ENEM 2023 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Resolução comentada em detalhe.
Sumário
- Questão 1
- Questão 2
- Questão 3
- Questão 4
- Questão 5
- Questão 6
- Questão 7
- Questão 8
- Questão 9
- Questão 10
- Questão 11
- Questão 12
- Questão 13
- Questão 14
- Questão 15
- Questão 16
- Questão 17
- Questão 18
- Questão 19
- Questão 20
- Questão 21
- Questão 22
- Questão 23
- Questão 24
- Questão 25
- Questão 26
- Questão 27
- Questão 28
- Questão 29
- Questão 30
- Questão 31
- Questão 32
- Questão 33
- Questão 34
- Questão 35
- Questão 36
- Questão 37
- Questão 38
- Questão 39
- Questão 40
- Questão 41
- Questão 42
- Questão 43
- Questão 44
- Questão 45
Questão 1 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
No man is an island, Entire of itself; Every man is a piece of the continent, A part of the main. [supressão de texto] Any man's death diminishes me, Because I am involved in mankind.
Nesse poema, a expressão "No man is an island" ressalta o(a) A) medo da morte. B) ideia de conexão. C) conceito de solidão. D) risco de devastação. E) necessidade de empatia.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O trecho apresentado é parte do famoso poema "Meditation XVII", do escritor inglês John Donne (1572-1631). A questão avalia a capacidade do candidato de interpretar uma metáfora central dentro de um contexto literário. A expressão "No man is an island" ("Nenhum homem é uma ilha") é uma metáfora que contrasta a ideia de isolamento (ilha) com a de conexão e pertencimento (continente). O poema desenvolve essa ideia ao afirmar que cada homem é "uma parte do continente" e que está envolvido na humanidade, de modo que a morte de qualquer homem o afeta. O comando da questão pede para identificar o que a expressão ressalta, ou seja, sua ideia principal e mais direta.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B) ideia de conexão. A metáfora "nenhum homem é uma ilha" é construída justamente para negar o isolamento e afirmar a interdependência humana. O texto a desenvolve com as imagens de ser "uma parte do continente" e "parte do todo", culminando na afirmação de que a morte de qualquer pessoa diminui o eu poético porque ele está envolvido na humanidade. Portanto, a ideia central que a expressão ressalta é a de conexão e pertencimento a um todo maior.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) medo da morte.: Distrator por reducionismo e deslocamento de foco. Embora o poema mencione a morte ("Any man's death diminishes me"), este não é o conceito ressaltado pela expressão "No man is an island". A morte é uma consequência ou exemplo da conexão afirmada, não a ideia central da metáfora da ilha/continente.
- C) conceito de solidão.: Distrator por contradição. A expressão "No man is an island" nega explicitamente o isolamento e a solidão. Ela afirma o oposto: que estamos todos conectados. Escolher esta alternativa seria interpretar a frase de forma literal e contrária ao seu sentido metafórico.
- D) risco de devastação.: Distrator por extrapolação. Não há no trecho ou na metáfora qualquer elemento que sugira devastação. Esta alternativa tenta associar a imagem de uma "ilha" a algo frágil ou passível de destruição, o que é uma leitura forçada e não sustentada pelo texto.
- E) necessidade de empatia.: Distrator por confusão entre conceito correlato e conceito central. A empatia é um sentimento que pode decorrer da compreensão de que estamos todos conectados. No entanto, a expressão em si ressalta o fato da conexão, a condição de interdependência. A "necessidade de empatia" é uma implicação moral ou emocional dessa condição, não a ideia literal e imediata da metáfora.
Identificação Pedagógica
- Tema: Leitura e Interpretação de Textos Literários em Língua Estrangeira (Inglês) / Figuras de Linguagem.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender a língua inglesa como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG204 - Analisar, em textos em língua inglesa, efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais, da exploração de recursos morfossintáticos e de estilos, bem como de recursos verbais e não verbais, para fazer inferências, apreciar textos e construir repertório cultural e linguístico.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de inglês frequentemente exploram a interpretação de provérbios, expressões idiomáticas ou metáforas consagradas. A chave é sempre buscar o sentido figurado no contexto do texto. Não se prenda à tradução palavra por palavra ("ilha") nem a associações laterais. Pergunte-se: "Que ideia maior esta imagem está tentando transmitir?" No caso de "No man is an island", a antítese entre "ilha" (isolada) e "continente" (conectado) é o núcleo da interpretação.
Questão 2 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Inglês
Enunciado
Things We Carry on the Sea
We carry tears in our eyes: good-bye father, good-bye mother We carry soil in small bags: may home never fade in our hearts We carry carnage of mining, droughts, floods, genocides We carry dust of our families and neighbors incinerated in mushroom clouds We carry our islands sinking under the sea We carry our hands, feet, bones, hearts and best minds for a new life We carry diplomas: medicine, engineer, nurse, education, math, poetry, even if they mean nothing to the other shore We carry railroads, plantations, laundromats, bodegas, taco trucks, farms, factories, nursing homes, hospitals, schools, temples... built on our ancestors' backs We carry old homes along the spine, new dreams in our chests We carry yesterday, today and tomorrow We're orphans of the wars forced upon us We're refugees of the sea rising from industrial wastes And we carry our mother tongues [supressão de texto] As we drift... in our rubber boats... from shore... to shore... to shore...
Ao retratar a trajetória de refugiados, o poema recorre à imagem de viagem marítima para destacar o(a)
Alternativas: A) risco de choques culturais. B) impacto do ensino de história. C) importância da luta ambiental. D) existência de experiências plurais. E) necessidade de capacitação profissional.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema "Things We Carry on the Sea" (Coisas que Carregamos no Mar) apresenta um inventário do que os refugiados levam consigo em sua travessia marítima. A lista é extensa e diversa, abrangendo desde elementos emocionais e memórias (lágrimas, terra natal, poeira dos familiares) até bagagens culturais e profissionais (diplomas, língua materna) e a herança histórica de trabalho e construção (ferrovias, plantações, hospitais). A repetição da estrutura "We carry..." (Nós carregamