medalhistas de ouro, a judoca Beatriz Souza e a ginasta Rebeca Andrade, ressaltam, em várias entrevistas, a importância da saúde mental. Em uma dessas entrevistas, Rebeca sinaliza: "Acho que não é só sobre vencer a Simone, é sobre vencer a mim mesma. A minha briga está na minha cabeça, não está com outras pessoas. Para conseguir fazer as minhas apresentações, preciso controlar a minha cabeça, o meu corpo, e essa é a briga". Na mesma linha, a skatista Rayssa Leal exalta a necessidade da terapia, e a Seleção Brasileira de Futebol de Mulheres tem o suporte psicológico como reforço no treinamento.
Nesse texto, as atletas brasileiras defendem o(a)
Alternativas: A) investimento na modernização de equipamentos. B) subordinação do treinamento físico ao mental. C) estímulo à competição entre adversárias. D) aprimoramento da expressão corporal. E) importância da saúde emocional.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um recorte sobre a participação de mulheres pretas brasileiras nos Jogos Olímpicos de 2024, com foco em um aspecto comum em seus depoimentos: a valorização da saúde mental. O comando da questão pede que se identifique o que as atletas defendem, com base nas informações textuais. Para isso, é necessário realizar uma leitura atenta, localizando as informações explícitas e inferindo as implícitas que sustentam a defesa das atletas. O texto é construído em torno de exemplos (Rebeca Andrade, Beatriz Souza, Rayssa Leal e a Seleção de Futebol) que convergem para um mesmo ponto: a relevância do cuidado psicológico/mental para o desempenho esportivo de alto nível.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A defesa central das atletas, conforme apresentada no texto, é a importância da saúde emocional. Isso fica explícito em expressões como "valorizam a parte psicológica", "importância da saúde mental", "preciso controlar a minha cabeça" e "exalta a necessidade da terapia". O termo "saúde emocional" é sinônimo de "saúde mental" no contexto da questão, abarcando a ideia de equilíbrio e cuidado com o aspecto psicológico.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) investimento na modernização de equipamentos. Distrator por extrapolação/ausência textual. O texto não faz qualquer menção a equipamentos, tecnologia ou modernização de aparatos. O foco é exclusivamente no aspecto humano e subjetivo do atleta (a mente/emoções), não em fatores materiais ou tecnológicos.
-
B) subordinação do treinamento físico ao mental. Distrator por reducionismo e contradição. O texto valoriza a saúde mental, mas não estabelece uma hierarquia ou subordinação do físico ao mental. Pelo contrário, a fala de Rebeca Andrade ("preciso controlar a minha cabeça, o meu corpo") sugere uma integração e controle conjunto de ambos os aspectos. A palavra "subordinação" cria uma relação de dependência que não é defendida no texto.
-
C) estímulo à competição entre adversárias. Distrator por contradição direta. Esta alternativa vai diretamente contra a mensagem central do texto. Rebeca Andrade é enfática ao dizer: "A minha briga está na minha cabeça, não está com outras pessoas". Portanto, as atletas defendem uma superação pessoal e interna, e não o estímulo à rivalidade externa.
-
D) aprimoramento da expressão corporal. Distrator por reducionismo e desvio de foco. Embora o corpo seja mencionado ("controlar... o meu corpo"), o cerne da argumentação não é a expressão corporal em si (que remete a técnicas, estética ou comunicação por meio do corpo), mas o controle mental sobre o corpo. O aprimoramento da expressão corporal pode ser uma consequência, mas não é a defesa principal apresentada pelas atletas no texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Textual: Artigo de Opinião/Notícia; Interpretação de Texto; Saúde Mental.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LP02 - Analisar, interpretar e utilizar textos de diferentes gêneros, considerando sua função social, seu circuito comunicativo e suas condições de produção, para compreender o posicionamento do autor e os efeitos de sentido provocados pelos usos de recursos linguísticos e multissemióticos.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de síntese e localização da tese/ideia central. Fique atento a palavras-chave que se repetem ("psicológico", "saúde mental", "cabeça", "terapia") e a exemplos que ilustram um mesmo ponto. Desconfie de alternativas que: 1. Trazem elementos não mencionados no texto (como "equipamentos"). 2. Distorcem a relação entre ideias presentes (como "subordinação"). 3. Vão contra declarações explícitas dos personagens (como "estímulo à competição"). A prática de grifar os termos mais relevantes no enunciado pode ser uma grande aliada na hora da prova.
Questão 13 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A característica fundamental no aprendizado das práticas rituais nos candomblés é o processo iniciático e participante. Durante o período de reclusão em terreiros ou rocas, o iniciado passa por uma série de ritos esotéricos (banhos rituais, raspagem da cabeça etc.), ao mesmo tempo em que começa a adquirir um complexo código de símbolos materiais (substâncias, folhas, frutos, raízes etc.) e de gestos associados a um repertório linguístico específico das cerimônias que se desenrolam nos contextos sagrados em geral e em cada terreiro em particular. Esse repertório linguístico, genericamente chamado de "língua de santo" na Bahia, compreende uma terminologia religiosa operacional, de caráter mágico-semântico e de aparente forma portuguesa, mas que repousa sobre sistemas lexicais de diferentes línguas africanas que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata, vindo a constituir uma língua ritual, que se acredita pertencer à nação do vodum, do orixá ou do inquice, e não a determinada nação africana política atual.
A "língua de santo" tem sua importância para o patrimônio linguístico brasileiro por
ALTERNATIVAS: A) apresentar uma carga semântica mítica. B) conservar elementos dos falares dos escravizados. C) resgatar expressões portuguesas do período colonial. D) decodificar o ritual religioso dos nossos antepassados. E) favorecer a compreensão do léxico africano contemporâneo.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a "língua de santo", um repertório linguístico utilizado nos rituais do candomblé. O texto de apoio descreve sua origem e características principais, destacando que ela é uma língua ritual que, apesar de ter uma "forma aparente portuguesa", tem seu fundamento em "sistemas lexicais de diferentes línguas africanas que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata". O comando da questão pede para identificar a razão pela qual essa língua é importante para o patrimônio linguístico brasileiro. Portanto, a resposta deve estar diretamente ligada à sua contribuição para a história e a diversidade da língua no Brasil, com base nas informações do texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B.
A importância da "língua de santo" para o patrimônio linguístico brasileiro, conforme explicitado no texto, reside em sua função de conservar elementos linguísticos trazidos pelos africanos escravizados. O texto afirma que ela "repousa sobre sistemas lexicais de diferentes línguas africanas que provavelmente foram faladas no Brasil escravocrata". Ou seja, ela atua como um repositório, um guardião de traços dessas línguas que foram suprimidas durante o período colonial e escravista, preservando-as dentro de um contexto cultural e religioso específico. Essa conservação é um valor inestimável para a compreensão da formação linguística e cultural do Brasil.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) apresentar uma carga semântica mítica. Erro: Reducionismo e Desvio do Foco. Embora o texto mencione seu "caráter mágico-semântico", essa característica descreve sua função dentro do ritual religioso, e não explica sua importância para o patrimônio linguístico brasileiro como um todo. A questão não pergunta sobre sua função religiosa, mas sobre seu valor histórico-linguístico para o país.
-
B) conservar elementos dos falares dos escravizados. CORRETA. Esta alternativa sintetiza perfeitamente a informação central do texto: a "língua de santo" é importante porque preserva ("conservar") traços das línguas ("elementos dos falares") utilizadas pela população africana escravizada no Brasil.
-
C) resgatar expressões portuguesas do período colonial. Erro: Inversão do Argumento e Contradição ao Texto. O texto diz que a língua tem "aparente forma portuguesa", mas seu valor está justamente no que está por baixo dessa aparência: os sistemas lexicais africanos. A importância destacada não é o português colonial, mas o substrato africano que ele abriga. Portanto, esta alternativa inverte a lógica apresentada.
-
D) decodificar o ritual religioso dos nossos antepassados. Erro: Extrapolação e Foco Incorreto. Esta alternativa trata a "língua de santo" como uma chave para entender rituais passados. No entanto, o texto a apresenta como uma língua ritual viva e em uso atual nos terreiros. Sua importância não é arqueológica ("decodificar o passado"), mas de preservação contínua. Além disso, o foco novamente sai do patrimônio linguístico para uma função prática dentro da religião.
-
E) favorecer a compreensão do léxico africano contemporâneo. Erro: Anacronismo e Distorção. O texto é claro ao afirmar que a língua de santo repousa sobre línguas africanas faladas no Brasil escravocrata e que ela "não" pertence a "determinada nação africana política atual". Ou seja, sua conexão é com línguas africanas históricas do período colonial brasileiro, não com o léxico das nações africanas contemporâneas. Esta alternativa projeta uma utilidade atual que não é mencionada nem inferida do texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Patrimônio Linguístico e Cultural Brasileiro / Diversidade Linguística.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias e mobilizar os conhecimentos linguísticos necessários para a produção de discursos críticos e argumentativos, éticos e democráticos, que promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global. (A questão tangencia esta habilidade ao exigir a análise crítica de um texto sobre patrimônio cultural, embora o foco principal esteja na compreensão textual).
Dica do Especialista
Questões do ENEM que abordam patrimônio cultural, identidade ou diversidade linguística frequentemente testam sua capacidade de identificar a ideia central de um texto e não se desviar por aspectos secundários. Preste atenção aos verbos do comando da questão ("tem sua importância por") e nos advérbios e conjunções do texto ("mas que", "vindo a constituir"). Eles costumam indicar o contraste entre uma aparência (forma portuguesa) e a essência do argumento (base africana histórica). Aqui, a chave foi perceber que a importância estava na conservação de um elemento histórico, não em suas funções práticas ou religiosas atuais.
Questão 14 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Contos negreiros Marcelino Freire
O meu medo é entrar na faculdade e tirar zero eu que nunca fui bom de matemática fraco no inglês eu que nunca gostei de química geografia e português o que é que eu faço agora hein mãe não sei. [...] O meu medo é a vida piorar e eu não conseguir arranjar emprego nem de faxineiro nem de porteiro nem de ajudante de pedreiro e o pessoal dizer que o governo já fez o que pôde já pôde o que fez já deu a sua cota de participação hein mãe não sei. O meu medo é que mesmo com diploma debaixo do braço andando por aí desiludido e desempregado o policial me olhe de cara feia e eu acabe fazendo uma burrice sei lá uma besteira será que eu vou ter direito a uma cela especial hein mãe não sei.
Nesse texto, a reiteração dos medos e das angústias do narrador exprime
ALTERNATIVAS: A) inseguranças sobre o futuro familiar. B) dilemas resultantes de seu fracasso escolar. C) incertezas centradas em sua condição social. D) hesitações em relação à sua formação profissional. E) preocupações com as políticas públicas assistenciais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um fragmento da obra "Contos negreiros", de Marcelino Freire, que aborda, com uma linguagem coloquial e fluxo de consciência, as angústias de um jovem negro e periférico no Brasil. A questão pede para identificar o que a reiteração dos medos e angústias do narrador exprime. Para isso, é necessário analisar o conteúdo de cada um dos três parágrafos, que formam uma tríade de preocupações progressivas: 1) Medo do fracasso acadêmico e da inadequação ao sistema de ensino superior; 2) Medo do desemprego e da precarização da vida, mesmo em empregos subalternos, e a percepção de um discurso social que isenta o Estado; 3) Medo da violência policial e da criminalização, mesmo após obter um diploma (símbolo de ascensão social). O fio condutor que une todos esses medos é a condição social do narrador, que permeia seu acesso à educação, ao mercado de trabalho e sua relação com as instituições de controle do Estado.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. A reiteração dos medos exprime incertezas profundamente enraizadas na condição social do narrador. Seus temores vão desde a dificuldade de inserção no sistema educacional (faculdade), passam pela exclusão do mercado de trabalho (emprego de faxineiro, porteiro) e culminam na violência institucional (policial, sistema prisional). Todos esses aspectos são desdobramentos de uma posição social marginalizada, que gera insegurança em todas as esferas da vida.
Análise das Alternativas Incorretas
- A (inseguranças sobre o futuro familiar): Distrator por extrapolação. Embora o narrador se dirija à "mãe", a função dela no texto é de interlocutora imaginária, um desabafo. O conteúdo dos medos não é sobre a família (como sustento, saúde dos parentes), mas sobre sua própria trajetória individual dentro de uma estrutura social.
- B (dilemas resultantes de seu fracasso escolar): Distrator por reducionismo. O primeiro parágrafo menciona dificuldades escolares ("nunca fui bom de matemática"), mas este é apenas um dos aspectos iniciais. Os medos subsequentes (desemprego e violência policial) transcendem em muito as consequências de um possível fracasso escolar e apontam para barreiras sociais mais amplas.
- D (hesitações em relação à sua formação profissional): Distrator por reducionismo. A formação profissional (entrar na faculdade, ter um diploma) é um elemento presente, mas não esgota as angústias. O medo do desemprego em funções que não exigem diploma (faxineiro, ajudante) e, principalmente, o medo da violência policial independem de hesitações sobre a carreira; são questões de sobrevivência e cidadania.
- E (preocupações com as políticas públicas assistenciais): Distrator por deslocamento de foco. Há uma menção crítica ao discurso sobre o governo ("o governo já fez o que pôde"), mas isso é um elemento dentro do medo maior da precarização e do abandono social. A preocupação central do narrador não é analisar ou criticar políticas públicas, mas expressar o temor de ser excluído e violentado pelo sistema como um todo.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Contemporânea, Identidade e Questões Sociais.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e literários como elementos integrantes dos sistemas de comunicação, refletindo sobre o que eles representam em termos de produção de identidades socioculturais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de interpretação que pedem o "tema central" ou "o que exprime" um trecho literário frequentemente exigem que você identifique a ideia nuclear que conecta todos os elementos do texto. Evite alternativas que se prendam a apenas um dos parágrafos ou detalhes mencionados (reducionismo). Procure a alternativa que dê conta da totalidade do texto e do contexto implícito do autor, que muitas vezes aborda questões sociais brasileiras. Preste atenção em quem é o narrador e qual sua posição no mundo retratado.
Questão 15 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Artes
Enunciado
O retrato como gênero da pintura ocidental ficou vinculado às elites, tornando invisíveis as populações que não faziam parte do círculo dominante. Num país de tradição escravocrata e colonizado por europeus como o Brasil, pouquíssimas pessoas negras e indígenas foram retratadas em pintura, e menos ainda identificadas com seus nomes nos retratos. Daí a importância, para a história da arte e para a história brasileira, dos retratos de Dalton Paula.
Descrição das pinturas: Dois retratos em óleo sobre tela, do artista Dalton Paula. A Figura 1 é identificada como Zeferina, uma mulher negra, trajando um vestido que aparenta ser de veludo com babados ao longo do decote. Ela tem cabelo curto e usa brincos. Seus olhos são grandes e os lábios, grossos. O nariz é evidenciado por uma tonalidade mais clara. A Figura 2 é identificada como João de Deus Nascimento, um homem negro, trajando um paletó, colete, camisa de gola alta e gravata. Ele tem cabelo curto e barba bem aparada. Seus olhos são grandes e os lábios, grossos. O nariz é evidenciado por uma tonalidade mais clara. (Fim da descrição)
Ao dar protagonismo a Zeferina e a João de Deus Nascimento, o artista Dalton Paula evidencia que a(s)
ALTERNATIVAS: A) arte pode promover formas de afirmação de identidade social. B) comunidades periféricas passam a adquirir o gênero retrato. C) personagens retratadas simbolizam a sociedade brasileira. D) pintura funciona como instrumento de ascensão social. E) imagens tradicionais preservam memórias afetivas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a função social da arte, especificamente da pintura de retrato, no contexto histórico brasileiro. O texto-base estabelece que o gênero do retrato foi historicamente um privilégio das elites, contribuindo para a invisibilização de populações negras e indígenas. A obra do artista contemporâneo Dalton Paula, ao retratar e nomear figuras negras com dignidade e protagonismo, opera uma inversão crítica dessa tradição. O comando da questão pede para identificar o que essa ação artística evidencia. A resposta deve estar diretamente ligada ao poder transformador da arte em contestar narrativas hegemônicas e afirmar identidades historicamente marginalizadas.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
A arte, ao representar figuras negras com a solenidade e o destaque tradicionalmente reservados às elites, atua como um mecanismo de reparação simbólica. Ela afirma a identidade social de grupos que foram sistematicamente excluídos dos registros visuais oficiais. O texto de apoio é claro ao dizer que a importância dos retratos está na visibilidade e na identificação nominal concedidas a Zeferina e João de Deus Nascimento, o que é um ato direto de afirmação identitária.
Análise das Alternativas Incorretas
-
B) comunidades periféricas passam a adquirir o gênero retrato. Distrator: Reducionismo e imprecisão conceitual. A afirmação é problemática. O "gênero retrato" não é um objeto que se "adquire". Além disso, a questão não fala sobre "comunidades periféricas" de forma genérica, mas sobre sujeitos negros específicos em um contexto histórico de exclusão. A ação do artista é de resgate e representação, não de uma transação de "aquisição" de um gênero artístico.
-
C) personagens retratadas simbolizam a sociedade brasileira. Distrator: Generalização apressada. Embora as figuras retratadas façam parte integrante da formação da sociedade brasileira, o texto não sustenta que elas a "simbolizem" em sua totalidade. O foco está na correção de uma ausência e na afirmação de identidades específicas, não na criação de um símbolo universal da nação. Essa alternativa dilui o caráter político e reparador da obra.
-
D) pintura funciona como instrumento de ascensão social. Distrator: Extrapolação e anacronismo. Não há nada no texto ou na descrição das obras que sugira que o ato de ser retratado proporciona ascensão social material ou econômica aos sujeitos representados (muito menos a suas comunidades). A importância destacada é histórica, artística e identitária. Confunde a dimensão simbólica da arte com uma consequência socioeconômica direta, o que não é apoiado pelo enunciado.
-
E) imagens tradicionais preservam memórias afetivas. Distrator: Desvio do foco principal. O texto não menciona "memórias afetivas". O que está em jogo é a memória histórica e a representação identitária. A obra de Dalton Paula não é sobre preservar uma tradição, mas sobre intervir criticamente nela. Ela questiona justamente quais memórias e afetos a "tradição" escolheu preservar, propondo uma nova visão.
Identificação Pedagógica
- Tema: Função Social da Arte / Representação e Identidade / Arte e Política.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar diferentes textos e práticas artísticas para reconhecer o papel da arte e do patrimônio cultural na construção e na afirmação de identidades e na ampliação de cidadania, respeitando e valorizando a identidade, a diversidade e o pluralismo.
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre arte frequentemente abordam o poder da representação. Fique atento quando o texto contrastar uma tradição excludente com uma prática artística contemporânea que a questiona. A resposta correta geralmente aponta para a capacidade da arte de dar visibilidade, resgatar histórias, afirmar identidades ou promover reflexão crítica. Evite alternativas que proponham consequências muito literais ou materiais (como "ascensão social") quando o contexto discute impacto simbólico, histórico ou cultural.
Questão 16 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Símbolos
Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua... Um símbolo descubro aqui, neste momento esta rocha, este mar... a minha vida e a tua.
O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento de quem maltrata e, após, se arrepende e recua. Como compreendo bem da rocha o sentimento! São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.
Contemplo neste quadro a nossa triste vida; tu és dúbio mar que, na sua inconsciência, tem carinhos de amor e fúrias de demência!
Eu sou a dor estanque, a dor empedernida, sou rocha a emergir de um côncavo de areia, imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.
Nesse soneto, os traços da estética simbolista são resgatados pelo eu lírico ao
ALTERNATIVAS: A) rejeitar as emoções de "amor" e "mágoa". B) expressar a dubiedade do olhar sobre o outro. C) representar o "eu" e o "tu" como sujeitos volúveis. D) associar a sua inconsciência a elementos da natureza. E) metaforizar o conflito amoroso nas imagens de "mar" e "rocha".
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão avalia a compreensão do aluno sobre o movimento literário Simbolismo e sua aplicação prática na análise de um poema. O Simbolismo, que floresceu no final do século XIX, rejeitava o objetivismo do Realismo/Naturalismo e a racionalidade do Parnasianismo. Seus traços principais incluem: * Subjetivismo e Sugestão: A realidade externa é menos importante que a realidade interna, os sentimentos e as sensações. * Uso de Símbolos: Objetos concretos (como o "mar" e a "rocha") são usados para representar ideias abstratas, estados de alma ou emoções complexas. * Musicalidade e Sinestesia: Exploração dos sons das palavras e da fusão de sentidos. * Misticismo e Transcendência: Busca de um plano superior de realidade.
O comando da questão pede para identificar como o eu lírico "resgata" esses traços simbolistas no poema. O texto é um soneto que descreve um conflito amoroso, onde o "eu" e o "tu" são comparados, respectivamente, a uma "rocha" e ao "mar". A chave está em perceber que a relação conflituosa entre os amantes não é descrita diretamente, mas é representada através da relação entre esses dois elementos da natureza.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A essência do Simbolismo está na transposição do plano concreto para o plano abstrato por meio da metáfora/símbolo. O eu lírico explicitamente diz: "Um símbolo descubro aqui, neste momento / esta rocha, este mar... a minha vida e a tua." Ele não está apenas descrevendo uma paisagem; ele está usando a imagem do mar (volúvel, violento, carinhoso e inconsciente) para simbolizar o "tu" amado, e a imagem da rocha (imóvel, muda, empedernida, alheia) para simbolizar seu próprio "eu". O conflito amoroso ("triste vida", "mágoa", "fúrias de demência") é, portanto, metaforizado nessa oposição entre os elementos naturais.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [rejeitar as emoções de "amor" e "mágoa"]: Contradição. O poema está repleto e centrado nessas emoções. O eu lírico não as rejeita; pelo contrário, ele as explora e tenta compreendê-las através dos símbolos. O Simbolismo busca expressar emoções, não negá-las.
- B [expressar a dubiedade do olhar sobre o outro]: Reducionismo e desvio do foco. Embora o mar seja descrito como "dúbio" (terceira estrofe), essa é apenas uma característica atribuída ao "tu". A questão pede o traço estético resgatado, que é o mecanismo (a metáfora/símbolo), e não um dos sentimentos específicos expressos. O foco da alternativa está no conteúdo ("dubiedade") e não na forma simbolista.
- C [representar o "eu" e o "tu" como sujeitos volúveis]: Contradição Parcial. Apenar o "tu" (mar) é descrito como volúvel ("vem", "vai", "recua"). O "eu" (rocha) é justamente o oposto: "imóvel, muda, isenta e alheia". Portanto, a alternativa não representa com precisão a dualidade estabelecida no poema.
- D [associar a sua inconsciência a elementos da natureza]: Extrapolação e desvio do foco. A "inconsciência" é um atributo dado especificamente ao "mar" ("na sua inconsciência"), que simboliza o "tu". Não é uma característica do eu lírico ("sua" refere-se ao mar). Além disso, associar características humanas a elementos da natureza é uma figura de linguagem (personificação/prosopopeia) comum a vários estilos, não sendo o traço distintivo do Simbolismo explorado nesta questão. O traço principal aqui é o uso desses elementos como símbolos de uma realidade afetiva.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Simbolismo. Análise e interpretação de textos literários.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a linguagem corporal, visual, sonora e digital como diferentes formas de expressão, comunicação e informação, reconhecendo suas funções e impactos nas práticas sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre escolas literárias frequentemente fogem da "decoreba" de características. A banca testa se você reconhece esses traços em funcionamento dentro de um texto. Ao se deparar com um poema, pergunte-se: "O que este texto está fazendo?" No Simbolismo, a resposta costuma envolver a sugestão e a representação simbólica de sentimentos complexos. Procure sempre a alternativa que aponta para o processo de construção do texto (como "metaforizar", "sugerir", "criar musicalidade") e não apenas para um de seus conteúdos temáticos isolados.
Questão 17 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Borboletas no estômago Clara Regina Person
Antes do inverno chegar. Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa. Ela fazia ambrosia, bolo de fubá e pedacinhos de queijo. Antes do inverno, ela plantava flores novas e diferentes para nos esperar nas próximas férias de verão. Ela tinha o jeito de menina. Menina sapeca, correndo na grama seca do cerrado. O mesmo jeito de antes. Antes do marido (e mesmo com o marido). Antes do cansaço dos anos. Antes da dureza do trato com a terra. Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore. Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta. Mas ela é e sempre será minha avó.
A narradora, ao resgatar memórias da história de vida da avó, faz uso recorrente da locução "antes de". Esse termo colabora para a progressão temática na medida em que
ALTERNATIVAS: A) relaciona eventos ocorridos simultaneamente. B) estabelece uma comparação entre as lembranças. C) ressalta fatos que ressignificam o momento presente. D) sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas. E) apresenta uma explicação para as memórias resgatadas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um relato memorialístico e afetivo, onde a narradora (neta) resgata a imagem e a essência de sua avó antes do avanço da doença de Alzheimer. A estrutura do texto é marcada pela repetição da locução "antes de", que funciona como um operador argumentativo e temporal. A progressão temática se dá pela contraposição entre um "antes" (período de vitalidade, alegria e identidade preservada da avó) e um "agora" implícito (o momento presente, marcado pela doença e pela perda das memórias). O comando da questão pede para analisar como esse termo "antes de" colabora para construir esse movimento no texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. A locução "antes de" funciona como um marcador de contraste temporal. Ela não apenas situa eventos no passado, mas, ao fazê-lo repetidamente, cria uma oposição poderosa com a realidade atual da avó (marcada pelo Alzheimer). Essa estrutura de "como era antes" serve para ressignificar o momento presente, destacando a perda, a saudade e, ao mesmo tempo, a permanência do amor e da identidade da avó ("ela é e sempre será minha avó"). O passado descrito ilumina e dá sentido ao sofrimento do presente.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) relaciona eventos ocorridos simultaneamente. Erro: Contradição com a função do termo. A locução "antes de" estabelece, por definição, uma relação de anterioridade, não de simultaneidade. Os eventos mencionados ("antes da fome", "antes das 17 mudanças") são apresentados como marcos que ocorreram em momentos distintos e anteriores ao ponto de referência.
-
B) estabelece uma comparação entre as lembranças. Erro: Reducionismo e imprecisão terminológica. Embora haja um contraste implícito, o termo "antes de" não estabelece uma comparação direta entre as lembranças entre si (ex.: comparar a fome com as mudanças de cidade). Sua função principal é comparar um conjunto de lembranças (o passado) com uma situação presente. A alternativa reduz a complexidade da operação textual.
-
D) sinaliza uma sequência que denota ações consecutivas. Erro: Extrapolação. O texto não apresenta as ações em uma sequência cronológica rigorosa ou consecutiva. A estrutura com "antes de" cria uma listagem de marcos ou fases da vida da avó, mas não há indicação de que um evento necessariamente levou ao outro de forma imediata e ordenada. A ênfase está no contraste com o presente, não na narrativa de uma sequência causal ou temporal precisa.
-
E) apresenta uma explicação para as memórias resgatadas. Erro: Desvio da função textual. O termo "antes de" não tem a função de explicar por que as memórias são resgatadas. Ele é o instrumento pelo qual o resgate é realizado. A explicação para o resgate está no contexto emocional (a doença da avó) e no desejo de fixar sua identidade, elementos inferidos pelo leitor, mas não explicitados pela locução em si.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Textual / Memórias e Identidade / Recursos Coesivos
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar efeitos de sentido decorrentes de escolhas e ordenamentos lexicais, tempos e modos verbais, tipos de frases, pontuação e outras notações, recursos gráficos e morfossintáticos, na construção de textos argumentativos, analíticos e/ou propositivos.
Dica do Especialista
No ENEM, preste muita atenção aos operadores argumentativos e temporais (como "antes de", "portanto", "no entanto", "assim", "dessa forma"). Eles são chave para entender a progressão do tema e a intenção do autor. Não se deixe enganar por alternativas que trazem definições genéricas ou distorcidas desses termos. Sempre retorne ao texto e pergunte: "Qual é o efeito real que essa palavra está causando na passagem em que foi usada?". Neste caso, "antes de" constrói um passado idealizado que serve de lente para olhar o presente com dor e, paradoxalmente, com amor eterno.
Questão 18 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Inocência Visconde de Taunay
- Vejo, disse ele com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum pé-rapado, mas nunca é bom facilitar... Minha filha Nocência fez 18 anos pelo Natal, e é rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. [...]
- Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casá-la.
- Ah! é casada? perguntou Cirino.
- Isto é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma labutar no costeio do gado para São Paulo um homem de mão-cheia, que talvez o sr. conheça... o Manecão Doca...
- Não, respondeu Cirino abanando a cabeça.
- Pois isso é um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura estes sertões todos e vem tangendo pontes de gado que metem pasmo. Também dizem que tem bichado muito e ajuntado cobre grosso, o que é possível, porque não é gastador nem dado a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada... olhe, mesmo neste lugar onde estava mecê inda agorinha, falei-lhe em casamento... isto é, dei-lhe uns toques... porque os pais devem tomar isso a si para bem de suas famílias; não acha?
- Boa dúvida, aprovou Cirino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.
Nesse trecho, ao se referir à sua filha, o pai de Inocência reproduz os ideais românticos, presentes na
ALTERNATIVAS: A) valorização do ambiente rural na formação moral da mulher. B) figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino. C) equivalência de origem social para a harmonia do casal. D) importância do dote como condição para o casamento. E) aura de mistério sobre a identidade da jovem.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O trecho do romance Inocência, de Visconde de Taunay, apresenta um diálogo entre o pai da protagonista, Pereira, e o protagonista masculino, Cirino. A questão pede para identificar qual ideal romântico está sendo reproduzido pelo pai ao falar sobre sua filha. O Romantismo brasileiro, especialmente em sua primeira fase (Indianista e Nacionalista), construía uma imagem idealizada da mulher, frequentemente associada à pureza, à submissão e a um papel social definido pelo casamento e pela família. A fala de Pereira revela que ele, como patriarca, toma para si a responsabilidade de arranjar o casamento da filha, tratando-a como um objeto a ser negociado para o "bem da família". Inocência não tem voz ou agência na decisão; seu futuro é decidido pelo pai e pelo candidato (Manecão Doca), que é descrito por suas qualidades práticas e econômicas.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O trecho evidencia a figura decorativa da mulher ante o protagonismo masculino. Pereira descreve Inocência brevemente ("bonita e boa"), mas a narrativa e suas ações focam totalmente na figura masculina que será seu marido (Manecão Doca, "homem de mão-cheia", "desempenado", que "ajuntado cobre grosso"). A decisão do casamento é tratada como uma transação entre homens ("os pais devem tomar isso a si"), onde a mulher é o objeto passivo da negociação, um ideal romântico que reforçava os papéis de gênero tradicionais.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [valorização do ambiente rural na formação moral da mulher]: Distrator de Reducionismo/Desvio de Foco. Embora o pai mencione que Inocência foi criada "nestes fundões", ele não valoriza isso como uma formação moral positiva. Pelo contrário, há um tom de pena ("Coitada") e a observação de que ela "pela feição parece moça de cidade" sugere um distanciamento do estereótipo rústico. O foco não está na moralidade advinda do campo, mas na sua condição social e no arranjo do casamento.
- C [equivalência de origem social para a harmonia do casal]: Distrator de Extrapolação. O texto não fornece elementos para afirmar que há uma equivalência de origem social entre Inocência e Manecão Doca. Pereira destaca que o pretendente é um "homem de mão-cheia" (próspero), mas não comenta sobre a origem social da própria filha para estabelecer uma equivalência. A "harmonia" citada é uma suposição que não encontra base no fragmento.
- D [importância do dote como condição para o casamento]: Distrator de Anacronismo/Contradição. No trecho, a condição para o casamento destacada pelo pai são as qualidades econômicas do homem ("ajuntado cobre grosso"). Não há qualquer menção a um dote trazido pela noiva. Na verdade, a lógica apresentada é inversa: é a fortuna do noivo que o torna um bom partido.
- E [aura de mistério sobre a identidade da jovem]: Distrator de Extrapolação. A identidade de Inocência não é envolta em mistério. O pai a descreve de forma objetiva (idade, aparência, modos, criação). O que pode haver de "mistério" para Cirino (o forasteiro) é superficial e não constitui um "ideal romântico" reproduzido pela fala paterna. A fala do pai é direta e prática, não misteriosa.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Romantismo. Representação da mulher e relações de gênero.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos artísticos e culturais de diferentes gêneros e semioses, para exercer protagonismo e autoria, recorrendo a diferentes linguagens e referências artísticas e culturais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, em textos literários, os processos de construção de sentidos, identificando recursos verbais e não verbais e as relações entre as linguagens, para apreender criticamente o texto em sua singularidade.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre o Romantismo frequentemente abordam a idealização. Fique atento a como personagens femininas são descritas e tratadas pelos personagens masculinos ou pela narrativa. A passividade, a pureza, a associação à natureza e, principalmente, a submissão ao poder patriarcal (pai, marido) são marcas fortes dessa representação romântica. Sempre relacione a caracterização do personagem com os valores sociais da época retratada.
Questão 19 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
O Ministério do Esporte no Brasil lançou o programa Maré Inclusiva, em 2024, ano dos Jogos Paralímpicos de Paris. Esse programa visa ampliar as oportunidades para pessoas com deficiência que desejam praticar o surf. O parasurf é a prática do surf adaptada para permitir que pessoas com deficiência pratiquem o esporte em todas as suas categorias, modalidades e manifestações. Para a Secretaria Nacional do Paradesporto, a iniciativa é mais do que um programa de esporte, é uma iniciativa que busca transformar vidas e promover a inclusão por meio do parasurf, criando um legado de igualdade e respeito.
De acordo com esse texto, o programa voltado ao estímulo da prática do parasurf evidencia a
ALTERNATIVAS: A) adesão de diferentes países a programas inclusivos. B) preocupação política em atender a demandas paralímpicas. C) importância de uma política pública esportiva para a inclusão. D) eficiência das iniciativas de inclusão em megaeventos esportivos. E) escassez de investimento em práticas corporais de aventura na natureza.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta o programa Maré Inclusiva, uma iniciativa do Ministério do Esporte do Brasil. O foco do programa é claro: ampliar oportunidades para pessoas com deficiência praticarem surf adaptado (parasurf). O texto vai além da descrição do programa, trazendo a visão oficial da Secretaria Nacional do Paradesporto, que define a iniciativa como algo que "busca transformar vidas e promover a inclusão", criando um "legado de igualdade e respeito". O comando da questão pede para identificar o que o programa evidencia, ou seja, qual conceito ou realidade ele deixa claro, com base exclusivamente nas informações do texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) importância de uma política pública esportiva para a inclusão.
A resposta está diretamente ancorada no texto. O programa é uma política pública (lançada pelo Ministério do Esporte) na área esportiva (parasurf) cujo objetivo declarado é a inclusão ("promover a inclusão por meio do parasurf"). A própria existência e justificativa do programa evidenciam que se atribui importância a esse tipo de ação estatal para alcançar a inclusão social.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) adesão de diferentes países a programas inclusivos.
- Erro (Extrapolação): O texto fala especificamente sobre um programa do governo brasileiro. Não há qualquer menção a ações ou adesão de outros países. O candidato que marca esta opção está induzindo uma informação que não está no texto.
-
B) preocupação política em atender a demandas paralímpicas.
- Erro (Reducionismo/Desvio de Foco): Embora o texto mencione que o programa foi lançado em 2024, "ano dos Jogos Paralímpicos de Paris", o objetivo central do Maré Inclusiva não é atender a demandas do evento paralímpico. O foco é a inclusão social por meio do esporte de base ("ampliar as oportunidades para pessoas com deficiência que desejam praticar o surf"). A menção ao ano paralímpico serve mais como um marco temporal e de contexto, não como a finalidade do programa.
-
D) eficiência das iniciativas de inclusão em megaeventos esportivos.
- Erro (Extrapolação/Anacronismo): Esta alternativa comete dois deslizes. Primeiro, o texto não avalia a eficiência do programa (se ele é eficaz ou não), apenas descreve seu lançamento e seus objetivos. Segundo, o Maré Inclusiva não é uma iniciativa de ou para um megaevento. Ele foi lançado no mesmo ano de um megaevento (Paris 2024), mas sua atuação é contínua e voltada para a prática esportiva no Brasil, não para o evento em si.
-
E) escassez de investimento em práticas corporais de aventura na natureza.
- Erro (Contradição/Inversão Lógica): Esta alternativa vai na direção oposta ao texto. O anúncio de um novo programa governamental com investimento em uma modalidade de aventura na natureza (surf) evidencia justamente um investimento nessa área, e não sua escassez. O texto não faz qualquer comparação ou crítica sobre níveis anteriores de investimento.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cidadania, Diversidade e Inclusão Social / Políticas Públicas.
- Competência BNCC: Competência 4 (Área de Linguagens) - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. / Competência 5 (Área de Humanas) - Compreender, analisar e aplicar conhecimentos históricos e geográficos para entender a sociedade e suas relações.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG402 - Analisar e comparar diferentes textos, identificando suas posições ideológicas, seus contextos de produção e de recepção, suas finalidades e interesses. (Aqui, a habilidade é mobilizada para interpretar o texto institucional e identificar sua tese central).
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de ler com precisão e não inferir informações que não estão no texto. Muitas alternativas incorretas são plausíveis no mundo real (como a relação com as Paralimpíadas), mas não são a evidência principal que o texto fornece. Treine identificar a ideia nuclear do texto. Pergunte-se: "Qual é a mensagem principal que o autor/quem divulga quer passar?" No caso de textos institucionais, a resposta geralmente está na justificativa oficial para a existência da política ou programa, frequentemente expressa em seus objetivos declarados.
Questão 20 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Lei n. 10.639/2003
Artigo 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Parágrafo primeiro. O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. Parágrafo segundo. Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.
O emprego da norma-padrão é justificado nesse texto
ALTERNATIVAS: A) pela especialização de seu público-alvo. B) pela relevância cultural de seu conteúdo. C) pelos contextos pedagógicos em que circula. D) pela importância para os grupos étnico-raciais. E) pelas características do gênero a que pertence.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um trecho da Lei n. 10.639/2003 e pergunta sobre a justificativa para o uso da norma-padrão da língua portuguesa nesse texto. A norma-padrão é a variedade linguística considerada formal e institucional, usada em documentos oficiais, leis, contratos e situações que exigem impessoalidade e precisão.
O comando da questão pede para identificar a razão pela qual esse tipo de texto (uma lei) emprega a norma-padrão. A resposta deve ser encontrada analisando as características intrínsecas do gênero textual "lei", e não pelo seu conteúdo temático (história afro-brasileira) ou pelo seu público.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A justificativa está nas próprias características do gênero textual "lei". Leis são documentos oficiais, de caráter normativo e prescritivo, que regulam a vida em sociedade. Por sua natureza, eles exigem: * Impersonalidade: A linguagem não pode refletir opiniões pessoais. * Precisão e Clareza: Os termos devem ser inequívocos para evitar interpretações subjetivas. * Formalidade e Universalidade: O texto deve ser acessível a todos os cidadãos de forma igualitária, dentro do padrão institucional. * Objetividade: A informação deve ser transmitida de forma direta e factual.
Portanto, o uso da norma-padrão é uma exigência do gênero legislativo, independentemente do assunto que a lei esteja tratando.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [pela especialização de seu público-alvo]: Distrator por reducionismo. Embora leis tenham um público específico (cidadãos, instituições), o uso da norma-padrão não se deve a esse público ser "especializado" (como cientistas ou juristas). Leis são dirigidas a toda a sociedade. A norma-padrão é usada pela formalidade do gênero, não pela expertise do leitor.
- B [pela relevância cultural de seu conteúdo]: Distrator por extrapolação. A relevância cultural do tema (história afro-brasileira) é inegável e é o cerne da lei. No entanto, o uso da norma-padrão não é determinado pelo conteúdo, mas pela forma (o gênero textual). Uma lei sobre qualquer outro assunto, como trânsito ou impostos, também usaria a norma-padrão.
- C [pelos contextos pedagógicos em que circula]: Distrator por contradição/falsa associação. A lei menciona o contexto pedagógico (escolas) como local de aplicação do seu conteúdo. No entanto, o texto em si (a lei) não circula primariamente em contextos pedagógicos de sala de aula. Ele circula no contexto jurídico-institucional. O uso da norma-padrão é uma marca desse contexto, não do contexto de ensino onde a lei será implementada.
- D [pela importância para os grupos étnico-raciais]: Distrator por extrapolação, semelhante à B. Assim como na alternativa B, confunde o tema da lei com a forma do texto. A importância social e histórica da lei para grupos étnico-raciais justifica sua existência, mas não determina a escolha da norma linguística. A forma é uma exigência do gênero "lei".
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Gêneros Textuais / Leitura e Interpretação de Textos Normativos.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os usos das variedades linguísticas (padrão e não padrão), relacionando-os com seus contextos de produção, circulação e recepção.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que abordam variação linguística frequentemente testam sua capacidade de associar a escolha de uma variedade (padrão ou não padrão) às exigências do gênero textual e ao contexto de comunicação. Pergunte-se sempre: "Quem escreve? Para quem? Com que objetivo? Em que suporte?". No caso de textos oficiais (leis, decretos, comunicados institucionais), a resposta para o uso da norma-padrão estará sempre nas características de formalidade, impessoalidade e precisão que definem esses gêneros. Não se deixe levar pelo tema do texto; foque na sua função social e forma.
Questão 21 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição do cartaz publicitário: Cartaz composto por textos e pela figura estilizada de um homem, que olha diretamente para o leitor com um leve sorriso. Seu cabelo e sua camisa são formados por ilustrações coloridas que mesclam pessoas, objetos, animais e paisagens que remetem a Portugal. De cada lado da figura estilizada, há uma frase, formando a mensagem: "Você entra Fernando. E sai Pessoa.". Abaixo, as seguintes informações: "26ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Todo mundo sai melhor do que entrou. 2 a 10 de julho. Novo local: Expo Center Norte".
Nesse cartaz publicitário, os recursos verbais e não verbais constroem um argumento que objetiva
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta a descrição de um cartaz publicitário da 26ª Bienal do Livro de São Paulo. O comando pede para identificar o argumento central construído pela integração entre os elementos verbais (textos) e não verbais (imagem estilizada). A análise deve focar na mensagem principal que essa integração produz.
O ponto-chave é a frase "Você entra Fernando. E sai Pessoa.", associada à imagem de um homem (Fernando Pessoa) cuja forma é composta por elementos de Portugal (sua origem) e à frase de apoio "Todo mundo sai melhor do que entrou". A mensagem não é sobre divulgar a obra ou a influência do autor de forma direta, mas sobre a transformação pessoal proporcionada pela experiência da feira do livro, usando a figura de Pessoa (e o trocadilho com seu sobrenome) como uma metáfora poderosa para essa mudança.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. O argumento central do cartaz, construído pela interação do texto ("Você entra Fernando. E sai Pessoa." e "Todo mundo sai melhor do que entrou") com a imagem simbólica (a figura composta por elementos culturais), é ressaltar o poder transformador e enriquecedor da leitura e do contato com os livros, sugerindo que o visitante da bienal passará por uma experiência de crescimento pessoal.
Análise das Alternativas Incorretas
- A (divulgar a obra de Fernando Pessoa no Brasil): Distrator por reducionismo e desvio de foco. Embora a figura de Pessoa seja o elemento central da metáfora visual, o objetivo do cartaz não é promover sua obra especificamente, mas usar sua imagem como símbolo de transformação para promover o evento (a Bienal do Livro). O foco é a experiência do visitante, não a divulgação de um autor.
- B (valorizar a realização de eventos literários no país): Distrator por generalização. O cartaz promove um evento específico (a 26ª Bienal do Livro de SP) e, ao fazê-lo, implicitamente valoriza eventos literários. No entanto, o argumento construído pelos recursos verbais e não verbais vai além de simplesmente "valorizar a realização"; ele explicita o benefício pessoal ("sai melhor") que justifica a valorização. A alternativa B capta uma consequência secundária, não o argumento principal.
- D (fomentar o turismo cultural na cidade de São Paulo): Distrator por extrapolação. A informação "Novo local: Expo Center Norte" e a menção à cidade de São Paulo dão contexto geográfico ao evento. Contudo, o argumento do cartaz não é incentivar o deslocamento de turistas para a cidade, e sim convencer o público a visitar a feira do livro, focando no benefício intrínseco da visita.
- E (evidenciar a influência de Pessoa na literatura brasileira): Distrator por inferência indevida. Nada no cartaz – nem a imagem (que remete a Portugal) nem os textos – faz referência à relação de Pessoa com a literatura brasileira. A escolha do autor serve como um símbolo universal de literatura e transformação intelectual, não para discutir sua influência em um contexto nacional específico.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Publicitário / Argumentação e Persuasão / Multiletramentos (integração verbal e não verbal)
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e utilizar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e utilizar diferentes linguagens verbais e não verbais em diferentes contextos, considerando a intencionalidade, as condições de produção e recepção, o tema, o assunto, o gênero, a estrutura composicional e o estilo, para fazer escolhas adequadas à situação comunicativa.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem a análise de textos multissemióticos (como propagandas, charges, memes) sempre exigem que você observe a relação entre o verbal e o não verbal. Não se prenda a apenas um dos elementos. Pergunte-se: "Que mensagem única surge da combinação da imagem com as palavras?". Aqui, a dica é perceber que o trocadilho com o nome "Pessoa" não é um mero jogo de palavras; ele é a chave do argumento sobre transformação pessoal, reforçado visualmente pela figura composta e pela frase de apoio.
Questão 22 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição do cartaz: Duas fotografias, uma ao lado da outra. À esquerda, uma criança indígena e a seguinte frase: "Carlos Pataxicoré, aos 36 anos, médico e o futuro todo pela frente". À direita, uma criança negra e a frase: "Quézia Silva, aos 29 anos, advogada e o futuro todo pela frente". Abaixo das fotografias, há o texto: "Em um mundo de diferenças, enxergue a igualdade. O Brasil tem 31 milhões de crianças negras e indígenas. A maioria sofre com discriminação racial, sem ter acesso à educação, à saúde e ao desenvolvimento. Ajude a mudar essa realidade. Contribua para uma infância sem racismo". Abaixo, a mensagem: "Participe desta campanha. Acesse: www.unicef.org.br", seguida das logos Racismo Zero e Unicef. (Fim da descrição)
Nesse cartaz, a utilização de frases que projetam a vida profissional de duas crianças tem como objetivo
Alternativas: A) sugerir a arrecadação de fundos para o sustento de povos originários no país. B) sensibilizar a sociedade sobre os benefícios decorrentes do combate ao racismo. C) indicar a importância da orientação vocacional na educação de crianças no Brasil. D) chamar a atenção sobre a necessidade de ações voltadas para a educação infantil. E) valorizar o trabalho de agências internacionais na luta contra a discriminação racial.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um cartaz da campanha "Infância sem Racismo", uma iniciativa do UNICEF. O recurso retórico central é a projeção de futuro: as frases atribuem profissões de prestígio (médico e advogada) e idades adultas às crianças retratadas. Esse recurso cria um contraste entre o potencial futuro (o que essas crianças poderiam ser) e a realidade presente descrita no texto de apoio, marcada pela discriminação racial e pela falta de acesso a direitos básicos. O objetivo, portanto, é apelar ao público, mostrando que o combate ao racismo não é apenas uma correção de injustiças, mas um investimento que permite que potenciais individuais e coletivos se realizem, beneficiando toda a sociedade.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. A projeção das crianças como futuros profissionais bem-sucedidos serve como um argumento emocional e racional para sensibilizar a sociedade. Ela ilustra de forma concreta os benefícios sociais, econômicos e humanos que seriam alcançados se o racismo fosse combatido e essas crianças tivessem suas oportunidades garantidas. O cartaz vai além de apenas denunciar um problema; ele propõe uma visão positiva do futuro que pode ser construída.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) sugerir a arrecadação de fundos para o sustento de povos originários no país.
- Erro: Reducionismo e extrapolação. Embora o cartaz peça contribuições ("Ajude a mudar essa realidade"), o foco não é o "sustento" direto, mas o financiamento de ações contra o racismo que garantam direitos. Além disso, a campanha abrange crianças negras e indígenas, não se restringindo a "povos originários". O objetivo principal é a sensibilização, não a arrecadação em si.
-
C) indicar a importância da orientação vocacional na educação de crianças no Brasil.
- Erro: Foco equivocado / Reducionismo. A menção às profissões (médico, advogada) não tem caráter de orientação vocacional. Elas funcionam como símbolos de sucesso profissional e integração social, representando possíveis futuros que são barrados pelo racismo. A questão central é o acesso à educação como um todo, não um aspecto específico dela.
-
D) chamar a atenção sobre a necessidade de ações voltadas para a educação infantil.
- Erro: Ampliação indevida do foco. Embora a educação seja um dos direitos citados como negado ("sem ter acesso à educação"), o cartaz trata de um problema mais amplo: a discriminação racial que impede o acesso não só à educação, mas também à saúde e ao desenvolvimento pleno. O recorte é racial, não etário (infantil). A projeção para a vida adulta reforça que o impacto do racismo na infância perdura por toda a vida.
-
E) valorizar o trabalho de agências internacionais na luta contra a discriminação racial.
- Erro: Desvio do foco principal. A presença da logo do UNICEF identifica o promotor da campanha, mas não é o objetivo das frases projetadas. O objetivo é sensibilizar o público brasileiro para a causa. A valorização da agência, se ocorrer, é uma consequência secundária, não a intenção comunicativa central do recurso analisado.
Identificação Pedagógica
- Tema: Discriminação Racial e Direitos da Criança / Análise de Campanha Publicitária de Interesse Social.
- Competência BNCC: Competência 4 (Linguagens) - Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, bem como instrumento de construção de identidades.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 (Linguagens) - Analisar, em textos argumentativos, os recursos verbais e não verbais utilizados para o convencimento do público, como a escolha de palavras, o uso de informações e imagens, a organização sintática, a força dos argumentos, entre outros.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem análise de campanhas publicitárias ou cartazes frequentemente buscam avaliar sua função social e estratégia argumentativa. Fique atento ao contraste entre os elementos visuais/textuais e a mensagem principal. Pergunte-se: "Que efeito esse recurso (imagem, frase, cor) causa no leitor e como isso serve ao objetivo final da peça?". Neste caso, a projeção de um futuro positivo é um apelo ao sentimento de esperança e à razão, mostrando o que se perde com a discriminação.
Questão 23 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Passando por aqui para lembrar algumas palavras, frases e expressões que nos infernizaram em 2023. Inclusive passando por aqui. Se você for proativo, vai achar que é o novo normal. Estarão na sua zona de conforto. Mas, se for reativo como eu, vai achar que é uma narrativa que precisa ser ressignificada. É uma questão de empatia. É sobre entregar um discurso mais robusto e empoderado. Sei bem que não tenho lugar de fala para harmonizar certos pontos fora da curva e que preciso aplicar toda a minha resiliência para fazer um realinhamento. O nível de fitness está hoje num sarrafo muito alto. O fato é que acho cringe essas falas fora da caixinha. Aliás, falar cringe já é meio cringe. Preciso usar a superação para me reinventar e entender que resenha não tem mais a ver com futebol, é qualquer papo, desde que latente. Pensando bem, não é tão difícil. Frases feitas são aquelas que entram por um ouvido e saem pelo outro sem um estágio intermediário no cérebro. A boca fala por conta própria, dispensando-nos de pensar. E não tem problema nisso. Ou as ditas frases se incorporam à língua ou morrem e nascem outras. A língua é assim. Simples assim.
Nesse texto, a estratégia empregada para criticar a constante exposição a palavras, frases e expressões automatizadas é o(a)
ALTERNATIVAS: A) menção feita à efemeridade de alguns usos linguísticos aleatórios. B) subjetividade marcada pela reflexão que se desenvolve em primeira pessoa. C) efeito estilístico da repetição intencional da palavra "assim" no último parágrafo. D) sedução sugerida pelo envolvimento direto do leitor marcado nos usos de "você" e "sua". E) humor gerado pelo uso das estruturas linguísticas que são objeto da reflexão desenvolvida.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma reflexão crítica sobre o uso excessivo e automatizado de certas expressões da moda (como "proativo", "novo normal", "lugar de fala", "cringe", etc.). O autor não apenas discute esse fenômeno, mas demonstra-o na prática. A crítica principal é que essas frases são usadas de forma vazia, sem reflexão ("a boca fala por conta própria"). Portanto, a pergunta quer identificar qual recurso ou estratégia textual o autor utiliza para construir essa crítica.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A estratégia central do texto é a ironia por meio da imitação. O autor critica o uso automatizado de jargões e expressões da moda justamente usando essas mesmas expressões de forma excessiva e concatenada ao longo de todo o texto. Esse uso cria um tom de humor e ironia, pois o leitor percebe que o autor está reproduzindo, de forma exagerada, o mesmo fenômeno que está criticando. A crítica é feita pelo exemplo, não apenas pela explicação.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [menção feita à efemeridade de alguns usos linguísticos aleatórios]: Reducionismo/Extrapolação. Embora o último parágrafo fale sobre frases que "morrem e nascem outras", sugerindo mudança linguística, essa é uma conclusão do raciocínio, não a estratégia principal empregada para criticar. A crítica é construída ao longo do texto pela imitação humorística, e não por uma simples menção à efemeridade.
- B [subjetividade marcada pela reflexão que se desenvolve em primeira pessoa]: Característica secundária. É verdade que o texto é subjetivo e usa a primeira pessoa ("acho", "preciso", "como eu"). No entanto, essa é a ponto de vista da narrativa, não a estratégia retórica escolhida para realizar a crítica. A pergunta pergunta "como" ele critica, não "de que perspectiva".
- C [efeito estilístico da repetição intencional da palavra "assim" no último parágrafo]: Foco equivocado. A repetição de "assim" no final tem função enfática e conclusiva, reforçando a ideia de simplicidade do processo natural da língua. No entanto, esse é um recurso pontual no parágrafo final. A crítica já estava plenamente construída e demonstrada nos parágrafos anteriores através do humor.
- D [sedução sugerida pelo envolvimento direto do leitor marcado nos usos de "você" e "sua"]: Má interpretação da função. O uso de "você" e "sua" no início do texto tem a função de criar um cenário hipotético ("se você for proativo..."), estabelecendo um contraste com a posição do autor ("reativo como eu"). Isso gera identificação, mas não "sedução" no sentido de convencimento. A estratégia crítica não é seduzir o leitor, mas demonstrar o problema de forma cômica.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Usos da Língua / Ironia e Humor como Crítica Social.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 - Analisar e refletir, de forma crítica, sobre diferentes formas de apropriação da variedade linguística padrão, mediante a consideração de aspectos discursivos, contextuais, normativos e estilísticos.
Dica do Especialista
Fique atento a questões que pedem a identificação da estratégia argumentativa ou do efeito de sentido principal. Muitas vezes, o ENEM apresenta alternativas que descrevem características reais do texto (como o uso da 1ª pessoa ou a menção a um conceito), mas que são secundárias em relação ao que o comando da questão solicita. Leia a pergunta com calma: ela quer o mecanismo usado para atingir um objetivo específico (neste caso, criticar). A resposta correta geralmente é aquela que explica como o texto funciona para produzir seu efeito central.
Questão 24 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Artes
Enunciado
TEXTO 1 A Ilha do Ferro, situada a 18 quilômetros do município de Pão de Açúcar, não é uma ilha, como o nome indica. A história do povoado é semelhante à de inúmeros outros que encontramos às margens do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe. O que torna diferente o lugar é sua gente. Hoje, dezenas de artistas populares povoam a Ilha do Ferro, trabalhando principalmente com o entalhe em madeira. Onde pessoas comuns enxergariam apenas troncos e galhos retorcidos, eles vislumbram bancos, bonecos, pássaros, cobras e bailarinas. "Às vezes, você passa por um pedaço de madeira uma vez e não vê nada, passa cinco vezes por ele e não vê nada", conta um dos artistas, "mas, na décima vez, você consegue enxergar alguma forma nesse pedaço de madeira e transformá-lo em arte".
TEXTO 2 Descrição da imagem: A fotografia apresenta a obra de Yang Farias, intitulada Bailarino entalhado em gravetos de madeira, por meio de sete bonecos feitos com galhos secos de árvore, fixados em bases de madeira. Cada boneco parece representar movimentos de dança, como pernas para o alto e braços abertos. (Fim da descrição)
A originalidade do trabalho dos artistas da Ilha do Ferro se dá pela
ALTERNATIVAS: A) reutilização de materiais para redução do impacto ambiental. B) ressignificação da matéria-prima atribuindo-lhe nova função. C) reprodução em madeira de modelos artísticos canônicos. D) representação de práticas corporais da comunidade. E) replicação seriada para distribuição em larga escala.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão avalia a capacidade de interpretar textos verbais e não verbais para identificar a essência de um processo criativo. O Texto 1 descreve o trabalho dos artistas da Ilha do Ferro, destacando sua percepção única: eles enxergam formas artísticas (bancos, bonecos, pássaros, cobras, bailarinas) onde outros veriam apenas "troncos e galhos retorcidos". O depoimento do artista enfatiza o processo de "enxergar alguma forma" e "transformá-la em arte". O Texto 2 (descrição da imagem) corrobora essa ideia, mostrando uma obra específica que utiliza "galhos secos" para criar a representação de um bailarino. O comando pede a originalidade desse trabalho, ou seja, o que o torna singular e criativo.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. A originalidade reside no processo de ressignificação: os artistas atribuem um novo significado e uma nova função (obra de arte, escultura) a uma matéria-prima (galhos e troncos) que, em seu estado natural, não teria essa finalidade. Eles não apenas usam a madeira, mas a transformam a partir de uma nova percepção, que é o cerne do ato criativo descrito.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) reutilização de materiais para redução do impacto ambiental. (Extrapolação/Reducionismo) Embora o uso de galhos e troncos possa ser visto como reutilização, o texto não menciona nenhuma motivação ecológica ou preocupação com impacto ambiental. O foco narrativo está exclusivamente no processo criativo de percepção e transformação, não em uma agenda sustentável.
- C) reprodução em madeira de modelos artísticos canônicos. (Contradição) O texto destaca justamente o oposto: a criação a partir da percepção única das formas da madeira, não a cópia de modelos pré-estabelecidos ("canônicos"). A arte nasce da matéria-prima específica, não de um modelo externo a ser reproduzido.
- D) representação de práticas corporais da comunidade. (Reducionismo) A descrição da imagem menciona "bailarinos", que é um dos temas possíveis (assim como pássaros, cobras, etc.). No entanto, reduzir a originalidade do trabalho à representação de uma prática específica da comunidade é limitar o processo criativo descrito. A originalidade está em como eles veem e transformam a madeira em qualquer forma, não especificamente no tema "dança".
- E) replicação seriada para distribuição em larga escala. (Contradição) Não há qualquer menção no texto a produção em série ou distribuição massiva. Pelo contrário, a descrição do processo ("às vezes você passa por um pedaço de madeira... na décima vez você consegue enxergar") sugere uma criação única, artesanal e singular para cada peça, longe de uma lógica de replicação seriada.
Identificação Pedagógica
- Tema: Processo de Criação Artística e Resignificação.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos artísticos e culturais de diferentes gêneros, mídias e contextos, valorizando e respeitando a diversidade de manifestações.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar e explicar a função e o impacto de obras de arte, considerando seus contextos de produção, circulação e recepção.
Dica do Especialista
Fique atento aos verbos que definem o processo criativo no enunciado. Aqui, termos como "vislumbram", "enxergar alguma forma" e "transformá-lo em arte" são pistas cruciais. A alternativa correta (ressignificação) captura precisamente essa ideia de dar um novo sentido a algo. No ENEM, alternativas que trazem elementos não mencionados (como "impacto ambiental" ou "distribuição em larga escala") ou que reduzem o escopo do texto ("representação de práticas corporais") são, geralmente, distratores.
Questão 25 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Artes
Enunciado
TEXTO 1 Os trabalhos da exposição Adriana Varejão: suturas, fissuras, ruínas colocam em pauta o exame da história visual, das tradições iconográficas europeias e do fazer artístico ocidental. O corte, a rachadura, o talho e a fissura são elementos de narrativas recorrentes nos trabalhos da artista desde 1992. As produções recentes incluem pinturas tridimensionais de grande escala das séries Ruínas de charque e Línguas.
TEXTO 2 Descrição da pintura: Pintura, de Adriana Varejão, com volume, sobre uma parede de azulejos, intitulada Azulejaria em carne viva. Ao centro da obra, parte dos azulejos parece estar amolecida e caída para a frente, como se a parede tivesse sido rasgada. Na abertura rasgada da parede, há carne e vísceras expostas. (Fim da descrição)
A utilização de recursos visuais como suturas, cortes e ruínas por Adriana Varejão, na obra Azulejaria em carne viva, remete à(s)
ALTERNATIVAS: A) sobreposição da cultura brasileira à arte portuguesa. B) manutenção da representação realista na arte brasileira. C) violências desencadeadas pelo processo colonial brasileiro. D) desigualdades nos incentivos à produção artística brasileira. E) negligência na conservação do patrimônio arquitetônico luso-brasileiro.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a obra da artista contemporânea brasileira Adriana Varejão, especificamente a pintura "Azulejaria em carne viva". O Texto 1 contextualiza a prática artística de Varejão, destacando que seus trabalhos examinam a "história visual" e as "tradições iconográficas europeias" através de elementos como cortes, fissuras e ruínas. O Texto 2 descreve a obra: uma parede de azulejos (elemento arquitetônico fortemente associado à herança colonial portuguesa no Brasil) que se rasga, revelando carne e vísceras em seu interior. O comando da questão pede para identificar a que essa utilização de recursos visuais (suturas, cortes, ruínas) remete. A chave está em interpretar a metáfora visual proposta pela artista: a estética aparentemente ordenada e decorativa da cultura importada (os azulejos) que esconde, em seu interior, uma realidade violenta, orgânica e crua (a carne).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. A obra de Adriana Varejão é amplamente reconhecida por criticar e desconstruir a história colonial brasileira. A parede de azulejos representa a cultura e a estética portuguesa impostas durante a colonização. O rasgo, as fissuras e a exposição da carne viva simbolizam a violência física, cultural e social que sustentou esse processo, revelando as feridas e traumas que permanecem sob a superfície aparentemente civilizada. A metáfora é direta: por trás da fachada azulejada (a colonização como projeto civilizatório) há carne mutilada (a exploração, o sofrimento e a violência contra os povos originários e escravizados).
Análise das Alternativas Incorretas
- A (sobreposição da cultura brasileira à arte portuguesa): Distrator por inversão de sentido. A obra não sugere uma "sobreposição" ou domínio de uma cultura sobre a outra, mas sim uma crítica à violência da imposição colonial. A imagem da carne sob os azulejos indica algo soterrado ou escondido, não uma superfície que se sobrepõe.
- B (manutenção da representação realista na arte brasileira): Distrator por reducionismo e desconexão. A obra de Varejão é claramente alegórica e simbólica, utilizando uma linguagem contemporânea que vai além do realismo puro. A descrição de "carne e vísceras" expostas em uma parede é uma construção metafórica, não uma cena realista.
- D (desigualdades nos incentivos à produção artística brasileira): Distrator por extrapolação. A questão aborda o conteúdo simbólico e histórico da obra, não seu contexto de produção ou as políticas de incentivo à arte. A análise da imagem não oferece elementos para se chegar a essa conclusão sobre financiamento.
- E (negligência na conservação do patrimônio arquitetônico luso-brasileiro): Distrator por interpretação literal. Tomar a imagem da "ruína" ou do "rasgo" de forma literal leva a esse erro. A obra usa o azulejo como símbolo cultural, não está fazendo uma crítica à preservação de patrimônios materiais, mas sim à violência histórica subjacente a essa herança.
Identificação Pedagógica
- Tema: Arte Contemporânea Brasileira, Crítica Pós-Colonial, Linguagem Visual e Simbólica.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG402 - Analisar e explicitar as relações entre linguagem verbal e não verbal em diferentes textos, como charges, tirinhas, anúncios publicitários, memes, entre outros, considerando o contexto de produção e de recepção. (Aqui aplicada à análise de uma obra de arte visual e sua relação com textos de apoio).
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre arte contemporânea frequentemente abordam obras que dialogam criticamente com a história e a identidade brasileiras. Fique atento aos elementos simbólicos: cores, texturas, objetos e suas rupturas (como cortes e fissuras) costumam representar críticas sociais, denúncias de violência ou questionamentos sobre nossa formação cultural. Não interprete as imagens de forma literal; busque a metáfora ou a alegoria que elas constroem, sempre relacionando-a ao contexto histórico-cultural mencionado ou sugerido.
Questão 26 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O texto intitulado Doce mistura informa: "A canjica - creme amarelo à base de milho - é prova da diversidade do Brasil, pelas variações em seu nome de batismo. Servido polvilhado com canela, o doce confunde: o que lá no norte é 'canjica', lá no sul é 'curau'. Os nomes se invertem quando o doce muda. O creme branco com os grãos inteiros de milho, no sul, é 'canjica', e, no norte, 'curau'." Abaixo, fotografia de uma tigela com o doce, ao lado de uma colher e de uma espiga de milho, com a indicação dos nomes do referido prato em diferentes locais: "corá, piruruca, pururuca ou jimbelê (MG), coral e papa de milho (RJ e MG), curau (MG, SP, MT e GO), canjiquinha (RJ) e canjica de milho verde (BA)".
Esse texto, que apresenta um prato da culinária brasileira, evidencia
Alternativas: A) valor afetivo nas nomenclaturas. B) variedade linguística entre regiões. C) disputa regional pelo melhor prato. D) modos de preparo de um mesmo alimento. E) paladares diversificados entre diferentes estados.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto tem como foco central a apresentação de um fenômeno linguístico. Ele descreve como um mesmo prato culinário (e suas variações) recebe nomes diferentes conforme a região geográfica do Brasil. O enunciado é explícito: a canjica é "prova da diversidade do Brasil, pelas variações em seu nome de batismo". A lista final de nomes (corá, piruruca, curau, canjiquinha, etc.) associada a estados específicos reforça essa ideia de que a língua portuguesa não é uniforme no país, mas se adapta e se diversifica regionalmente. O comando da questão pede para identificar o que o texto evidencia, e a evidência principal está na relação entre região geográfica e variação no vocabulário.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O texto evidencia a variedade linguística entre regiões ao demonstrar que diferentes comunidades de fala no Brasil utilizam termos distintos (como "canjica", "curau", "corá", "piruruca") para se referir ao mesmo prato ou a suas variações, mapeando essa diversidade lexical ao território nacional.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) valor afetivo nas nomenclaturas: Distrator por extrapolação. Embora os nomes regionais possam carregar afeto para os falantes, o texto não explora esse aspecto subjetivo ou emocional. Ele se limita a registrar e contrastar as diferentes denominações de forma objetiva e descritiva, sem discutir os sentimentos associados a elas.
- C) disputa regional pelo melhor prato: Distrator por invenção/desvio temático. O texto não menciona qualquer tipo de competição, rivalidade ou disputa entre regiões sobre a qualidade ou superioridade do prato. O foco está na nomenclatura, não em uma suposta "guerra gastronômica".
- D) modos de preparo de um mesmo alimento: Distrator por reducionismo e desatenção ao foco. Embora o texto cite brevemente duas preparações diferentes ("creme amarelo" e "creme branco com os grãos inteiros"), essa não é a evidência principal. A ênfase recai sobre o fato de que nomes diferentes são usados para essas preparações em lugares diferentes. A questão é sobre a língua, não sobre a receita.
- E) paladares diversificados entre diferentes estados: Distrator por extrapolação. O texto não faz qualquer menção ao sabor, preferência gustatória ou diferenças de paladar entre os estados. A diversidade tratada é puramente onomástica (dos nomes), não sensorial ou de gosto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Identidade Cultural.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e aplicar recursos linguísticos em textos, considerando seus efeitos de sentido, sua adequação ao contexto (incluindo o digital) e sua variedade linguística.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de identificar o tema central de um texto, diferenciando-o de ideias secundárias ou inferências não comprovadas. No ENEM, a alternativa correta sempre terá suporte direto no texto. Aqui, palavras-chave como "variações em seu nome", "lá no norte é... lá no sul é..." e a lista com os nomes e estados são pistas incontestáveis de que se trata de variedade linguística. Treine seu olhar para não se deixar levar por interpretações que, embora possam fazer sentido no mundo real, não estão explicitamente no material fornecido.
Questão 27 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Filosofia
Enunciado
A diferença entre briga e luta é a existência de juízes e medalhas? A briga desumaniza o outro e pode até matá-lo. Já na luta, as intenções do outro são consideradas sua proposta combativa e suas habilidades, enfim, sua meta de vencer. Na luta, o desenvolvimento passa pelo contato com a agressividade, a raiva, a frustração, o orgulho, a determinação e a fraqueza. Daí também a luta não ser apenas com o outro, mas consigo mesmo, num combate contra as próprias limitações, sobretudo, contra o próprio orgulho.
Esse texto apresenta as diferenças entre briga e luta, na medida em que aponta o(a)
Alternativas: A) superação pessoal na luta. B) violência evidenciada na luta. C) predomínio de regras na briga. D) desafio externo presente na luta. E) habilidade desenvolvida na briga.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto faz uma distinção filosófica e comportamental entre dois conceitos aparentemente próximos: "briga" e "luta". Ele nega que a diferença seja meramente institucional (juízes e medalhas) e aprofunda-se na natureza de cada um. * Briga: É caracterizada pela desumanização do outro, onde o objetivo pode ser a aniquilação. É um conflito destrutivo, sem propósito de crescimento. * Luta: É apresentada como uma atividade que pressupõe o reconhecimento do outro (suas intenções, habilidades, meta). O desenvolvimento pessoal é central, pois envolve o contato e o gerenciamento de emoções complexas (agressividade, raiva, orgulho). O ápice do argumento é que a luta é, sobretudo, um combate interno contra as próprias limitações.
O comando da questão pede que identifiquemos o que o texto aponta como uma das diferenças entre briga e luta. Precisamos encontrar a alternativa que está em perfeita sintonia com a tese desenvolvida pelo autor.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) superação pessoal na luta.
A ideia de superação pessoal é o núcleo da definição de "luta" apresentada no texto. O trecho final é decisivo: "Daí também a luta não ser apenas com o outro, mas consigo mesmo, num combate contra as próprias limitações, sobretudo, contra o próprio orgulho." A superação (do orgulho, das fraquezas, das limitações) é apresentada como a característica distintiva e mais valiosa da luta, em oposição à briga, que é pura destruição.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) violência evidenciada na luta.: Distrator por reducionismo e desvio de foco. O texto menciona que na luta há contato com a "agressividade" e a "raiva", elementos que podem estar associados à violência. No entanto, o autor não "evidencia" a violência como traço distintivo da luta; pelo contrário, ele a coloca como um elemento a ser administrado no processo de desenvolvimento. O texto evidencia é o desenvolvimento e a superação, não a violência em si. A briga, sim, é explicitamente associada à violência letal ("pode até matá-lo").
- C) predomínio de regras na briga.: Distrator por contradição direta ao texto. O autor inicia o texto com uma pergunta retórica que nega justamente isso: "A diferença entre briga e luta é a existência de juízes e medalhas?" A implicação é que não. A briga é descrita como um ato caótico de desumanização, onde regras formais (como as de um esporte) não predominam. O texto não atribui regras à briga.
- D) desafio externo presente na luta.: Distrator por verdade parcial incompleta. É verdade que a luta envolve um desafio externo ("não ser apenas com o outro"). No entanto, essa não é a diferença apontada pelo texto. A briga também possui um desafio externo (o oponente). A diferença crucial, que o texto destaca, é que na luta o desafio externo é apenas uma parte do processo, sendo o desafio interno e a superação pessoal o elemento definidor e diferenciador.
- E) habilidade desenvolvida na briga.: Distrator por contradição e extrapolação. O texto associa o desenvolvimento de habilidades especificamente à luta ("as intenções do outro são consideradas sua proposta combativa e suas habilidades"). A briga é vinculada à desumanização e à destruição, não a um processo de desenvolvimento ou refinamento de habilidades.
Identificação Pedagógica
- Tema: Ética e Filosofia da Ação / Construção de Sentido.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes situações de interação social, considerando a forma e o estilo adequados a cada gênero, considerando sua estrutura composicional e seu contexto de produção.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, quando for o caso.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de identificar a tese central de um texto argumentativo. Muitas alternativas podem conter palavras ou ideias que aparecem no texto, mas a correta será aquela que resume o ponto principal que o autor quis defender. Treine sempre localizar a frase ou o parágrafo que contém a conclusão ou a síntese do raciocínio do autor. Aqui, a chave estava no último período, que introduziu a ideia do "combate consigo mesmo".
Questão 28 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Pequenino morto (fragmento) Vicente de Carvalho
Tange o sino, tange, numa voz de choro, Numa voz de choro... tão desconsolado... No caixão dourado, como em berço de ouro, Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! Olha que te levam para o mesmo lado De onde o sino tange numa voz de choro... Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viagem! Alas De ciprestes negros a gemer no vento; Tanta boca aberta de famintas valas A pedir que as fartem, a esperar que as encham... Pequenino, acorda! Recupera o alento, Foge da cobiça dessas fundas valas A pedir que as encham.
Nesse fragmento do poema, o sentimento de luto adquire contornos expressivos e é intensificado pela
ALTERNATIVAS: A) descrição da paisagem de um cemitério. B) recusa do eu lírico à irreversibilidade da morte. C) sonoridade dos versos produzida pela pontuação. D) religiosidade evocada como forma de fortalecimento. E) impressão de sonho na construção da estrutura poética.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema de Vicente de Carvalho, pertencente ao Parnasianismo, explora o luto pela morte de uma criança. O eu lírico dialoga com o "pequenino morto", tentando despertá-lo da morte, tratada metaforicamente como um sono. A questão pede para identificar o recurso que intensifica o sentimento de luto no fragmento apresentado. Para isso, é necessário analisar os elementos formais e temáticos do texto, observando como a linguagem poética constrói a emoção.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O sentimento de luto é intensificado pela recusa do eu lírico à irreversibilidade da morte. Isso se manifesta no imperativo repetido "Acorda!" e na tentativa de interromper o ritual fúnebre ("Olha que te levam... Pequenino, acorda!"). A negação do fato consumado e o apelo desesperado para que a criança "recupere o alento" e "fuja" das valas amplificam a dor e a angústia do falante, dando contornos dramáticos e expressivos ao luto.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) descrição da paisagem de um cemitério.: Distrator por Reducionismo. Embora haja menção a "ciprestes negros" e "fundas valas", a paisagem é apenas um cenário. A intensificação do luto não vem da descrição em si, mas da personificação desses elementos ("boca aberta", "famintas", "cobiça"), que reflete a angústia do eu lírico. O foco da questão está na reação emocional do falante, não na ambientação.
- C) sonoridade dos versos produzida pela pontuação.: Distrator por Extrapolação. A pontuação (reticências, exclamações) contribui para o ritmo e a expressividade, mas não é o elemento central de intensificação do luto. A sonoridade mais marcante vem das repetições lexicais ("voz de choro", "pequenino, acorda") e da construção dos versos, não exclusivamente da pontuação.
- D) religiosidade evocada como forma de fortalecimento.: Distrator por Contradição. O sino da igreja ("tange o sino") poderia sugerir um ritual religioso, mas no poema ele tem "voz de choro" e é associado ao caminho triste para a cova. Não há qualquer evidência de consolo, fortalecimento ou esperança religiosa. Pelo contrário, o tom é de desespero e revolta contra a morte.
- E) impressão de sonho na construção da estrutura poética.: Distrator por Anacronismo. A ideia de "sono" está presente na comparação do caixão com um berço e no ato de levar a criança "dormindo". No entanto, a estrutura do poema não constrói uma impressão onírica ou surreal. O apelo "Acorda!" busca justamente tirar a criança desse "sono" irreversível, enfatizando a cruel realidade da morte, não um estado de sonho.
Identificação Pedagógica
- Tema: Estrutura e Funcionalidade dos Textos / Produção e Recepção de Textos Literários.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes situações de interação, reconhecendo e respeitando a diversidade linguística.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de interpretação de poemas frequentemente pedem para relacionar um efeito de sentido (como a intensificação de um sentimento) a um recurso da construção poética. Atenção: o recurso correto nem sempre é o mais óbvio ou o primeiro que vem à mente. É preciso comprovar com o texto. Elimine alternativas que: 1. Trazem elementos presentes, mas que não são o fator principal de intensificação (como a paisagem da alternativa A). 2. Apresentam uma leitura contrária à evidência textual (como a religiosidade consoladora da alternativa D). 3. Atribuem ao texto um efeito que não está nele (como a estrutura de sonho da alternativa E).
Aqui, a chave foi perceber que a ação do eu lírico (suas falas imperativas e de negação) era o motor que amplificava a dor do luto.
Questão 29 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Água de barrela Eliane Alves Cruz
Só entende os corações desse lugar quem mergulha nesse mar a perder de vista e recoberto de cana caiana, cana fita, cana roxa, cana-de-macaco, açúcar, melado, rapadura, aguardente, fumo, mandioca, quiabos, pimentas, moendas, frutas, fruta-pão, sobrados, senzalas, tachos, casa de purgar. Um reino dentro de outro, com tudo o que se tem direito: reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos da corte, cortesãos, conselheiros e escravos, muitos escravos. [...] A corte do massapé, como qualquer outra na história da humanidade, fazia tudo para não deixar escapar nenhum mísero grão dos seus domínios para quem estivesse de fora do seu apertado círculo. Os nomes se repetiam de pai para filho, para sobrinho, para netos e bisnetos, de forma concêntrica e repetitiva, para que não pairasse nenhuma dúvida de que são todos da mesma parentela. As farinhas todas num mesmo saco brasonado.
Nesse fragmento, o narrador enumera o resultado do trabalho com a terra, o qual, no contexto em que aparece,
ALTERNATIVAS: A) espelha a permanência dos privilégios de classe. B) oferece um panorama da população do campo. C) mostra os benefícios da fartura na agricultura. D) defende a importância da atividade coletiva. E) valoriza o trabalho ao longo das gerações.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O fragmento do romance "Água de barrela", de Eliane Alves Cruz, apresenta uma descrição densa e simbólica de um engenho de açúcar. A longa enumeração inicial ("cana... açúcar... senzalas...") não é um simples inventário da produção agrícola. Ela é imediatamente qualificada pela metáfora que se segue: "Um reino dentro de outro". Esse "reino" é estruturado como uma corte feudal, com sua hierarquia rígida ("reis... escravos, muitos escravos"). O trecho final explicita a lógica desse sistema: a manutenção do poder e da riqueza dentro de um "apertado círculo" familiar, através da repetição dos nomes e da exclusão dos de fora ("As farinhas todas num mesmo saco brasonado"). Portanto, a enumeração do "resultado do trabalho com a terra" serve, no contexto, para ilustrar a base material de uma estrutura social profundamente desigual e hereditária.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. A enumeração da produção (cana, açúcar, aguardente) e das estruturas (sobrados, senzalas) não tem como foco a produção em si, mas o que ela sustenta: um "reino" social hierárquico e excludente. O texto deixa claro que os frutos desse trabalho servem para manter os privilégios de uma classe específica (a "corte do massapé"), que se perpetua no poder através das gerações, sem deixar "escapar nenhum mísero grão" para fora de seu círculo.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) oferece um panorama da população do campo.: Distrator por reducionismo e descontextualização. Apesar de mencionar "escravos" e implicitamente senhores, o texto não tem a intenção de descrever ou caracterizar a população camponesa em sua diversidade. O foco está na relação de exploração e na estrutura de poder, não em um panorama demográfico ou social amplo.
- C) mostra os benefícios da fartura na agricultura.: Distrator por extrapolação. O texto enumera produtos, o que poderia levar a uma leitura superficial de "fartura". No entanto, o contexto imediato (a metáfora do reino e a menção às senzalas) e o desenvolvimento posterior (a ideia de concentração) mostram que essa "fartura" não é apresentada como um benefício geral, mas como a base de um sistema exploratório. A questão não é a abundância, mas para quem ela serve.
- D) defende a importância da atividade coletiva.: Distrator por contradição com o texto. O trecho não defende nenhum valor. É uma descrição crítica e metafórica de um sistema. Além disso, a ideia de "coletividade" é negada pelo próprio texto, que fala em um "apertado círculo" familiar que exclui os outros e concentra os frutos do trabalho coletivo (realizado majoritariamente pelos escravos).
- E) valoriza o trabalho ao longo das gerações.: Distrator por desvio de foco. O texto fala, de fato, na repetição de nomes "de pai para filho", mas isso se refere à perpetuação do poder e dos privilégios da classe dominante, não a uma valorização do trabalho em si. O trabalho dos escravos, que é a base de tudo, não é valorizado; é explorado.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Contemporânea, Estrutura Social e Crítica Histórica.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes situações de interlocução, considerando a função sociocomunicativa dos gêneros textuais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Fique atento às metáforas prolongadas no ENEM. Quando um texto constrói uma comparação extensa (como o engenho visto como um "reino"), todos os elementos descritos devem ser lidos à luz dessa metáfora. Não se prenda apenas à lista de itens (plantas, produtos); pergunte-se: "No contexto da metáfora usada pelo autor, qual é a função dessa enumeração?". Aqui, os produtos não eram o fim, mas os meios para sustentar a estrutura do "reino" e seus privilégios.
Questão 30 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição da imagem: Capa da revista Galileu, de fevereiro de 2023, que apresenta a manchete: "Você (não) está sozinho" e o texto "No Brasil, metade da população se sente solitária e a mesma sensação cresce em outras partes do mundo. Por que devemos repensar nossas relações?". Uma ilustração, que ocupa grande parte da capa, reproduz uma superfície cheia de buracos próximos uns dos outros. Em cada um deles, há uma pessoa com um smartphone. A maioria segura o aparelho bem em frente ao rosto. Entre elas, uma faz pose para tirar foto; uma está ouvindo música com fones de ouvido; algumas parecem tristes; outras, com raiva; algumas, com semblante de indiferença.
Com base na relação dos elementos não verbais com a frase "VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO" (com a palavra "não" entre parênteses), nessa capa de revista, a função poética fica evidente, pois
Alternativas: A) essa frase informa sobre os riscos de um determinado comportamento social. B) o conteúdo da mensagem expressa a atitude do enunciador sobre o tema. C) a construção dessa frase possibilita mais de uma interpretação. D) essa frase estabelece um diálogo direto com o leitor. E) a linguagem utilizada volta-se para si mesma.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão avalia a compreensão das funções da linguagem, com foco na função poética. O enunciado pede que o candidato identifique, na relação entre os elementos visuais (ilustração) e a manchete, a característica que evidencia essa função.
A função poética ocorre quando a mensagem é elaborada de forma criativa, com foco na própria estrutura da linguagem, em seus aspectos sonoros, rítmicos ou semânticos, para produzir um efeito estético ou de reflexão. A manchete "VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO" é o núcleo da análise. O uso dos parênteses na palavra "não" é um recurso linguístico intencional que gera ambiguidade e multiplica os sentidos da frase. A ilustração reforça essa ambiguidade: mostra pessoas fisicamente próximas (em buracos lado a lado), mas emocional e socialmente isoladas, mergulhadas em seus smartphones. A mensagem pode ser lida como "Você está sozinho" (enfatizando o isolamento) ou "Você não está sozinho" (enfatizando que a solidão é um fenômeno coletivo). A função poética se manifesta justamente nesse jogo de sentidos criado pela forma como a linguagem foi construída.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. A construção da frase "VOCÊ (NÃO) ESTÁ SOZINHO", com o "não" entre parênteses, é um recurso estilístico que cria ambiguidade deliberada. Isso permite duas leituras opostas e complementares, que dialogam com a ilustração para criticar a solidão na era digital. Esse jogo de significados, onde a forma da mensagem (o uso dos parênteses) é central para a produção de sentido, é a essência da função poética da linguagem.
Análise das Alternativas Incorretas
- A
"essa frase informa sobre os riscos de um determinado comportamento social.": Esta alternativa descreve a função referencial ou informativa da linguagem, que tem como objetivo transmitir informações objetivas sobre a realidade. Embora a capa como um todo discuta um fenômeno social (a solidão), a manchete em si, com seu recurso poético, não tem como função principal informar sobre riscos, mas sim provocar reflexão através de sua forma. - B
"o conteúdo da mensagem expressa a atitude do enunciador sobre o tema.": Esta alternativa descreve a função emotiva ou expressiva, na qual o foco está no emissor e em seus sentimentos. A capa da revista pode, sim, expressar um ponto de vista, mas a questão pede a evidência da função poética, que está na construção linguística específica da manchete, e não na expressão de uma opinião. - D
"essa frase estabelece um diálogo direto com o leitor.": Esta alternativa descreve a função conativa ou apelativa, que busca influenciar o comportamento do receptor, frequentemente usando vocativos ou imperativos. O uso de "Você" pode sugerir um apelo, mas o cerne da questão e o destaque da prova são o recurso dos parênteses, que cria ambiguidade (função poética), e não o simples fato de se dirigir ao leitor. - E
"a linguagem utilizada volta-se para si mesma.": Esta é uma definição técnica e precisa da função poética. No entanto, no contexto específico da questão, que pede a evidência com base na relação com os elementos não verbais, a alternativa C é mais completa e aplicada. Ela explica como a linguagem se volta para si mesma: através de uma construção que permite múltiplas interpretações. A alternativa E, embora correta conceitualmente, é muito genérica e não demonstra a análise solicitada pelo comando da questão, que é observar a relação entre texto e imagem.
Identificação Pedagógica
- Tema: Funções da Linguagem e Análise do Discurso.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, as variedades linguísticas e os usos da linguagem em diferentes contextos de interlocução, considerando aspectos como o grau de formalidade, a escolha do vocabulário, a estruturação sintática e as funções da linguagem.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre funções da linguagem raramente pedem a mera identificação do nome da função. Elas costumam apresentar um recurso linguístico específico (como uma ambiguidade, uma rima, uma metáfora ou, neste caso, o uso de parênteses) e perguntar qual função ele evidencia. Foque em como a mensagem foi construída. Se a construção chama a atenção para si mesma, criando um efeito de sentido, é forte indício da função poética. Sempre relacione o texto com o contexto (imagem, título, fonte) fornecido.
Questão 31 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Margot Robbie foi criticada por "não ser bonita o suficiente" para interpretar a Barbie. Recentemente, Paolla Oliveira foi chamada de gorda. Só fico pensando o que serei eu com mais de 50 (também no peso), com a minha aparência comum. O corpo da mulher vive um reality show permanente: é sempre vigiado e fiscalizado, como se fosse domínio público. A mulher que não atender aos estereótipos está sujeita a sofrer penalidades básicas, como distúrbios, obsessões, medo do próprio corpo e, é claro, dietas à base de rúcula. "A dieta é o sedativo político mais potente na história das mulheres", escreveu Naomi Wolf, em 1991. A regra é não haver singularidade, mascarar a passagem do tempo, imobilizar a beleza (já imaginou como isso seria enfadonho?). O mandamento é obedecer às regras sociais do bom comportamento corporal, "como deve ser", não nos atos, mas na forma.
Nesse texto, para introduzir a ideia de que a fiscalização permanente sobre o corpo afeta todas as mulheres, a autora
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto discute a pressão estética e a vigilância social constante sobre o corpo feminino. A autora inicia sua argumentação apresentando exemplos concretos para demonstrar que essa fiscalização não é uma questão abstrata, mas um fenômeno que atinge mulheres em diferentes contextos e padrões de beleza. O comando da questão pede que identifiquemos o recurso utilizado pela autora para introduzir a ideia central de que essa fiscalização é generalizada, ou seja, afeta "todas as mulheres". A análise deve focar nos primeiros elementos textuais, que servem de abertura para o desenvolvimento do tema.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. A autora inicia seu texto enumerando críticas públicas à aparência de duas mulheres (Margot Robbie e Paolla Oliveira) que são amplamente reconhecidas como padrões de beleza em suas respectivas áreas (cinema e televisão). Essa estratégia é eficaz porque mostra que, se até mulheres consideradas "perfeitas" pela mídia são alvo de críticas severas e fiscalização, então a pressão sobre o corpo feminino é um fenômeno ainda mais intenso e abrangente, atingindo qualquer mulher, independentemente de sua aparência. Esse recurso retórico cria um efeito de generalização: parte de casos específicos e emblemáticos para chegar a uma conclusão sobre a condição universal da mulher.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) faz um comentário sobre sua própria imagem.: Distrator por reducionismo e deslocamento temporal. Embora a autora faça um comentário sobre si mesma ("Só fico pensando o que serei eu..."), isso ocorre após a introdução do tema. A pergunta é sobre como ela introduz a ideia. A menção a si vem como uma consequência pessoal dos exemplos iniciais, não como o elemento introdutório principal.
- B) destaca avaliações particulares entre parênteses.: Distrator por focalização inadequada. O uso de parênteses ("também no peso") é um detalhe estilístico e explicativo dentro do comentário pessoal da autora. Não é o recurso estrutural principal usado para introduzir a tese da fiscalização generalizada. É um elemento coadjuvante, não a estratégia central de abertura.
- C) cita um formato de programa influente no segmento da beleza.: Distrator por confusão entre metáfora e recurso introdutório. A expressão "reality show permanente" é uma metáfora utilizada para desenvolver e caracterizar a ideia já introduzida, comparando a vida da mulher a um programa de vigilância. Ela não é o recurso para apresentar a ideia, mas sim para explicá-la e ampliá-la em seguida.
- D) utiliza declaração de uma jornalista como argumento de autoridade.: Distrator por anacronismo e deslocamento funcional. A citação de Naomi Wolf ("A dieta é o sedativo político...") é, de fato, um argumento de autoridade. No entanto, ela aparece no desenvolvimento do texto, para reforçar e dar peso histórico ao argumento sobre as "penalidades" sofridas pelas mulheres. Não é o recurso utilizado na introdução da ideia principal.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero, Corpo e Sociedade / Argumentação e Persuasão.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e literários como elementos integrantes dos sistemas de comunicação, refletindo sobre o uso das línguas em diferentes contextos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos argumentativos e linguísticos, identificando especialmente aqueles relacionados à persuasão (como a escolha lexical, a modalização, a ordenação e a repetição de informações, o uso de figuras de linguagem etc.).
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre estratégias argumentativas frequentemente pedem para identificar a função de um trecho ou recurso específico dentro da estrutura do texto. Fique atento aos verbos do comando: "introduzir", "exemplificar", "concluir", "reforçar". A ordem em que as informações aparecem é crucial. Muitas vezes, a resposta está na primeira estratégia usada pelo autor para "chamar a atenção" do leitor para o tema, que geralmente envolve exemplos impactantes, perguntas retóricas ou, como nesta questão, a enumeração de casos emblemáticos que ilustram um problema maior.
Questão 32 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
I: o nome do filme é roupa suja ... eu assisti na minha casa ... com minha mãe ... tinha um ... o filme era sobre um homem que colocaram ... trocaram as bolsas ... daí o homem levou uma bolsa cheia de dinheiro sem ele saber que na mala dele ... pensando que era dele mas era errada ... quando ele chegou onde ele ia trabalhar ... tinha uma moça tentando abrir a porta pra fazer entrevista com uns cantores lá que tinham ... daí ele perguntou ... "você tá tentando abrir a porta?"... daí ele ... "não ... não" ... daí ele disse ... "ah ... tá ... sim" ... daí ela ... "é ... e quero fazer uma entrevista" ... daí ele disse ... "você quer entrar ... então pode entrar" ... daí entraram ... daí ficaram lá ... quando ela entrou e queria fazer a entrevista um homem num deixou ... daí a mulher pegou ... subiu onde o homem tava trabalhando ... rapaz né ... onde ele tava trabalhando e ficou lá e dando o show ...
Nesse texto, a repetição da forma "daí" revela
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresentado é uma transcrição de um relato oral, onde uma pessoa narra a trama de um filme que assistiu. A fala é espontânea, cheia de pausas ("..."), hesitações e repetições. O foco da questão está no uso recorrente da palavra "daí", que aparece múltiplas vezes para encadear os eventos da narrativa. A pergunta investiga o que essa repetição revela sobre a natureza da linguagem empregada. A análise deve focar nas características da linguagem oral espontânea, contrastando-a com a linguagem escrita planejada.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) uma estratégia presente na linguagem oral.
A repetição de "daí" funciona como um conector discursivo ou uma partícula de sequenciação narrativa. Na fala espontânea, o falante precisa gerenciar a construção do texto em tempo real. Palavras como "daí", "aí", "então" e "depois" são estratégias frequentes para ganhar tempo, organizar o pensamento e manter o fluxo da narrativa, ligando um evento ao próximo de forma simples e eficaz. Elas são marcas típicas da oralidade, que não costumam ser tão repetitivas na escrita formal.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) a necessidade de adequação ao interlocutor.: Errada por extrapolação. A adequação ao interlocutor (também chamada de "variação diatópica") envolve mudar o registro, o vocabulário ou a complexidade da fala dependendo de quem ouve. O uso repetido de "daí" não é uma adaptação a um ouvinte específico, mas sim uma característica intrínseca do modo como a narrativa oral é construída.
- B) a origem regional do locutor.: Errada por reducionismo. Embora "daí" seja uma palavra usada em várias regiões do Brasil, sua repetição excessiva neste texto não é um marcador regional (como seriam expressões como "trem", "bah" ou "oxente"). O que se destaca é a função discursiva da repetição, não a origem geográfica do falante.
- C) a escolaridade do falante.: Errada por extrapolação. É um distrator forte, pois associa repetição e "erros" à baixa escolaridade. No entanto, o uso de conectores simples e repetitivos é comum na fala espontânea de pessoas de diferentes níveis de instrução. A questão avalia a percepção de uma característica da modalidade oral, não um julgamento sobre a formação do indivíduo.
- E) uma ênfase em determinadas partes do discurso.: Errada por contradição. A ênfase em partes do discurso é geralmente feita por meio de pausas mais longas, mudança de entonação, repetição de palavras-chave ou uso de expressões como "o importante é que...". A palavra "daí" atua como um conector neutro que avança a história, não como um recurso para destacar ou dar ênfase a um ponto específico.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Modalidades da Língua (Oralidade vs. Escrita)
- Competência BNCC: Competência 1 - Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG102 - Analisar e refletir sobre as variedades linguísticas, compreendendo seus contextos de uso e valorizando o pluralismo das expressões culturais e o protagonismo de seus produtores.
Dica do Especialista
Fique atento às marcas de oralidade nas provas de Linguagens. Elas não são "erros", mas características próprias da fala espontânea. Pausas ("..."), repetições, hesitações ("né"), conectores simples e repetitivos ("daí", "aí"), e a ordem direta dos fatos são indícios fortes de que o texto representa a modalidade oral. A questão não pede para você "corrigir" a fala, mas para reconhecer e interpretar os mecanismos que a constituem.
Questão 33 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Uruku Urucum Rocou (Bixa orellana)
Moju, dono da água, não gosta do cheiro de urucum. Mani'ojarã, dono da mandioca, e os donos das outras plantas cultivadas também não. Eles não suportam. Por isso, os Wajãpi se untam de urucum, deixam o rosto vermelho e se perfumam com seu aroma agradável. Além disso, os seres agressores, os jarã (donos) e os espíritos terrestres, gostam do cheiro dos fluidos humanos, do sangue, do suor. Então, o urucum os dissimula, protegendo as pessoas que vão caçar, caminhar pela floresta, que estão sendo perturbadas por espíritos em sonhos ou que estão em resguardo, como os doentes. O seu uso é tão cotidiano que os Wajãpi o plantam na aldeia, para ter sempre pertinho. Como o urucum não tem jarã, não tem problema nenhum em arrancar e usar para pintar.
Esse verbete contribui para a preservação do patrimônio linguístico nacional, pois apresenta uma
ALTERNATIVAS: A) explicação de um rito medicinal do povo Wajãpi. B) definição de um termo na perspectiva ancestral indígena. C) relação de equivalência entre vocábulos de diferentes línguas indígenas. D) atualização de saberes tradicionais dos povos indígenas brasileiros. E) descrição das propriedades científicas de plantas silvestres.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um verbete sobre o "urucum". A estrutura inicia com três nomes para a planta (Uruku, Urucum, Rocou) e seu nome científico, seguido de uma descrição que vai muito além da botânica. Ele explica o significado cultural, espiritual e prático da planta para o povo Wajãpi, inserindo-a em seu sistema de crenças (relação com os jarã - donos/espíritos), seus usos cotidianos (proteção, pintura) e sua lógica de cultivo. O comando da questão pergunta como esse verbete contribui para a preservação do patrimônio linguístico nacional. Portanto, devemos buscar a alternativa que melhor explica como o texto preserva a língua e a cultura imaterial associada a ela.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O verbete atua como um dicionário ou enciclopédia cultural, fornecendo a definição do termo "urucum" a partir da cosmovisão, dos saberes e das práticas do povo Wajãpi. Ele fixa no registro escrito um significado que é ancestral, transmitido oralmente, ligando a palavra a um complexo sistema de crenças e usos. Isso é uma forma direta de preservar o patrimônio linguístico, que inclui não apenas as palavras, mas os significados culturais únicos que elas carregam.
Análise das Alternativas Incorretas
- A explicação de um rito medicinal do povo Wajãpi: Reducionismo. Embora o texto mencione o uso do urucum para proteger doentes ("em resguardo"), ele não se limita a explicar um rito medicinal específico. O foco é muito mais amplo, abrangendo a proteção durante caçadas, caminhadas, contra pesadelos e no cotidiano, sempre dentro de uma explicação cosmológica. O verbete define a planta em seu contexto cultural total, não apenas um de seus usos.
- C relação de equivalência entre vocábulos de diferentes línguas indígenas: Extrapolação. O texto começa listando três termos (Uruku, Urucum, Rocou), o que pode sugerir uma equivalência. No entanto, ele não afirma que são de línguas diferentes. Eles podem ser variações dialetais ou nomes regionais dentro de um mesmo contexto cultural. O núcleo do verbete não é estabelecer essa relação, mas sim definir o significado cultural do objeto nomeado.
- D atualização de saberes tradicionais dos povos indígenas brasileiros: Contradição/Anacronismo. O termo "atualização" implica em modificar, adaptar ou aplicar esses saberes a um contexto novo ou contemporâneo. O verbete, no entanto, faz exatamente o oposto: ele registra e descreve os saberes tradicionais em sua forma original, tal como são entendidos pelo povo Wajãpi. Sua função é de preservação documental, não de atualização.
- E descrição das propriedades científicas de plantas silvestres: Contradição. O texto deliberadamente não segue uma abordagem científica. Ele não descreve princípios ativos, composição química ou efeitos farmacológicos. Em vez disso, descreve propriedades culturais e espirituais ("dissimula os fluidos humanos", "protege de espíritos"). A menção ao nome científico (Bixa orellana) serve apenas para identificação botânica universal, mas o corpo do texto é etnográfico, não científico.
Identificação Pedagógica
- Tema: Patrimônio Linguístico e Cultural / Diversidade Cultural Brasileira / Cosmologias Indígenas.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, atendendo a diferentes propósitos comunicativos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, quando for o caso. (Aqui, a habilidade é mobilizada para reconhecer e valorizar uma visão de mundo indígena específica registrada em um texto).
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre patrimônio linguístico ou cultural frequentemente giram em torno do registro e da valorização de saberes tradicionais. Fique atento: a preservação não está apenas em listar palavras, mas em documentar os significados culturais profundos que elas carregam para um determinado grupo. Quando um texto explica um conceito a partir da perspectiva de uma cultura (seus mitos, crenças e práticas), ele está atuando diretamente na preservação desse patrimônio imaterial. Desconfie de alternativas que reduzam um texto rico a apenas um de seus aspectos (como "rito medicinal") ou que proponham uma ação (como "atualizar") que não condiz com a função de registro apresentada.
Questão 34 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Cada vez mais somos convocados para dentro das Redes. Mas não levamos a nossa rede e penduramos no alpendre da casa de um amigo, não sentimos o cheiro da casa enquanto o café se derrama na xícara ou ouvimos o piar dos passarinhos ou a música da chuva.
A Rede nos convoca e o que somos lá dentro é o que somos do lado de fora?
Há um intervalo entre este eu dentro da tela e o outro que somos?
A palavra rede é vasta.
Nesse texto, a autora aborda diferentes sentidos da palavra "rede" para evidenciar
ALTERNATIVAS: A) as formas de comunicação em meios digitais. B) a necessidade de atualização das mídias sociais. C) os conflitos de identidade dos usuários da internet. D) o impacto das tecnologias nas interações humanas. E) os desejos de compartilhar vivências com os amigos.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto poético de Marina Colasanti, presente na prova do ENEM, explora a polissemia da palavra "rede". A autora estabelece um contraste entre dois sentidos principais: 1. Rede como tecnologia digital: Representada pela expressão "Redes" (com inicial maiúscula), que nos "convoca" para um espaço virtual. 2. Rede como objeto concreto e metáfora de convívio: A rede de descanso, pendurada no alpendre, associada a experiências sensoriais (cheiro da casa, café, sons da natureza) e à visita a um amigo.
O comando da questão pede para identificar o que a autora evidencia ao explorar esses diferentes sentidos. O núcleo da reflexão está no questionamento sobre a identidade ("o que somos lá dentro é o que somos do lado de fora?") e na percepção de um "intervalo" entre o eu digital e o eu fora da tela. A conclusão "A palavra rede é vasta" sintetiza essa contraposição, mostrando que a mesma palavra abarca realidades muito distintas, e que a adoção da rede digital pode implicar a perda ou o distanciamento das experiências humanas mais sensoriais e presenciais simbolizadas pela rede de descanso.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) o impacto das tecnologias nas interações humanas. A autora evidencia esse impacto justapondo dois modos de interação: um mediado pela tecnologia digital (que pode criar um "intervalo" na identidade e na experiência) e outro presencial, rico em detalhes sensoriais e afetivos. O texto não se limita a descrever "formas de comunicação" (A), mas reflete criticamente sobre as consequências da substituição de um tipo de interação pelo outro.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) as formas de comunicação em meios digitais. (Reducionismo) A alternativa reduz o texto a uma mera descrição. Embora a "Rede" digital seja um dos polos da comparação, a intenção da autora vai além de nomear essa forma de comunicação; ela a contrasta com outra para refletir sobre seu impacto na qualidade das interações.
- B) a necessidade de atualização das mídias sociais. (Extrapolação) O texto não faz qualquer menção à necessidade de se atualizar ou acompanhar as mudanças nas plataformas. Seu tom é de reflexão e, em certa medida, de nostalgia, não de instrução ou alerta sobre modernização.
- C) os conflitos de identidade dos usuários da internet. (Reducionismo/Extrapolação) Embora o questionamento "o que somos lá dentro..." aponte para uma questão identitária, apresentá-la como "conflitos de identidade" é restringir e psicologizar excessivamente o texto. A ênfase maior está no impacto nas interações (o como nos relacionamos) do que em um conflito interno profundo do usuário. A questão identitária é uma das facetas desse impacto mais amplo.
- E) os desejos de compartilhar vivências com os amigos. (Focalização Incorreta) A alternativa captura um elemento presente na descrição da rede de descanso (visitar um amigo), mas ignora completamente o contraste central com a rede digital. O texto não evidencia um "desejo" atual de compartilhar, mas sim a lembrança de uma forma de compartilhar que se perdeu ou foi transformada pela tecnologia.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gêneros textuais / Leitura e interpretação de textos literários e não literários. Reflexão sobre tecnologia e sociedade.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e literários como elementos constitutivos dos sistemas de comunicação, refletindo sobre o uso da língua em diferentes contextos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG102 - Analisar e refletir, de forma crítica, sobre diferentes formas de produção e circulação de informação, considerando seus contextos de produção e os efeitos de sentido produzidos.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que exploram a polissemia (múltiplos significados de uma palavra) ou figuras de linguagem como a metáfora frequentemente buscam avaliar sua capacidade de perceber contrastes e reflexões sociais mais amplas. Não se atenha apenas ao significado literal. Pergunte-se: "Que realidade está sendo comparada ou contrastada com outra?" e "Qual a intenção crítica ou reflexiva por trás dessa comparação?". Isso o ajudará a ir além da superfície do texto.
Questão 35 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A crônica Jorge Sá
Muitos pensam que narrativa curta é sinônimo de conto, perdendo de vista gêneros que, por tradição ruim, continuam à margem da nobreza. Acontece que o conto tem uma densidade específica, centrando-se na exemplaridade de um instante da condição humana, sem que essa exemplaridade se refira à valoração moral, já que uma grande mazela pode muito bem exemplificar uma das nossas faces. A crônica não tem essa característica. Conservou a marca do registro circunstancial feito por narrador-repórter que relata um fato para muitos leitores que formam um público determinado. Mas que público é esse? Sendo a crônica uma soma de jornalismo e literatura (daí a imagem do narrador-repórter), dirige-se a uma classe que tem preferência pelo jornal em que ela é publicada, o que significa uma espécie de censura ou, pelo menos, de limitação: a ideologia do veículo corresponde ao interesse dos seus consumidores, direcionados pelos proprietários dos periódicos e/ou pelos editores-chefes da redação. Ocorre ainda o limite de espaço, uma vez que a página comporta várias matérias, o que impõe a cada uma delas um número restrito de laudas, obrigando o redator a explorar, da maneira mais econômica possível, o pequeno espaço de que dispõe. É dessa economia que nasce sua riqueza estrutural.
De acordo com esse texto, o aspecto tecnológico que influencia a composição do gênero crônica advém da
ALTERNATIVAS: A) conexão ideológica. B) densidade temática. C) ênfase no público leitor. D) apresentação de uma moral. E) restrição espacial do suporte.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Jorge Sá discute as características do gênero crônica, diferenciando-o do conto. Ele destaca que a crônica é um gênero híbrido (jornalismo + literatura) e está vinculado ao meio impresso (jornal). A questão pede especificamente para identificar o aspecto tecnológico que influencia sua composição. O termo "tecnológico" aqui se refere às características materiais e técnicas do suporte (o jornal) que impõem condições à produção do texto. O autor menciona dois tipos de limitações: uma ideológica (público e linha editorial) e outra física/tecnológica (o espaço limitado na página). A pergunta direciona a busca para a influência advinda da tecnologia do suporte.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. O texto afirma explicitamente: "Ocorre ainda o limite de espaço, uma vez que a página comporta várias matérias, o que impõe a cada uma delas um número restrito de laudas, obrigando o redator a explorar, da maneira mais econômica possível, o pequeno espaço de que dispõe. É dessa economia que nasce sua riqueza estrutural." A "restrição espacial do suporte" (o jornal) é uma condição tecnológica/material que molda a escrita da crônica, exigindo concisão e economia narrativa.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) conexão ideológica: Embora o texto mencione a ideologia do veículo como uma limitação ("espécie de censura"), este é um aspecto sociopolítico ou editorial, não tecnológico. A questão pede o aspecto tecnológico, tornando esta alternativa um distrator por desvio do comando.
- B) densidade temática: O texto atribui a "densidade específica" ao conto, não à crônica. Além disso, a densidade temática é uma característica literária, não um aspecto tecnológico de influência. Esta alternativa incorre em erro de atribuição e desvio do foco.
- C) ênfase no público leitor: O texto discute a existência de um público determinado, mas isso é apresentado como um fator que gera uma limitação ideológica, não tecnológica. A ênfase no público é uma preocupação de marketing ou comunicação, não a condição tecnológica em si. É um distrator por generalização.
- D) apresentação de uma moral: O texto faz justamente o contrário. Ao diferenciar crônica e conto, afirma que o conto tem exemplaridade "sem que essa exemplaridade se refira à valoração moral" e que "A crônica não tem essa característica". Portanto, a apresentação de uma moral não é uma característica da crônica segundo o autor. Esta alternativa é uma contradição explícita ao texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gêneros Textuais / Crônica
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e aplicar recursos linguísticos e discursivos, reconhecendo suas funções nos diferentes gêneros textuais e campos de atuação social.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre gêneros textuais frequentemente testam a sua capacidade de relacionar as características do gênero com seu suporte e contexto de circulação. Preste atenção aos adjetivos do comando da questão (neste caso, "tecnológico"). Muitas vezes, mais de uma alternativa parece plausível, mas apenas uma responde exatamente ao que foi perguntado. Treine a leitura atenta dos verbos e dos termos que delimitam o escopo da resposta.
Questão 36 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição da imagem: O texto, intitulado Por que falar sobre violência contra mulheres na escola?, informa: "A violência de gênero afeta a vida de meninas e meninos em vários aspectos e hoje é um dos grandes empecilhos para que vivam plenamente, com segurança e qualidade de vida". Ao lado do título, ilustração de uma mulher sentada no miolo de uma flor posicionada no topo de uma lousa, com a mensagem "Maria da Penha vai à escola". Ícones estão distribuídos ao lado do texto e indicam: "Dossiê Violência contra as mulheres", "hashtag Desafio igualdade" e "Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019". (Fim da descrição)
Esse texto trata de um problema social com o propósito de
ALTERNATIVAS: A) divulgar campanha virtual contra casos de feminicídio. B) promover engajamento do setor educacional na luta contra a violência. C) comparar o impacto da violência na qualidade de vida de meninas e meninos. D) ressaltar a importância da segurança dos estudantes no ambiente escolar. E) dar visibilidade a estudos e pesquisas do setor de segurança.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um texto multimodal (texto verbal e elementos visuais) que aborda a violência de gênero. O título principal é uma pergunta direcionada ao ambiente escolar: "Por que falar sobre violência contra mulheres na escola?". A ilustração reforça essa conexão com a educação, mostrando uma lousa e a mensagem "Maria da Penha vai à escola". O comando da questão pede para identificar o propósito do texto ao tratar desse problema social. A análise deve focar na intenção comunicativa principal, inferida a partir do título, da imagem e dos elementos de apoio (ícones).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B) promover engajamento do setor educacional na luta contra a violência.
O propósito central do material é explicitado no próprio título, que é uma pergunta retórica justificando a necessidade de se discutir o tema na escola. A ilustração da lousa e o slogan "Maria da Penha vai à escola" são evidências visuais incontestes de que o foco é a inserção desse debate no contexto educacional. Os ícones de apoio ("Dossiê", "hashtag", "Anuário") servem como recursos para embasar e ampliar a discussão dentro desse ambiente, não como fim principal.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) divulgar campanha virtual contra casos de feminicídio. Erro: Reducionismo e extrapolação. Embora a violência contra a mulher possa incluir o feminicídio, o texto não especifica esse crime. Além disso, o propósito não é primariamente "divulgar uma campanha virtual". A hashtag (#DesafioIgualdade) é um dos elementos de apoio, não o objetivo central. O foco está na escola, não na esfera virtual.
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C) comparar o impacto da violência na qualidade de vida de meninas e meninos. Erro: Deturpação do foco. O texto afirma que a violência afeta "meninas e meninos", o que é verdade, pois o ambiente violento prejudica a todos. No entanto, o propósito não é comparar os impactos, mas sim destacar que o problema é um empecilho para a vida plena de todos e, por isso, deve ser discutido na escola. A menção a ambos os gêneros serve para mostrar a abrangência social do problema, não para estabelecer uma comparação.
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D) ressaltar a importância da segurança dos estudantes no ambiente escolar. Erro: Ampliação indevida do tema. O texto fala em "segurança e qualidade de vida" de forma ampla, como consequência desejada ao se combater a violência de gênero. No entanto, o propósito específico do material não é tratar da segurança física geral na escola (como brigas ou roubos), mas sim de um problema social específico (violência contra a mulher) que deve ser debatido no espaço educativo para promover uma mudança cultural.
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E) dar visibilidade a estudos e pesquisas do setor de segurança. Erro: Confusão entre meio e fim. Os ícones que mencionam o "Dossiê" e o "Anuário Brasileiro de Segurança Pública" são fontes de dados que embasam a discussão proposta. Eles são recursos (o "como") para atingir o propósito, não o propósito em si (o "porquê"). O objetivo final é usar esses dados para engajar a escola no debate, não simplesmente torná-los visíveis.
Identificação Pedagógica
- Tema: Educação para os Direitos Humanos; Gênero e Sexualidade; Violência contra a mulher.
- Competência BNCC: Competência 4 (Área de Linguagens) - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. / Competência 5 (Área de Humanas) - Compreender, analisar e aplicar conhecimentos históricos e geográficos para entender a sociedade e suas relações.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG104 - Analisar, em textos multissemióticos, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas e deslocamentos de palavras, expressões, imagens e sons, reconhecendo a importância da composição desses elementos na construção de sentidos e identidades.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem textos multimodais (com imagem e texto) frequentemente pedem para identificar a finalidade ou o público-alvo. A chave está em cruzar as informações de todos os elementos fornecidos. Neste caso, palavras como "escola" e "lousa" no visual, e a pergunta do título, apontam diretamente para o setor educacional como foco da ação. Cuidado com alternativas que se apoiam em detalhes secundários (como os ícones) ou que ampliam demais o tema central.
Questão 37 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Do rádio ao podcast
Desde a disseminação do rádio no Brasil, entre as décadas de 1920 e 1930, principalmente no governo de Getúlio Vargas, as pessoas passaram a dedicar uma parte de seu dia para escutar notícias, novelas, músicas e eventos esportivos em aparelhos de som. O radiojornalismo, por sua vez, teve seu pontapé inicial durante a Revolução Constitucionalista (1932) e se desenvolveu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quando a TV surgiu, esperava-se que o rádio fosse totalmente substituído, porém ele se manteve em alta, pois o sinal de televisão não cobria todos os lugares, diferentemente do rádio. Com o surgimento da internet, dos smartphones e de outros dispositivos móveis, o rádio foi incorporado a essas novas tecnologias até o desenvolvimento da web rádio e do podcast, mostrando-se um meio de comunicação versátil e democrático na área jornalística. Para um pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o rádio não se tornou obsoleto, visto que não deixou de ser consumido e se reinventou com o tempo. "O podcast é uma continuação, uma evolução natural do rádio", opina.
Ao abordar a trajetória dos meios de comunicação, esse texto propõe uma reflexão sobre a
ALTERNATIVAS: A) tecnologia digital e seus desdobramentos no desenvolvimento da televisão. B) evolução da tecnologia digital com o predomínio do podcast sobre o rádio. C) permanência do rádio e sua evolução por meio da tecnologia digital. D) influência da televisão sobre os programas de radiojornalismo. E) interferência da tecnologia digital nas interações humanas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto traça um panorama histórico do rádio como meio de comunicação, desde sua popularização no Brasil até os dias atuais. O foco narrativo está na capacidade de adaptação e reinvenção do rádio diante do surgimento de novas tecnologias, como a TV e, posteriormente, a internet. A tese central, reforçada pela citação do pesquisador da UFU, é que o rádio não se tornou obsoleto, mas se reinventou, encontrando na tecnologia digital (especificamente na internet e nos dispositivos móveis) uma nova forma de existir, exemplificada pelo podcast. Portanto, o comando da questão pede que se identifique o tema central da reflexão proposta pelo texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) permanência do rádio e sua evolução por meio da tecnologia digital. O texto estrutura-se em dois eixos principais: 1) a permanência do rádio, que resistiu à ameaça da TV e continuou sendo consumido; e 2) sua evolução, ao ser incorporado às novas tecnologias digitais, culminando no surgimento do podcast, visto como uma "continuação natural" do meio radiofônico.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) tecnologia digital e seus desdobramentos no desenvolvimento da televisão. Erro: Desvio de Foco/Extrapolação. O texto menciona a TV apenas como um ponto de comparação para destacar a resiliência do rádio. O desenvolvimento da televisão e o papel da tecnologia digital nesse processo não são o objeto de reflexão do texto, que é centrado no rádio.
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B) evolução da tecnologia digital com o predomínio do podcast sobre o rádio. Erro: Contradição/Reducionismo. O texto não defende um "predomínio" do podcast sobre o rádio, mas sim uma relação de continuidade e evolução. A citação final é clara: "O podcast é uma continuação, uma evolução natural do rádio". A ideia é de complementaridade e adaptação, não de substituição ou supremacia.
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D) influência da televisão sobre os programas de radiojornalismo. Erro: Foco Incorreto/Informação Não Contemplada. O texto discute a influência da TV de forma geral (como uma ameaça de substituição), mas não especifica uma influência da TV sobre a programação ou o formato do radiojornalismo. O desenvolvimento do radiojornalismo é citado em um contexto histórico anterior (Revolução de 1932, Segunda Guerra), sem relação direta com o surgimento da TV.
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E) interferência da tecnologia digital nas interações humanas. Erro: Generalização/Extrapolação. Embora a tecnologia digital tenha de fato interferido nas interações humanas, este é um tema muito amplo e não é o foco específico da reflexão proposta. O texto limita-se a analisar como a tecnologia digital impactou a trajetória de um meio de comunicação específico (o rádio), não as interações humanas de modo geral.
Identificação Pedagógica
- Tema: História dos Meios de Comunicação e Cultura Digital.
- Competência BNCC: Competência 4 (Linguagens) - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. / Competência 5 (Ciências Humanas) - Compreender e analisar os processos sociais, culturais e históricos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG402 (Linguagens) - Analisar os processos de produção, circulação e consumo dos produtos culturais e artísticos, em diferentes épocas e contextos, considerando a diversidade e a multiplicidade de perspectivas. / Habilidade EM13CHS101 (Ciências Humanas) - Analisar processos políticos, econômicos, sociais e ambientais, observando as permanências e as transformações espaciais e temporais.
Dica do Especialista
Questões de interpretação de texto no ENEM frequentemente testam sua capacidade de identificar a tese central ou o fio condutor do argumento. Desconfie de alternativas que: 1. Ampliam demais o tema (como a E). 2. Mudam o foco para um elemento que é apenas citado de passagem (como a A e a D). 3. Criam oposições ou hierarquias que o texto não estabelece (como a B). A estratégia é sempre voltar ao texto e perguntar: "Qual é a ideia principal que o autor quis transmitir com este conjunto de informações?". A alternativa correta será aquela que melhor sintetiza essa ideia.
Questão 38 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Literatura
Enunciado
(Texto da questão reproduzido acima)
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O trecho do conto "A luta", de Carmen Dolores, apresenta um quadro de costumes da vida em uma pensão. O narrador, em terceira pessoa, utiliza a descrição detalhada para construir a atmosfera do ambiente e revelar as motivações, hipocrisias e relações de poder entre os personagens. A questão pede que identifiquemos a "ambiência sugestiva" criada pelo narrador ao explorar esse recurso descritivo. Devemos, portanto, analisar o que o conjunto das descritivas (das ações, dos diálogos, dos pensamentos dos personagens) sugere como tom ou atmosfera predominante no ambiente retratado.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. O narrador, através de uma descrição irônica e carregada de detalhes reveladores, constrói uma atmosfera de escárnio relacionado à degradação moral dos indivíduos. A frieza do cálculo de D. Adozinda em relação ao futuro da filha, a relação interesseira e cínica entre a viúva e o Coronel Juvenato (com seu "tremor lúbrico" e a troca de favores por proteção), a passividade de Celina e a inutilidade de Gilberto são pintadas com tons de crítica social mordaz. O riso "à socapa" dos outros hóspedes corrobora essa visão de um ambiente onde as conveniências e as aparências mascaram a falta de escrúpulos.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [escárnio relacionado à degradação moral dos indivíduos]: CORRETA. Como explicado, o tom narrativo é irônico e crítico, escarnece das relações interesseiras, da hipocrisia social e da falta de valores morais genuínos no microcosmo da pensão.
- B [cenário urbano marcado por condições de insalubridade]: Distrator por extrapolação. O texto se passa em um cenário urbano (Rio de Janeiro), mas o foco narrativo não está nas condições físicas ou de saúde do ambiente. A "insalubridade" que o texto sugere é moral, não sanitária ou física. A descrição não detalha sujeira, doenças ou falta de infraestrutura.
- C [persistência do sentimentalismo explorado pelos folhetins]: Distrator por reducionismo e contradição. Embora os folhetins sejam mencionados como leitura de Celina, o narrador os coloca como parte do universo ocioso e vazio da personagem. A atmosfera geral da narrativa é justamente o oposto do sentimentalismo: é cínica, prática e desencantada, como visto na relação entre D. Adozinda e o Coronel. O texto critica, e não celebra, esse sentimentalismo.
- D [prática do enriquecimento ilícito visto nas grandes cidades]: Distrator por extrapolação. A questão do Coronel tratar de uma "concessão rendosa com os políticos" sugere um contexto de favorecimento e possíveis irregularidades, mas este é um elemento pontual da trama do Coronel, não a "ambiência sugestiva" criada pela descrição do narrador para o ambiente da pensão como um todo. O foco está nas relações pessoais degradadas, não no mecanismo específico de enriquecimento.
- E [desigualdade de gênero acentuada pela baixa escolarização]: Distrator por reducionismo. A desigualdade de gênero e a baixa escolarização de Celina (em contraste com as irmãs que "iam ao colégio") são, de fato, elementos presentes e importantes para a caracterização da personagem e de seu contexto. No entanto, a questão pede a ambiência sugerida pela descrição do narrador. O tom narrativo vai além de apontar uma desigualdade social; ele a expõe com ironia e a associa a um quadro mais amplo de degradação moral e hipocrisia (o "difícil papel de virgem numa casa de pensão" é um problema de aparência para a mãe, não de emancipação para a filha). A alternativa E isola um aspecto, enquanto a alternativa A sintetiza o tom crítico-escarninho que permeia a descrição de todos os personagens e suas relações.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Realismo/Naturalismo e Crítica Social.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos em diferentes gêneros discursivos e semioses, considerando sua função sociocomunicativa, contexto de produção/circulação e suas especificidades linguísticas e semióticas.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, em textos literários, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas e usos linguístico-discursivos e semióticos, relacionando texto e contexto, para explicar seu sentido global e seus efeitos de sentido.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de literatura que pedem a identificação do "tom" ou "atmosfera" de um texto frequentemente exigem que você vá além dos temas explícitos. Analise como o narrador descreve as ações e os personagens. Adjetivos, advérbios, a escolha lexical e a construção das cenas revelam a posição crítica, irônica, compassiva ou neutra do narrador. Não confunda um elemento da trama (como a concessão do coronel) com a atitude narrativa predominante (o escárnio com que todas as relações são descritas).
Questão 39 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Origem, tradição e resistência Foi sentada em seu banco de quartzo que a avó do universo, moradora da Maloca do Céu, criou os homens, os animais, a terra e as águas. O banco foi entregue aos ancestrais dos atuais Tukano, que passaram a reproduzi-lo em madeira. O mito Tukano - povo do noroeste da Amazônia que ainda hoje fabrica os bancos em seu estilo tradicional - indica o lugar dos bancos entre os objetos sagrados, ao mesmo tempo parte do universo primitivo e fonte do poder de criação. A presença nos mitos de origem de alguns povos atesta a antiguidade da arte de talhar bancos: os primeiros registros do uso desses objetos entre ameríndios das terras baixas da América do Sul, do Caribe e da América Central datam de, pelo menos, 4 mil anos.
TEXTO 2 Descrição da imagem: A peça, intitulada Tatu Kamayurá 1, de Yawapi Kamayurá, é um banco estilizado de madeira, com formato de tatu. O casco está pintado com formas geométricas pretas. Os pés do banco são formados pelas quatro patas do tatu simplificadas e geometrizadas. Nessa peça única, estão representadas também a cabeça e a cauda do animal. (Fim da descrição)
Os textos 1 e 2 demonstram, na confecção dos bancos, uma íntima relação de sacralidade entre o ser humano e a natureza, perceptível por meio da
ALTERNATIVAS: A) representação realista de animais, mostrando o domínio do homem sobre a natureza. B) manutenção da herança cultural, atribuindo nova função aos elementos da fauna. C) anulação dos traços que permitem reconhecer o animal representado. D) presença de grafismos na forma animal representada no banco. E) criação de figuras fantásticas baseadas em formas animais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão integra conhecimentos de Artes, Antropologia e Cultura Indígena, temas recorrentes no ENEM. O Texto 1 apresenta o banco como um objeto sagrado para o povo Tukano, conectado a um mito de criação. Ele não é apenas um móvel, mas um símbolo que une o universo primitivo, o poder de criação e a natureza. O Texto 2 descreve uma peça específica, o banco "Tatu Kamayurá 1", que é uma representação estilizada e geometrizada de um animal (tatu), mantendo suas formas reconhecíveis (cabeça, cauda, patas, casco) mas com uma intervenção artística (formas geométricas pretas no casco). O comando pede para identificar como essa "íntima relação de sacralidade" se torna perceptível na confecção dos bancos. A sacralidade, conforme o Texto 1, vem da conexão mítica com a criação. A materialização dessa sacralidade na peça descrita (Texto 2) se dá por uma linguagem visual específica que vai além do simples utilitarismo ou da cópia fiel.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. A presença de grafismos (as "formas geométricas pretas" pintadas no casco do tatu) sobre a forma animal é um elemento chave. Na arte indígena, os grafismos não são meramente decorativos; são portadores de significado, identidade, proteção e, muitas vezes, de conexão com o sagrado e o cosmológico. Aplicar esses grafismos à representação de um animal é uma forma de inscrever a cultura, a tradição e a visão de mundo sagrada sobre a natureza, materializando visualmente a relação íntima e respeitosa descrita no mito. A forma animal (tatu) conecta-se à fauna, e os grafismos conectam-se à cultura e ao sagrado humano, criando a síntese que a questão pede.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) representação realista de animais, mostrando o domínio do homem sobre a natureza. Erro: Contradição e Reducionismo. O Texto 2 é explícito ao dizer que o banco é "estilizado" e que as patas são "simplificadas e geometrizadas", ou seja, não é uma representação realista. Além disso, a ideia de "domínio sobre a natureza" contradiz frontalmente a "íntima relação de sacralidade" apresentada, que sugere reverência e conexão, não dominação.
-
B) manutenção da herança cultural, atribuindo nova função aos elementos da fauna. Erro: Foco Incorreto. Embora haja manutenção da herança cultural (Textos 1 e 2), o ponto central da questão não é a atribuição de uma nova função. O banco já tem uma função cultural e ritualística ancestral (Texto 1: "objetos sagrados"). A peça do Texto 2 mantém a função de banco, que é tradicional. O cerne da pergunta é como se expressa a relação sagrada, não a inovação funcional.
-
C) anulação dos traços que permitem reconhecer o animal representado. Erro: Contradição. O Texto 2 afirma que "estão representadas também a cabeça e a cauda do animal" e que o banco tem "formato de tatu". Portanto, os traços não são anulados, mas sim reinterpretados (estilizados, geometrizados). A anulação impediria a identificação do elemento da natureza (o tatu), rompendo a relação que a questão destaca.
-
E) criação de figuras fantásticas baseadas em formas animais. Erro: Extrapolação. O banco descrito não representa uma figura fantástica (como um dragão ou um ser híbrido mitológico). Ele representa um animal real e específico (o tatu), ainda que de forma estilizada. A "fantasia" não é um elemento presente ou necessário na descrição fornecida. A sacralidade vem da tradição e dos grafismos, não da invenção de criaturas imaginárias.
Identificação Pedagógica
- Tema: Arte e Cultura Indígena Brasileira; Patrimônio Cultural Imaterial; Relação Sociedade-Natureza.
- Competência BNCC: Competência 4 (Área de Linguagens) - Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar diferentes produtos e manifestações culturais (artes visuais, literatura, cinema, holografia, música, dança, memes etc.), considerando a formação do canône, as relações de poder, a constituição de tradições, a contracultura, os processos de hibridização, os apagamentos e as resistências, de modo a exercer o protagonismo e a autoria na vida pessoal e coletiva.
Dica do Especialista
Fique atento aos advérbios e adjetivos nos textos de apoio do ENEM. Palavras como "estilizado", "geometrizado", "sagrado" e "tradicional" são pistas preciosas para eliminar alternativas que falem em "realismo" ou "anulação de traços". Questões sobre cultura indígena frequentemente avaliam a compreensão de que a arte é um código cultural, onde elementos visuais (formas, grafismos) carregam significados profundos sobre a cosmovisão, a história e a relação com o meio ambiente, indo muito além da estética ou do utilitarismo.
Questão 40 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
TRADUZINDO O JURIDIQUÊS
"Denego a liminar pleiteada na exordial, inobstante após a oitiva da parte adversa e da dilação probatória possa lograr alcançar um outro epílogo para o deslinde da quaestio sub examine."
TRADUÇÃO Não atendo, por ora, a liminar requerida na petição inicial, ainda que possa chegar a uma outra conclusão após ouvir a outra parte e avaliar as provas produzidas.
Proposta de emenda à Constituição 269 de 2013. Aplica-se aos Governadores e Prefeitos o Regime Geral de Previdência Social, vedada a concessão graciosa, após o término do mandato, de vantagem pecuniária, verba de representação, pensão ou subsídio.
TRADUÇÃO Torna-se proibido pagar benefícios vitalícios para ex-prefeitos e ex-governadores.
Nesse texto, contribui para a construção da ironia a tradução das passagens escritas em "juridiquês" para uma variedade
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um texto humorístico que satiriza o uso excessivo de termos técnicos e arcaicos no Direito, conhecido popularmente como "juridiquês". O autor cria um efeito de ironia ao colocar lado a lado uma linguagem hermética, cheia de termos latinos e construções complexas, e sua "tradução" para uma linguagem simples, direta e acessível. O comando da questão pede que se identifique qual variedade linguística é utilizada nessa tradução e como ela contribui para o efeito irônico. A ironia reside justamente no contraste entre a linguagem rebuscada e inacessível e uma linguagem que qualquer cidadão pode compreender, expondo o caráter desnecessariamente complicado do primeiro texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. A tradução utiliza uma variedade padrão da língua portuguesa, clara e objetiva, que tem o propósito de ser compreendida pelo público em geral. É esse contraste direto entre a obscuridade do "juridiquês" e a transparência da linguagem comum que gera o efeito cômico e crítico (ironia) do texto.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [padrão, que alcança o público em geral]: CORRETA. A tradução emprega a norma culta padrão de forma acessível, sem jargões, permitindo que qualquer pessoa entenda o significado dos textos jurídicos. Esse é o núcleo da ironia.
- B [histórica, que registra a evolução das leis]: INCORRETA - Reducionismo/Extrapolação. A tradução não tem a função de registrar a evolução histórica das leis. Seu objetivo é tornar o conteúdo claro no presente, não fazer um registro diacrônico (evolutivo) da linguagem jurídica.
- C [coloquial, que reproduz as relações sociais cotidianas]: INCORRETA - Reducionismo. A linguagem da tradução é clara e direta, mas não é coloquial. Expressões como "benefícios vitalícios" ou "vedada a concessão" são próprias da norma padrão escrita. Não há marcas de oralidade, gírias ou informalidade típicas do coloquial.
- D [erudita, que resgata a origem latina da língua portuguesa]: INCORRETA - Contradição. A tradução faz exatamente o oposto: ela abandona os termos de origem latina (como "exordial", "dilação probatória", "quaestio") e os substitui por palavras de uso comum em português ("petição inicial", "avaliar as provas", "questão"). O resgate da origem latina é uma característica do "juridiquês", não da sua tradução.
- E [técnica, que facilita a circulação de informações no sistema judiciário]: INCORRETA - Extrapolação. Embora a tradução seja clara, sua finalidade no texto não é facilitar a comunicação técnica entre profissionais do Direito. O texto é uma crítica humorística voltada para o cidadão comum. A linguagem técnica é justamente a que está sendo satirizada no primeiro bloco de cada exemplo.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Usos da Língua / Ironia e Efeitos de Sentido.
- Competência BNCC: Competência 8 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LP45 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os usos da norma-padrão e as variedades linguísticas, reconhecendo, em cada contexto de uso, a variedade própria e seus efeitos de sentido, valorizando a diversidade linguística como marca expressiva da identidade nacional e cultural.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre variação linguística frequentemente exploram o contraste entre registros formais/informais, técnicos/leigos. Fique atento ao efeito de sentido que esse contraste provoca: crítica social, humor, ironia (como nesta questão), ou a busca por aproximação com um determinado público. A pergunta-chave é: Por que o autor escolheu essa variedade de linguagem e não outra? A resposta quase sempre está no efeito que ele quer causar no leitor.
Questão 41 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Em 1995, os Jenipapo-Kanindé quebraram a tradição da sucessão masculina e nomearam Maria de Lourdes da Conceição Alves como sua líder. Desde então, a Cacique Pequena guia o povo em grandes batalhas pelo direito a terra, educação, saúde e cidadania. Hoje, a anciã de 73 anos prepara duas filhas para lhe sucederem quando ela "tombar e pai Tupã a levar". Hoje, 129 famílias do município de Aquiraz são reconhecidas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) como indígenas, principal luta de Pequena para o seu povo desde o início. "Em 1995, fui a Brasília e tive a oportunidade de conversar com o presidente da Funai. Pedi que mandasse o povo dele na aldeia para fazer o estudo da nossa mãe-terra e de nós". Dois anos depois, vieram os antropólogos, que concluíram: "Nós era índio sim!", diz ela. Há cerca de oito anos, Pequena adoeceu e ficou entre a vida e a morte. Nesse momento, precisou escolher, entre os 16 filhos, quem assumiria sua missão quando partisse. Reunida, a família decidiu sobre a sucessão. "Disseram que, como eu era a primeira cacique mulher do Ceará, acharam melhor eu colocar duas filhas".
Ao abordar a realidade da etnia Jenipapo-Kanindé, essa reportagem cumpre uma função social quando destaca o(a) A) quantidade de famílias indígenas em Aquiraz. B) força da tradição nas comunidades indígenas. C) estudo sobre a demarcação das terras indígenas. D) protagonismo feminino na linha sucessória desse povo. E) reconhecimento dessa comunidade pelo governo brasileiro.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é uma reportagem que narra a trajetória da Cacique Pequena, líder do povo Jenipapo-Kanindé. O fio condutor da narrativa é a ruptura de uma tradição: em 1995, essa comunidade indígena quebrou a sucessão masculina ao nomear uma mulher como cacique. A reportagem detalha sua luta por direitos e, principalmente, como ela está preparando suas filhas para sucedê-la, consolidando uma nova linha de liderança feminina. O comando da questão pergunta qual aspecto destacado pela reportagem cumpre uma função social. No contexto do ENEM, "função social" frequentemente se relaciona com dar visibilidade a grupos marginalizados, questionar estereótipos e promover reflexões sobre igualdade e representatividade.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. A reportagem cumpre uma função social ao destacar o protagonismo feminino na linha sucessória desse povo. O texto centraliza a figura da Cacique Pequena não apenas como uma líder, mas como a primeira cacique mulher do Ceará, que quebrou uma tradição patriarcal e está institucionalizando essa mudança ao preparar suas filhas para a sucessão. Isso dá visibilidade ao papel da mulher indígena na liderança política, desafiando preconceitos e mostrando a dinâmica e a capacidade de transformação das culturas indígenas.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [quantidade de famílias indígenas em Aquiraz]: Distrator de informação secundária. A menção às "129 famílias" é um dado contextual para dimensionar a comunidade, mas não é o foco narrativo nem o elemento que confere à reportagem sua principal função social. É um detalhe factual, não o cerne da história.
- B [força da tradição nas comunidades indígenas]: Distrator por contradição ao texto. O texto começa justamente narrando a quebra de uma tradição (a sucessão masculina). Embora a cultura indígena seja valorizada, o destaque aqui está na transformação e na adaptação de uma tradição, não na sua força imutável.
- C [estudo sobre a demarcação das terras indígenas]: Distrator de informação tangencial. O estudo antropológico é citado como uma etapa na luta pelo reconhecimento étnico ("Nós era índio sim!"), que é um dos feitos da cacique. No entanto, a demarcação de terras não é o tema desenvolvido. O foco permanece na pessoa da líder e em sua trajetória de quebra de paradigmas.
- E [reconhecimento dessa comunidade pelo governo brasileiro]: Distrator de consequência, não de causa. O reconhecimento pela Funai é apresentado como um resultado da luta liderada por Pequena. A função social da reportagem não é simplesmente noticiar esse reconhecimento, mas sim contar a história de quem lutou para alcançá-lo, destacando seu gênero e sua quebra de tradição.
Identificação Pedagógica
- Tema: Identidade e Diversidade Cultural; Protagonismo Social e Gênero.
- Competência BNCC: Competência 4 (Área de Linguagens) - Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de construção de identidades.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais, sintáticas, discursivas e estilísticas, considerando a variedade linguística, o contexto de produção e as intenções do autor.
Dica do Especialista
Fique atento ao fio condutor da narrativa em questões de interpretação. O ENEM frequentemente apresenta textos que vão além da simples informação factual; eles carregam uma tese central ou um enfoque social. Aqui, diversos elementos são citados (reconhecimento, número de famílias, estudo antropológico), mas todos convergem para contar a história da liderança feminina de Pequena. A alternativa correta será aquela que captura a ideia principal e transformadora do texto, e não apenas um detalhe mencionado nele.
Questão 42 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Texto: Porque ler para crianças é um ato de amor... [Texto completo fornecido] Comando: Para persuadir o interlocutor sobre a importância de ler para as crianças, esse texto recorre à estratégia de
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto tem um objetivo claramente argumentativo e persuasivo: convencer o leitor (provavelmente pais, familiares ou educadores) da importância do hábito da leitura na primeira infância. Para cumprir essa função, o autor estrutura seu discurso de forma a apresentar razões lógicas e benefícios concretos da prática. A pergunta investiga qual recurso linguístico-discursivo é o principal mecanismo de persuasão empregado no fragmento apresentado.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D.
O núcleo da argumentação do texto reside na enumeração de razões pertinentes. Após estabelecer o tema e sua importância ("É nossa função lembrar..."), o autor promete uma "motivação extra" e, em seguida, lista quatro benefícios claros e objetivos de se ler para crianças: 1) cria laço emocional; 2) ajuda no desenvolvimento cognitivo; 3) ensina sobre o mundo; 4) incentiva o processamento de informações. Essa enumeração organiza a argumentação, dá concretude à tese inicial e oferece ao leitor uma justificativa racional e multifacetada para adotar o hábito, sendo, portanto, a estratégia persuasiva central.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) propor uma condição aos pais, pelo emprego da conjunção "se". (Distrator de foco secundário). A conjunção "se" ("Se você precisa de uma motivação extra...") introduz uma condição retórica que serve para conduzir o leitor à lista de razões, que é o cerne da argumentação. Ela não é, por si só, a principal estratégia de persuasão, mas um recurso coadjuvante para apresentar a enumeração.
- B) relativizar a opinião apresentada pelo autor, com o uso de "Parece que". (Distrator de má interpretação). A expressão "Parece que" no início do texto não tem a função de relativizar a opinião do autor sobre a leitura. Pelo contrário, ela serve para introduzir um problema ou contexto (a concorrência da tecnologia) a partir do qual o autor vai construir sua defesa da leitura. A opinião do autor sobre o tema é assertiva e não relativizada.
- C) empregar uma linguagem metafórica, com o uso da expressão "laço de amorosidade". (Distrator de elemento isolado). Embora a metáfora "laço de amorosidade" seja um recurso expressivo e afetivo, ela representa apenas um dos benefícios listados (o primeiro). A estratégia persuasiva do texto é mais ampla e baseada na acumulação de argumentos, não em uma única figura de linguagem.
- E) implicar o autor do texto como corresponsável pela campanha, pelo uso de "é nossa função". (Distrator de desvio temático). A expressão "é nossa função" estabelece um chamado à ação e um posicionamento do autor, criando identificação com um grupo (possivelmente educadores). No entanto, isso configura mais uma estratégia de envolvimento do leitor do que a estratégia central de persuasão sobre a importância do ato em si. A persuasão sobre o "porquê" se dá principalmente pela listagem de razões que vem em seguida.
Identificação Pedagógica
- Tema: Estratégias Argumentativas e Persuasão no Texto Dissertativo-Argumentativo.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, reconhecendo posicionamentos persuasivos e manipulativos, e avaliando seus efeitos de sentido.
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente avalia a identificação de recursos argumentativos. Fique atento: a estratégia principal de um texto persuasivo nem sempre é a mais chamativa (como uma metáfora). Muitas vezes, é a estrutura lógica do discurso, como uma enumeração de argumentos, uma comparação ou a apresentação de dados e exemplos, que sustenta a tese. Leia o texto buscando identificar seu esqueleto argumentativo – qual é a tese e como o autor a sustenta do início ao fim.
Questão 43 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A artista Marija Tiurina criou uma série chamada Palavras intraduzíveis, com diversas ilustrações detalhadas que transmitem o sentido desses vocábulos, que nenhuma palavra única em outras línguas pode descrever.
Descrição da imagem: Desenho de duas mãos unidas em concha segurando uma porção de água límpida, uma menininha e um barquinho de papel. Algumas gotas escorrem por entre os dedos. Abaixo, está a palavra "Gufra" (árabe), acompanhada pelo texto: "A quantidade de água que pode ser segurada com as mãos". (Fim da descrição)
O uso do texto verbal nesse desenho assume a função de
Alternativas: A) descrever de forma técnica a ilustração. B) destacar os múltiplos sentidos do verbete. C) explicar o significado da expressão ilustrada. D) apresentar termos equivalentes em outras línguas. E) apontar para a dificuldade de compreensão do termo.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a relação entre texto verbal (escrito) e não verbal (ilustração) em um contexto de comunicação multimodal. O enunciado apresenta o projeto "Palavras intraduzíveis", que visa representar visualmente conceitos para os quais não existe uma tradução direta em outras línguas. A imagem descrita mostra uma cena que evoca um conceito específico (a palavra árabe "Gufra"), e o texto verbal que a acompanha ("A quantidade de água que pode ser segurada com as mãos") tem uma função clara no conjunto. O comando da questão pede para identificar qual é essa função.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C.
A função principal do texto verbal ("A quantidade de água...") é explicar o significado da expressão ilustrada. A palavra "Gufra" é, por definição do projeto, intraduzível por uma única palavra em outras línguas. Portanto, a ilustração e o texto descritivo trabalham juntos para construir o sentido completo desse conceito para o público que não fala árabe. O texto decodifica a imagem, traduzindo-a em uma definição conceitual.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) descrever de forma técnica a ilustração. Distrator: Reducionismo e imprecisão terminológica. O texto não é uma descrição técnica da cena (ex.: "mãos em concha, água escorrendo"). Ele vai além da descrição física para atribuir um significado conceitual à cena. A função é explicativa, não meramente descritiva.
-
B) destacar os múltiplos sentidos do verbete. Distrator: Contradição com o enunciado. O projeto trata de palavras com um sentido muito específico e único (são "intraduzíveis" justamente por condensarem um conceito complexo). O texto apresentado fornece uma definição clara ("a quantidade de água..."), não explora nuances ou múltiplas interpretações da palavra.
-
D) apresentar termos equivalentes em outras línguas. Distrator: Extrapolação e contradição. O texto não apresenta nenhuma palavra equivalente em outra língua. Pelo contrário, ele oferece uma definição por extensão, uma frase que explica o conceito, justamente porque um termo equivalente único não existe, conforme estabelecido no início do enunciado.
-
E) apontar para a dificuldade de compreensão do termo. Distrator: Inversão da função. O texto não aponta para a dificuldade; ele é a solução para a dificuldade. Sua função é facilitar a compreensão, tornando claro o significado do termo ilustrado. Ele resolve, e não destaca, o problema da intraduzibilidade.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gêneros Multimodais / Relação entre Linguagens Verbal e Não Verbal.
- Competência BNCC: Competência 6 - "Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - "Analisar, comparar e utilizar diferentes linguagens (verbal, visual, sonora, corporal, digital) e suas combinações em processos de produção de sentidos."
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem a relação entre texto e imagem frequentemente testam sua capacidade de identificar a função de um elemento no conjunto. Pergunte-se: "O que esse elemento (texto ou imagem) faz pelo outro? Ele complementa, explica, contradiz, exemplifica?" No caso de palavras ou conceitos complexos, o texto verbal costuma ter a função de definir, explicar ou contextualizar a imagem, criando uma sinergia para a construção do sentido. Fique atento a alternativas que descrevem ações mais superficiais (como "descrever") quando a função real é mais profunda (como "explicar" ou "definir").
Questão 44 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Os Doze Trabalhos de Hércules Rafael Hertel
Hércules é uma figura lendária da mitologia greco-romana. Ele é frequentemente retratado como um herói de força sobre-humana e coragem, filho de Zeus, o rei dos deuses, e Alcmena, uma mulher mortal. O episódio mais conhecido de Hércules é a realização dos Doze Trabalhos. Esses trabalhos são impostos a ele como uma forma de expiação pelos crimes cometidos durante um acesso de loucura, causado pela deusa Hera, esposa de Zeus. Os Doze Trabalhos são: matar o Leão de Nemeia; matar a Hidra de Lerna; capturar a corça de Cerineia; capturar o javali de Erimanto; limpar os estábulos de Áugias; matar as aves do lago Estínfalo; matar o touro de Creta; capturar os cavalos de Diomedes; roubar o cinturão de Hipólita, a rainha das Amazonas; capturar o gado de Gerião; capturar os pomos de ouro do Jardim das Hespérides; capturar o cão de Hades, Cérbero.
TEXTO 2 Os Doze Trabalhos Glauber Vieira Ferreira
O que lhe faltava de estudo lhe sobrava de boa vontade e inteligência. No escritório improvisado na salinha da casa, anunciava seus serviços de bombeiro hidráulico e eletricista. Nas horas vagas entregava panfletos e lavava carros. Quando a cidade fervia com alguma festa, postava-se à entrada vendendo cerveja. Se fosse algum show infantil, cocadas. Aos sábados, era pedreiro e, aos domingos, conservava um jardim de uma mansão, além de tratar da piscina e dos cachorros. Nas férias, abrigava-se na fazenda dos donos da mansão, onde trabalhava como caseiro e motorista. Seu nome: João Antonio da Silva. Mas pode chamar de Hércules.
A comparação entre os textos 1 e 2 indica que o(a)
ALTERNATIVAS: A) intertextualidade com o mito apresentado no Texto 1 é um recurso presente no Texto 2. B) narração de fatos do Texto 2 sintetiza os acontecimentos retratados no Texto 1. C) vocabulário empregado no Texto 2 é ancorado em conhecimento literário. D) tema do trabalho como reparação é abordado em ambos os textos. E) marcação temporal no passado predomina em ambos os textos.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão avalia a capacidade de comparar dois textos, identificando o recurso intertextual que os conecta. O Texto 1 é um verbete informativo sobre o mito greco-romano de Hércules e seus doze trabalhos. O Texto 2 é uma crônica que descreve a rotina exaustiva de um trabalhador brasileiro, João Antonio da Silva, que desempenha múltiplas funções para sobreviver. O comando pede para identificar, a partir da comparação, o que a relação entre os textos indica.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. O Texto 2 estabelece uma relação de intertextualidade com o mito apresentado no Texto 1. Isso fica explícito no título idêntico ("Os Doze Trabalhos") e na frase final: "Seu nome: João Antonio da Silva. Mas pode chamar de Hércules." O autor do Texto 2 utiliza a figura mítica de Hércules, conhecida por seus trabalhos árduos e sobre-humanos, para criar uma analogia e valorizar a rotina exaustiva e multifacetada do trabalhador contemporâneo, elevando sua luta diária a um patamar heroico.
Análise das Alternativas Incorretas
- B [A narração de fatos do Texto 2 sintetiza os acontecimentos retratados no Texto 1]: Erro de interpretação. O Texto 2 não é um resumo ou síntese dos feitos de Hércules. Ele narra fatos completamente diferentes (trabalhos urbanos e informais do século XXI), usando o mito apenas como referência comparativa, não como conteúdo a ser resumido.
- C [O vocabulário empregado no Texto 2 é ancorado em conhecimento literário]: Erro de análise linguística. O vocabulário do Texto 2 é cotidiano, coloquial e referente a ofícios comuns (bombeiro hidráulico, lavar carros, vender cerveja, pedreiro). Não há um uso de termos literários ou eruditos que dependam de um repertório literário específico para ser compreendido. A âncora literária/mítica está na estrutura da comparação (intertexto), não no vocabulário em si.
- D [O tema do trabalho como reparação é abordado em ambos os textos]: Erro de extrapolação temática. No Texto 1, os trabalhos são de fato uma "expiação" (reparação por um crime). No Texto 2, os trabalhos de João Antonio são por necessidade de sobrevivência, não por expiação de uma culpa. O tema central do Texto 2 é a precariedade e a multiplicidade do trabalho, não a reparação.
- E [A marcação temporal no passado predomina em ambos os textos]: Erro de análise temporal. O Texto 1, por ser um verbete sobre mitologia, narra acontecimentos em um passado mítico indefinido. O Texto 2, por sua vez, utiliza predominantemente o presente do indicativo ("anuncia", "entregava", "lava", "postava-se", "é", "conserva") para descrever ações habituais e rotineiras de João, estabelecendo uma temporalidade atual e cíclica. Portanto, não há predominância do passado em ambos.
Identificação Pedagógica
- Tema: Intertextualidade e reconfiguração de mitos na literatura contemporânea / Trabalho e identidade social.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, atendendo a diferentes finalidades, por meio do exercício de multiletramentos e do uso de diferentes linguagens e mídias.
- Habilidade BNCC: EM13LGG302 - Analisar, comparar e interpretar textos de diferentes gêneros, considerando a função social, o contexto de produção, a forma, o conteúdo, a intencionalidade e as escolhas linguísticas do autor.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que colocam um texto clássico/mítico ao lado de um texto moderno frequentemente exploram o conceito de intertextualidade. Fique atento a pistas como títulos iguais ou semelhantes, nomes de personagens míticos usados para descrever pessoas comuns, e situações análogas. A intertextualidade serve para ressignificar o texto atual, atribuindo-lhe novas camadas de sentido (como heroísmo, tragédia ou eternidade) a partir da referência ao texto antigo. Sempre pergunte: "O que o autor do texto moderno ganha ao fazer essa referência?"
Questão 45 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O mais assustador do meteoro que cruzou o céu da Sibéria e explodiu no ar como várias bombas atômicas é que ele chegou sem ser anunciado. Com todas as atenções voltadas para o outro asteroide, o que passou de raspão, o asteroide da Sibéria entrou pela porta dos fundos sem ser detectado. A desculpa é que era pequeno demais para chamar a atenção e por isso os alarmes não funcionaram. Nossa ilusão, até agora, era que qualquer detrito espacial que se aproximasse de nós seria identificado e rotulado, e sua trajetória calculada até o último milímetro com grande antecedência, o que nos daria tempo para preparar o espírito - ou usar nossos cartões de crédito até o limite - no caso da colisão com a Terra ser inevitável.
Com base na organização coesiva desse texto, o(a)
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão avalia a capacidade de identificar e analisar mecanismos de coesão referencial em um texto. A coesão referencial é responsável por estabelecer relações de sentido entre os elementos textuais, principalmente através de pronomes, sinônimos, expressões nominais e outros recursos que evitam repetições e garantem a progressão temática. O candidato deve analisar as relações de referência (anáfora ou catáfora) entre os termos destacados.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. A expressão "sua trajetória" (linha 6) refere-se, de fato, ao elemento textual "qualquer detrito espacial" (linhas 5-6). Trata-se de uma relação anafórica clássica, onde o pronome possessivo "sua" recupera e retoma o antecedente "qualquer detrito espacial", estabelecendo coesão e evitando a repetição do termo.
Análise das Alternativas Incorretas
- A: A oração "que passou de raspão" (linha 3) refere-se ao "meteoro que cruzou o céu da Sibéria" (linha 1). Erro de referência. O pronome relativo "que" na linha 3 refere-se a "o outro asteroide", mencionado imediatamente antes. O texto contrasta dois eventos: o asteroide que passou de raspão (e que era esperado) e o meteoro/asteroide da Sibéria que não foi detectado.
- B: CORRETA.
- C: A palavra "isso" (linha 5) remete ao segmento textual posterior "os alarmes não funcionaram" (linha 5). Erro de direção da referência. O termo "isso" é um elemento catafórico, ou seja, ele antecipa e se refere ao segmento que vem a seguir ("os alarmes não funcionaram"). A alternativa inverte a lógica, dizendo que "isso" remete ao posterior, quando na verdade ele introduz e aponta para o que será dito.
- D: O pronome "o" em "o que nos daria tempo" (linhas 7) remete a "ou usar nossos cartões de crédito" (linha 8). Erro de referência e reducionismo. O pronome "o" em "o que" retoma toda a ideia complexa anterior: a identificação, rotulagem e cálculo de trajetória de detritos espaciais com antecedência. É essa preparação que daria tempo. A menção aos cartões de crédito é apenas um exemplo hipotético e humorístico dentro dessa possibilidade, não o referente principal.
- E: O fragmento "o asteroide da Sibéria" (linha 3) introduz um elemento novo no texto. Erro de interpretação. Esse fragmentão não introduz um elemento novo, mas retoma e especifica o "meteoro" mencionado na linha 1. O texto usa os termos "meteoro" e "asteroide" de forma intercambiável para se referir ao mesmo evento, tratando-se, portanto, de uma retomada coesiva por sinonímia, não de uma nova informação.
Identificação Pedagógica
- Tema: Coesão Textual e Referenciação
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos coesivos e semânticos (sinônimos, antônimos, hipônimos, hiperônimos, reiteração, comparação, metáfora, metonímia), construindo visões de mundo e identidades.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de coesão referencial frequentemente testam a distinção entre anáfora (retomada de algo já dito) e catáfora (antecipação de algo a ser dito). Para resolvê-las, isole o termo referente (o pronome ou expressão) e busque no contexto imediato (antes ou depois) a que elemento concreto do texto ele está ligado. Cuidado com alternativas que propõem relações muito distantes ou que invertem a lógica da referência. Treine identificando pronomes pessoais, possessivos, demonstrativos e expressões nominais em textos jornalísticos.
Questão 46 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A máquina de costura e os fios da memória
Dos 10 aos 15 anos de idade, Virgínia adorava acompanhar seu pai, aos domingos, naquela sinestésica Feira de São Cristóvão (RJ), talvez por ser o maior elo que ela experimentava com o mundo exterior à sua casa e, visto assim e agora, tão íntimo e próximo de algo que ela ainda não sabia, mas que seria, no futuro, a sua própria casa: a Paraíba. Dona Didi costurava, sob medida, camisas sociais, bermudas, shorts, vestidos, saias, sempre em casa e rodeada pelos quatro filhos pequenos do casal, desdobrando-se para dar conta de toda a responsabilidade sem trégua que isso demandava.
Os itinerários afetivos e socioespaciais mencionados no texto associam-se à vida dos personagens por apresentarem
ALTERNATIVAS: A) histórias conectadas e recordações do lugar. B) direitos trabalhistas e produção industrial. C) preconceitos linguísticos e dinâmicas territoriais. D) lembranças fabris e discriminação dos operários. E) experiências profissionais e segregação regional.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma narrativa memorialista que explora a relação entre afeto, memória e espaço. Ele descreve dois cenários principais: 1) as idas de Virgínia com seu pai à Feira de São Cristóvão, um espaço que conecta sua vida no Rio de Janeiro com suas raízes futuras na Paraíba; e 2) o trabalho doméstico de costura de Dona Didi, realizado em casa, cercada pela família. O comando da questão pede para identificar com o que os "itinerários afetivos e socioespaciais" se associam na vida dos personagens. O termo "itinerário" sugere trajetórias, percursos. "Afetivos" remete às emoções e memórias. "Socioespaciais" remete à relação entre a vida social e os espaços físicos que ocupam (a feira, a casa). A resposta deve capturar a ideia de que as experiências nos espaços geram histórias pessoais interligadas e memórias vinculadas a esses lugares.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. O texto constrói uma narrativa em que as experiências nos espaços (a feira, a casa-ateliê) estão profundamente entrelaçadas com as memórias afetivas dos personagens. A feira é o "elo" de Virgínia com o mundo exterior e uma pré-figuração de seu futuro lar, criando uma história conectada entre Rio e Paraíba. O trabalho de Dona Didi, por sua vez, se funde ao espaço doméstico e familiar, tornando-se parte das recordações do lugar. A alternativa A sintetiza perfeitamente essa fusão entre trajetória de vida, afeto e memória espacial.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) direitos trabalhistas e produção industrial: Reducionismo e extrapolação. O texto menciona o trabalho de costura, mas ele é doméstico, artesanal ("sob medida", "sempre em casa"), não industrial. Não há qualquer menção a direitos trabalhistas. A alternativa impõe uma leitura econômico-industrial que não encontra respaldo no fragmento.
- C) preconceitos linguísticos e dinâmicas territoriais: Extrapolação. Embora haja uma "dinâmica territorial" implícita na conexão Rio-Paraíba, o texto a aborda por um viés afetivo e identitário, não por conflitos ou preconceitos. A expressão "preconceitos linguísticos" é completamente ausente da narrativa.
- D) lembranças fabris e discriminação dos operários: Anacronismo e contradição. Esta alternativa comete um erro grave ao interpretar o trabalho doméstico de costura como uma atividade "fabril". Não há fábrica, nem operários no sentido tradicional. A costura é uma atividade familiar. A menção à "discriminação dos operários" é uma projeção de um contexto social que não é tratado no texto.
- E) experiências profissionais e segregação regional: Reducionismo e extrapolação. Embora o trabalho de Dona Didi seja uma "experiência profissional", ele não é o foco central da questão, que é a relação afetiva e espacial. O termo "segregação regional" é forte e sugere um conflito ou separação forçada, o que não é descrito. A conexão com a Paraíba é apresentada como uma descoberta íntima e futura, não como uma segregação.
Identificação Pedagógica
- Tema: Identidade, Memória e Espaço. Construção de narrativas pessoais a partir da relação afetiva com os lugares.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes fins, de diferentes gêneros e em diferentes meios de comunicação, considerando a situação comunicativa e os temas/assuntos/finalidades dos textos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os quando for o caso. (Aqui, aplicada à análise de como a memória e o afeto constroem uma visão de mundo pessoal e familiar).
Dica do Especialista
Questões do ENEM que trazem fragmentos literários ou memorialistas frequentemente exploram a relação entre o indivíduo e seus espaços de vivência. Fique atento a termos como "itinerário", "percurso", "memória", "afeto" e "lugar". Eles costumam apontar para respostas que valorizam a subjetividade, as histórias de vida e a construção identitária. Desconfie de alternativas que tentam forçar uma leitura puramente econômica, política ou conflituosa em textos que priorizam a dimensão humana e íntima das experiências.
Questão 47 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Cidadania no Brasil José Murilo de Carvalho
Em 1872, havia mais de 1 milhão de votantes, correspondentes a 13 por cento da população livre. Em 1886, votaram nas eleições parlamentares pouco mais de 100 mil eleitores, ou 0,8 por cento da população total. Houve um corte de quase 90 por cento do eleitorado. O dado é chocante, sobretudo se lembrarmos que a tendência de todos os países europeus da época era na direção de ampliar os direitos políticos. O mais grave é que esse retrocesso foi duradouro. A Proclamação da República não alterou o quadro.
De acordo com o texto, a participação no processo eleitoral brasileiro após a Reforma de 1881 sofreu uma variação que se explica pela
ALTERNATIVAS: A) restrição de gênero. B) exclusão de imigrantes. C) comprovação de domicílio. D) exigência da alfabetização. E) obrigatoriedade do sufrágio.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um dado histórico contundente: uma drástica redução no eleitorado brasileiro entre 1872 e 1886, passando de 13% da população livre para apenas 0,8% da população total. O autor localiza o início desse retrocesso na Reforma Eleitoral de 1881 (Lei Saraiva). A questão pede que o candidato identifique, entre as alternativas, a medida implementada por essa reforma que explica tal redução. É necessário conhecimento histórico sobre as características da Lei Saraiva e seu impacto na composição do eleitorado.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D.
A Lei Saraiva (1881) estabeleceu, entre outras medidas, o voto direto (eliminando o voto em dois graus) e, crucialmente, tornou o voto não mais um direito de todos os cidadãos, mas um privilégio. Para isso, instituiu a exigência da alfabetização como critério para ser eleitor. Em um país com altíssimos índices de analfabetismo, essa medida excluiu a grande maioria da população, especialmente os pobres, os libertos e os trabalhadores rurais, explicando o "corte de quase 90% do eleitorado" mencionado no texto.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) restrição de gênero: Distrator por anacronismo. A restrição do voto feminino já existia muito antes de 1881 e persistiu após a reforma. Portanto, não foi uma nova regra introduzida pela Lei Saraiva que causou a redução específica do período. A exclusão das mulheres era uma constante, não uma variável daquela mudança.
- B) exclusão de imigrantes: Distrator por extrapolação. Embora a cidadania de imigrantes fosse um tema complexo, a Lei Saraiva não focou na exclusão sistemática deles. A queda no eleitorado foi massiva e generalizada, afetando principalmente a população nacional não alfabetizada.
- C) comprovação de domicílio: Distrator por reducionismo. A comprovação de renda ou domicílio era um requisito eleitoral comum desde o Império (voto censitário). A inovação da reforma de 1881 não foi esse requisito, mas sim a adição de um novo e mais restritivo: a alfabetização.
- E) obrigatoriedade do sufrágio: Distrator por contradição lógica. A obrigatoriedade do voto aumentaria a participação eleitoral, ou pelo menos a formalizaria. O texto descreve uma queda brutal na participação, o que é exatamente o oposto do que a obrigatoriedade causaria.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cidadania e Direitos Políticos no Brasil Imperial.
- Competência BNCC: Competência 6 - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar criticamente as relações de poder nas diferentes esferas da vida social (econômica, política, cultural etc.), suas transformações e os conflitos daí decorrentes, com base em referenciais oferecidos pelas Ciências Humanas.
Dica do Especialista
Questões sobre cidadania e participação política no ENEM frequentemente contrastam discursos de ampliação de direitos com práticas restritivas. Fique atento a reformas eleitorais (como a de 1881 e a de 1932) e seus critérios de inclusão/exclusão (censitário, de gênero, de alfabetização). Quando um texto apresentar um dado numérico de variação (aumento ou queda), busque na alternativa a causa histórica concreta que melhor se relaciona com a magnitude da mudança apresentada.
Questão 48 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Pela falta de chuvas, a geração de energia eólica, solar e térmica atingiu níveis recordes em agosto de 2021, quando as hidrelétricas ficaram com cerca de 50 por cento do total. Para um professor da Universidade Federal da Bahia, essa queda não é uma surpresa. "Não aconteceu de uma hora para outra. Se olharmos o mapa do Brasil, um dos grandes provedores de água é a Floresta Amazônica. Se você diminui a floresta, diminui a quantidade de água que vai para a atmosfera", explica.
De acordo com o texto, a dificuldade na produção de energia é causada pela alteração da(s)
ALTERNATIVAS: A) variável em pesquisas meteorológicas. B) paisagem em locais estratégicos. C) demandas em regiões industriais. D) metas em acordos climáticos. E) geologia em áreas naturais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto aborda um problema contemporâneo brasileiro: a crise hídrica e seu impacto na matriz energética. Ele estabelece uma relação de causa e efeito entre o desmatamento na Amazônia e a redução das chuvas, que, por sua vez, afeta a geração de energia hidrelétrica (a principal fonte do país). O comando da questão pede que o candidato identifique, de acordo com o texto, qual elemento foi alterado e causou a dificuldade na produção de energia. A chave está na fala do professor: a diminuição da floresta altera o ciclo da água. Essa "diminuição da floresta" é uma modificação profunda na cobertura vegetal original de uma área, ou seja, uma alteração da paisagem.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B.
A dificuldade na produção de energia hidrelétrica, conforme explicado no texto, tem como causa raiz o desmatamento ("Se você diminui a floresta"). O desmatamento é uma transformação radical da paisagem natural (floresta) em outra configuração (pastagem, agricultura, área urbana). Essa alteração da paisagem em um local estratégico para o regime de chuvas do país (a Amazônia) interrompe o ciclo da água, reduz a umidade na atmosfera e, consequentemente, as chuvas que abastecem os reservatórios das usinas.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [variável em pesquisas meteorológicas]: Esta alternativa incorre em um erro de causalidade invertida. O texto não diz que a alteração de uma variável de pesquisa causou o problema. Na verdade, as pesquisas meteorológicas medem e estudam variáveis (como umidade, precipitação) que foram alteradas pela ação humana (desmatamento). A causa é anterior e externa ao campo da pesquisa.
- C [demandas em regiões industriais]: Esta é uma alternativa fora do escopo do texto. O enunciado discute a oferta (produção) de energia, especificamente os problemas em sua geração. Não há qualquer menção a mudanças na demanda (consumo) por parte de setores industriais.
- D [metas em acordos climáticos]: Esta alternativa apresenta um anacronismo e uma extrapolação. O texto trata de um evento climático concreto (seca) e sua causa ambiental imediata (desmatamento). Não há referência a acordos, políticas ou metas internacionais. Introduzir esse elemento é ir além do que o texto oferece.
- E [geologia em áreas naturais]: Esta alternativa demonstra um erro conceitual grave. Geologia refere-se à estrutura, composição e processos internos da Terra (rochas, solos, tectônica). O texto claramente fala sobre a biosfera e a hidrosfera (floresta e ciclo da água). A alteração mencionada é biótica (vegetação), não geológica.
Identificação Pedagógica
- Tema: Questão Ambiental e Energética / Geografia Física e Humana.
- Competência BNCC: Competência 6 - "Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - "Analisar e avaliar os impactos socioambientais causados pela devastação de ambientes naturais, considerando os interesses políticos e socioeconômicos e os efeitos sobre a qualidade de vida das populações, para propor soluções sustentáveis que respeitem a diversidade sociocultural."
Dica do Especialista
Questões do ENEM que relacionam meio ambiente e sociedade frequentemente testam sua capacidade de identificar relações de causa e efeito explícitas no texto. Atenção aos conectivos de explicação ("pois", "devido a", "porque") e às citações de especialistas, que costumam conter a chave da resposta. Evite trazer conhecimento externo que não esteja respaldado pelo fragmento apresentado. Neste caso, a "paisagem" é um conceito geográfico amplo que abrange justamente a interação entre os elementos naturais e as intervenções humanas, sendo o termo mais adequado para descrever a transformação da floresta.
Questão 49 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
O futuro do capitalismo Paul Collier
Adam Smith via o açougueiro e o padeiro não só como indivíduos buscando seus interesses financeiros, mas como pessoas moralmente motivadas dentro de uma sociedade. A base da moral era a empatia e o julgamento, instaurando uma distinção entre o que queremos fazer e o que sentimos que devemos fazer.
O texto defende uma motivação capitalista para o campo dos negócios, na qual o lucro se mostra associado à
ALTERNATIVAS: A) consolidação do poder político. B) procura de satisfação subjetiva. C) estruturação do monopólio comercial. D) percepção de responsabilidade ética. E) conquista do reconhecimento público.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma visão do economista clássico Adam Smith, frequentemente associado à ideia do "interesse próprio" como motor da economia. No entanto, o autor Paul Collier resgata uma dimensão menos conhecida do pensamento de Smith: a motivação moral do indivíduo em sociedade. O trecho destaca que, para Smith, o açougueiro e o padeiro não agiam apenas por ganância, mas eram guiados por um senso de dever, empatia e julgamento moral. A questão pede para identificar, com base nessa interpretação, com o que o lucro está associado na "motivação capitalista" defendida pelo texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. O texto estabelece uma relação direta entre a busca pelo lucro (interesse financeiro) e a conduta moral. Ele afirma que a base da moral (empatia e julgamento) cria uma distinção entre o desejo pessoal ("o que queremos fazer") e o dever moral ("o que sentimos que devemos fazer"). Portanto, na visão apresentada, o lucro não é um fim amoral, mas está intrinsicamente ligado à percepção de responsabilidade ética do agente econômico perante a sociedade.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [consolidação do poder político]: Distrator por extrapolação. O texto não faz qualquer menção a relações de poder, Estado ou política. O foco está na motivação individual e moral dentro das transações econômicas cotidianas, não na esfera política.
- B [procura de satisfação subjetiva]: Distrator por reducionismo. Embora a satisfação subjetiva possa ser uma consequência, o texto vai além. Ele enfatiza um imperativo moral objetivo ("o que devemos fazer"), que é social e baseado em empatia, não um mero sentimento subjetivo e individualista de satisfação.
- C [estruturação do monopólio comercial]: Distrator por contradição/anacronismo. A imagem usada (açougueiro e padeiro) remete a uma economia de mercado competitiva e descentralizada, com pequenos produtores. Monopólio é uma estrutura que concentra o mercado, contradizendo o cenário plural descrito e não sendo citado no texto.
- E [conquista do reconhecimento público]: Distrator por extrapolação. O reconhecimento público pode ser um resultado de uma conduta ética, mas não é o cerne do argumento. O texto fala sobre a motivação interna ("sentimos que devemos"), baseada em empatia e julgamento, e não sobre uma busca externa por status ou reconhecimento.
Identificação Pedagógica
- Tema: Ética, Trabalho e Consumo / Pensamento Econômico Clássico
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS404 - Analisar as diferentes manifestações e intencionalidades da produção cultural, artística, histórica, filosófica e científica, em suas relações com os processos sociais, políticos e econômicos, desenvolvendo senso crítico.
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente trabalha com a desconstrução de ideias preconcebidas. Adam Smith é popularmente reduzido à "mão invisível" e ao interesse individual. Questões como esta buscam avaliar se você consegue captar nuances e interpretações mais complexas dos autores clássicos. Fique atento aos verbos e aos conceitos-chave do texto base. Aqui, termos como "moralmente motivadas", "empatia", "julgamento" e "devemos fazer" apontam diretamente para a esfera da ética e responsabilidade.
Questão 50 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Filosofia/Política)
Enunciado
Política Aristóteles
O corpo de cidadãos é o poder supremo dos Estados. A supremacia pode residir ou num homem, ou na minoria, ou em todos. Sempre que o Um, ou a Minoria, ou Todos governam, tendo em vista o bem-estar comum, essas constituições são justas; mas se procuram apenas o benefício de uma das partes, seja ela o Um, a Minoria ou Todos, estabelece-se um desvio.
No excerto encontra-se a base da teoria clássica das três formas de governo representadas pela
ALTERNATIVAS: A) tirania, oligarquia e república. B) burocracia, autarquia e império. C) ditadura, autocracia e anarquia. D) plutocracia, tecnocracia e demagogia. E) monarquia, aristocracia e democracia.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O excerto é da obra "Política", do filósofo grego Aristóteles. Nele, o autor estabelece sua famosa classificação das formas de governo, que se tornou um pilar da teoria política ocidental. A análise de Aristóteles parte de um critério quantitativo (quem detém o poder supremo: um, poucos ou muitos) e um critério qualitativo (a finalidade do governo: o bem comum ou o interesse privado).
O texto explicita perfeitamente esse raciocínio: 1. Supremacia em "um homem": Governo de um só. 2. Supremacia na "minoria": Governo de poucos. 3. Supremacia em "todos": Governo de muitos.
Em seguida, ele diferencia as formas "justas" (quando governam para o bem comum) das formas "desviadas" ou degeneradas (quando governam para o benefício próprio). A questão pede especificamente a identificação da base da teoria clássica, ou seja, os nomes das três formas de governo justas que correspondem àquele que governa (Um, Minoria, Todos).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A teoria clássica aristotélica, conforme descrita no texto, classifica as formas puras de governo da seguinte forma: * Governo de Um (visando o bem comum) = Monarquia * Governo de Poucos/Minoria (visando o bem comum) = Aristocracia (governo dos "melhores", no sentido ético e de virtude cívica). * Governo de Muitos/Todos (visando o bem comum) = Democracia (no sentido de governo do povo, que Aristóteles chamava de "politeia" ou constituição, sendo a democracia uma forma possível, mas que ele via com ressalvas).
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) Tirania, oligarquia e república.
- Erro: Esta alternativa mistura formas desviadas e uma forma geral. A tirania é a forma degenerada da monarquia (governo de um para seu próprio benefício). A oligarquia é a forma degenerada da aristocracia (governo de poucos para benefício dos ricos). O termo república (do latim res publica, "coisa pública") é um conceito mais amplo e posterior, associado a Roma e ao pensamento moderno, não correspondendo diretamente à tripartição clássica de Aristóteles para o governo de muitos.
-
B) Brocracia, autarquia e império.
- Erro: São termos que não se encaixam na classificação quantitativa de Aristóteles. Burocracia refere-se à administração por funcionários e regras. Autarquia pode significar auto-suficiência econômica ou, em direito, uma entidade administrativa com certa autonomia. Império é uma forma de organização política baseada na expansão territorial e domínio sobre outros povos. Nenhum deles é um termo central na tipologia aristotélica.
-
C) Ditadura, autocracia e anarquia.
- Erro: Novamente, temos uma mistura. Ditadura e autocracia são formas de governo concentrado no poder de um (sendo formas desviadas ou específicas), mas não correspondem ao termo "puro" (monarquia). A anarquia, por definição, é a ausência de governo ou Estado, o oposto do que Aristóteles está descrevendo, que são formas de organização do poder estatal.
-
D) Plutocracia, tecnocracia e demagogia.
- Erro: Esta alternativa lista formas específicas e geralmente vistas como desviadas ou especiais. Plutocracia é o governo dos ricos (uma espécie de oligarquia). Tecnocracia é o governo dos especialistas técnicos (conceito moderno). Demagogia não é uma forma de governo, mas uma prática política de apelo emocional ao povo, frequentemente associada à corrupção da democracia. Nenhuma delas é a nomenclatura clássica para as três formas puras.
Identificação Pedagógica
- Tema: Teoria Política Clássica; Formas de Governo; Filosofia Antiga.
- Competência BNCC: Competência 3 - "Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais."
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - "Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e com seus patrimônios culturais, materiais e imateriais, incluindo suas múltiplas determinações histórico-geográficas, políticas, econômicas, socioculturais, ambientais e científicas." (Aqui, aplica-se a parte de analisar instituições políticas e suas determinações histórico-filosóficas).
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente cobra a distinção entre os conceitos clássicos de política, especialmente a tipologia de Aristóteles. Memorize o esquema básico: * Formas Puras (Bem Comum): Um -> Monarquia | Poucos -> Aristocracia | Muitos -> Democracia/Politeia. * Formas Degeneradas (Interesse Próprio): Um -> Tirania | Poucos -> Oligarquia | Muitos -> Demagogia/Oclocracia. Fique atento para não confundir os nomes das formas puras com os das formas corruptas, que são distratores comuns.
Questão 51 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia / Atualidades)
Enunciado
Macedônia do Norte Acordo entra em vigor e país muda oficialmente de nome
Entrou em vigor, em 2019, o acordo que determina a mudança de nome da Macedônia para Macedônia do Norte. A troca põe fim - ao menos por enquanto - no impasse entre essa antiga república da Iugoslávia e a vizinha Grécia. O governo grego se opunha ao uso do nome Macedônia pelo novo país vizinho porque a Grécia tem uma província no norte com o mesmo nome. Por causa desse impasse, a Grécia bloqueou as negociações de adesão de seu vizinho à União Europeia. Depois de negociações, as duas partes chegaram a um acordo.
Para o país originado da antiga Iugoslávia, a mudança de nome é uma estratégia política para
ALTERNATIVAS: A) criar a moeda própria. B) proteger a cultura local. C) subjugar a minoria étnica. D) expandir o território nacional. E) intensificar a integração regional.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda um fato geopolítico recente: a mudança de nome da "República da Macedônia" para "República da Macedônia do Norte". O texto deixa claro que o impasse com a Grécia, que tem uma província homônima, era um obstáculo direto ao processo de integração do país à União Europeia (bloqueio grego às negociações de adesão). Portanto, o comando da questão pede que se identifique o objetivo político estratégico por trás da concessão feita pelo país ao aceitar mudar seu nome. A resposta deve ser extraída diretamente da relação de causa e efeito apresentada no texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A mudança de nome foi uma concessão direta para resolver o conflito diplomático com a Grécia. Como o texto afirma, esse conflito era a razão pela qual a Grécia "bloqueou as negociações de adesão de seu vizinho à União Europeia". Ao aceitar a mudança para "Macedônia do Norte", o país remove esse veto, permitindo que avance nas negociações para se tornar um membro da UE. Esse é o exemplo clássico de uma estratégia para intensificar a integração regional (no caso, a integração ao bloco europeu).
Análise das Alternativas Incorretas
- A) criar a moeda própria.: Extrapolação / Falta de relação com o texto. A criação de uma moeda própria não é mencionada e não tem conexão lógica com a disputa de nomes. Pelo contrário, a integração à União Europeia poderia levar à adoção do Euro no futuro.
- B) proteger a cultura local.: Reducionismo / Contradição. A mudança de nome, na verdade, pode ser vista por setores nacionalistas do país como uma concessão que afeta a identidade cultural ligada ao nome "Macedônia". O texto não menciona proteção cultural; o foco é a resolução de um impasse diplomático para um objetivo político maior.
- C) subjugar a minoria étnica.: Anacronismo / Falta de fundamento. A questão trata de relações diplomáticas entre Estados (Macedônia do Norte e Grécia), não de políticas internas de tratamento a minorias. Não há qualquer menção a conflitos étnicos internos no enunciado.
- D) expandir o território nacional.: Contradição / Interpretação equivocada. Aceitar mudar o nome é um ato de conciliação e reconhecimento das preocupações do vizinho, não uma estratégia de expansão territorial. A expansão territorial seria agressiva e iria contra o espírito do acordo descrito.
Identificação Pedagógica
- Tema: Geopolítica, Integração Regional e Conflitos Diplomáticos.
- Competência BNCC: Competência 6 - "Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS601 - "Analisar e avaliar criticamente as relações de poder entre as nações, seus desdobramentos e as tensões permanentes entre as soberanias nacionais e os organismos multilaterais, desenvolvendo argumentação consistente."
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre geopolítica frequentemente testam sua capacidade de identificar a relação de causa e consequência em conflitos internacionais. Fique atento a palavras-chave como "impasse", "bloqueou", "negociações" e "acordo". Elas sinalizam um problema e sua solução. A resposta correta geralmente está diretamente ligada à consequência lógica da ação tomada, como descrita no texto. Neste caso: Impasse (nome) -> Consequência (bloqueio à UE) -> Solução (mudança de nome) -> Objetivo Final (superar o bloqueio e integrar-se).
Questão 52 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia)
Enunciado
Descrição do mapa: Intitulado Concentração de CO2 por queimadas entre África e Brasil em 30 de agosto de 2019, o mapa apresenta, a partir de imagens de satélite, a concentração de CO2, em partes por bilhão de volume, representada por uma grande mancha que cobre parte do continente americano, Oceano Atlântico e continente africano. As cores da legenda indicam que a maior concentração de CO2 está no centro-norte do Brasil e no centro-sul do continente africano.
A dispersão espacial do problema ambiental representado na imagem de satélite é explicada pela seguinte característica geográfica:
Alternativas: A) Amplitude das temperaturas médias. B) Homogeneidade da insolação anual. C) Ocorrência de chuvas de relevo. D) Circulação de massas de ar. E) Ausência de frentes frias.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda um problema ambiental contemporâneo e global: a emissão e dispersão de dióxido de carbono (CO₂) proveniente de queimadas. A imagem de satélite mostra uma mancha contínua de alta concentração do gás, conectando duas regiões distintas (Brasil e África) através do Oceano Atlântico. O comando pede a característica geográfica que explica essa dispersão espacial, ou seja, o mecanismo físico que permite que o poluente gerado em pontos específicos se espalhe por uma área tão vasta, cruzando inclusive um oceano. A chave está em entender a dinâmica da atmosfera.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) Circulação de massas de ar.
A dispersão de poluentes na atmosfera, especialmente em escala continental e intercontinental, é um fenômeno diretamente controlado pelos ventos e pelos sistemas de circulação atmosférica. As massas de ar em movimento atuam como um "transportador" dos gases e partículas. No caso específico, os ventos alísios (que sopram de leste para oeste nos trópicos) e outros sistemas de circulação podem carrear a fumaça e os gases das queimadas da África em direção ao Brasil, sobre o Atlântico, e vice-versa, explicando a formação da grande mancha contínua observada no mapa.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Amplitude das temperaturas médias: Este distrator se refere à diferença entre as temperaturas mais altas e mais baixas. Embora a temperatura influencie a formação de correntes de convecção local, ela não é o mecanismo primário para explicar a dispersão espacial horizontal em larga escala observada no mapa. É um conceito relacionado ao clima, mas não ao transporte atmosférico.
- B) Homogeneidade da insolação anual: A insolação (quantidade de radiação solar) pode ser relativamente homogênea nas regiões tropicais, onde ocorrem as queimadas. No entanto, essa homogeneidade é um fator estático que explica a disponibilidade de energia, não o movimento dinâmico que dispersa os poluentes. É uma condição de fundo, não o agente transportador.
- C) Ocorrência de chuvas de relevo: As chuvas orográficas (ou de relevo) são fenômenos locais, causados pelo deslocamento do ar sobre uma barreira montanhosa. Elas estão associadas à precipitação e à retenção de umidade/partículas, não à dispersão de gases por longas distâncias sobre o oceano. É um conceito geográfico específico e localizado, incompatível com a escala continental da imagem.
- E) Ausência de frentes frias: A ausência de um fenômeno meteorológico não explica, por si só, a ocorrência de outro. As frentes frias são sistemas que promovem a renovação e mistura do ar, podendo até dispersar poluentes de forma diferente. Sua "ausência" poderia indicar uma situação de estagnação do ar em algumas regiões, mas não esclarece o mecanismo ativo de transporte que conecta dois continentes. É uma afirmação negativa e vaga que não responde ao comando da questão.
Identificação Pedagógica
- Tema: Dinâmica da Atmosfera e Problemas Ambientais Globais.
- Competência BNCC: Competência 6 - Construir argumentos com base em informações geográficas, debater e defender ideias e pontos de vista que respeitem e promovam a consciência socioambiental e o respeito à biodiversidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar os impactos socioambientais causados pela exploração de recursos naturais, considerando o contexto histórico e geográfico.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que envolvem imagens de satélite, mapas temáticos ou gráficos frequentemente testam sua habilidade de relacionar um padrão espacial visível (como uma mancha de poluição) com um processo geográfico ou físico subjacente. Quando o comando pede a "explicação" para uma dispersão, distribuição ou deslocamento, pense imediatamente em conceitos dinâmicos: correntes marítimas, circulação atmosférica, fluxos migratórios, rotas de transporte. Evite alternativas que descrevam apenas condições estáticas ou locais.
Questão 53 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Filosofia
Enunciado
Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral David Hume
A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador, e o descaramento deste conquista-lhes a credulidade. A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.
No contexto do século 18, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência, restringindo-a ao
ALTERNATIVAS: A) sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento. B) campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais. C) domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos. D) paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método. E) âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de David Hume, filósofo empirista do século XVIII, critica a eloquência quando esta atinge seu ponto máximo. Ele argumenta que, nesse estado, ela não opera pelo campo da razão ou da reflexão lógica, mas sim por meio da imaginação e dos afetos (emoções/sentimentos). Seu objetivo é cativar e subjugar o entendimento do ouvinte, tornando-o condescendente. A questão pede para identificar, no contexto do século XVIII, a que âmbito Hume restringe essa arte da eloquência, com base na crítica apresentada. A chave está em associar a crítica de Hume (eloquência que manipula afetos) a uma tradição filosófica histórica que via a retórica/eloquência de forma similar.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. David Hume, em sua crítica, restringe a eloquência ao âmbito da persuasão, que opera pela emoção e não pela razão. Esta visão é diretamente análoga às críticas que Platão, na Grécia Antiga, dirigia aos sofistas. Platão acusava os sofistas de usarem a retórica (arte da persuasão) não para buscar a verdade, mas para manipular as opiniões da multidão através de discursos emocionais e aparentemente convincentes, em detrimento do conhecimento racional (dialética).
Análise das Alternativas Incorretas
- A) sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.: Erro por Anacronismo e Contradição. Immanuel Kant era um filósofo contemporâneo de Hume (século XVIII), mas sua proposta de objetividade do conhecimento, centrada na razão pura e nos juízos sintéticos a priori, é oposta à ideia de uma eloquência que subjuga o entendimento através dos afetos. Associar Hume a Kant neste contexto é incorreto.
- B) campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.: Erro por Reducionismo e Descontextualização. A filosofia medieval, com sua discussão sobre os Universais (conceitos gerais), operava em um campo metafísico e teológico de verdades absolutas reveladas ou deduzidas. A crítica de Hume à eloquência é sobre a psicologia da persuasão e não sobre a ontologia dos absolutos.
- C) domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.: Erro por Contradição Direta. O texto de Hume afirma explicitamente que a eloquência em seu ápice "deixa pouco lugar à razão ou à reflexão". Aristóteles, em seus Analíticos, tratava precisamente do domínio da lógica formal (silogismos) e do conhecimento científico. Associar a eloquência humeana à lógica aristotélica vai diretamente contra o argumento do autor.
- D) paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.: Erro por Contradição Direta. René Descartes (século XVII) é um ícone do racionalismo moderno, cujo método buscava a certeza através da dúvida metódica e da razão clara e distinta. A eloquência descrita por Hume, que "subjuga o entendimento" através dos afetos, é a antítese do projeto racionalista cartesiano.
Identificação Pedagógica
- Tema: Filosofia Moderna, Crítica à Retórica, Empirismo.
- Competência BNCC: Competência 3 - "Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas".
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - "Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias e mobilizar esses conhecimentos para formular e sustentar argumentos, contra-argumentos e proposições de ação."
Dica do Especialista
Questões de filosofia no ENEM frequentemente pedem para você relacionar um excerto de um autor a uma escola de pensamento ou crítica histórica. Preste atenção nas palavras-chave do texto. Aqui, "imaginação", "afetos", "cativar", "subjugar o entendimento" apontam para uma crítica ao poder irracional da persuasão. Ao ler as alternativas, busque a que melhor casa com essa ideia, descartando aquelas que associam o conceito à razão, lógica ou sistemas objetivos de conhecimento (como as de Descartes, Kant ou Aristóteles). A analogia histórica (Platão vs. Sofistas) é um recurso comum para contextualizar críticas filosóficas.
Questão 54 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / História
Enunciado
Não há consenso em torno do nome dado à pandemia, tendo, desde o seu início, sido chamada de gripe espanhola provavelmente por causa da desinformação em torno da notícia sobre sua origem. Uma das hipóteses deriva da neutralidade espanhola na Primeira Guerra Mundial e a consequente liberdade de imprensa naquele país, maior do que nos demais países envolvidos no conflito. Hoje existe o consenso entre virologistas e epidemiologistas de que o vírus da gripe não se originou na Espanha. Entretanto, dificilmente essa pandemia deixará de ser conhecida como gripe espanhola.
De acordo com o texto, a denominação recebida pela pandemia do começo do século 20 foi determinada pelo(a)
ALTERNATIVAS: A) precariedade dos conhecimentos da medicina militar. B) retaliação da tríplice aliança aos soldados desertores. C) controle dos relatos oriundos de campos de batalha. D) emprego de armas biológicas em confrontos transnacionais. E) circulação de refugiados contaminados em áreas conflagradas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a pandemia de 1918, popularmente conhecida como "Gripe Espanhola", inserindo-a no contexto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O texto-base estabelece uma relação causal clara: a denominação "espanhola" não se deve à origem geográfica real do vírus, mas a um fator político-comunicacional. A Espanha, por ser neutra no conflito, não estava sujeita à censura de guerra rigorosa que imperava nas nações beligerantes. Portanto, a imprensa espanhola pôde noticiar livremente os surtos da doença, criando a falsa impressão de que o país era o epicentro ou o local de origem da pandemia. O comando da questão pede que se identifique, de acordo com o texto, o fator determinante para esse nome.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. O texto afirma explicitamente que a "liberdade de imprensa" na Espanha neutra foi maior do que nos países em guerra, onde havia "controle" sobre as notícias. Esse controle da informação oriunda dos campos de batalha (e, por extensão, dos países envolvidos) fez com que a doença fosse associada ao país que mais a noticiava: a Espanha.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [precariedade dos conhecimentos da medicina militar]: Distrator por extrapolação. Embora a medicina da época fosse menos desenvolvida, o texto não atribui a denominação a esse fator. O foco está na circulação da informação, não no estado do conhecimento médico.
- B [retaliação da tríplice aliança aos soldados desertores]: Distrator por invenção/anacronismo. O texto não menciona qualquer ação de retaliação contra desertores, nem a Tríplice Aliança (que, no contexto da 1ª Guerra, se refere à Alemanha, Áustria-Hungria e Itália – que mudou de lado). É uma informação que não tem relação com a argumentação apresentada.
- D [emprego de armas biológicas em confrontos transnacionais]: Distrator por extrapolação e invenção. A questão das armas biológicas, embora seja um tema histórico, não é mencionada no texto. A origem da denominação, conforme o autor, está na desinformação midiática, não em táticas de guerra.
- E [circulação de refugiados contaminados em áreas conflagradas]: Distrator por reducionismo e extrapolação. Embora a movimentação de pessoas (soldados, refugiados) tenha sido crucial para a disseminação global do vírus, o texto não aponta isso como a causa do nome "gripe espanhola". A causa, reafirmada, é a associação midiática devido à liberdade de imprensa na Espanha.
Identificação Pedagógica
- Tema: História / Produção e Circulação da Informação.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos para diferentes finalidades, com diferentes gêneros e mídias. (Ou Competência 4 (Área de Humanas) - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no tempo e no espaço).
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, reconhecendo nesses discursos a presença de posicionamentos. (Ou Habilidade EM13CHS101 - Analisar processos políticos, econômicos, sociais e culturais, suas contradições e conflitos, identificando ou propondo soluções.)
Dica do Especialista
Questões do ENEM que misturam História e interpretação de texto frequentemente testam sua capacidade de não levar "conhecimento prévio" para além do que o texto autoriza. Mesmo que você saiba outros fatos sobre a Gripe Espanhola, a resposta deve estar estritamente ancorada na argumentação do fragmento fornecido. Fique atento a conectivos como "devido a", "consequente", "deriva de" – eles indicam a relação de causalidade que a questão está pedindo para identificar.
Questão 55 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História / Sociologia)
Enunciado
TEXTO 1 A partir do século 4, com os imperadores ditos cristãos, o teatro e a dança foram condenados. O batismo era recusado aos que atuavam no circo ou na pantomima. E em 398, no Concílio de Cartago, os que iam ao teatro nos dias santos foram excomungados.
TEXTO 2 A dança no ato litúrgico cumpre tanto um papel de adoração quanto mercadológico. Não à toa há aceitação, expansão e investimento nessa prática percebida massivamente pela ampla divulgação principalmente nas redes sociais. A expansão e ampliação por via de festivais, aulas, cursos, palestras etc. consolida a criação de um mercado específico para esse público.
A percepção sobre a dança e a cultura corporal apresenta aspectos relacionados, respectivamente, a
ALTERNATIVAS: A) segregação social e intolerância eclesiástica. B) rituais eucarísticos e sacramentos da Igreja. C) transe individual e progresso intelectual. D) penitência pessoal e juramento coletivo. E) dogmatismo religioso e adesão de fiéis.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão trabalha com a mudança histórica da percepção sobre a dança no contexto religioso cristão. O Texto 1 descreve um momento de condenação e proibição no início da cristandade (século IV), onde práticas corporais como o teatro e a dança eram vistas como profanas e passíveis de punição eclesiástica (excomunhão). Já o Texto 2 descreve a realidade contemporânea, onde a dança litúrgica é aceita, divulgada e mercantilizada, servindo tanto à adoração quanto à criação de um nicho de mercado. O comando pede que se identifiquem os aspectos centrais relacionados à dança em cada um desses contextos históricos distintos.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E) dogmatismo religioso e adesão de fiéis. * Para o Texto 1 (século IV): A condenação e a recusa do batismo a artistas refletem um dogmatismo religioso. A Igreja, em sua fase de consolidação, estabelecia regras rígidas (dogmas) sobre o que era aceitável, classificando a dança e o teatro como práticas contrárias à moral cristã. * Para o Texto 2 (atualidade): A descrição de "aceitação, expansão, investimento" e a criação de um "mercado específico" apontam claramente para um fenômeno de adesão de fiéis. A prática não só é tolerada como é promovida e consumida por um público religioso, indicando sua popularidade e integração.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) segregação social e intolerância eclesiástica: O erro principal é a redundância e o deslocamento conceitual. O Texto 1 de fato mostra uma "intolerância eclesiástica", mas esse conceito está contido de forma mais precisa no termo "dogmatismo". Já "segregação social" extrapola o texto, que foca na condenação religiosa, não em um sistema de separação social estruturado.
- B) rituais eucarísticos e sacramentos da Igreja: Esta alternativa comete um anacronismo e uma inversão de valores. O Texto 1 não descreve a dança como parte dos rituais, mas como algo excluído deles. O Texto 2 fala em "ato litúrgico", mas o aspecto destacado é o mercadológico, não os sacramentos em si.
- C) transe individual e progresso intelectual: Apresenta uma leitura reducionista e desconectada dos textos. Nenhum dos textos menciona "transe" ou "progresso intelectual". O foco do Texto 1 é a proibição normativa, e do Texto 2, a aceitação e mercantilização.
- D) penitência pessoal e juramento coletivo: É uma alternativa que não encontra respaldo nos textos. A excomunhão (Texto 1) é uma pena, não uma penitência assumida pessoalmente. O Texto 2 não faz qualquer menção a juramentos, coletivos ou individuais.
Identificação Pedagógica
- Tema: Mudanças Históricas nas Relações entre Cultura, Corpo e Religião.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Ciências Humanas) - "Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais."
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - "Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e com seu patrimônio cultural, material e imaterial, no tempo e no espaço."
Dica do Especialista
Questões do ENEM que utilizam dois textos de épocas diferentes costumam pedir a identificação do contraste ou da transformação histórica entre eles. Foque no núcleo do argumento de cada texto: o primeiro fala em "condenação" e "excomunhão" (controle dogmático), o segundo em "aceitação, expansão e investimento" (adesão e mercado). Elimine alternativas que usem termos não presentes ou que atribuam intenções não explicitadas.
Questão 56 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia)
Enunciado
A ideia de êxodo urbano assume ares caricaturais. Pega a mais reduzida parte da pirâmide social e projeta para todos seus desejos defensivos. Se o êxodo urbano for compreendido como aquisição de uma segunda residência, então não estamos, de fato, falando de êxodo, mas da reversão de um excedente de renda de uma pequena fração da elite para as franjas metropolitanas. Se o êxodo urbano for compreendido como retorno aos municípios menos povoados, então não estamos, de fato, falando de êxodo urbano, mas de um movimento de migração de pessoas cuja estabilidade no emprego e a elevada renda lhes permitem simular, nas ilhas urbanas do interior agropecuário, a vida urbana metropolitana.
A crítica apresentada no texto evidencia uma dinâmica socioespacial marcada pela
ALTERNATIVAS: A) valorização de tradições rurais. B) redução de plantações agrícolas. C) estagnação de atividades comerciais. D) precariedade de infraestruturas rodoviárias. E) seletividade de deslocamentos populacionais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto discute criticamente a noção de "êxodo urbano", que popularmente se refere a um movimento massivo de saída das grandes cidades. O autor desmonta essa ideia, argumentando que o que se observa não é um fenômeno generalizado, mas sim movimentos específicos de grupos sociais privilegiados. Ele destaca dois cenários: 1) a compra de segunda residência por uma elite, que reinveste seu excedente de renda nas periferias metropolitanas; e 2) a migração para cidades do interior por pessoas com alta renda e estabilidade, que recriam nelas um estilo de vida urbano metropolitano. Portanto, a dinâmica socioespacial criticada é aquela em que os movimentos populacionais são seletivos, restritos a uma pequena parcela da população com alto poder aquisitivo, e não representam uma fuga generalizada das cidades.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. O texto evidencia que os chamados movimentos de "êxodo urbano" são, na realidade, processos seletivos, acessíveis apenas a uma elite com alta renda e estabilidade, que busca segunda residência ou recria a vida metropolitana em cidades do interior. A dinâmica é marcada pela seletividade desses deslocamentos.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [valorização de tradições rurais]: Distrator por extrapolação. O texto não menciona qualquer resgate ou valorização de modos de vida, cultura ou tradições rurais. Pelo contrário, fala em "simular a vida urbana metropolitana" no interior, indicando uma importação do estilo de vida da cidade, não uma adesão ao rural.
- B [redução de plantações agrícolas]: Distrator por introdução de elemento externo. A questão trata de dinâmicas de população e habitação, não de mudanças no uso do solo ou na produção agropecuária. Não há no texto qualquer menção a plantações ou atividades agrícolas.
- C [estagnação de atividades comerciais]: Distrator por contradição. O texto descreve um movimento de pessoas com "elevada renda" para o interior, o que, em tese, poderia dinamizar a economia local, não estagná-la. Além disso, o comando da questão pede a dinâmica evidenciada pelo texto, e a estagnação comercial não é citada.
- D [precariedade de infraestruturas rodoviárias]: Distrator por introdução de elemento externo. Assim como a alternativa B, este item traz um tema (infraestrutura de transportes) que não é abordado nem é necessário para a crítica central do texto sobre a seletividade dos movimentos migratórios.
Identificação Pedagógica
- Tema: Dinâmicas Urbanas e Rurais, Mobilidade Espacial e Desigualdade Social.
- Competência BNCC: Competência 6 - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e promovam a consciência e a responsabilidade socioambiental.
Dica do Especialista
Fique atento a questões de Geografia Humana que discutem conceitos populares (como "êxodo urbano"). O ENEM frequentemente pede que você desconstrua noções simplistas, identificando os recortes de classe, renda ou poder que explicam a realidade de forma mais complexa. Palavras como "elite", "pequena fração", "estabilidade no emprego" e "elevada renda" são pistas claras de que a questão aborda desigualdade socioeconômica como fator estruturante da dinâmica espacial.
Questão 57 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Vigiar e punir Michel Foucault
A "invenção" dessa nova anatomia política não deve ser entendida como uma descoberta súbita. Mas como uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que se recordam, que se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros e esboçam aos poucos a fachada de um método geral. Encontramo-los em funcionamento nos colégios, muito cedo; mais tarde, nas escolas primárias, no espaço hospitalar e na organização militar.
O texto indica o seguinte aspecto da disciplina como ferramenta política:
Alternativas: A) Expansão das técnicas de suplício. B) Judicialização das relações de poder. C) Dissolução das distinções de nobreza. D) Capilarização das práticas de controle. E) Espetacularização das medidas de penitência.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um trecho da obra "Vigiar e Punir", do filósofo Michel Foucault. Nesta obra, Foucault analisa a transição histórica de um poder soberano, baseado no castigo físico espetacular (suplício), para um poder disciplinar, que atua de forma difusa, contínua e minuciosa sobre os corpos e os comportamentos. O trecho fornecido descreve justamente a natureza dessa nova "anatomia política" (o poder disciplinar). A questão pede para identificar, com base no texto, um aspecto central da disciplina como ferramenta política.
A chave está em compreender os termos usados por Foucault: a disciplina não surge de uma "descoberta súbita", mas de uma "multiplicidade de processos muitas vezes mínimos" que se espalham por locais diversos (colégios, escolas, hospitais, exército) e vão, aos poucos, formando um "método geral". Isso descreve um processo de dispersão e infiltração do controle em todas as esferas da vida social.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D.
A opção D utiliza o termo "capilarização", que é uma metáfora biológica perfeita para o processo descrito por Foucault. Assim como os capilares são vasos sanguíneos finíssimos que levam nutrientes a cada célula do corpo, a disciplina "capilariza" o controle, levando-o aos mínimos detalhes e aos mais diversos espaços da sociedade (escola, hospital, quartel). O texto fala em "processos mínimos", "origens diferentes", "localizações esparsas" e sua atuação em instituições variadas, o que é a própria definição de uma prática de controle capilarizada, ou seja, que se ramifica e penetra em todos os níveis do tecido social.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) Expansão das técnicas de suplício. Erro: Anacronismo/Contradição. O suplício refere-se ao castigo físico brutal e público, característico do poder soberano que Foucault contrasta com o poder disciplinar. O texto descreve justamente o oposto do suplício: processos mínimos, não-espetaculares e difusos. Portanto, esta alternativa descreve o modelo de poder que está sendo superado, não o aspecto da disciplina apresentado no fragmento.
-
B) Judicialização das relações de poder. Erro: Extrapolação/Reducionismo. O texto não menciona tribunais, leis ou processos judiciais. A disciplina, para Foucault, opera muitas vezes à margem ou de forma paralela ao sistema judicial formal. Ela age por meio de regulamentos internos, vigilância, normalização e correção contínua, não necessariamente por meio de uma "judicialização". A alternativa projeta um conceito que não está presente na passagem.
-
C) Dissolução das distinções de nobreza. Erro: Extrapolação. Embora a sociedade disciplinar possa, em seus efeitos de longo prazo, contribuir para mudanças na estrutura social, este não é o foco do trecho. O texto trata especificamente dos mecanismos do controle (processos mínimos e sua dispersão), não das consequências sociais relacionadas ao status ou hierarquia tradicional. É uma leitura que vai além do que o texto oferece.
-
E) Espetacularização das medidas de penitência. Erro: Contradição/Anacronismo. Assim como a alternativa A, esta descreve a lógica do poder soberano anterior. A "espetacularização" (tornar espetáculo público) é o antípoda da disciplina, que age de forma silenciosa, constante e invisível. O texto enfatiza processos "mínimos" e sua atuação em instituições fechadas, o que é o oposto de uma penitência espetacular.
Identificação Pedagógica
- Tema: Poder, Estado e Controle Social na Modernidade.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar e avaliar os impactos das transformações da sociedade contemporânea (revoluções industriais, urbanização, formação do Estado nacional, imperialismo, globalização etc.) sobre as formas de organização do trabalho e da vida social e política.
Dica do Especialista
Questões sobre Foucault no ENEM frequentemente exploram o contraste entre o poder soberano (centralizado, violento, espetacular) e o poder disciplinar (difuso, contínuo, normalizador). Quando o texto mencionar "vigilância", "controle dos corpos", "processos mínimos", "instituições totais" (escola, prisão, hospital) ou "normalização", a resposta provavelmente estará relacionada à internalização do controle, à disciplina ou ao biopoder. Fique atento a termos como "capilarização", "disseminação" e "microfísica do poder", que são centrais para descrever o funcionamento da disciplina na visão foucaultiana.
Questão 58 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Geografia
Enunciado
Por séculos, o Rio Reno tem sido uma rota de navegação confiável, ajudando a criar gigantes fabris ao longo de suas margens. No entanto, esses dias parecem estar no fim, pois o nível da água tem diminuído regularmente, o que impede a navegação fluvial do final do verão até o outono. Isso mostra como a crise climática atinge as economias dos países ricos.
Qual é o efeito econômico do problema ambiental apresentado no texto? ALTERNATIVAS: A) Supressão da extração de minério. B) Intensificação da atividade de pesca. C) Encarecimento da logística de transporte. D) Inviabilização da agricultura de subsistência. E) Sucateamento da indústria de transformação.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um problema ambiental concreto (diminuição do nível de água do Rio Reno, ligado à crise climática) e seu impacto direto em uma atividade econômica específica: a navegação fluvial. O Reno é historicamente uma importante via de transporte para cargas, conectando regiões industriais da Europa. O comando da questão pede para identificar o efeito econômico decorrente desse problema. A lógica é: menos água = navegação impedida = problemas no transporte de mercadorias. Precisamos encontrar a alternativa que traduza essa consequência em um termo econômico válido.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) Encarecimento da logística de transporte. O texto é explícito ao afirmar que a navegação é impedida por um longo período ("do final do verão até o outono"). Quando uma rota de transporte principal fica inoperante, as empresas precisam buscar alternativas, como transporte rodoviário ou ferroviário, que geralmente são mais caras e menos eficientes para grandes volumes. Esse custo adicional na movimentação de insumos e produtos é um encarecimento direto da logística, impactando toda a cadeia produtiva que depende do rio.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Supressão da extração de minério.: Distrator por extrapolação. O texto menciona "gigantes fabris", o que pode remeter à indústria que utiliza minérios, mas em nenhum momento cita a extração mineral como atividade impactada. O foco é exclusivamente na navegação.
- B) Intensificação da atividade de pesca.: Distrator por contradição lógica. A diminuição do nível de um rio, especialmente um altamente industrializado e navegável como o Reno, é uma condição ambiental adversa que normalmente prejudica os ecossistemas aquáticos e, por consequência, a pesca, não a intensifica.
- D) Inviabilização da agricultura de subsistência.: Distrator por anacronismo e reducionismo. A agricultura de subsistência é um modelo típico de economias menos desenvolvidas ou de comunidades tradicionais. O texto se refere a "gigantes fabris" e "economias dos países ricos" da Europa, um contexto de agricultura moderna, intensiva e comercial, não de subsistência.
- E) Sucateamento da indústria de transformação.: Distrator por exagero (reducionismo catastrófico). Embora a indústria de transformação (que transforma matéria-prima em produtos) possa ser seriamente afetada pelo aumento dos custos de transporte, o termo "sucateamento" implica em uma paralisação total e abandono, uma consequência muito mais grave e definitiva do que a sugerida pelo texto. O problema é apresentado como sazonal ("final do verão até o outono"), causando dificuldades e custos adicionais, mas não necessariamente o colapso total da indústria.
Identificação Pedagógica
- Tema: Impactos Socioeconômicos das Mudanças Ambientais / Logística e Transporte.
- Competência BNCC: Competência 6 - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
- Habilidade BNCC: EM13CHS603 - Analisar e avaliar os impactos das mudanças climáticas e ambientais nas dinâmicas sociais, econômicas e culturais, em diferentes escalas (local, regional, nacional e global), para propor ações que contribuam para a sustentabilidade.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que relacionam ambiente e economia frequentemente testam sua capacidade de fazer uma inferência direta e lógica, evitando conclusões extremas ou que saiam do escopo do texto. Aqui, a chave foi conectar: problema ambiental (seca) -> impacto imediato (navegação bloqueada) -> consequência econômica (aumento de custos de transporte). Fique atento aos verbos: "impede a navegação" é a ação-chave que gera todos os efeitos econômicos subsequentes.
Questão 59 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Descrição da pintura: Intitulada La piazetta, a pintura em óleo sobre tela, de Luca Carlevaris (1729), retrata uma cena em uma praça em frente a um prédio com características da arquitetura renascentista. À esquerda da cena, há dois homens com vestes árabes, e à direita, duas pessoas sentadas em volta de uma mesa com livros. Uma delas, sentada com pernas cruzadas, lê um dos livros, enquanto muitas outras pessoas transitam pela praça. (Fim da descrição)
TEXTO 2 O tempo do mundo Fernand Braudel
Antigo centro da economia mundo-europeia do século 15, no final do século 17 e início do século 18, Veneza ainda era uma cidade cosmopolita onde orientais podiam sentir-se em casa.
Qual elemento da condição cosmopolita de Veneza na Idade Moderna está explicitado nos textos?
ALTERNATIVAS: A) Avanço do ensino laico. B) Conquista das terras da América. C) Integração do comércio mediterrâneo. D) Popularização do pensamento humanista. E) Desenvolvimento das corporações de ofício.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão avalia a compreensão do candidato sobre o conceito de "cosmopolitismo" no contexto da Idade Moderna, especificamente em relação à cidade de Veneza. O cosmopolitismo refere-se à característica de um local que atrai e acolhe pessoas de diversas origens, culturas e etnias, promovendo uma convivência plural. O Texto 1 (descrição da pintura) fornece uma evidência visual dessa pluralidade: a presença de "dois homens com vestes árabes" em uma praça pública veneziana. O Texto 2, do historiador Fernand Braudel, confirma essa condição, afirmando que Veneza era um local onde "orientais podiam sentir-se em casa". A chave para resolver a questão é identificar, entre as alternativas, qual fator histórico explica essa presença e integração de pessoas de origens diversas, especialmente "orientais", em Veneza.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) Integração do comércio mediterrâneo.
A presença de pessoas com vestes árabes (orientais) no coração de Veneza, conforme retratado na pintura e confirmado pelo texto de Braudel, é uma consequência direta da posição estratégica de Veneza no comércio marítimo do Mar Mediterrâneo. Durante a Idade Moderna, Veneza era uma potência mercantil cuja riqueza e cosmopolitismo eram sustentados por suas rotas comerciais que conectavam a Europa ao Oriente Médio, Norte da África e Ásia. A "integração do comércio mediterrâneo" é, portanto, o elemento estrutural que permitia o fluxo constante de mercadores, diplomatas, artesãos e viajantes de diversas culturas, fazendo da cidade um espaço cosmopolita.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Avanço do ensino laico.: Distrator por extrapolação e anacronismo. A cena descreve pessoas lendo livros em uma praça, o que pode remeter à ideia de educação ou conhecimento. No entanto, a questão central é o cosmopolitismo (presença de estrangeiros). Além disso, o "ensino laico" como um avanço sistemático é mais associado a processos posteriores, como o Iluminismo, e não é o fator explicativo para a presença de árabes em Veneza no período.
- B) Conquista das terras da América.: Distrator por contradição e deslocamento geográfico. As conquistas americanas foram protagonizadas principalmente por potências do Atlântico (Espanha, Portugal, Inglaterra, França). Veneza, cujo poder estava centrado no Mediterrâneo, teve participação insignificante nesse processo. Esta alternativa não tem qualquer relação com a presença de orientais na cidade, que é o cerne da questão.
- D) Popularização do pensamento humanista.: Distrator por extrapolação. O Humanismo foi um movimento intelectual e cultural importante no Renascimento, do qual Veneza foi um centro. Embora possa ter contribuído para uma atmosfera de relativa abertura intelectual, não é o elemento mais diretamente responsável pela presença física e pela sensação de "casa" para os orientais mencionada por Braudel. O fator material e econômico (o comércio) é mais imediato e explícito.
- E) Desenvolvimento das corporações de ofício.: Distrator por reducionismo. As corporações de ofício (associações de artesãos) eram importantes na estrutura econômica e social das cidades medievais e modernas. No entanto, elas estavam mais relacionadas à organização do trabalho e ao controle da produção local, não sendo a causa principal do caráter cosmopolita e da integração com outras culturas que a questão aborda.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cosmopolitismo e Comércio na Idade Moderna / O Mundo do Trabalho e as Dinâmicas Sociais.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar diferentes fluxos populacionais e suas contribuições para a formação da sociedade brasileira, em diferentes escalas e tempos, e os fatores que determinam os deslocamentos para o Brasil e no seu território (embora a questão seja sobre Veneza, a habilidade de analisar fluxos e integração é a mesma).
Dica do Especialista
No ENEM, questões que trazem um documento iconográfico (pintura, charge, foto) associado a um fragmento textual costumam pedir que você encontre a intersecção entre as informações de ambos. Não se prenda a detalhes secundários de um só texto. Aqui, a pintura mostrou a evidência visual do cosmopolitismo (homens de vestes árabes), e o texto de Braudel deu a chave interpretativa ("onde orientais podiam sentir-se em casa"). Sua tarefa foi buscar, nas alternativas, o fator histórico que explica essa realidade. Fique atento: o comando da questão, "elemento [...] explicitado nos textos", pede que a resposta esteja diretamente ligada às informações fornecidas, não a um conhecimento externo desconectado.
Questão 60 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Filosofia
Enunciado
Força de lei Jacques Derrida
O direito não é a justiça. O direito é o elemento do cálculo, é justo que haja um direito, mas a justiça é incalculável, ela exige que se calcule o incalculável; e as experiências aporéticas são experiências tão improváveis quanto necessárias da justiça, isto é, são momentos em que a decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por uma regra.
De acordo com o texto, ainda que estejam em desconformidade com o ordenamento jurídico, são exemplos de ação justa:
Alternativas: A) Casos de desobediência civil. B) Repressões do aparato estatal. C) Conflitos de natureza intercontinental. D) Manifestações do movimento sindical. E) Mobilizações de agremiações estudantis.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto do filósofo Jacques Derrida estabelece uma distinção fundamental entre Direito e Justiça. * Direito (Lei): É apresentado como um sistema de regras, um "elemento do cálculo". É algo institucionalizado, previsível e aplicável de forma geral. * Justiça: É descrita como algo "incalculável", que vai além das regras. Ela exige que se tome uma decisão em situações singulares e complexas ("experiências aporéticas"), onde nenhuma regra pré-existente pode garantir automaticamente o que é justo.
O comando da questão pede exemplos de ação justa que podem estar em desconformidade com o ordenamento jurídico. Ou seja, ações que, embora possam infringir a lei (o "direito" calculável), podem ser motivadas por um apelo a um princípio superior de justiça (o "incalculável").
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) Casos de desobediência civil.
A desobediência civil é um conceito clássico na filosofia política (de autores como Henry David Thoreau, Martin Luther King Jr. e Gandhi) que se encaixa perfeitamente na distinção de Derrida. Ela consiste em um ato público, não violento e consciente de violação de uma lei, realizado como forma de protesto contra uma lei ou política considerada injusta. O desobediente civil age por um senso de justiça que considera superior à lei vigente, assumindo as consequências legais de seu ato para provocar uma reflexão social e, idealmente, uma mudança na lei. É o exemplo paradigmático de uma ação que pode ser "justa" mesmo estando "em desconformidade com o ordenamento jurídico".
Análise das Alternativas Incorretas
- B) Repressões do aparato estatal: Esta alternativa representa o oposto do que o texto propõe. A repressão estatal é, por definição, uma ação que se apoia no aparato legal e de força do Estado para fazer cumprir a lei (o "direito"). Mesmo que possa ser questionada do ponto de vista da justiça, ela é a expressão máxima da conformidade com o ordenamento jurídico vigente, não um exemplo de ação que o desafia em nome de um princípio superior.
- C) Conflitos de natureza intercontinental: Esta alternativa é muito vaga e genérica. "Conflitos intercontinentais" podem ser guerras, disputas econômicas ou diplomáticas. O texto não trata da escala geográfica de um conflito, mas da natureza ética da ação (justiça vs. direito). Um conflito internacional pode ser perfeitamente legal do ponto de vista do direito internacional ou, ao contrário, uma violação dele, sem que isso necessariamente o qualifique como um exemplo claro da tensão entre justiça incalculável e direito calculável.
- D) Manifestações do movimento sindical: Esta é uma alternativa distratora. Manifestações sindicais são um direito garantido por lei (Constituição Federal, Art. 8º e 9º). Portanto, em sua forma legítima, elas estão em conformidade com o ordenamento jurídico. A questão pede ações que estão em desconformidade. Uma manifestação pode, eventualmente, extrapolar os limites legais (como em um bloqueio de via), mas a alternativa não especifica isso. O conceito de "desobediência civil" (alternativa A) é muito mais preciso e diretamente ligado à ideia de violar a lei conscientemente por um motivo de justiça.
- E) Mobilizações de agremiações estudantis: O mesmo raciocínio da alternativa D se aplica aqui. Mobilizações estudantis são um exercício legítimo do direito de reunião e expressão. A menos que especificamente realizadas como atos de desobediência civil (o que as tornaria um subconjunto da alternativa A), elas não são, por si só, exemplos de ações em desconformidade com a lei.
Identificação Pedagógica
- Tema: Ética e Filosofia Política / Direito e Justiça
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos para diferentes contextos, considerando sua função social, circulação e produção.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, com ética e respeito à diversidade.
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente aborda temas de filosofia e sociologia a partir de textos de pensadores clássicos ou contemporâneos. Fique atento às distinções conceituais estabelecidas no fragmento (como Direito vs. Justiça aqui). O gabarito quase sempre será a alternativa que melhor exemplifica ou aplica a ideia central do autor. Alternativas que trazem exemplos genéricos (como "conflitos") ou que representam o conceito oposto (como "repressão estatal") são fortes candidatas a distratores. Neste caso, o conhecimento do conceito de "desobediência civil" era decisivo para a resolução.
Questão 61 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Texto: Letra da canção "Sinal Fechado", de Paulinho da Viola. Comando: A letra da canção apresenta a permanência de uma situação da vida cotidiana ao destacar a...
Alternativas: A) diminuição do comportamento competitivo. B) importância da memória coletiva. C) redução da mobilidade urbana. D) efemeridade dos vínculos de afetividade. E) obsolescência dos meios de comunicação.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A canção "Sinal Fechado" retrata um encontro breve e fortuito entre duas pessoas em um semáforo. O diálogo é marcado pela pressa, pelas promessas vagas de um reencontro futuro ("Pra semana, prometo") e pela sensação de que, apesar do afeto e da história compartilhada ("Quanto tempo..."), o cotidiano acelerado e impessoal da cidade impede a concretização de um vínculo mais profundo no presente. A situação descrita – o encontro interrompido pelo sinal que vai abrir – é uma metáfora para as relações humanas na vida urbana moderna, que muitas vezes se tornam fugazes e superficiais, sacrificadas em nome da correria e dos "negócios". A questão pede que identifiquemos qual situação permanente da vida cotidiana é destacada pela letra.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D.
A letra destaca a efemeridade dos vínculos de afetividade. O encontro é curto, marcado pela pressa ("Me perdoe a pressa / É a alma dos nossos negócios"). As personagens têm "tanta coisa" a dizer, mas o conteúdo se perde ("eu sumi na poeira das ruas", "me foge a lembrança"). As promessas de reencontro são indefinidas e provavelmente não cumpridas ("Pra semana, prometo, / Talvez nos vejamos, quem sabe?"). O afeto existe ("Eu procuro você"), mas é constantemente adiado e fragilizado pela dinâmica da vida urbana, tornando os vínculos momentâneos e descartáveis, ou seja, efêmeros. Essa é uma situação permanente e característica das grandes cidades.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) diminuição do comportamento competitivo. Distrator: Contradição com o texto. A letra não sugere uma diminuição, mas sim a intensificação de um ritmo de vida competitivo e acelerado ("É a alma dos nossos negócios", "eu também só ando a cem"). A pressa é um elemento central, não a sua ausência.
-
B) importância da memória coletiva. Distrator: Extrapolação do tema. A canção foca na memória individual e nos afetos pessoais entre duas pessoas ("Tanta coisa que eu tinha a dizer"). O conceito de "memória coletiva" refere-se a lembranças compartilhadas por um grupo, nação ou comunidade, o que não é o foco da narrativa lírica apresentada.
-
C) redução da mobilidade urbana. Distrator: Contradição com o texto e anacronismo. A cena se passa justamente em um contexto de alta mobilidade (encontro em um semáforo, pessoas "correndo"). A letra critica os efeitos da aceleração da vida urbana, não de uma suposta redução na capacidade de deslocamento. Além disso, a canção é dos anos 70 e sua crítica permanece atual, mostrando que a mobilidade (e seus problemas) só aumentou.
-
E) obsolescência dos meios de comunicação. Distrator: Reducionismo e foco inadequado. Embora o telefone seja mencionado ("Quando é que você telefona?"), ele não é apresentado como obsoleto. Pelo contrário, é apontado como um meio necessário, porém insuficiente, para manter um vínculo que se desfaz pela falta de tempo e presença física. O problema não é o meio de comunicação, mas a qualidade efêmera da relação que se tenta manter através dele.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura e Sociedade; Crítica à Vida Urbana Moderna; Efemeridade das Relações Humanas.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes situações de interlocução, considerando a função sociocomunicativa dos gêneros textuais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que utilizam letras de música costumam explorar a crítica social embutida na obra artística. Fique atento aos detalhes do texto que revelam contradições da vida moderna, como a pressa, o isolamento no meio da multidão e a fragilização dos laços humanos. Não se deixe levar pela primeira impressão ou por palavras isoladas (como "telefone"); sempre relacione os elementos do texto ao seu tema central e ao comando da questão.
Questão 62 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia)
Enunciado
Nos Estados Unidos, um hotel perto de um parque foi engolido por uma enorme cratera. E não é a primeira vez que esse tipo de incidente acontece na Flórida. Em minutos, uma ala inteira do hotel era engolida pela cratera de 30 metros de diâmetro e cinco de profundidade. O diretor do resort em Clermont, perto dos parques temáticos da Flórida, diz que o prédio tinha 15 anos, e que até então o solo nunca havia apresentado problemas. Os afundamentos são um fenômeno comum na Flórida por causa das formações de calcário e argila no subsolo, mas às vezes chuvas fortes, ou a drenagem do solo para construção, acabam contribuindo para o surgimento desses buracos.
A situação de desmoronamento do solo descrita no texto origina-se da
ALTERNATIVAS: A) cristalização da estrutura geológica. B) ação do intemperismo químico. C) recomposição da mata ciliar. D) acumulação de sedimentos orgânicos. E) impermeabilização da superfície ocupada.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto descreve um evento geológico específico: o surgimento de uma cratera de afundamento (conhecida como sinkhole ou dolina) que engoliu parte de um hotel na Flórida, EUA. O enunciado pede a origem desse desmoronamento. A própria notícia fornece a explicação científica: o fenômeno é comum na região devido às formações de calcário e argila no subsolo, e pode ser acelerado por chuvas fortes ou pela drenagem do solo para construção. O calcário é uma rocha sedimentar solúvel em água (especialmente se ela for ligeiramente ácida). A dissolução lenta e progressiva do calcário pela água que infiltra no solo é um processo de intemperismo químico. Esse processo cria cavidades subterrâneas que, quando o teto não suporta mais o peso, colapsam subitamente, formando as crateras.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. A formação das crateras de afundamento (sinkholes) na Flórida tem como causa primária a dissolução do calcário do subsolo pela água. Esse é um processo clássico de intemperismo químico, especificamente a carbonatação, onde a água da chuva (com CO₂ dissolvido) reage com o carbonato de cálcio da rocha, dissolvendo-a e criando cavidades.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) cristalização da estrutura geológica: Extrapolação/Conceito Inadequado. A cristalização é um processo de formação de minerais a partir de soluções, geralmente associado ao resfriamento de magma ou à precipitação química em ambientes específicos. Não é um processo que fragilize o solo ou cause colapsos súbitos como o descrito.
- C) recomposição da mata ciliar: Fora de Contexto/Contradição. A recomposição da mata ciliar é um processo de recuperação ambiental benéfico, que estabiliza margens de rios e ajuda na infiltração da água. O texto fala de um colapso causado por processos geológicos e intervenção humana, não por um processo de recuperação.
- D) acumulação de sedimentos orgânicos: Reducionismo/Contradição. A acumulação de sedimentos orgânicos (como em pântanos ou fundos de lagos) geralmente forma solos frágeis, mas não está relacionada ao mecanismo descrito no texto. O problema central é a dissolução do calcário, não o acúmulo de material.
- E) impermeabilização da superfície ocupada: Fator Secundário/Inversão de Causa. A impermeabilização (com asfalto, concreto) pode alterar o escoamento superficial da água, mas não é a origem do fenômeno geológico. Na verdade, o texto cita a "drenagem do solo para construção" como um fator que contribui, mas a causa primária é a natureza do subsolo (calcário solúvel). A impermeabilização poderia até redirecionar a água para outros pontos, agravando a dissolução, mas não é a origem do processo.
Identificação Pedagógica
- Tema: Dinâmica da Natureza - Processos Geológicos e Impactos Ambientais.
- Competência BNCC: Competência 6 - Construir argumentos com base em informações geográficas, debater e defender ideias e pontos de vista que respeitem e promovam a consciência socioambiental e o respeito à biodiversidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e compreender os movimentos populacionais, os processos de formação socioeconômica e ocupação do espaço, relacionando-os com as dinâmicas das sociedades e com os aspectos físicos e naturais das paisagens.
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre geologia frequentemente abordam a relação entre a estrutura geológica de um local e os fenômenos de superfície (como deslizamentos, afundamentos, erosão). Fique atento a termos como "calcário" (associado a intemperismo químico e cavernas), "argila" (associada a impermeabilidade e instabilidade) e "drenagem" (intervenção humana que pode desencadear processos naturais). A chave é identificar o processo natural subjacente (neste caso, a dissolução do calcário) e não confundi-lo com seus efeitos ou com fatores agravantes.
Questão 63 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Moradores de Berlim protestaram contra a demolição de um trecho do muro que dividiu a cidade durante quase três décadas. Tratado como patrimônio cultural e histórico da cidade, o East Side Gallery, repleto de grafites emblemáticos, está na mira de uma construtora que pretende levantar um condomínio de luxo às margens do Rio Spree, que corta a cidade.
A demolição do símbolo histórico mencionado representa uma
ALTERNATIVAS: A) violação da memória coletiva. B) alteração das fronteiras políticas. C) adesão à arquitetura neoclássica. D) negação das influências orientais. E) reorganização da mobilidade urbana.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a tensão entre a preservação da memória histórica e o desenvolvimento urbano. O texto se refere ao Muro de Berlim, um dos símbolos mais marcantes da Guerra Fria, que dividiu a Alemanha e a cidade de Berlim entre 1961 e 1989. Após sua queda, um trecho conhecido como East Side Gallery foi preservado e transformado em uma galeria de arte a céu aberto, com grafites que celebram a liberdade e a paz. O texto informa que uma construtora planeja demolir parte desse monumento para a construção de um empreendimento imobiliário, gerando protestos da população. O comando da questão pede para identificar o que a demolição desse "símbolo histórico" representa.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
O Muro de Berlim, especialmente o trecho preservado como East Side Gallery, transcende sua função física original. Ele se tornou um lugar de memória, um patrimônio que materializa lembranças coletivas de um período traumático de divisão e, posteriormente, de reunificação e esperança. Sua demolição para fins comerciais (um condomínio de luxo) significa apagar um suporte físico dessa memória, ignorando seu valor simbólico para a comunidade e para a história. Portanto, representa uma violação da memória coletiva, pois desrespeita a importância que a sociedade atribui a esse marco histórico.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) alteração das fronteiras políticas.: Distrator por extrapolação/anacronismo. O Muro de Berlim era, de fato, uma fronteira política durante a Guerra Fria. No entanto, sua função como fronteira política cessou com a reunificação da Alemanha em 1990. A demolição de um trecho remanescente, décadas depois, não altera as fronteiras políticas atuais da Alemanha ou de Berlim, que já estão consolidadas.
- C) adesão à arquitetura neoclássica.: Distrator por irrelevância/forçação de contexto. O texto não faz qualquer menção ao estilo arquitetônico do condomínio planejado ou a uma tendência estética na cidade. A questão central é o conflito entre preservação histórica e especulação imobiliária, não uma discussão sobre estilos arquitetônicos.
- D) negação das influências orientais.: Distrator por reducionismo/desvio temático. O Muro foi um símbolo da divisão entre o Ocidente (capitalista) e o Oriente (socialista). Sua demolição poderia, em uma leitura muito superficial, ser associada a "negar o lado oriental". No entanto, o texto e o protesto dos moradores focam no valor do muro como patrimônio histórico e artístico da cidade reunificada, não em renegar uma das partes de seu passado. A East Side Gallery incorpora influências artísticas de todo o mundo.
- E) reorganização da mobilidade urbana.: Distrator por extrapolação. O texto menciona que o condomínio seria construído "às margens do Rio Spree", mas não há qualquer informação sobre alterações no sistema de transportes, vias ou fluxo de pessoas. A "reorganização da mobilidade urbana" é um conceito que não se aplica ao cenário descrito, que é pontual (uma demolição para uma construção específica).
Identificação Pedagógica
- Tema: Patrimônio Histórico, Memória Coletiva e Conflitos Urbanos.
- Competência BNCC: Competência 6 - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS601 - Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e a sua consequência para a qualidade de vida, para o ambiente e para a valorização ou esgotamento dos recursos naturais, com vistas à proposição de alternativas.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de interpretar conflitos sociais a partir de conceitos das Ciências Humanas. Fique atento aos termos-chave do texto: "símbolo histórico", "patrimônio cultural", "protestaram". Eles apontam diretamente para noções de memória, identidade e patrimônio. No ENEM, alternativas que trazem conceitos corretos, mas aplicados fora de contexto (como "fronteiras políticas" para um muro que já não funciona como tal), são armadilhas comuns. Sempre retorne ao texto e pergunte-se: "O que está EM DISCUSSÃO nesta situação específica?"
Questão 64 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Filosofia
Enunciado
TEXTO 1 Pré-socráticos (Fragmento B10) Em conjunto: todo e não todo, unido e separado, em consonância e em dissonância. De todos um e de um todos.
TEXTO 2 Pré-socráticos (Fragmento B67) Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, saciedade-fome.
A característica do pensamento do filósofo Heráclito, registrada nos fragmentos mencionados, é a ênfase na
ALTERNATIVAS: A) qualidade imperecível do mundo. B) degradação material da natureza. C) imobilidade imanente do universo. D) distribuição dicotômica do cosmos. E) desordem incontornável das coisas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
Os fragmentos apresentados são de Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático conhecido por sua filosofia do devir (tudo flui). O comando da questão pede a característica central do seu pensamento evidenciada nos textos. A leitura atenta mostra que Heráclito não está descrevendo pares de opostos estáticos, mas sim a unidade dinâmica dos contrários. No Fragmento B10, ele fala de conceitos que são "em conjunto", como "todo e não todo", indicando que os opostos coexistem e se complementam. No Fragmento B67, a divindade (ou o princípio ordenador, o Logos) é definida justamente pela junção de pares de opostos (dia-noite, guerra-paz). A ênfase, portanto, está na ideia de que a realidade é composta e regida pela tensão e harmonia entre forças opostas, que se distribuem de forma complementar no cosmos.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) distribuição dicotômica do cosmos. A expressão "distribuição dicotômica" capta com precisão a ideia heraclitiana de que a realidade é estruturada em pares de opostos (dicotomias) que se inter-relacionam. Esses opostos não são caóticos, mas distribuídos de forma a compor a unidade e a harmonia do cosmos. É a partir da tensão entre eles que o mundo se move e se transforma.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) qualidade imperecível do mundo.: Distrator por extrapolação/conclusão apressada. Embora Heráclito acreditasse em um princípio eterno (o Logos ou Fogo), os fragmentos não enfatizam a "imperecibilidade". Eles focam na dinâmica dos opostos. Além disso, para Heráclito, a imperecibilidade está na lei de transformação, não em uma qualidade estática do mundo.
- B) degradação material da natureza.: Distrator por contradição/anacronismo. Essa ideia está mais associada a correntes como o pessimismo ou certas visões religiosas. O pensamento de Heráclito é sobre transformação e equilíbrio, não sobre decadência ou degradação. Os opostos como "inverno-verão" são ciclos naturais, não degradação.
- C) imobilidade imanente do universo.: Distrator por contradição direta. Esta é a antítese do pensamento de Heráclito, para quem "tudo flui" (panta rhei) e nada permanece imóvel. A imobilidade é uma característica atribuída ao ser de Parmênides, seu grande antagonista filosófico.
- E) desordem incontornável das coisas.: Distrator por reducionismo/má interpretação. Heráclito fala em "consonância e dissonância", indicando que há uma ordem (uma harmonia) mesmo no aparente conflito. Para ele, a guerra (o conflito) é "pai de todas as coisas", ou seja, é um princípio gerador de ordem, não uma desordem sem solução. A "desordem incontornável" seria um caos, ideia não presente nos fragmentos.
Identificação Pedagógica
- Tema: Filosofia Antiga / Pensamento Pré-Socrático / Unidade dos Opostos.
- Competência BNCC: Competência 3 - "Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais."
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS101) - "Analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais." (A habilidade de analisar fontes filosóficas para compreender ideias está diretamente relacionada).
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre filósofos pré-socráticos frequentemente testam a identificação do princípio fundamental (a arché) ou a característica central do pensamento de cada um. Para Heráclito, lembre-se das palavras-chave: devir, fluxo, transformação, unidade dos opostos, harmonia no conflito, Logos. Ao se deparar com fragmentos, busque o padrão que se repete. Aqui, o padrão era a justaposição de conceitos antagônicos, o que leva diretamente à ideia de uma "distribuição dicotômica" que estrutura a realidade. Fuja de alternativas que sugerem imobilidade, caos ou degradação, pois são contrárias ao dinamismo heraclitiano.
Questão 65 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História)
Enunciado
Entre esses preconceitos estava o canibalismo. A prática não era, porém, uma mentira, uma invenção europeia, mas um ritual controlado por regras. Entre os tupis, por exemplo, os guerreiros se sentiam honrados quando morriam em um banquete canibal. Para os europeus, no entanto, comer carne humana era abominável, pois nem mesmo os leões ingeriam seus semelhantes. Portanto, para os conquistadores, o canibalismo era sinônimo de barbarismo e da incapacidade de se autogovernar.
No texto, europeus e ameríndios atribuíram à prática relatada, respectivamente, o significado de
Alternativas: A) selvageria - empoderamento. B) impetuosidade - resistência. C) fanatismo - humilhação. D) intolerância - violência. E) repressão - justiça.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda o choque cultural entre europeus e povos ameríndios durante o período das Grandes Navegações e da colonização das Américas. O texto descreve a prática do canibalismo ritualístico entre os Tupis, contrastando a visão interna (dos indígenas) com a visão externa (dos europeus). O comando da questão pede que identifiquemos os significados atribuídos à mesma prática por cada um desses grupos culturais, conforme descrito no fragmento.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
A resposta é sustentada diretamente pelo texto: * Para os europeus: O texto afirma que, para os conquistadores, o canibalismo era "sinônimo de barbarismo". O termo "selvageria" é um sinônimo perfeito para "barbarismo", capturando a ideia de ausência de civilização, bestialidade e comportamento fora dos padrões morais europeus. * Para os ameríndios (Tupis): O texto descreve que os guerreiros "se sentiam honrados" ao serem vítimas do ritual. O conceito de "empoderamento" (embora seja um termo contemporâneo) se aplica aqui no sentido de que a prática conferia status, honra e uma forma de poder simbólico e espiritual ao guerreiro, integrando-o a uma narrativa coletiva de bravura e sacrifício.
Análise das Alternativas Incorretas
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B) impetuosidade - resistência. Distrator (Anacronismo/Extrapolação): "Impetuosidade" sugere uma ação impulsiva e irrefletida, mas o texto destaca que o ritual era "controlado por regras", ou seja, era metódico e cerimonial. "Resistência" é um conceito que pode ser associado a contextos de colonização, mas não é mencionado ou sugerido no fragmento em relação ao significado do canibalismo para os indígenas.
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C) fanatismo - humilhação. Distrator (Contradição): "Fanatismo" poderia ser uma leitura enviesada da perspectiva europeia, mas o texto foca na repulsa moral ("abominável"), não em excesso de zelo religioso ou ideológico. "Humilhação" entra em direta contradição com a informação textual de que os guerreiros se sentiam "honrados", não envergonhados ou rebaixados.
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D) intolerância - violência. Distrator (Inversão/Reducionismo): Aqui há uma inversão de agentes. A "intolerância" é uma característica atribuível à atitude dos europeus (eles eram intolerantes com a prática alheia), mas não era o significado que eles atribuíam ao canibalismo. Eles viam o ato em si como "barbárie". Da mesma forma, a "violência" é um componente óbvio do ato, mas reduz o complexo ritual descrito ("honra", "regras") a um mero ato de agressão, ignorando seu significado cultural profundo para os Tupis.
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E) repressão - justiça. Distrator (Extrapolação): "Repressão" é uma ação, não um significado atribuído a uma prática. Os europeus poderiam usar o canibalismo como justificativa para a repressão, mas o texto pergunta pelo significado da prática em si. "Justiça" é um conceito que não aparece nem é inferível a partir do texto, que fala em "honra" e ritual, não em um sistema retributivo ou corretivo.
Identificação Pedagógica
- Tema: Choque Cultural, Alteridade e Etnocentrismo no Período Colonial.
- Competência BNCC: Competência 4 (Área de Ciências Humanas) - "Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos".
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS401 - "Analisar e comparar indicadores de qualidade de vida e de desenvolvimento humano em diferentes países, considerando a inclusão, a justiça social e a equidade, e discutir a conceituação e a aplicação desses indicadores".
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de ler o texto com precisão e evitar a tentação de escolher alternativas baseadas em conhecimentos prévios ou emoções. O ENEM frequentemente apresenta visões de mundo contrastantes. A chave é localizar no texto os adjetivos, substantivos ou frases que definem a percepção de cada grupo ("honrados" para os indígenas, "barbarismo" para os europeus) e buscar a alternativa que contenha sinônimos diretos e adequados a esses termos. Fuja de interpretações anacrônicas que projetam valores atuais sobre contextos históricos específicos.
Questão 66 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
O Brasil com axé Reginaldo Prandi
Fragmentada em pequenos grupos, fragilizada pela ausência de algum tipo de organização ampla, tendo que carregar o peso do preconceito racial que se transfere do negro para a cultura negra, a religião dos orixás tem poucas chances de se sair melhor na competição - desigual - com outras religiões. Silenciosamente, assistimos hoje a um verdadeiro massacre das religiões afro-brasileiras.
No processo de invisibilização dos cultos afro-brasileiros, o texto associa os seguintes elementos essenciais:
Alternativas: A) Ausência de soluções partidárias e rejeição da laicidade. B) Precariedade de coesão representativa e recusa da alteridade. C) Insuficiência de estruturas decisórias e exclusão da dialogicidade. D) Inexistência de direitos constitucionais e negação do ecumenismo. E) Efemeridade das relações políticas e debilidade do pertencimento étnico.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto do sociólogo Reginaldo Prandi discute a situação das religiões afro-brasileiras no Brasil, apontando fatores que contribuem para sua "invisibilização" e "massacre" simbólico. O comando da questão pede que identifiquemos, com base no texto, os dois elementos essenciais que o autor associa a esse processo. Para isso, é necessário fazer uma leitura atenta, extraindo as ideias centrais e relacionando-as com os conceitos apresentados nas alternativas.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) Insuficiência de estruturas decisórias e exclusão da dialogicidade.
A resposta está diretamente ancorada no texto: 1. "Insuficiência de estruturas decisórias" corresponde à ideia de que a religião está "fragmentada em pequenos grupos" e tem "ausência de algum tipo de organização ampla". Essa falta de uma estrutura unificada e representativa dificulta sua capacidade de ação e defesa no espaço público. 2. "Exclusão da dialogicidade" refere-se ao processo de silenciamento e marginalização. O texto fala em "silenciosamente, assistimos hoje a um verdadeiro massacre", indicando que essas religiões são excluídas do diálogo social e religioso mais amplo, sofrendo um processo de apagamento. A "competição desigual" com outras religiões também evidencia essa falta de um diálogo em condições de igualdade.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) Ausência de soluções partidárias e rejeição da laicidade.
- Distrator: Extrapolação. O texto não menciona partidos políticos ("soluções partidárias") nem discute a relação do Estado com a religião ("laicidade"). O foco é na organização interna e no preconceito social, não em questões partidárias ou de Estado laico.
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B) Precariedade de coesão representativa e recusa da alteridade.
- Distrator: Meia-verdade e contradição. A primeira parte ("precariedade de coesão representativa") é correta e sinônima da "fragmentação" citada no texto. No entanto, a segunda parte ("recusa da alteridade") é um erro. "Alteridade" significa reconhecer o outro em sua diferença. O texto descreve as religiões afro-brasileiras como vítimas da recusa da alteridade por parte da sociedade, não como agentes que recusam a alteridade. A causa da invisibilização é externa (preconceito), não interna (recusa).
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D) Inexistência de direitos constitucionais e negação do ecumenismo.
- Distrator: Anacronismo e reducionismo. O texto não afirma que não existam direitos constitucionais. Pelo contrário, a situação descrita ocorre apesar de um marco legal que, em tese, garante liberdade religiosa. Além disso, "negação do ecumenismo" (diálogo entre religiões) não é um elemento apontado como causa pelo autor. O problema é a exclusão sofrida, não uma suposta recusa ativa ao diálogo por parte dos cultos afro-brasileiros.
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E) Efemeridade das relações políticas e debilidade do pertencimento étnico.
- Distrator: Invenção e contradição. O texto não trata da duração ("efemeridade") das relações políticas. O termo "políticas" aqui é vago e não se conecta com a "fragmentação" organizacional mencionada. A "debilidade do pertencimento étnico" é uma contradição direta ao texto, que afirma justamente o contrário: o preconceito racial se transfere "do negro para a cultura negra", mostrando um forte vínculo étnico-cultural que é, na verdade, alvo do preconceito.
Identificação Pedagógica
- Tema: Diversidade Cultural, Religiosa e Étnica. Preconceito e Invisibilização Social.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos para diferentes fins, em diversas mídias. / Competência 5 (Área de Humanas) - Compreender a si e ao outro como identidades diferentes, de forma a exercitar o respeito à diferença em uma sociedade democrática.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de interpretação textual precisa e relação conceitual. Não basta identificar palavras soltas no texto; é preciso entender a relação lógica que o autor estabelece. Aqui, a chave foi perceber que o autor descreve uma fragilidade interna (organizacional) e uma agressão externa (preconceito/silenciamento). A alternativa correta foi a única que capturou essa dualidade de forma fiel aos termos usados pelo autor, sem distorcer o sentido ou atribuir ações aos grupos que são, na verdade, vítimas do processo. Sempre busque a alternativa que melhor parafraseia ou conceitualiza as ideias do texto base.
Questão 67 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia / Meio Ambiente)
Enunciado
A partir do século 19 e, principalmente, no século 20, iniciou-se o uso de produtos sintéticos na agricultura. No Brasil, a partir da década de 1960 e, posteriormente, nos anos 1970, os inseticidas ampliam sua fatia no mercado dos defensivos agrícolas.
Nos espaços agrícolas, a mudança técnica descrita provocou a diminuição da
ALTERNATIVAS: A) desagregação de camadas pedológicas. B) diversidade de polinizadores naturais. C) contaminação de lençóis freáticos. D) produtividade da terra cultivada. E) ocorrência da erosão laminar.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda os impactos ambientais da modernização agrícola, especificamente da chamada "Revolução Verde", que introduziu o uso intensivo de insumos sintéticos como fertilizantes e, no caso do texto, inseticidas. O comando pede para identificar uma consequência negativa (diminuição) provocada por essa mudança técnica. É crucial entender que os inseticidas são biocidas, ou seja, substâncias projetadas para matar insetos considerados pragas. No entanto, seu efeito não é seletivo, afetando também insetos benéficos.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B.
A introdução massiva de inseticidas sintéticos nos espaços agrícolas tem como efeito colateral direto a redução da diversidade de polinizadores naturais. Inseticidas de amplo espectro não distinguem entre uma lagarta que come folhas e uma abelha que poliniza flores. A eliminação ou redução drástica de populações de abelhas, borboletas e outros polinizadores é uma consequência ambiental amplamente documentada do uso indiscriminado desses produtos, levando a uma diminuição dessa diversidade nos agroecossistemas.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) desagregação de camadas pedológicas. Distrator: Esta alternativa inverte a lógica de causa e efeito. A "desagregação de camadas pedológicas" (solo) está mais associada a processos erosivos, muitas vezes intensificados por práticas agrícolas mecanizadas e pelo desmatamento que acompanharam a modernização, e não diretamente pelo uso de inseticidas. O texto foca especificamente nos inseticidas, não em alterações físicas do solo.
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C) contaminação de lençóis freáticos. Distrator: Esta é uma consequência ambiental grave e real do uso de agroquímicos (incluindo inseticidas e herbicidas), por meio do processo de lixiviação. No entanto, o comando pede uma diminuição provocada pela mudança. A contaminação dos lençóis freáticos é um aumento de um problema, não uma diminuição. O aluno deve estar atento aos verbos do comando.
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D) produtividade da terra cultivada. Distrator: Esta alternativa representa um anacronismo ou uma contradição histórica. O objetivo declarado e o efeito inicial da introdução dos inseticidas sintéticos na Revolução Verde era justamente aumentar a produtividade, ao controlar pragas que reduziam a colheita. Portanto, a mudança técnica descrita buscou aumentar, e não diminuir, a produtividade. Questões de degradação da produtividade a longo prazo (por esgotamento do solo) são efeitos colaterais de outras práticas.
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E) ocorrência da erosão laminar. Distrator: Assim como a alternativa A, esta confunde o efeito dos inseticidas com outros impactos da agricultura moderna. A erosão laminar (perda uniforme e fina da camada superficial do solo) está ligada ao manejo do solo (preparo, cobertura, declive) e à retirada da vegetação, não à aplicação de inseticidas. A mudança técnica descrita não tem relação direta com a diminuição desse fenômeno.
Identificação Pedagógica
- Tema: Impactos Ambientais da Modernização Agrícola / Problemas Socioambientais Contemporâneos.
- Competência BNCC: Competência 6 - Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar os impactos socioambientais causados pela exploração de recursos naturais, seja no trabalho, no consumo ou em outras práticas sociais, e discutir e propor formas de atuação para a preservação e conservação da biodiversidade, das florestas e dos demais ecossistemas.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que tratam de impactos ambientais frequentemente testam a capacidade de relacionar causa e efeito de forma precisa. Atenção redobrada ao verbo do comando ("provocou a diminuição da"). Muitas vezes, alternativas plausíveis são incorretas porque descrevem um aumento, e não uma diminuição, ou porque descrevem um efeito causado por outro faktor não mencionado no texto. Isolar a variável principal do enunciado (neste caso, "inseticidas") é fundamental para não se deixar enganar por distratores que tratam de problemas ambientais genéricos.
Questão 68 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
A era dos direitos Norberto Bobbio
Os direitos do homem constituem uma classe variável, como a história destes últimos séculos demonstra suficientemente. O elenco dos direitos do homem se modificou, e continua a se modificar, com a mudança das condições históricas, ou seja, dos carecimentos e dos interesses, das classes no poder, dos meios disponíveis para a realização dos mesmos, das transformações técnicas. Direitos que foram declarados absolutos no final do século 18 foram submetidos a radicais limitações nas declarações contemporâneas; direitos que as declarações do século 18 nem sequer mencionavam, como os direitos sociais, são agora proclamados com grande ostentação nas recentes declarações.
Os argumentos apresentados no texto sustentam que os direitos humanos são variáveis porque os considera como
ALTERNATIVAS: A) fenômenos espontâneos. B) conquistas atemporais. C) convenções coletivas. D) resquícios religiosos. E) imposições políticas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto do filósofo Norberto Bobbio discute a natureza histórica e mutável dos direitos humanos. O autor argumenta que o "elenco" (a lista) de direitos não é fixo, mas se transforma ao longo do tempo. Ele atribui essa variabilidade a fatores sociais e históricos concretos: mudanças nas necessidades ("carecimentos"), interesses, nas classes que detêm o poder, nos recursos técnicos disponíveis e nas possibilidades de realização desses direitos. O comando da questão pede que identifiquemos, com base nos argumentos do texto, como Bobbio considera os direitos humanos para sustentar que eles são variáveis. A resposta deve estar diretamente ancorada na explicação causal que o autor fornece.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) convenções coletivas.
O texto de Bobbio descreve os direitos humanos como produtos da interação social e das mudanças históricas. Eles se modificam com as transformações nas "condições históricas", nos "interesses" e nas "classes no poder". Isso indica que os direitos são construídos, acordados e reformulados pela sociedade (coletividade) em diferentes momentos, ou seja, são convenções coletivas. Não são dados naturais ou imutáveis, mas sim acordos sociais que evoluem.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) fenômenos espontâneos.: Distrator por contradição. O texto enfatiza que as mudanças nos direitos estão ligadas a fatores históricos específicos e conscientes (interesses, classes no poder, técnicas), o que é o oposto de um processo espontâneo, não planejado ou natural.
- B) conquistas atemporais.: Distrator por contradição direta. Esta é a visão oposta à defendida por Bobbio. O autor inicia justamente afirmando que os direitos são "variáveis" e demonstra como eles mudam ao longo dos séculos, negando, portanto, qualquer caráter atemporal ou permanente.
- D) resquícios religiosos.: Distrator por extrapolação. O texto não faz qualquer menção a origens, fundamentos ou influências religiosas dos direitos. A análise do autor é secular e focada em dinâmicas sociais, políticas e históricas.
- E) imposições políticas.: Distrator por reducionismo. Embora o texto mencione "classes no poder", o que tem relação com política, a alternativa é incorreta porque reduz a explicação a apenas um dos fatores citados. Bobbio apresenta um conjunto mais amplo de causas (necessidades, interesses, transformações técnicas) e descreve um processo de construção social ("se modificou... com a mudança das condições históricas"), não uma mera "imposição" vertical. O termo "imposição" também não capta a ideia de convenção ou acordo coletivo presente no texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cidadania, Direitos Humanos e Pensamento Político Moderno.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo-as como espaços de construção histórica da experiência humana.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS402 - Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade social.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de interpretação textual e inferência, conectando a tese do autor com os conceitos das Ciências Humanas. Fique atento aos operadores argumentativos (como, porque, ou seja) que indicam a relação de causa e explicação no texto. No ENEM, é comum que a alternativa correta seja uma síntese conceitual das ideias apresentadas, enquanto as incorretas ou contradizem o autor, ou pegam um detalhe isolado (reducionismo), ou trazem elementos que não estão no texto (extrapolação). Pratique identificar a ideia central de cada parágrafo para não se perder nos detalhes.
Questão 69 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição da charge: Intitulada Carro elétrico, uma miragem ecológica, a charge, do cartunista Adão, está dividida em dois cenários. No primeiro cenário, há um espaço urbano, com prédios, árvores, aves e céu limpo. No centro, há dois personagens, um dentro de um carro e o outro em pé, ao lado do veículo. O carro traz o desenho de um raio simbolizando que é elétrico. Esse primeiro cenário se conecta ao segundo cenário por meio de um cabo elétrico que sai da parte traseira do carro. Nesse segundo cenário, a paisagem é de um ambiente encoberto por fumaça e resíduos sólidos descartados sobre o chão. Nele há outros dois personagens, que estão cobertos de fuligem e tentam conectar o cabo a uma tomada.
Texto: Revolução tecnológica, transformação geopolítica - Guillaume Pitron A mudança para a eletromobilidade de fato promove uma alteração no consumo de recursos naturais. Hoje, amplamente dependentes do petróleo, nossos modais de transporte poderiam se tornar cada vez mais dependentes de trinta metais raros. Gálio, tântalo, cobalto, platinoides, tungstênio, metais de terras-raras: uma mina contém apenas ínfimas quantidades desses metais dotados de fabulosas propriedades eletrônicas, ópticas e magnéticas.
No que se refere ao desenvolvimento sustentável, a charge e o texto indicam uma contradição no uso da tecnologia alternativa derivada do seguinte aspecto:
ALTERNATIVAS: A) Necessidade de fontes não renováveis. B) Padronização dos modelos produtivos. C) Demanda de mão de obra qualificada. D) Precariedade da legislação industrial. E) Utilização de materiais recicláveis.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda um tema central do desenvolvimento sustentável: a ilusão de sustentabilidade em tecnologias aparentemente "limpas". A charge de Adão é uma crítica visual poderosa. Ela mostra um cenário urbano limpo e verde (o consumo final da tecnologia), conectado por um cabo a um cenário de poluição, fumaça e degradação (a produção e geração de energia por trás da tecnologia). O texto de Guillaume Pitron complementa essa crítica, explicando que a transição para veículos elétricos, longe de ser uma solução perfeita, apenas desloca a dependência de um recurso (petróleo) para outro conjunto de recursos (metais raros), cuja extração é ambientalmente impactante e geopoliticamente complexa.
O comando da questão pede para identificar a contradição no uso da tecnologia alternativa (carro elétrico) em relação ao desenvolvimento sustentável. A contradição está no fato de que uma solução apresentada como ecológica (carro de emissão zero no uso) pode gerar impactos ambientais significativos e insustentáveis em outra etapa de seu ciclo de vida (extração de matérias-primas, geração de energia suja para recarregá-lo).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) Necessidade de fontes não renováveis.
A contradição central apontada pelos dois materiais é que a tecnologia "verde" do carro elétrico não elimina a dependência de recursos naturais finitos e problemáticos. O texto é explícito: trocamos a dependência do petróleo (fonte não renovável) pela dependência de metais raros (também fontes não renováveis, de extração complexa e impactante). A charge ilustra essa mesma ideia ao mostrar que a energia "limpa" do carro está, na verdade, conectada a um processo de geração sujo e poluente, que muito provavelmente depende de combustíveis fósseis (fontes não renováveis) ou de uma infraestrutura industrial degradante.
Análise das Alternativas Incorretas
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B) Padronização dos modelos produtivos. Distrator: Reducionismo / Forçação de Barra. Embora a produção em massa de baterias e carros elétricos possa envolver padronização, este não é o aspecto contraditório destacado nem pela charge nem pelo texto. O foco dos materiais é nos recursos naturais e no impacto ambiental da extração e da geração de energia, não na organização do processo produtivo em si.
-
C) Demanda de mão de obra qualificada. Distrator: Extrapolação. A necessidade de mão de obra qualificada é uma característica comum da indústria de alta tecnologia e não constitui, por si só, uma contradição ao desenvolvimento sustentável. Pode até ser vista como um aspecto positivo (geração de empregos de qualidade). Os materiais não mencionam ou sugerem a qualificação da mão de obra como um problema ou ponto de conflito.
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D) Precariedade da legislação industrial. Distrator: Anacronismo / Inserção Externa. Este é um problema real em muitos países onde a mineração ocorre, mas é uma inferência que vai além do que os materiais apresentam. A charge mostra poluição, mas não legislação. O texto fala da dependência dos metais, mas não da regulação sobre sua extração. A contradição apontada é intrínseca ao uso do recurso, não à (falta de) leis que o regulam.
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E) Utilização de materiais recicláveis. Distrator: Contradição Direta ao Texto. Esta alternativa vai na direção oposta ao argumento central. O texto fala da extração de minérios virgens ("uma mina contém apenas ínfimas quantidades"), um processo primário e altamente impactante. A contradição está justamente na não utilização generalizada de materiais recicláveis ou em uma cadeia de reciclagem fechada e eficiente para esses metais raros. Se houvesse uma utilização massiva de materiais recicláveis, a contradição seria menor.
Identificação Pedagógica
- Tema: Desenvolvimento Sustentável, Crítica ao Consumismo e Impactos Ambientais da Tecnologia.
- Competência BNCC: Competência 6 (Ciências Humanas) - Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS106 (Ciências Humanas) - Analisar e avaliar criticamente as relações de dependência tecnológica, compreendendo seus impactos políticos e socioeconômicos.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que unem charge e texto costumam pedir uma leitura integrada. A charge não é apenas uma ilustração; ela traz um argumento visual que complementa ou exemplifica a tese do texto. Neste caso, a dica é: sempre procure a "conexão do cabo". O que parece limpo e resolvido em um lado (consumo) está ligado a um problema em outro lado (produção/geração). Esse raciocínio de "ciclo de vida" e "externalidades" é frequente em questões sobre sustentabilidade e tecnologia. Fique atento a alternativas que focam em aspectos sociais (como mão de obra ou legislação) quando o núcleo do problema apresentado é ambiental e geopolítico.
Questão 70 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História)
Enunciado
A Roda dos Expostos de Salvador (Bahia) data de 1726 e foi uma das instituições implantadas com o objetivo de acolher e prover um encaminhamento para a criança recém-nascida abandonada. Essa assistência fundamentava-se em práticas caritativas, paternalistas e imediatistas que visavam ao cuidado básico da criança e, especialmente, à salvação da sua alma, via batismo, devido à alta mortalidade.
A instituição apresentada no texto justificava-se pelo(a)
Alternativas: A) defesa de direitos humanos. B) preceito de natureza sociorreligiosa. C) reconhecimento de vínculos familiares. D) discurso de cunho técnico-científico. E) ideologia de caráter abolicionista.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda uma instituição típica do período colonial brasileiro: a Roda dos Expostos. O texto fornece elementos-chave para sua análise: o ano (1726), o objetivo (acolher crianças abandonadas) e, principalmente, a fundamentação da assistência. O trecho é claro ao afirmar que essa assistência era baseada em "práticas caritativas, paternalistas e imediatistas" e que seu foco especial era "a salvação da sua alma, via batismo". Portanto, o comando da questão pede que identifiquemos a justificativa central para a existência dessa instituição, com base nas informações fornecidas.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B.
A justificativa está diretamente no texto: a preocupação central era a salvação da alma da criança através do batismo ("especialmente, à salvação da sua alma, via batismo"). Isso combina um imperativo religioso (a necessidade do batismo para a salvação) com uma resposta social ao problema do abandono de crianças. Portanto, a instituição se justificava por um preceito de natureza sociorreligiosa, unindo a caridade cristã a uma necessidade prática da sociedade da época.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) defesa de direitos humanos.: Distrator por anacronismo. O conceito de "direitos humanos" como o entendemos hoje é um produto do Iluminismo e das revoluções dos séculos XVIII e XIX. Em 1726, na Bahia colonial, a motivação não era a defesa de direitos universais, mas sim a caridade e a salvação religiosa. A ação era benevolente, mas não fundamentada na ideia de direitos inalienáveis.
- C) reconhecimento de vínculos familiares.: Distrator por contradição. A própria função da Roda era acolher crianças cujos vínculos familiares haviam sido rompidos ou negados pelo abandono. A instituição não buscava restabelecer ou reconhecer esses vínculos, mas sim prover um destino alternativo (como encaminhá-las para a criação por terceiros ou para instituições).
- D) discurso de cunho técnico-científico.: Distrator por extrapolação. Não há nenhuma menção no texto a conhecimentos médicos, estatísticos ou pedagógicos que embasassem a prática. A fundamentação descrita é caritativa e religiosa ("salvação da alma"), não técnica ou científica.
- E) ideologia de caráter abolicionista.: Distrator por extrapolação e anacronismo. A questão da abolição da escravidão não é pertinente ao contexto da Roda dos Expostos em 1726. A instituição lidava com o abandono infantil, um problema social distinto. Além disso, um discurso abolicionista organizado era inexistente no Brasil do século XVIII.
Identificação Pedagógica
- Tema: Brasil Colônia - Sociedade e Cultura. Instituições sociais e mentalidade religiosa.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar e avaliar criticamente as relações de poder e as instituições sociais, políticas e econômicas, identificando suas transformações ao longo do tempo e seus impactos na vida dos indivíduos e grupos sociais.
Dica do Especialista
Fique atento aos verbos e advérbios de intensidade no enunciado. Nesta questão, a palavra "especialmente" direciona o candidato para o motivo principal: a salvação da alma. Muitas questões do ENEM em Humanas testam a capacidade de ler o texto com precisão, evitando que você projete ideias contemporâneas (como direitos humanos) em contextos históricos específicos. Sempre busque a resposta dentro do texto e no contexto histórico mencionado.
Questão 71 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Filosofia
Enunciado
Uma introdução aos princípios da moral e da legislação Jeremy Bentham
A missão dos governantes consiste em promover a felicidade da sociedade, punindo e recompensando. A parte da missão de governo que consiste em punir constitui mais particularmente o objeto da lei penal. A obrigatoriedade ou necessidade de punir uma ação é proporcional à medida que tal ação tende a perturbar a felicidade e à medida que a tendência do referido ato é perniciosa. A felicidade consiste naquilo que já vimos, ou seja, em desfrutar prazeres e em estar isento de dores.
Qual perspectiva de justiça emerge da relação, estabelecida no texto, entre punição e felicidade?
Alternativas: A) Aplicação de meios para atingir um fim. B) Imposição de regras para estabelecer um dever. C) Sobreposição de princípios para fundamentar um direito. D) Criação de parâmetros para reconhecer uma prescrição. E) Elaboração de convenções para referendar um costume.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um trecho da obra do filósofo Jeremy Bentham, fundador do Utilitarismo. A questão pede que o candidato identifique a perspectiva de justiça que deriva da relação entre punição e felicidade descrita. Bentham estabelece uma lógica clara: o fim último do governo (e, por extensão, da justiça) é promover a felicidade da sociedade. A punição (a lei penal) é um meio para alcançar esse fim. A necessidade de punir é medida pela capacidade de um ato de perturbar a felicidade coletiva. Portanto, a justiça não é um valor absoluto em si mesma, mas um instrumento a serviço de um objetivo maior: o bem-estar geral (entendido como o balanço entre prazer e dor).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) Aplicação de meios para atingir um fim. O texto descreve uma visão instrumental da justiça. A punição (o meio) não é um fim em si mesma, mas é justificada e calibrada em função de seu objetivo final: promover a felicidade social (o fim). Isso é a essência do pensamento utilitarista de Bentham.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) Imposição de regras para estabelecer um dever.: Distrator: Reducionismo e Desvio de Foco. Embora a lei penal imponha regras, o texto não foca no "dever" como um imperativo moral autônomo. A ênfase de Bentham está na consequência (a felicidade), não no dever em si. A punição é consequencialista, não deontológica.
- C) Sobreposição de princípios para fundamentar um direito.: Distrator: Extrapolação. O texto não discute a fundamentação de direitos a partir de princípios concorrentes ou sobrepostos. A justificativa é única e clara: a utilidade para a felicidade coletiva.
- D) Criação de parâmetros para reconhecer uma prescrição.: Distrator: Termo Técnico Inadequado. "Prescrição" é um termo jurídico específico (extinção de um direito pelo decurso do tempo) que não se relaciona com o cerne do argumento de Bentham sobre a finalidade da punição.
- E) Elaboração de convenções para referendar um costume.: Distrator: Anacronismo e Contradição. Bentham era um crítico ferrenho do direito consuetudinário (baseado no costume), que ele considerava obscuro e irracional. Sua proposta é racional e calculada (a "aritmética dos prazeres e das dores"), não uma mera referendação de convenções sociais preexistentes.
Identificação Pedagógica
- Tema: Filosofia Política e Ética / Teorias da Justiça (Utilitarismo).
- Competência BNCC: Competência 3 - "Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS302 - "Analisar e avaliar criticamente as relações de poder das diferentes instituições sociais, identificando aquelas que promovem a inclusão ou a exclusão social, o respeito ou a violação dos direitos humanos e da democracia, propondo ações para a superação das desigualdades e das violações."
Dica do Especialista
Questões sobre Utilitarismo no ENEM frequentemente testam a compreensão do consequencialismo e do cálculo de prazer e dor. Fique atento a palavras-chave como "felicidade", "bem-estar", "prazer", "dor", "utilidade" e "consequências". A justiça, nessa perspectiva, é sempre um instrumento para um fim maior, nunca um princípio absoluto. Quando identificar essa lógica de "meio-fim" claramente exposta no texto, a alternativa correta geralmente gira em torno dessa ideia.
Questão 72 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Cidade sustentável é o assentamento humano constituído por uma sociedade com consciência de seu papel de agente transformador dos espaços e cuja relação não se dá pela razão natureza-objeto, e sim por uma ação sinérgica entre prudência ecológica, eficiência energética e equidade socioespacial.
Uma medida pública que contradiz o modelo de cidade exposto no texto é a
ALTERNATIVAS: A) coleta seletiva de lixo. B) reutilização das águas pluviais. C) canalização dos cursos hídricos. D) arborização das avenidas centrais. E) educação ambiental da comunidade.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto define o conceito de "cidade sustentável", destacando três pilares fundamentais: 1. Prudência ecológica: Ação cuidadosa e preventiva em relação ao meio ambiente. 2. Eficiência energética: Uso racional de recursos e energia. 3. Equidade socioespacial: Justiça social no acesso e distribuição dos benefícios e espaços da cidade.
O cerne da definição é a superação da visão da natureza como um mero objeto (algo a ser dominado, controlado e explorado sem limites) e a adoção de uma relação sinérgica (de cooperação e integração) entre sociedade e ambiente. A questão pede a medida pública que CONTRADIZ esse modelo, ou seja, que representa justamente a visão da "natureza-objeto" e viola um ou mais dos pilares mencionados.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) canalização dos cursos hídricos.
A canalização de rios e córregos é uma intervenção urbana clássica que trata a água como um problema a ser contido e escondido, um objeto a ser controlado. Ela geralmente: * Viola a prudência ecológica, pois destrói ecossistemas ripários (margens dos rios), elimina a biodiversidade local e impede os processos naturais de infiltração e drenagem. * Pode agravar problemas de enchentes a jusante (rio abaixo), ao acelerar o fluxo da água. * Frequentemente ignora a equidade socioespacial, pois essas obras são comuns em áreas de valorização imobiliária, mas os impactos negativos (como alagamentos) são deslocados para áreas periféricas mais vulneráveis. É o oposto de uma ação sinérgica; é uma ação de dominação e simplificação da natureza.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Coleta seletiva de lixo: Esta medida está em harmonia com o modelo. Promove a prudência ecológica (reduz a extração de matéria-prima virgem e a poluição) e a eficiência energética (reciclar consome menos energia que produzir novo material). Reflete uma consciência de transformação dos espaços (resíduos viram recursos).
- B) Reutilização das águas pluviais: Esta medida está em harmonia com o modelo. É um exemplo claro de eficiência energética (economia de água tratada) e prudência ecológica (uso racional dos recursos hídricos). Representa uma interação inteligente e não predatória com o ciclo natural da água.
- D) Arborização das avenidas centrais: Esta medida está em harmonia com o modelo. Contribui para a prudência ecológica (melhora a qualidade do ar, regula a temperatura, abriga fauna) e para a equidade socioespacial (oferece áreas de convívio e bem-estar à população, democratizando o acesso ao verde urbano). É uma integração da natureza no espaço construído.
- E) Educação ambiental da comunidade: Esta medida é a base fundamental do modelo exposto. O texto começa definindo a cidade sustentável como constituída por uma sociedade com consciência de seu papel. A educação ambiental é o processo que forma essa consciência e capacita o cidadão a ser o "agente transformador" mencionado. É totalmente coerente e necessária.
Identificação Pedagógica
- Tema: Sustentabilidade Urbana, Meio Ambiente e Cidadania.
- Competência BNCC: Competência 6 da Área de Ciências Humanas - "Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - "Analisar e avaliar os impactos das transformações tecnológicas e das políticas públicas no processo de territorialização, desterritorialização e reterritorialização das sociedades, considerando as diferentes escalas."
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente contrasta visões antropocêntricas (homem no centro, natureza como recurso) e visões socioambientais ou sustentáveis (homem integrado, relação de respeito). Para identificar a contradição, busque na alternativa a ação que representa controle rígido, ocultação ou simplificação de um sistema natural, em vez de sua integração ou uso racional. Palavras como "canalizar", "aterrar", "retificar" em contextos ambientais costumam ser sinais de alerta para práticas não sustentáveis.
Questão 73 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Texto: Para que a utopia renasça, é preciso confiar no potencial humano – Zygmunt Bauman
Para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que nós, seres humanos, podemos fazê-lo, sendo capazes de perceber o que está errado com o mundo, o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los.
Comando da questão: De acordo com o autor, qual é a função da utopia no contexto das transformações sociais?
Alternativas: A) Habilitar memórias afetivas. B) Apontar alternativas possíveis. C) Legitimar experiências pretéritas. D) Perpetuar paradigmas científicos. E) Empreender soluções conclusivas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto do sociólogo Zygmunt Bauman discute as condições para o surgimento (ou renascimento) da utopia. Ele não define a utopia diretamente, mas descreve seu pré-requisito: uma dupla percepção. Primeiro, a crítica de que "o mundo não está funcionando adequadamente". Segundo, a crença no "potencial humano" para diagnosticar os problemas e ter a "força e coragem para extirpá-los". Portanto, a utopia, no contexto do texto, surge como uma resposta a essa insatisfação e a essa confiança. Ela não é apresentada como um plano detalhado, mas como um impulso ou orientação para a transformação social, baseada na capacidade humana de imaginar e buscar um mundo reformado. A pergunta quer saber qual a função da utopia nesse processo de transformação.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B) Apontar alternativas possíveis.
O texto de Bauman vincula a utopia à capacidade de "perceber o que está errado" e ao desejo de "modificar" e "extirpar" os pontos problemáticos. Para fazer isso, é necessário imaginar um caminho diferente do atual, ou seja, apontar alternativas. A utopia funciona como um farol que indica uma direção possível de mudança, motivada pela crítica ao presente e pela fé na ação humana. Ela "aponta" o caminho; não necessariamente o executa ou garante seu sucesso final.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) Habilitar memórias afetivas. Erro: Extrapolação / Fora do Foco. O texto não menciona memória, afeto ou passado. O foco de Bauman é estritamente prospectivo (olhar para frente), na reforma do mundo futuro, não na ativação de lembranças do passado.
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B) Apontar alternativas possíveis. Correta. Como explicado, a utopia, ao nascer da crítica e da confiança na ação, serve para sinalizar outros rumos possíveis para a sociedade.
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C) Legitimar experiências pretéritas. Erro: Contradição / Inversão de Sentido. A utopia, conforme descrita, nasce da insatisfação com o estado atual das coisas ("o mundo não está funcionando"). Seu papel é questionar e buscar mudar o presente, não validar ou dar aval a experiências passadas ("pretéritas"). Ela é projetada para o futuro, não para justificar o passado.
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D) Perpetuar paradigmas científicos. Erro: Reducionismo / Fora do Escopo. O texto fala em "reformar o mundo" e "revisar fundamentos" de forma ampla, social e existencial. Não há qualquer menção a ciência, paradigmas científicos ou conhecimento técnico. A utopia de Bauman é de natureza social e política, não científica.
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E) Empreender soluções conclusivas. Erro: Extrapolação / Excesso de Certeza. O texto enfatiza o potencial e a capacidade de agir ("podemos fazê-lo", "ter força e coragem"). No entanto, ele descreve a utopia como um nascimento ou condição para ação, não como a execução de soluções prontas e "conclusivas". A função é apontar o caminho e motivar a caminhada, não garantir um destino final e imutável.
Identificação Pedagógica
- Tema: Filosofia Política / Sociologia do Conhecimento - O papel das ideias utópicas na sociedade.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos para diferentes fins, de diferentes gêneros e circulação. E Competência 5 (Área de Humanidades) - Compreender, analisar e relacionar processos e fenômenos históricos, geográficos e sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Questões de interpretação de textos teóricos ou filosóficos no ENEM, como esta com Bauman, frequentemente testam sua capacidade de sintetizar a ideia central do autor sem acrescentar conceitos externos. A chave é se apegar estritamente ao que está escrito. Note como as alternativas erradas trazem elementos válidos em outros contextos (memória, ciência, conclusão), mas que não estão presentes no fragmento fornecido. Treine identificar o núcleo do argumento do autor e rejeitar alternativas que, mesmo parecendo inteligentes, representam um desvio desse núcleo.
Questão 74 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia)
Enunciado
Descrição do infográfico: O infográfico, intitulado Produção e exportações brasileiras no ranking mundial em 2019, apresenta um quadro com as seguintes informações: Açúcar: segundo lugar na produção mundial, com 36 por cento, e primeiro lugar nas exportações; Café: primeiro lugar na produção mundial, com 27 por cento, e primeiro lugar nas exportações; Suco de laranja: primeiro lugar na produção mundial, com 76 por cento, e primeiro lugar nas exportações; Soja: segundo lugar na produção mundial, com 51 por cento, e primeiro lugar nas exportações; Carne de frango: segundo lugar na produção mundial, com 38 por cento, e primeiro lugar nas exportações; Carne bovina: segundo lugar na produção mundial, com 22 por cento, e primeiro lugar nas exportações; Milho: terceiro lugar na produção mundial, com 20 por cento, e terceiro lugar nas exportações; Carne suína: quarto lugar na produção mundial, com 10 por cento, e quarto lugar nas exportações.
Comando da questão: Qual condição favoreceu o cenário produtivo exposto na figura?
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O infográfico apresenta dados de 2019 que posicionam o Brasil como um dos maiores produtores e, principalmente, o maior exportador mundial em várias cadeias do agronegócio (açúcar, café, suco de laranja, soja e carnes). Esse cenário de destaque na produção e supremacia nas exportações é resultado de um processo histórico de modernização e financeirização da agricultura brasileira, conhecido como "Revolução Verde" e posterior consolidação do agronegócio. A questão pede a condição que favoreceu esse cenário, ou seja, a causa estrutural por trás desses números impressionantes.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B) Ampliação da entrada do capital agroindustrial no campo.
A consolidação do Brasil como potência agroexportadora está diretamente ligada à intensa entrada de capital, tecnologia, insumos industriais e uma lógica empresarial no espaço rural. Esse processo, impulsionado a partir da década de 1970 e aprofundado nas décadas seguintes, transformou a agricultura em um complexo agroindustrial. O capital agroindustrial permitiu: a mecanização em larga escala, o uso de sementes geneticamente modificadas e defensivos agrícolas, a integração entre lavoura, pecuária e indústria (como no caso do frango e suínos), e a criação de cadeias logísticas eficientes para o mercado externo. É esse modelo que gera os altos volumes de produção e a competitividade internacional retratados no infográfico.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) Redução do poder de compra da população brasileira. Distrator: Contradição e Reducionismo. Uma redução do poder de compro interno poderia, em tese, estimular a busca por mercados externos. No entanto, o infográfico destaca a produção mundial, não apenas as exportações. O Brasil é um dos maiores produtores do planeta. A causa desse volume produtivo é estrutural e tecnológica, não uma mera reação a uma conjuntura econômica interna. Além disso, associar o sucesso do agronegócio ao empobrecimento da população é um reducionismo que não capta a complexidade do processo.
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C) Diminuição do uso de trabalho especializado na agropecuária. Distrator: Contradição com o modelo. O agronegócio moderno, que gerou o cenário apresentado, não diminuiu, mas reconfigurou o uso de trabalho. Houve uma redução da mão de obra braçal não qualificada (pela mecanização), mas um aumento da demanda por trabalho especializado em áreas como agronomia, veterinária, mecânica de precisão, gestão e logística. A alternativa sugere uma simplificação que não corresponde à realidade do modelo produtivo em questão.
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D) Valorização da moeda nacional em relação ao dólar americano. Distrator: Anacronismo e Contradição Econômica. Uma valorização do Real frente ao Dólar torna as exportações brasileiras mais caras no mercado internacional, prejudicando a competitividade. O cenário de sucesso exportador apresentado é historicamente associado a períodos de câmbio desvalorizado (mais Dólares por Real), que barateiam nossos produtos lá fora. Portanto, essa condição seria um obstáculo, não um fator favorável.
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E) Inclusão de pequenas propriedades em cultivos de subsistência. Distrator: Extrapolação do Foco. A agricultura familiar e de subsistência é vital para a segurança alimentar interna e produz a maior parte dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro (como feijão, mandioca, hortaliças). No entanto, o infográfico trata exclusivamente de commodities para o mercado externo (soja, carnes, café, açúcar), cuja produção é dominada por grandes propriedades e complexos agroindustriais. A inclusão de pequenas propriedades em cultivos de subsistência não é a condição que explica a posição de liderança mundial em exportação de grãos e proteína animal.
Identificação Pedagógica
- Tema: Geografia Agrária, Modernização da Agricultura e Agronegócio.
- Competência BNCC: Competência 6 - Construir argumentação com base em informações geográficas, demográficas e socioeconômicas.
- Habilidade BNCC: EM13CHS603 - Analisar e avaliar os impactos das transformações tecnológicas e científicas, seus alcances e limites no mundo do trabalho, nos sistemas de comunicação e informação, na produção da vida e no desenvolvimento socioeconômico do país.
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre o agronegócio brasileiro frequentemente abordam a contradição entre produção voltada para a exportação e segurança alimentar interna, e os impactos ambientais e territoriais do modelo. Para resolvê-las, lembre-se: o sucesso exportador está ancorado no tripé tecnologia-capital-grande propriedade (agronegócio), enquanto a produção de alimentos para o mercado interno está mais associada à agricultura familiar. Identificar qual dos dois modelos está em foco no enunciado é o primeiro passo para escolher a alternativa correta.
Questão 75 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História)
Enunciado
Em toda a sua carreira política, Getúlio Vargas sempre contara com o seu talento pessoal de persuasão e poder de manipulação. Agora, porém, seus amigos começavam a perceber que ele parecia envelhecido e cansado. A principal figura da oposição, concordavam eles, era o belicoso jornalista Carlos Lacerda. Se ao menos pudessem "removê-lo" do cenário político, talvez Vargas se salvasse da situação. Esses seguidores decidiram tomar o assunto em suas próprias mãos com o atentado da Rua Tonelero.
Nesse contexto, a ação dos aliados de Getúlio Vargas teve como consequência imediata o(a) Alternativas: A) intensificação dos ataques do grupo udenista. B) intervenção dos sindicatos no conflito partidário. C) mobilização da sociedade na defesa do governo. D) abandono da censura aos meios de comunicação. E) apoio dos parlamentares aos candidatos oposicionistas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda um momento crucial da crise política do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954). O texto se refere ao Atentado da Rua Tonelero, ocorrido em 5 de agosto de 1954, quando aliados próximos de Vargas tentaram assassinar seu principal opositor, o jornalista Carlos Lacerda. O atentado fracassou em seu objetivo principal (matar Lacerda), mas resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz, que acompanhava o jornalista. Este evento foi o estopim para uma crise sem precedentes. A pergunta exige que o candidato identifique a consequência imediata desse ato político extremo, considerando o clima de polarização entre o governo Vargas e a oposição, liderada pela UDN (União Democrática Nacional) e personificada em Lacerda.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) intensificação dos ataques do grupo udenista.
O atentado, longe de "salvar" Vargas, precipitou sua queda. A morte de um oficial da Aeronáutica (Rubens Vaz) chocou a sociedade e deu à oposição, especialmente aos udenistas e aos militares, um argumento moral e político irrefutável para intensificar seus ataques. Eles passaram a acusar o governo de estar envolvido em um "crime político" e de abrigar uma "república do crime" no Palácio do Catete. A pressão tornou-se insustentável, levando ao suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954. Portanto, a ação violenta dos aliados de Vargas teve o efeito contrário ao desejado, inflamando ainda mais a oposição.
Análise das Alternativas Incorretas
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B) intervenção dos sindicatos no conflito partidário. Distrator: Reducionismo e Anacronismo. Embora os sindicatos fossem uma base de apoio importante para Vargas (getulismo trabalhista), sua intervenção direta e organizada no conflito partidário desencadeado pelo atentado não foi a consequência imediata mais relevante. A reação popular mais significativa veio após o suicídio de Vargas, com manifestações de luto e revolta, não como uma intervenção sindical estruturada no conflito político-institucional imediatamente após o atentado.
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C) mobilização da sociedade na defesa do governo. Distrator: Contradição com o fato histórico. O atentado causou repúdio generalizado, isolando ainda mais o governo Vargas. A mobilização social em grande escala em defesa de Vargas só ocorreu após o seu suicídio, quando a comoção e a leitura da "Carta Testamento" geraram uma revolta popular contra seus opositores. Imediatamente após o atentado, a reação social foi majoritariamente de indignação contra o governo.
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D) abandono da censura aos meios de comunicação. Distrator: Extrapolação e contradição. Não há qualquer indício histórico de que o governo Vargas tenha relaxado o controle sobre a imprensa após o atentado. Pelo contrário, o clima era de tensão máxima. A imprensa oposicionista, liderada por Lacerda, atacava o governo ferozmente, e não há registro de que o governo tenha cedido nesse ponto como consequência do atentado.
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E) apoio dos parlamentares aos candidatos oposicionistas. Distrator: Reducionismo e imprecisão temporal. A questão trata da consequência imediata do atentado, que foi uma crise política aguda no âmbito do Executivo e das Forças Armadas, não uma movimentação eleitoral no Legislativo. O foco imediato foi a pressão pela renúncia ou deposição de Vargas, não o apoio parlamentar a candidatos em futuras eleições. Esta alternativa desloca o foco do problema central.
Identificação Pedagógica
- Tema: República Populista (1945-1964) / Crise e Suicídio de Vargas.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de CH) - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar e avaliar criticamente as relações de poder em diferentes contextos históricos e geográficos, com base em conceitos como política, nação, Estado, governo, justiça, direitos, cidadania e democracia.
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre a Era Vargas frequentemente exploram as contradições de seu governo e as crises que o marcaram. Fique atento aos efeitos contrários das ações políticas: uma medida tomada para fortalecer um governo pode, no contexto de polarização, acelerar sua queda. Sempre relacione o evento específico (como o Atentado da Rua Tonelero) com a cadeia de consequências que ele desencadeou, separando o que foi imediato do que foi uma reação posterior.
Questão 76 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O que eu queria ter sido Clarice Lispector
Um nome para o que sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de "a protetora dos animais". Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas.
A reflexão contida no texto faz referência aos pressupostos de uma doutrina ética representada pelo
ALTERNATIVAS: A) estado eudaimônico. B) referencial hedonista. C) pensamento altruísta. D) movimento antiespecista. E) comportamento pragmático.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um fragmento da escritora Clarice Lispector, no qual ela reflete sobre sua vocação e desejo pessoal. O núcleo da reflexão está na frase: "uma pessoa que luta pelo bem dos outros". A narradora descreve um impulso intrínseco, desde a infância, de defender os acusados e se comover profundamente com as injustiças sociais sofridas pelas "classes menos privilegiadas". O comando da questão pede que identifiquemos qual doutrina ética tem como pressuposto central essa disposição de agir em prol do bem-estar alheio, colocando os interesses dos outros em primeiro plano.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) pensamento altruísta.
A ética altruísta tem como princípio fundamental a preocupação com o bem-estar dos outros, muitas vezes implicando em ação, dedicação e até sacrifício em benefício de terceiros. O texto é uma exemplificação literária perfeita desse conceito: a vontade de ser "uma lutadora... pelo bem dos outros", a defesa imediata das pessoas acusadas e a profunda perplexidade diante das injustiças sociais são manifestações claras de uma postura altruísta.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) estado eudaimônico: Distrator por reducionismo/conceito inadequado. O eudaimonismo é uma doutrina ética que associa a felicidade (eudaimonia) à realização da virtude e do potencial humano. Embora a ação virtuosa possa beneficiar outros, o foco central está na florescimento e felicidade do próprio agente. O texto de Clarice coloca o foco exclusivamente no bem dos outros, não na sua própria realização ou felicidade como fim último.
- B) referencial hedonista: Distrator por contradição. O hedonismo é a doutrina que identifica o bem com o prazer e a ausência de dor. É uma ética centrada no interesse próprio. A postura descrita no texto é diametralmente oposta, pois a narradora se dedica a causas que envolvem sofrimento alheio e luta (ato que pode ser penoso), em detrimento de uma busca pelo próprio prazer.
- D) movimento antiespecista: Distrator por extrapolação. O antiespecismo é uma doutrina ética que se opõe à discriminação com base na espécie, defendendo que os interesses de animais não-humanos devem ser considerados moralmente. Embora o texto mencione que a narradora era chamada de "protetora dos animais", o desenvolvimento principal e a ênfase da reflexão estão na defesa de pessoas e no drama social humano (injustiças contra classes menos privilegiadas). Portanto, o antiespecismo é um conceito tangencial, não o central da questão.
- E) comportamento pragmático: Distrator por contradição/conceito inadequado. O pragmatismo, em ética, valoriza a utilidade prática e os resultados concretos de uma ação. É uma postura muitas vezes associada a uma avaliação consequencialista e menos a um impulso emocional ou moral puro. A narradora age por um impulso de defesa imediata ("bastava acusarem... eu imediatamente defendê-la") e por uma perplexidade do coração, o que aponta mais para uma motivação de princípio do que para um cálculo pragmático de resultados.
Identificação Pedagógica
- Tema: Ética e Filosofia no Texto Literário / Comportamento Humano e Valores.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes fins, de diferentes gêneros e em diferentes meios de comunicação, considerando a situação comunicativa e o tema/assunto do texto.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, reconhecendo posicionamentos diversos e argumentos contra-hegemônicos.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que trazem fragmentos literários seguidos de conceitos filosóficos ou sociológicos exigem uma leitura atenta para identificar o conceito-chave exemplificado no texto. Não se deixe levar por palavras isoladas (como "animais" no texto, que poderia levar ao antiespecismo). É preciso analisar o foco principal da argumentação do autor. Neste caso, a repetição da ideia de "lutar pelo bem dos outros" é a pista mais forte. Treine relacionando textos a conceitos como individualismo, coletivismo, altruísmo, egoísmo, ética do dever e ética das consequências.
Questão 77 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Filosofia/Sociologia)
Enunciado
Ideologia da sociedade industrial Herbert Marcuse
Independência de pensamento, autonomia e direito à oposição política estão perdendo sua função crítica básica numa sociedade que parece cada vez mais capaz de atender às necessidades dos indivíduos através da forma pela qual é organizada. Nas condições de um padrão de vida crescente, o não conformismo com o próprio sistema parece socialmente inútil, principalmente quando acarreta desvantagens econômicas e políticas tangíveis e ameaça o funcionamento suave do todo.
Qual é a característica da sociedade industrial do século 20 apresentada no texto?
ALTERNATIVAS: A) Gestão integrada. B) Relativismo moral. C) Desobediência civil. D) Realidade unidimensional. E) Desenvolvimento tecnológico.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um trecho da obra do filósofo Herbert Marcuse, um dos principais pensadores da Escola de Frankfurt. Ele discute um fenômeno central da sociedade industrial avançada: a sua capacidade de neutralizar a crítica e a oposição. Marcuse argumenta que, ao oferecer um padrão de vida crescente e atender às necessidades materiais (reais ou criadas), o sistema torna a não-conformidade (o pensamento crítico, a autonomia, a oposição) algo que parece "socialmente inútil" e até prejudicial para o indivíduo. O sistema se organiza de forma a absorver qualquer potencial de contestação, mantendo um "funcionamento suave". A questão pede a característica dessa sociedade descrita no fragmento.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) Realidade unidimensional.
O conceito de "realidade unidimensional" ou "pensamento unidimensional" é central na filosofia de Marcuse, especialmente em seu livro "O Homem Unidimensional" (1964). Ele descreve justamente uma sociedade onde a capacidade crítica (a "segunda dimensão") é anulada. As contradições e alternativas ao sistema são absorvidas ou apresentadas como irracionais. O texto reflete isso ao mostrar que a autonomia e a oposição perdem sua função, pois a sociedade parece satisfazer todas as necessidades, criando uma falsa sensação de liberdade e plenitude que suprime o questionamento. A "unidimensionalidade" é a característica de um sistema que elimina a tensão entre o que é e o que poderia ser.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Gestão integrada: Embora o texto fale em "funcionamento suave do todo" e na sociedade organizada para atender necessidades, o termo "gestão integrada" é muito genérico e administrativo. O foco de Marcuse não é o método de gestão, mas a consequência filosófica e social dessa integração: a perda da capacidade crítica e a criação de uma realidade unidimensional. Esta alternativa peca por ser um reducionismo do conceito central.
- B) Relativismo moral: O texto não discute a ausência de valores absolutos ou a validação de diferentes perspectivas morais. O problema apontado não é a relativização dos valores, mas a supressão ativa de qualquer valor ou pensamento que conteste o sistema. Esta alternativa representa uma extrapolação incorreta do tema.
- C) Desobediência civil: Esta é a ação que o texto descreve como sendo tornada "socialmente inútil" e prejudicial. A desobediência civil é uma forma de não-conformismo que, na análise de Marcuse, perde seu apelo e eficácia na sociedade industrial. Portanto, ela não é a característica da sociedade, mas sim o que a sociedade neutraliza. Escolher esta alternativa é cometer um erro de contradição com o argumento do autor.
- E) Desenvolvimento tecnológico: Embora o "padrão de vida crescente" mencionado seja frequentemente associado ao desenvolvimento tecnológico, este é um meio e não a característica central descrita. Marcuse critica o uso da tecnologia e do conforto material como instrumentos de dominação e controle social, que levam à unidimensionalidade. Focar apenas no "desenvolvimento tecnológico" é ignorar a consequência social e filosófica que é o cerne da questão.
Identificação Pedagógica
- Tema: Teoria Crítica e Sociedade Industrial - Filosofia Contemporânea.
- Competência BNCC: Competência 3 - "Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos práticas dos diferentes grupos e atores sociais, aos princípios que regulam a convivência em sociedade, aos direitos e deveres da cidadania, à justiça e à distribuição dos benefícios econômicos."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS302 - "Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, consumo, cultura) com base em conceitos da Filosofia e das Ciências Humanas, elaborando proposições para ações que promovam a sustentabilidade e o respeito aos direitos humanos e à diversidade sociocultural."
Dica do Especialista
Questões sobre a Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse) são recorrentes no ENEM. Fique atento aos conceitos-chave: indústria cultural (que padroniza o gosto), razão instrumental (a razão usada apenas para dominar) e, no caso de Marcuse, a unidimensionalidade. Quando o texto falar em "perda da capacidade crítica", "conformismo induzido pelo bem-estar" ou "sistema que absorve as contradições", a chave provavelmente será "realidade unidimensional". Não confunda a causa (tecnologia, conforto) com a consequência filosófica descrita (a anulação do pensamento crítico).
Questão 78 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Do ponto de vista administrativo e judicial, a desapropriação da fazenda Cabaceiras, localizada na região sul do estado do Pará, é a primeira da história motivada pelo desrespeito à função social de um imóvel rural, como prevê a Constituição Federal de 1988, em decorrência da exploração de "trabalho em condições análogas à escravidão". Na realidade, essa desapropriação não se deu apenas pela ocorrência de relações de trabalho extremamente degradantes, mas também pelas graves infrações ambientais verificadas na fazenda - o que também configura um ataque à função social da terra, de acordo com os preceitos constitucionais.
O texto considera a promoção da justiça como um mecanismo de
ALTERNATIVAS: A) manutenção da ordem agrária. B) legitimação da propriedade privada. C) hegemonia das classes dominantes. D) revisão das desigualdades econômicas. E) homogeneização da distribuição fundiária.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um caso concreto de desapropriação de uma fazenda no Pará, com base no artigo 184 da Constituição Federal de 1988, que prevê a desapropriação de imóveis rurais que não cumpram sua função social. A função social da propriedade é um princípio constitucional que vincula o direito de propriedade ao atendimento de certos requisitos, como o aproveitamento racional e adequado, a utilização adequada dos recursos naturais, a observância das leis trabalhistas e a proteção do meio ambiente.
A questão pergunta como o texto considera a promoção da justiça nesse contexto. O caso descrito mostra a justiça sendo acionada para punir um proprietário que desrespeitou a função social de sua terra, cometendo crimes trabalhistas (trabalho análogo à escravidão) e ambientais. Portanto, a ação judicial promove justiça ao corrigir uma distorção, aplicando a lei para coibir abusos e violações de direitos. O foco está na correção de uma injustiça específica (a violação da função social), que é, em sua essência, uma manifestação de desigualdade econômica e social.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) revisão das desigualdades econômicas.
A desapropriação por descumprimento da função social é um instrumento legal que visa corrigir distorções no uso da propriedade. Ao punir um proprietário que explora trabalhadores e degrada o meio ambiente, o Estado está utilizando a justiça para revisar e tentar corrigir uma situação de desigualdade econômica e social gerada por esse abuso. A ação judicial não busca manter a ordem vigente (que permitia o abuso), mas sim revisá-la para garantir que a propriedade cumpra seu papel social, promovendo maior equidade.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) manutenção da ordem agrária.: Distrator por contradição. O texto descreve uma ação que modifica a ordem agrária vigente naquela propriedade, desapropriando-a. A justiça não está sendo usada para manter o status quo, mas para alterá-lo punitivamente.
- B) legitimação da propriedade privada.: Distrator por reducionismo. Embora a Constituição garanta o direito à propriedade, o caso em questão mostra a justiça atuando para limitar esse direito devido ao seu uso abusivo. A ação deslegitima a forma como a propriedade estava sendo exercida, não a legitima de forma ampla.
- C) hegemonia das classes dominantes.: Distrator por extrapolação. O texto descreve uma ação do Estado contra um membro da classe dominante (o proprietário rural). A justiça, nesse caso, está sendo usada para coibir os excessos dessa classe, não para consolidar seu poder hegemônico.
- E) homogeneização da distribuição fundiária.: Distrator por extrapolação. A desapropriação por função social é um caso específico e punitivo. Ela não tem como objetivo principal ou imediato tornar homogênea a distribuição de terras no país (o que seria uma reforma agrária ampla), mas sim corrigir um uso ilegal e abusivo de uma propriedade específica.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cidadania, Direitos Sociais e Função Social da Propriedade.
- Competência BNCC: Competência Específica 3 (Ciências Humanas) - Analisar e avaliar criticamente as relações de poder e as instituições sociais, políticas e econômicas, identificando formas de atuação para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e inclusiva.
- Habilidade BNCC: EM13CHS302 - Analisar e avaliar os impasses ético-políticos decorrentes das transformações culturais, sociais, históricas, científicas e tecnológicas no mundo contemporâneo e seus desdobramentos na questão da violação dos direitos humanos, propondo alternativas para superá-los.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de entender conceitos constitucionais aplicados a casos concretos. No ENEM, termos como "função social da propriedade", "direitos trabalhistas" e "proteção ambiental" frequentemente aparecem juntos, mostrando a visão integrada da Constituição de 1988. Atenção: a alternativa correta geralmente reflete o princípio ou objetivo maior da ação descrita (neste caso, corrigir uma injustiça/desigualdade), e não apenas uma consequência imediata ou um detalhe do caso.
Questão 79 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Geografia)
Enunciado
Descrição da fotografia: Fotografia aérea da orla da cidade de Salvador, capital da Bahia, que apresenta uma paisagem urbana composta pela presença de um farol, uma pequena área verde e muitos edifícios modernos, com diferentes alturas, localizados desde a área costeira até o interior da cidade.
A análise dos elementos presentes na fotografia permite identificar qual característica socioespacial?
Alternativas: A) Estagnação da especulação imobiliária. B) Conservação da arquitetura colonial. C) Implantação de moradias populares. D) Predomínio da atividade comercial. E) Processo de verticalização urbana.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta uma descrição textual de uma fotografia aérea da orla de Salvador. O candidato deve interpretar os elementos descritos para identificar uma característica socioespacial, ou seja, um fenômeno que relaciona a sociedade e o espaço urbano. A descrição destaca a presença de "muitos edifícios modernos, com diferentes alturas, localizados desde a área costeira até o interior da cidade". Este é o dado central para a resolução. O comando pede uma identificação baseada na análise dos elementos presentes, portanto, a resposta deve derivar diretamente da descrição fornecida, sem extrapolações.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E) Processo de verticalização urbana.
A descrição enfatiza a presença numerosa de edifícios modernos de diferentes alturas, ocupando uma faixa que vai da costa para o interior. Este é um retrato clássico do processo de verticalização, que é a substituição de construções horizontais (como casas) por edifícios de múltiplos andares (prédios), visando maximizar o uso do solo, especialmente em áreas valorizadas, como a orla marítima de uma grande capital.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Estagnação da especulação imobiliária: Contradição. A descrição de "muitos edifícios modernos" sendo construídos, especialmente em uma área cobiçada como a orla, é justamente a evidência de uma intensa atividade e valorização imobiliária, não de sua estagnação.
- B) Conservação da arquitetura colonial: Extrapolação/Contradição. A descrição menciona explicitamente "edifícios modernos". A arquitetura colonial, histórica e característica de Salvador, não é citada. A questão foca na paisagem contemporânea descrita, não em uma possível preservação em outros locais da cidade.
- C) Implantação de moradias populares: Extrapolação. Nada na descrição permite inferir que os edifícios são moradias populares. O termo "edifícios modernos" na orla de uma capital frequentemente está associado a empreendimentos de médio e alto padrão, devido ao alto valor do solo. A descrição é neutra quanto à finalidade social das construções.
- D) Predomínio da atividade comercial: Extrapolação. A descrição fala em "edifícios", mas não especifica sua função (se residenciais, comerciais ou mistos). Dizer que há predomínio comercial é ir além das informações fornecidas. A característica espacial mais evidente é a forma (altura e densidade), não a função econômica.
Identificação Pedagógica
- Tema: Urbanização e Dinâmicas do Espaço Urbano.
- Competência BNCC: Competência 6 - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e promovam a consciência e a responsabilidade socioambiental.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que trazem uma descrição de imagem (seja ela gráfico, mapa ou fotografia) exigem que você se atenha rigorosamente aos elementos apresentados. A resposta correta sempre será aquela que pode ser comprovada diretamente pelos dados do enunciado. Cuidado com alternativas que, embora possam ser verdadeiras em um contexto mais amplo (ex.: Salvador tem arquitetura colonial preservada), não são sustentadas pela informação específica da questão. Treine seu olhar para identificar processos urbanos (como verticalização, segregação, expansão) a partir de pistas visuais ou descritivas.
Questão 80 - Ciências Humanas (História)
Enunciado
A difusão pelos cônegos do ideal apostólico, bem como a influência dos eremitas e dos pregadores errantes que na sua esteira propagavam temas evangélicos, contribuíram para fazer nascer, entre os fiéis, o desejo de se erguerem ao nível espiritual do clero e de obterem a sua salvação, sem que para isso tivessem de renunciar ao seu estado. Pela primeira vez, a Igreja entreabria as portas da graça em benefício da totalidade dos fiéis, colocando, como única condição, a sua partida para o Oriente, a fim de aí lutarem contra os inimigos de Cristo.
Conforme o texto, no imaginário dos fiéis cristãos do período medieval, a salvação era alcançada por meio das
ALTERNATIVAS: A) palavras escritas. B) práticas litúrgicas. C) ações voluntárias. D) ideias messiânicas. E) celebrações coletivas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto descreve um momento crucial na história do cristianismo medieval: o período que antecedeu e motivou as Cruzadas. Ele fala sobre a difusão de um "ideal apostólico" por pregadores, que inspirou os fiéis leigos (não-clérigos) a buscarem sua salvação espiritual sem precisar abandonar sua vida secular (renunciar ao seu estado). A Igreja, então, ofereceu um caminho concreto para essa salvação: a "partida para o Oriente" para lutar "contra os inimigos de Cristo". O comando da questão pede para identificar, conforme o texto, o meio pelo qual a salvação era alcançada no imaginário desses fiéis. A chave está na ação proposta: a partida e a luta. Trata-se de uma ação concreta e pessoal motivada por uma escolha.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) ações voluntárias. O texto é explícito ao mostrar que a salvação deixou de ser vista como um privilégio exclusivo do clero (através de ritos ou conhecimentos específicos) e passou a ser acessível aos leigos mediante uma ação específica e voluntária: "a sua partida para o Oriente, a fim de aí lutarem". A ida para a Cruzada era um ato de vontade própria, uma "ação voluntária" que, no contexto religioso da época, garantia a remissão dos pecados e a salvação da alma.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) palavras escritas.: Distrator por reducionismo e anacronismo. O texto menciona a difusão de "temas evangélicos", mas o meio de salvação que ele destaca não é a leitura ou o estudo das escrituras (algo restrito a poucos na Idade Média), e sim a ação decorrente da pregação oral. A alternativa reduz o processo complexo descrito a um elemento secundário.
- B) práticas litúrgicas.: Distrator por contradição ao texto. O texto começa justamente destacando o desejo dos fiéis de alcançar a salvação "sem que para isso tivessem de renunciar ao seu estado", ou seja, sem se tornarem monges ou clérigos, que eram os principais realizadores das práticas litúrgicas complexas. A alternativa aponta para um caminho tradicional que o texto apresenta como sendo superado por uma nova via.
- D) ideias messiânicas.: Distrator por extrapolação. Embora a narrativa das Cruzadas tivesse um componente escatológico (crença no fim dos tempos), o texto não foca em ideias abstratas sobre um messias ou um salvador. O foco está na ação prática ("partida", "luta") como resposta a uma convocação da Igreja, não na adesão a uma doutrina messiânica específica.
- E) celebrações coletivas.: Distrator por imprecisão conceitual. A partida para as Cruzadas podia envolver cerimônias coletivas, mas a essência do ato salvifico descrito no texto é a jornada individual e o combate, não o ritual em si. A "celebração coletiva" é um evento pontual, enquanto a salvação, conforme o texto, estava condicionada a uma empreitada longa e perigosa.
Identificação Pedagógica
- Tema: Religião e Poder na Idade Média - As Cruzadas.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar e avaliar criticamente as relações de poder e as conflituosas relações entre os grupos sociais e as nações em diferentes momentos históricos e espaciais, com vistas à construção de referenciais que possibilitem uma atuação propositiva e protagonista diante dos problemas do mundo contemporâneo.
Dica do Especialista
Questões do ENEM sobre Idade Média frequentemente abordam a relação entre a Igreja e a sociedade leiga. Fique atento a textos que descrevem mudanças nessa relação, como a popularização de ideias religiosas ou a criação de novos caminhos para a salvação (como as Cruzadas ou as indulgências). A chave é sempre retornar ao texto e verificar qual elemento é apresentado como condição principal ou meio direto para alcançar o objetivo descrito, evitando escolher alternativas que representem elementos contextuais ou secundários.
Questão 81 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Ciências da Natureza e suas Tecnologias (Contexto Interdisciplinar)
Enunciado
Pesquisa pioneira no Brasil propõe o uso de energia do solo para climatizar edifícios
Pela primeira vez na história, o Brasil terá um prédio que usa energia do solo para climatizar seus ambientes. Uma pesquisa inovadora avaliou o uso das fundações de edifícios como meio para a troca de energia térmica entre o prédio e o subsolo. A energia geotérmica é aquela encontrada dentro da crosta terrestre, seja no solo, nas rochas ou mesmo na água, sendo identificada pela temperatura. Essa energia pode ser transferida para a superfície por processos de troca térmica a partir das fundações da edificação.
Para o sistema elétrico brasileiro, a expansão de tecnologias como a descrita no texto representa uma tendência de
ALTERNATIVAS: A) homogeneização da oferta da matriz produtiva. B) ampliação do consumo em unidades residenciais. C) redução da pressão sobre as usinas hidrelétricas. D) estagnação do consumo em unidades industriais. E) superação da necessidade de recursos renováveis.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda uma tecnologia de climatização que utiliza a energia geotérmica (calor do solo) para regular a temperatura de edifícios. O texto destaca a inovação e o potencial desta tecnologia no Brasil. O comando da questão pede para identificar qual tendência a expansão dessa tecnologia representa para o sistema elétrico brasileiro. Portanto, devemos pensar nas consequências de se usar uma fonte de energia alternativa (geotérmica) para uma função (climatização) que tradicionalmente consome muita eletricidade, principalmente em um país cuja matriz elétrica é fortemente dependente de hidrelétricas.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) redução da pressão sobre as usinas hidrelétricas.
A climatização (aquecimento e resfriamento) de ambientes é um dos grandes consumidores de energia elétrica no Brasil, especialmente durante os picos de calor, que sobrecarregam o sistema. A tecnologia geotérmica descrita substitui ou complementa o uso de aparelhos de ar-condicionado elétricos. Se essa tecnologia se expandir, menos energia elétrica será demandada da rede nacional para essa finalidade. Como as hidrelétricas são a principal fonte dessa energia, uma menor demanda implica diretamente em uma redução da pressão sobre elas, permitindo uma operação mais estável e sustentável do sistema.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) homogeneização da oferta da matriz produtiva.: Errado por Reducionismo/Contradição. A matriz produtiva (ou matriz energética) refere-se à composição das fontes de energia usadas. A introdução de uma nova tecnologia, como a geotérmica, diversifica a matriz, tornando-a menos dependente de uma única fonte (como a hídrica). Portanto, a tendência é de heterogeneização, não homogeneização.
- B) ampliação do consumo em unidades residenciais.: Errado por Extrapolação. O texto fala em climatizar edifícios, o que pode incluir residenciais. No entanto, a tecnologia em si não tem como efeito principal ampliar o consumo. Pelo contrário, seu objetivo e efeito esperado é tornar o processo de climatização mais eficiente, podendo até reduzir o consumo de energia elétrica convencional. A questão pergunta sobre o impacto no sistema elétrico, e a expansão de uma tecnologia de eficiência energética não leva à ampliação do consumo geral.
- D) estagnação do consumo em unidades industriais.: Errado por Extrapolação/Reducionismo. A tecnologia é apresentada para climatização de edifícios, não especificamente para processos industriais. Além disso, "estagnação" implica paralisação do crescimento, o que não é uma tendência direta ou necessária decorrente da expansão dessa tecnologia. O foco da questão está no alívio do sistema elétrico, não na previsão do consumo industrial.
- E) superação da necessidade de recursos renováveis.: Errado por Contradição/Anacronismo. Esta alternativa inverte completamente a lógica da sustentabilidade. A energia geotérmica é, por definição, uma fonte renovável. A expansão de tecnologias que a utilizam reforça e amplia a dependência e a necessidade de recursos renováveis, não a "supera". "Superar" aqui significaria deixar de precisar deles, o que é contrário ao discurso e à prática da transição energética sustentável.
Identificação Pedagógica
- Tema: Matriz Energética Brasileira, Sustentabilidade e Inovação Tecnológica.
- Competência BNCC: Competência 6 (Área de Ciências Humanas) - Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. (A questão envolve a avaliação de impactos de uma inovação tecnológica na sociedade e no sistema produtivo).
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar os impactos das tecnologias e das políticas de inovação nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e no crescimento econômico, considerando a formação de profissionais e a criação de novos arranjos produtivos, com suas respectivas condições e relações de trabalho.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que misturam tecnologia, energia e impacto ambiental seguem um padrão claro: busque a alternativa que aponta para a sustentabilidade, a eficiência e a diversificação da matriz energética. Desconfie de opções que sugerem "superação" de conceitos sustentáveis, "estagnação" ou "homogeneização". O exame valoriza a compreensão de que inovações tecnológicas, especialmente em energia, visam a otimização dos recursos e a redução de pressões sobre os sistemas naturais e infraestruturas existentes.
Questão 82 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História)
Enunciado
A cidade antiga Fustel de Coulanges
Durante a realeza, e nos primeiros anos republicanos, as leis eram transmitidas oralmente de uma geração para outra. A ausência de uma legislação escrita permitia aos patrícios manipular a justiça conforme seus interesses.
A conjuntura sociopolítica da Roma Antiga, conforme apresentada no texto, foi contestada pelos
ALTERNATIVAS: A) monarcas, que queriam expandir o código jurídico. B) plebeus, que almejavam participar da vida política. C) nobres, que desejavam superar a relação de dependência. D) camponeses, que aspiravam diminuir a jornada de trabalho. E) estrangeiros, que ambicionavam acessar os espaços públicos.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Fustel de Coulanges descreve um cenário crucial da Roma Antiga: a transmissão oral e secreta das leis, um monopólio dos patrícios (a aristocracia romana). Esse monopólio era uma fonte de poder, pois permitia que a elite interpretasse as leis de forma arbitrária, favorecendo seus próprios interesses. A questão pergunta qual grupo social contestou essa conjuntura, ou seja, lutou para mudar essa situação de desigualdade jurídica e política.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B.
A luta dos plebeus (a maioria da população, composta por pequenos comerciantes, artesãos e camponeses livres) contra o monopólio político e jurídico dos patrícios é um dos eixos centrais da história da República Romana. Seu maior objetivo era a participação política e a igualdade de direitos. A principal conquista dessa luta foi a Lei das Doze Tábuas (c. 450 a.C.), que estabeleceu o primeiro código de leis romano escrito, publicamente exposto, limitando a arbitrariedade dos patrícios. Portanto, foram os plebeus que contestaram diretamente a situação descrita no texto.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) monarcas, que queriam expandir o código jurídico. Distrator: Anacronismo e contradição. O texto menciona o período da "realeza" (monarquia), mas a contestação descrita é característica do período republicano. Além disso, os reis (monarcas) muitas vezes tinham uma relação ambígua com os patrícios, e não há registro de um movimento liderado pelos reis para codificar as leis como forma de contestar os patrícios. A expansão de um código jurídico escrito foi uma demanda popular, não real.
-
C) nobres, que desejavam superar a relação de dependência. Distrator: Contradição lógica. No contexto romano, os termos "patrícios" e "nobres" são praticamente sinônimos. O texto afirma que eram os patrícios/nobres que se beneficiavam do sistema de leis orais. Portanto, não faria sentido eles contestarem uma situação que lhes era vantajosa e que sustentava seu poder.
-
D) camponeses, que aspiravam diminuir a jornada de trabalho. Distrator: Reducionismo e extrapolação. Embora muitos plebeus fossem camponeses e tivessem reivindicações econômicas (como o fim da escravidão por dívidas), o texto se refere especificamente à questão da manipulação da justiça e da ausência de leis escritas. A "jornada de trabalho" é uma demanda social e econômica que não é o foco do problema jurídico-político apresentado.
-
E) estrangeiros, que ambicionavam acessar os espaços públicos. Distrator: Extrapolação e anacronismo. Os "estrangeiros" (peregrinos ou não cidadãos) em Roma tinham status jurídico inferior e pouquíssimos direitos políticos. Suas lutas por acesso eram muito mais limitadas e posteriores. A contestação central à estrutura de poder patrícia, especialmente no início da República, partiu dos plebeus, que eram cidadãos romanos, e não de estrangeiros.
Identificação Pedagógica
- Tema: Formação do Estado e das Instituições Políticas; Cidadania e Direitos na Antiguidade.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Ciências Humanas) - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS302 - Analisar e avaliar os impactos das transformações das instituições sociais e políticas em diferentes épocas e espaços, relacionando-as aos grupos e movimentos sociais que protagonizaram essas transformações.
Dica do Especialista
Questões sobre Roma Antiga no ENEM frequentemente abordam o conflito entre patrícios e plebeus. Lembre-se: a luta dos plebeus não era para derrubar a República, mas para obter direitos dentro dela. As principais conquistas foram: Lei das Doze Tábuas (igualdade jurídica), Lei Canuleia (casamento misto) e o acesso ao Tribunato da Plebe (representação política). Sempre relacione as demandas sociais (fim da escravidão por dívidas) com as conquistas políticas e jurídicas.
Questão 83 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas
Os povos indígenas têm o direito de manter, controlar, proteger e desenvolver seu patrimônio cultural, seus conhecimentos do passado, suas expressões culturais e as manifestações de suas ciências, tecnologias e culturas, compreendidos os recursos humanos e genéticos, as sementes, os medicamentos, o conhecimento das propriedades da fauna e da flora, as transmissões orais, as literaturas, os desenhos, os esportes, os jogos e as artes visuais e interpretativas.
Os direitos reconhecidos no texto representam a
ALTERNATIVAS: A) multiplicidade dos troncos linguísticos. B) ampliação das influências externas. C) complexidade dos saberes tradicionais. D) sofisticação das práticas de sobrevivência. E) diversificação da economia de subsistência.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um trecho da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, um documento fundamental no reconhecimento internacional da autonomia e dos direitos coletivos desses povos. O texto enumera uma vasta gama de elementos que compõem o patrimônio cultural e intelectual indígena, indo desde conhecimentos sobre a natureza (fauna, flora, medicamentos) até expressões artísticas e culturais (literaturas, desenhos, esportes, jogos). O comando da questão pede que se identifique o que esses direitos reconhecidos representam. A chave está em observar que a declaração não está apenas listando itens, mas reconhecendo a natureza abrangente, integrada e profunda do conhecimento desenvolvido e mantido por esses povos ao longo de gerações.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) complexidade dos saberes tradicionais.
A declaração da ONU reconhece que os conhecimentos indígenas não são simples ou rudimentares. Eles formam um sistema complexo que integra ciência, tecnologia, cultura, espiritualidade e manejo ambiental. A lista apresentada no texto – que vai de recursos genéticos e medicamentos a artes e jogos – ilustra justamente essa complexidade, mostrando que os saberes tradicionais são multifacetados, interconectados e fundamentais para a identidade e a continuidade dos povos indígenas.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) multiplicidade dos troncos linguísticos. Distrator por Reducionismo. Embora as "transmissões orais" e "literaturas" possam estar relacionadas à língua, o texto vai muito além disso. A questão central não é a diversidade linguística em si, mas o conjunto amplo de conhecimentos e expressões que a língua veicula. Focar apenas nos troncos linguísticos é reduzir o escopo abrangente do texto.
-
B) ampliação das influências externas. Distrator por Contradição. O texto trata da proteção e manutenção do patrimônio cultural indígena, justamente para evitar sua diluição ou perda por influências externas. A declaração é um instrumento de afirmação da autonomia cultural, não de abertura para ampliar influências de fora. A ideia é oposta ao que está sendo defendido.
-
D) sofisticação das práticas de sobrevivência. Distrator por Reducionismo e Extrapolação. Embora conhecimentos sobre fauna, flora e sementes estejam ligados à subsistência, o texto inclui elementos como artes, esportes e jogos, que vão além da mera sobrevivência física. Reduzir todo o patrimônio listado a "práticas de sobrevivência" é um reducionismo. Além disso, o termo "sofisticação" não é o foco central; o texto enfatiza a complexidade e a integralidade dos saberes.
-
E) diversificação da economia de subsistência. Distrator por Reducionismo. Semelhante à alternativa D, esta opção reduz o amplo espectro cultural e intelectual a um aspecto econômico. A "economia de subsistência" é apenas uma parte do todo. O texto fala de patrimônio cultural, ciências, artes e tecnologias, conceitos muito mais amplos do que a mera diversificação econômica.
Identificação Pedagógica
- Tema: Direitos Humanos, Diversidade Cultural e Saberes Tradicionais.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS402 - Analisar e comparar indicadores de emprego, trabalho e renda em diferentes espaços, escalas e tempos, associando-os a processos de estratificação e desigualdade social.
Contexto Transversal: Esta questão aborda diretamente temas de identidade cultural, etnia e cidadania, ao tratar dos direitos dos povos indígenas à sua cultura e saberes. É um exemplo claro de como as Ciências Humanas no ENEM dialogam com a construção de uma sociedade plural e o respeito à diversidade.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que citam documentos internacionais (como da ONU) ou leis brasileiras (como a Constituição) geralmente buscam avaliar sua capacidade de interpretar o princípio ou valor central defendido por aquele texto. Não se perca nos detalhes da enumeração. Pergunte-se: "Qual é a ideia principal que todos esses itens, juntos, ilustram?" No caso, a lista serve para demonstrar a riqueza e a complexidade dos saberes tradicionais, que vão muito além de estereótipos simplistas. Treine identificar o conceito guarda-chuva que abrange todos os exemplos fornecidos.
Questão 84 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Bíblia - Êxodo 31, 2-5 Eu escolhi Bezalel e lhe dei competência e habilidade para fazer todo tipo de trabalho artístico; para fazer desenhos e trabalhar em ouro, prata e bronze; para lapidar e montar pedras preciosas; para entalhar madeira; e para fazer todo tipo de artesanato.
TEXTO 2 Bíblia - Atos 7, 22 Moisés foi educado em toda a sabedoria dos egípcios e veio a ser poderoso em palavras e obras.
TEXTO 3 Alcorão - Sura 102, 5 Se conhecêsseis a ciência certa, logo renunciarias à ostentação.
Escritos em temporalidades diferentes (Antiguidade e Idade Média), os textos sagrados aproximam-se ao mostrar o papel da ciência para o(a)
ALTERNATIVAS: A) emergência das universidades e escolas confessionais. B) crescimento religioso e movimentos sectários. C) avanço da intolerância e rivalidades nacionais. D) preservação das tradições e rituais místicos. E) desenvolvimento social e práticas laborais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta três textos sagrados de tradições religiosas distintas (Judaico-Cristã e Islâmica) e de períodos históricos diferentes. O comando central pede para identificar o ponto de aproximação entre eles quanto ao papel da ciência (ou sabedoria/conhecimento). A análise deve focar no que os textos dizem sobre o conhecimento, e não em inferências históricas posteriores.
- Texto 1 (Êxodo): Deus concede a Bezalel competência, habilidade e conhecimento para realizar trabalhos artesanais específicos e complexos (ourivesaria, lapidação, entalhe). O conhecimento está diretamente ligado à capacidade de fazer, de produzir.
- Texto 2 (Atos): Moisés é educado na "sabedoria dos egípcios", um conjunto de conhecimentos seculares de uma civilização avançada, e isso o torna "poderoso em palavras e obras". O conhecimento adquirido tem uma aplicação prática e social ("obras") e fortalece sua capacidade de liderança ("palavras").
- Texto 3 (Alcorão): O "conhecimento da ciência certa" é apresentado como um antídoto para um vício moral (a ostentação). O conhecimento tem uma função ética e transformadora do indivíduo, levando a uma conduta mais virtuosa.
O ponto comum é que, em todos os textos, o conhecimento (seja técnico, secular ou espiritual) não é um fim em si mesmo. Ele está sempre vinculado a uma ação, uma prática ou uma transformação concreta – seja no trabalho artesanal, na liderança eficaz ou no comportamento moral.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E) desenvolvimento social e práticas laborais.
Esta alternativa captura a essência da aproximação identificada. "Desenvolvimento social" abrange a ideia de progresso, aperfeiçoamento e organização da comunidade (implícito na formação de Moisés para liderança e no efeito ético do conhecimento no Alcorão). "Práticas laborais" refere-se diretamente às atividades produtivas e técnicas descritas no texto de Êxodo (artesanato) e associadas às "obras" de Moisés. A ciência/sabedoria, nos textos, é um instrumento para a ação no mundo, seja no trabalho, na liderança ou na conduta ética.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) emergência das universidades e escolas confessionais. Erro: Anacronismo e Extrapolação. As universidades e escolas confessionais são instituições medievais (séculos XII-XIII em diante). Os textos, especialmente os bíblicos (Antiguidade), não fazem referência a nenhuma instituição de ensino formal desse tipo. A questão trata do conceito de ciência, não de suas instituições históricas posteriores.
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B) crescimento religioso e movimentos sectários. Erro: Reducionismo e Contradição. Nenhum dos textos fala sobre expansão numérica de fiéis ("crescimento religioso") ou sobre a formação de grupos dissidentes ("movimentos sectários"). Pelo contrário, o texto do Alcorão foca no indivíduo ("renunciarias"), e os textos bíblicos destacam indivíduos específicos (Bezalel, Moisés) dentro de sua comunidade, sem menção a divisões.
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C) avanço da intolerância e rivalidades nacionais. Erro: Contradição e Extrapolação. Esta alternativa projeta conflitos históricos posteriores (como as Cruzadas ou rivalidades modernas) sobre os textos. Eles não mencionam intolerância ou rivalidade. O texto 2, inclusive, valoriza positivamente a "sabedoria dos egípcios", um povo estrangeiro, mostrando abertura ao conhecimento de outras culturas.
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D) preservação das tradições e rituais místicos. Erro: Reducionismo. Embora os textos sejam sagrados e possam estar inseridos em contextos tradicionais, seu conteúdo específico não fala sobre "preservação". Falam sobre aquisição e aplicação ativa do conhecimento. O conhecimento de Bezalel é para criar algo novo (o Tabernáculo); o de Moisés, para agir; o do Alcorão, para transformar a si mesmo. A ênfase não está no ritual místico, mas na sabedoria aplicada.
Identificação Pedagógica
- Tema: Religião, Cultura e Conhecimento. Interpretação de Textos Sagrados.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos para diferentes fins, de diferentes gêneros e nas diferentes mídias. / Competência 4 (Área de Humanas) - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles. / Habilidade EM13CHS101 - Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e processos históricos e geográficos.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que utilizam textos sagrados ou filosóficos costumam testar sua capacidade de extrair a ideia central sem se perder em preconceitos ou associações históricas genéricas. Foque no que o texto explicitamente diz. Cuidado com alternativas que trazem termos de periodização histórica ("universidades", "movimentos sectários") ou conceitos carregados ("intolerância") que não estão presentes na base textual. O comando "aproximam-se ao mostrar" pede um elemento comum de conteúdo, não uma consequência histórica.
Questão 85 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História)
Enunciado
Em 1914, uma expedição estudantil saiu da Rússia em direção à América do Sul, sendo considerada a segunda campanha científica da Rússia no continente depois da longa viagem do barão Langsdorff pelo interior do Brasil na primeira metade do século 19. O empreendimento foi enviado pelo Museu de Antropologia e Etnografia de São Petersburgo e integrado por cinco jovens cientistas, sendo dois zoólogos, dois etnógrafos e um antropólogo, cujo objetivo era a coleta de material de valor biológico e etnográfico para compor coleções nas instituições que participaram de seu financiamento. A expedição passou por países como Brasil, Paraguai e Argentina, resultando em amplo material manuscrito e algumas publicações, além dos objetos coletados.
Além do significado científico, o evento mencionado conectava-se a um projeto nacionalista de caráter
ALTERNATIVAS: A) imperialista e colonizador. B) militar e disciplinador. C) lúdico e filantrópico. D) mercantil e predatório. E) religioso e humanitário.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto descreve uma expedição científica russa à América do Sul em 1914. O comando da questão pede que o candidato identifique, além do significado científico, o caráter do projeto nacionalista ao qual a expedição estava conectada. Para isso, é necessário contextualizar historicamente a Rússia no início do século XX e o significado das expedições científicas na época.
Em 1914, a Rússia era um império (Império Russo) em um contexto de forte competição entre as potências europeias. As expedições científicas, especialmente as de cunho etnográfico e antropológico, frequentemente serviam a propósitos que iam além da pura pesquisa. Elas eram instrumentos de projeção de poder, de afirmação nacional e de "conhecimento do outro" para fins de dominação ou comparação, dentro de uma lógica imperialista. A coleta de objetos e a documentação de povos eram formas de catalogar e, simbolicamente, apropriar-se de territórios e culturas, legitimando uma visão de superioridade e um projeto de expansão de influência, típico do imperialismo do século XIX e início do XX.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) imperialista e colonizador.
A expedição, organizada por uma grande instituição estatal (Museu de São Petersburgo), visava coletar material biológico e etnográfico para enriquecer acervos russos. Esse tipo de atividade era uma faceta do imperialismo cultural e científico da época, onde potências europeias "colecionavam" o mundo para demonstrar seu poder, conhecimento e pretensa superioridade. O termo "colonizador" se conecta à ideia de apropriação simbólica e de domínio sobre os povos e territórios estudados, mesmo que não houvesse uma ocupação militar direta naquele momento.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [imperialista e colonizador]: CORRETA. Como explicado, reflete o contexto das potências europeias no período pré-Primeira Guerra.
- B [militar e disciplinador]: INCORRETA - Reducionismo/Descontextualização. O texto não menciona qualquer aspecto militar, treinamento ou disciplina imposta. A expedição era composta por cientistas (zoólogos, etnógrafos), não por militares. O foco era a coleta e o estudo, não a imposição de ordem ou doutrina.
- C [lúdico e filantrópico]: INCORRETA - Contradição/Anacronismo. "Lúdico" (relativo a jogo, diversão) não se aplica a uma expedição científica oficial e custosa. "Filantrópico" (caridade) também não se encaixa, pois o objetivo declarado era a coleta para museus russos, não a ajuda humanitária às populações locais.
- D [mercantil e predatório]: INCORRETA - Extrapolação. Embora houvesse coleta ("predatório" pode ser uma leitura anacrônica sobre a retirada de materiais), o texto não sugere que o objetivo primário era o comércio ou o lucro imediato ("mercantil"). O foco era a composição de coleções científicas para instituições acadêmicas, um objetivo mais ligado ao prestígio e ao poder simbólico do que ao econômico direto.
- E [religioso e humanitário]: INCORRETA - Contradição. Não há nenhum elemento no texto que aponte para motivações religiosas (como conversão) ou humanitárias (como alívio de sofrimento). A expedição era secular e científica, organizada por um museu de antropologia.
Identificação Pedagógica
- Tema: Imperialismo e Nacionalismo no século XIX/XX; A Ciência a serviço do Estado.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de CH) - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar diferentes curvas de evolução populacional, correlacionando-as a distintos processos históricos, sociais, econômicos, culturais e políticos. (Nota: A habilidade mais precisa seria relacionada à análise do imperialismo, mas esta é uma habilidade de contextualização histórica).
Dica do Especialista
Fique atento às datas e ao contexto histórico global! Questões do ENEM que mencionam expedições científicas europeias ou norte-americanas para outras regiões do mundo (África, Ásia, Américas) no período entre os séculos XIX e início do XX frequentemente abordam o tema do imperialismo. A ciência era usada como ferramenta de dominação, classificação e justificativa para a superioridade das potências. Sempre relacione a ação (coletar, estudar, mapear) com o projeto político da nação de origem no período.
Questão 86 - Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Violência de gênero, poder e impotência Heleieth Saffioti e Suely Souza de Almeida
Em decorrência da naturalização da inferioridade social da mulher e da concepção de justiça do Estado, baseada na igualdade abstratamente concebida, torna-se possível convencer o Estado burguês a conceber e implementar políticas públicas cujo conteúdo se define pela discriminação positiva de mulheres, embora isso aparentemente seja paradoxal.
No contexto atual, qual medida atende ao tipo de política pública abordada no texto?
ALTERNATIVAS: A) Ampliação do sufrágio universal. B) Diminuição da jornada de trabalho. C) Extinção do crime de feminicídio. D) Redução da licença-maternidade. E) Criação de delegacia especializada.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto das autoras Heleieth Saffioti e Suely Souza de Almeida discute um conceito central para a questão: a discriminação positiva (também conhecida como ação afirmativa). O argumento é que, devido à histórica e naturalizada desigualdade de gênero, um Estado que se pauta por uma "igualdade abstrata" (ou seja, que trata todos iguais perante a lei, ignorando diferenças sociais concretas) pode ser levado a adotar políticas que tratem grupos desfavorecidos de forma diferenciada para promover uma igualdade real. Essas políticas são "discriminatórias" no sentido de que fazem distinção, mas são "positivas" porque visam corrigir uma injustiça histórica e estrutural. A questão pede que se identifique, entre as alternativas, uma medida concreta que exemplifique esse tipo de política pública voltada para mulheres.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A criação de delegacias especializadas no atendimento à mulher (como as DEAMs - Delegacias de Atendimento à Mulher) é um exemplo clássico de política pública de discriminação positiva. Ela reconhece que as mulheres, enquanto grupo social historicamente vulnerabilizado pela violência de gênero, necessitam de um aparato estatal específico e sensível para garantir seu acesso à justiça. Essa medida não trata todos os cidadãos de forma idêntica (igualdade abstrata), mas cria um mecanismo diferenciado para corrigir uma desigualdade concreta, atendendo exatamente ao conceito discutido no texto.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) Ampliação do sufrágio universal.: Distrator por anacronismo e reducionismo. O sufrágio universal é um direito fundamental que garante a igualdade política formal (o voto). Sua ampliação, historicamente, incluiu as mulheres, mas hoje é um direito consolidado para todos os adultos. A questão não trata da conquista de um direito universal básico, mas de políticas que vão além da igualdade formal para promover a igualdade material (substantiva) para um grupo específico.
- B) Diminuição da jornada de trabalho.: Distrator por extrapolação. Embora a redução da jornada beneficie todos os trabalhadores, ela não é uma política concebida especificamente para corrigir a desigualdade de gênero. É uma reivindicação geral da classe trabalhadora. O texto foca em políticas com "conteúdo definido pela discriminação positiva de mulheres".
- C) Extinção do crime de feminicídio.: Distrator por contradição lógica. A extinção do crime de feminicídio significaria tratar assassinatos de mulheres como homicídios comuns, apagando a qualificadora que reconhece o motivo de gênero. Isso seria o oposto de uma discriminação positiva; seria um retrocesso que ignoraria a especificidade da violência contra a mulher, retornando a uma "igualdade abstrata" prejudicial.
- D) Redução da licença-maternidade.: Distrator por contradição ao objetivo. A licença-maternidade é uma conquista que visa proteger a saúde da mulher e do recém-nascido, reconhecendo uma diferença biológica e social. Reduzi-la seria uma medida que prejudicaria especificamente as mulheres, agravando uma desigualdade, e não uma ação afirmativa para promovê-las.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cidadania, Direitos Humanos e Políticas Públicas de Gênero.
- Competência BNCC: Competência 6 - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS603 - Analisar e avaliar os impactos sociais, econômicos e políticos das tecnologias e das transformações do mundo do trabalho sobre as demandas e necessidades de aprendizagem e sobre os sistemas de ensino.
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente aborda o conceito de Ações Afirmativas (ou discriminação positiva). Fique atento: o cerne da questão está em diferenciar igualdade formal (tratar todos iguais perante a lei) da igualdade material/substantiva (criar condições para que todos tenham oportunidades reais). Políticas como cotas raciais, delegacias da mulher, leis de proteção a grupos vulneráveis são exemplos clássicos que buscam a segunda. Na prova, desconfie de alternativas que propõem a extinção de direitos específicos ou que confundam conquistas universais com políticas de correção de desigualdades.
Questão 87 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (Filosofia)
Enunciado
Convite à filosofia Marilena Chauí
A cidade justa é governada pelos filósofos, administrada pelos cientistas, protegida pelos guerreiros e mantida pelos produtores. Cada classe cumprirá sua função para o bem da pólis, racionalmente dirigida pelos filósofos. Em contrapartida, a cidade injusta é aquela onde o governo está nas mãos dos proprietários - que não pensam no bem comum da pólis e lutarão por interesses econômicos particulares.
O texto apresenta a estrutura de governo da cidade ideal pensada por Platão, que postula uma indissociabilidade entre
ALTERNATIVAS: A) cognoscência e relação intersubjetiva. B) mitologia e teorias cosmogônicas. C) cidadania e primazia da retórica. D) moralidade e virtudes cardeais. E) ética e exercício do poder.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Marilena Chauí resume a teoria política de Platão, apresentada principalmente na obra "A República". Platão propõe uma cidade ideal (a pólis justa) onde a estrutura social e o governo são organizados racionalmente para alcançar a justiça. A chave da teoria é que a justiça na cidade é um reflexo da justiça na alma do indivíduo. Para Platão, o governo deve estar nas mãos daqueles que possuem o conhecimento mais elevado – os filósofos – porque somente eles, tendo contemplado a Ideia do Bem, saberão governar visando o bem comum. O texto contrasta essa cidade justa com a cidade injusta, governada por interesses particulares (dos proprietários). A questão pede para identificar o que Platão considera indissociável, ou seja, que não pode ser separado, na sua concepção de cidade ideal. O núcleo do texto é a ligação entre o conhecimento do bem (ética) e a ação de governar (exercício do poder).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E) ética e exercício do poder. A teoria platônica estabelece que o exercício legítimo do poder político só pode ser realizado por quem possui o conhecimento ético mais elevado (a filosofia, que leva à Ideia do Bem). Governar sem esse conhecimento ético leva à injustiça, como no caso dos proprietários que buscam interesses particulares. Portanto, para Platão, ética (o saber sobre o bem) e o exercício do poder (a prática de governar) são inseparáveis na cidade justa.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) cognoscência e relação intersubjetiva.: Distrator por extrapolação e anacronismo. Embora o conhecimento (cognoscência) seja central para Platão, a "relação intersubjetiva" é um conceito moderno, ligado ao reconhecimento mútuo entre sujeitos. A filosofia política de Platão é hierárquica e baseada em funções fixas, não numa relação horizontal de diálogo entre iguais. O foco do texto não é a relação entre indivíduos, mas a relação entre conhecimento ético e governo.
- B) mitologia e teorias cosmogônicas.: Distrator por contradição com o texto. Platão, especialmente em "A República", é crítico dos mitos tradicionais (como os de Homero) por corromperem a alma. Além disso, o texto não faz qualquer menção a mitos ou teorias sobre a origem do cosmos. O tema é estritamente político e ético.
- C) cidadania e primazia da retórica.: Distrator por contradição com a teoria platônica. Platão, através de Sócrates, era um crítico ferrenho da retórica (como praticada pelos sofistas), pois a via como uma técnica de persuasão desvinculada da busca pela verdade e pela justiça. Para ele, a cidade justa não é governada por retóricos, mas por filósofos que usam a razão dialética. O texto não menciona retórica.
- D) moralidade e virtudes cardeais.: Distrator por reducionismo e desvio de foco. É verdade que Platão discute as virtudes (como sabedoria, coragem e temperança) e sua relação com a justiça. No entanto, a alternativa reduz a complexa relação postulada no texto a um aspecto mais geral da moralidade. O texto especificamente vincula um tipo específico de saber ético (o dos filósofos) ao ato concreto de governar. A alternativa D é genérica demais e não capta a ligação direta e necessária entre ética e poder que é o cerne da passagem.
Identificação Pedagógica
- Tema: Filosofia Política Antiga – A República de Platão.
- Competência BNCC: Competência 3 - "Contextualizar conhecimentos filosóficos, tanto no tempo e espaço quanto em diferentes matrizes culturais e campos do saber."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS302 - "Analisar e avaliar criticamente as relações de poder nas diferentes esferas da vida social (econômica, política, cultural etc.), suas dinâmicas e contradições, propondo ações que promovam os direitos humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais." (A questão avalia a compreensão de uma teoria clássica sobre a relação entre saber e poder, base para uma análise crítica).
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre Platão frequentemente giram em torno de dois eixos centrais de sua filosofia: a Teoria das Ideias (mundo sensível x mundo inteligível) e a Filosofia Política de "A República". Quando o texto tratar de cidade ideal, governo, funções sociais ou justiça, lembre-se do tripé: Governantes/Filósofos (razão/sabedoria), Guerreiros (vontade/coragem) e Produtores (desejo/temperança), harmonizados pela justiça. A chave para a política platônica é que o poder deve ser exercido por quem sabe, ou seja, quem tem o conhecimento ético (a filosofia). Fique atento a alternativas que tragam conceitos associados a outros filósofos (como a retórica, ligada aos sofistas) ou que sejam muito genéricas, perdendo o ponto específico da relação exigida pelo texto.
Questão 88 - Ciências Humanas e suas Tecnologias (História)
Enunciado
A Impressão Régia do Rio de Janeiro foi criada pelo decreto de 13 de maio de 1808 para dar continuidade à nova sede do império português. A nova tipografia é criada em um momento no qual o projeto de reforma do império se transforma em um projeto de construção de um novo império português na América. Frente às tensões políticas que essa nova situação criava, a tipografia atuou na legitimação e sustentação daquele projeto político.
A função política da tecnologia mencionada no texto favoreceu a nova sede do Império português por
ALTERNATIVAS: A) estabelecer as normativas ideológicas aos periódicos. B) propagar as diretrizes administrativas às capitanias. C) divulgar as conquistas às metrópoles europeias. D) integrar as regiões territoriais ao poder central. E) difundir as publicações às elites lusitanas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto situa a criação da Impressão Régia do Rio de Janeiro em 1808, logo após a transferência da corte portuguesa para o Brasil. Esse evento marca uma reconfiguração do império, com a América (especificamente o Rio de Janeiro) tornando-se a nova sede. O período (1808-1822) é de instabilidade e tensão, exigindo do governo português mecanismos para legitimar e consolidar seu poder no novo território. A "função política da tecnologia" (a imprensa) é explicitada como um instrumento de "legitimação e sustentação" desse projeto de um "novo império português na América". A questão pergunta COMO essa função política favoreceu a nova sede. É preciso identificar a ação que melhor se alinha ao objetivo central de consolidar o poder da corte no Brasil.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) integrar as regiões territoriais ao poder central.
A criação da Impressão Régia serviu como uma ferramenta fundamental para a administração e unificação do território brasileiro sob o comando da corte, agora sediada no Rio de Janeiro. Através da impressão de decretos, leis, regimentos e comunicações oficiais, o governo central podia fazer sua vontade chegar de forma padronizada e rápida (para a época) a todas as capitanias (futuras províncias). Isso era essencial para impor a autoridade real sobre regiões distantes e, por vezes, com interesses próprios, integrando-as efetivamente ao projeto político centralizado na nova capital do império.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) estabelecer as normativas ideológicas aos periódicos. (Reducionismo/Anacronismo) Embora a imprensa régia pudesse influenciar o conteúdo de outros periódicos, seu papel principal não era regular a imprensa em geral. O foco do texto e do contexto histórico é a consolidação do Estado, não o controle específico da mídia. Além disso, a expressão "normativas ideológicas" é muito específica e moderna para descrever a função primordial da tipografia naquele momento.
- B) propagar as diretrizes administrativas às capitanias. (Distrator Parcial) Esta alternativa parece muito próxima da correta e é um forte distrator. De fato, a Impressão Régia propagava diretrizes administrativas. No entanto, o verbo "integrar" da alternativa D é mais abrangente e captura melhor a função política de sustentar todo o projeto imperial, que ia além da mera transmissão de ordens. A integração territorial envolve coesão, subordinação e unificação, objetivos mais amplos alinhados com a "construção de um novo império".
- C) divulgar as conquistas às metrópoles europeias. (Contradição/Inversão de Sentido) O texto fala da construção de um novo império na América, com sede no Rio de Janeiro. A comunicação com as metrópoles europeias (no plural, sugerindo outras nações) não era a prioridade política imediata para legitimar o poder local. A atenção estava voltada para dentro, para o território americano que agora abrigava a corte.
- E) difundir as publicações às elites lusitanas. (Reducionismo) Esta alternativa restringe o alcance e o objetivo da tecnologia. As "elites lusitanas" já estavam, em grande parte, na corte do Rio ou eram o próprio governo. O desafio maior era governar e integrar um vasto território colonial e sua população diversa, não apenas comunicar-se com um grupo já alinhado ao poder.
Identificação Pedagógica
- Tema: Estado Nacional e Poder - A construção do Estado Imperial no Brasil.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade (EM13CHS302) - Analisar e avaliar os impactos de revoluções tecnológicas (neste caso, da imprensa) na organização do trabalho e da vida social e política, considerando diferentes interesses e disputas.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que abordam a transferência da corte (1808) frequentemente exploram as mudanças políticas e administrativas que ela provocou no Brasil. Fique atento aos verbos de ação nas alternativas. Neste caso, "integrar" era mais potente e estratégico do que "propagar" ou "difundir", pois expressava um objetivo de Estado (unificação e controle) em um momento de redefinição do centro do poder. Sempre relacione a tecnologia ou o fato histórico ao projeto político maior em jogo no período.
Questão 89 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Com o objetivo de auxiliar a prevenção e o combate a incêndios no Cerrado, o Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolveu um modelo computacional capaz de prever o comportamento do fogo. Essa tecnologia integra o projeto Monitoramento do Cerrado, do qual também participa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O instituto produz e processa dados de satélite sobre focos de calor para determinar a localização de incêndios no bioma. Esses focos são o ponto de ignição para o modelo desenvolvido na UFMG: com base em outros dados, como relevo, ventos, umidade e biomassa seca, a ferramenta estima as áreas com maior risco de incêndio e prevê a intensidade e a direção de propagação do fogo no Cerrado brasileiro.
Em relação à causa ambiental, o uso da tecnologia mencionada indica a
ALTERNATIVAS: A) influência da produção orgânica. B) relevância da infraestrutura viária. C) significância da cosmologia nativa. D) importância de pesquisas acadêmicas. E) interferência de interesses estrangeiros.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma tecnologia desenvolvida para prever e combater incêndios no Cerrado. O foco da questão está em identificar, "em relação à causa ambiental", o que o uso dessa tecnologia indica. A tecnologia é fruto de um projeto que envolve instituições de pesquisa nacionais (UFMG e INPE), utilizando dados de satélite e modelos computacionais. O comando pede uma inferência sobre o que o desenvolvimento e aplicação dessa ferramenta revelam para a questão ambiental. A resposta correta deve ser extraída diretamente das informações fornecidas, sem extrapolações.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) importância de pesquisas acadêmicas. O texto descreve explicitamente que a tecnologia foi "desenvolvida" pelo Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e integra um projeto que conta com a participação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), outra renomada instituição de pesquisa. Portanto, o uso da tecnologia evidencia diretamente o papel crucial que as pesquisas realizadas no ambiente acadêmico e científico têm para enfrentar desafios ambientais concretos, como os incêndios no Cerrado.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) influência da produção orgânica.: Extrapolação / Fora do Contexto. O texto não faz qualquer menção a métodos de produção agrícola, orgânicos ou convencionais. A tecnologia descrita é de monitoramento e previsão, não está ligada a práticas de cultivo.
- B) relevância da infraestrutura viária.: Extrapolação / Fora do Contexto. A questão trata de monitoramento por satélite e modelagem computacional. Embora estradas possam, em um contexto mais amplo, influenciar o acesso a áreas de incêndio ou o próprio surgimento de focos, essa relação não é estabelecida ou sugerida pelo texto fornecido.
- C) significância da cosmologia nativa.: Extrapolação / Anacronismo. O texto aborda uma tecnologia moderna baseada em ciência de dados e sensoriamento remoto. Não há qualquer referência a conhecimentos tradicionais, cosmologias ou saberes de povos originários. Inserir esse elemento seria uma interpretação que não encontra respaldo no fragmento.
- E) interferência de interesses estrangeiros.: Contradição / Distorção. O texto destaca o protagonismo de instituições brasileiras (UFMG e INPE) no desenvolvimento e aplicação da tecnologia. Não há indício de participação ou influência de agentes ou interesses estrangeiros. A alternativa contraria a informação central do texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Ciência, Tecnologia e Inovação / Meio Ambiente e Sociedade.
- Competência BNCC: Competência 5 (Área de Ciências Humanas) - Compreender e utilizar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos e resolver problemas.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS504 - Analisar e avaliar os impactos sociais, ambientais e econômicos das tecnologias e das políticas de inovação, considerando diferentes perspectivas (local, regional e global).
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de inferir uma conclusão com base estrita nas informações do texto. Muitas alternativas podem parecer plausíveis em um contexto geral ("produção orgânica é boa para o meio ambiente"), mas se não forem mencionadas ou fortemente sugeridas pela passagem, são distratores. Foque no agente principal da ação: quem desenvolveu? (UFMG/INPE). O que essas instituições representam? (Pesquisa acadêmica e científica). Essa é a chave para a resposta correta.
Questão 90 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 O cinema constituía um encanto indefinível: além do entretenimento delicioso das vidas alheias por meio dos filmes, o pretexto amável para os encontros de olhos, para a mostra dos vestidos, para as tagarelices com as vizinhas de cadeiras.
TEXTO 2 O pouco caso na seleção dos filmes para serem exibidos nos espetáculos diurnos tem sido causa de inúmeros dissabores sofridos pelos progenitores que levam os seus filhos ao cinema para recreá-los. Em toda parte, tanto nas casas de famílias como nos colégios, só se ouve a petizada falar em fitas, em artistas cinematográficos, nas proezas de William Hart ou nas façanhas de Mutt.
Publicados na primeira metade do século 20, os textos apresentam
ALTERNATIVAS: A) conclusões semelhantes sobre o mesmo suporte midiático. B) argumentos contrários sobre o mesmo tipo de diversão. C) discursos contraditórios sobre a mesma didática escolar. D) regras teológicas acerca de um mesmo recurso pedagógico. E) justificativas idênticas acerca de um mesmo aspecto cultural.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta dois textos que discutem o fenômeno do cinema no início do século XX. O comando pede que o candidato identifique a relação estabelecida entre eles. Para isso, é necessário realizar uma leitura atenta, comparando o ponto de vista e o foco de cada texto.
- Texto 1: Adota um tom nostálgico e positivo. Descreve o cinema como um "encanto indefinível", um espaço de entretenimento e sociabilidade, onde as pessoas vão para ver filmes, mas também para se verem, conversar e exibir suas roupas. O foco está na experiência social e de lazer proporcionada pelo cinema.
- Texto 2: Adota um tom crítico e preocupado. Foca no impacto do cinema sobre as crianças ("petizada"). Critica a falta de critério na seleção dos filmes exibidos em sessões diurnas, que estaria causando "dissabores" aos pais. O texto mostra preocupação com o conteúdo consumido e sua influência no comportamento e conversas das crianças. O foco está no potencial negativo do cinema como influência cultural.
Ambos os textos tratam do mesmo tipo de diversão (ir ao cinema), mas apresentam perspectivas distintas: um é elogioso e focado no aspecto social para um público mais amplo; o outro é crítico e focado no aspecto formativo/influenciador para o público infantil.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. Os textos apresentam argumentos contrários sobre o mesmo tipo de diversão. Enquanto o Texto 1 celebra o cinema como uma experiência encantadora de entretenimento e sociabilidade, o Texto 2 o critica como uma fonte de problemas e má influência, especialmente para as crianças. Eles constroem visões opostas (a favor e contra) sobre a atividade de ir ao cinema.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [conclusões semelhantes sobre o mesmo suporte midiático]: Errada por contradição. Esta alternativa afirma que as conclusões são "semelhantes", o que é incorreto. Os textos chegam a conclusões opostas (positiva vs. negativa) sobre o cinema, que é o suporte midiático em questão.
- C [discursos contraditórios sobre a mesma didática escolar]: Errada por extrapolação/reducionismo. Embora os discursos sejam de fato contraditórios, o objeto de discussão não é a "didática escolar". O Texto 2 menciona que o assunto do cinema é tratado "nos colégios", mas o cerne da crítica não é o método de ensino, e sim a influência cultural do cinema nas conversas e no comportamento das crianças. O foco principal de ambos é o cinema como diversão, não como ferramenta pedagógica.
- D [regras teológicas acerca de um mesmo recurso pedagógico]: Errada por anacronismo e extrapolação. Não há qualquer menção a regras de natureza religiosa ("teológicas") em nenhum dos textos. Além disso, como na alternativa C, o cinema não é tratado primariamente como um "recurso pedagógico".
- E [justificativas idênticas acerca de um mesmo aspecto cultural]: Errada por contradição. O termo "idênticas" invalida esta opção. As justificativas e perspectivas apresentadas pelos textos são diametralmente opostas, não idênticas. Um justifica o encanto do cinema, o outro justifica a preocupação com ele.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gêneros textuais argumentativos, análise comparativa de pontos de vista, cultura e sociedade no século XX.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes de recursos expressivos, argumentativos e intertextuais, relacionando-os às intenções do autor e aos efeitos de sentido provocados.
Dica do Especialista
Questões de comparação de textos são frequentes no ENEM. A chave para resolvê-las é identificar com precisão o objeto de discussão (o "sobre o quê?") e o ponto de vista (a "opinião") de cada autor. Não se deixe levar por palavras isoladas (como "colégios" no Texto 2). Leia o todo para entender o foco principal do argumento. Aqui, ambos falavam sobre ir ao cinema, mas um via magia e o outro via problema. Isso é ter "argumentos contrários sobre o mesmo tipo de diversão".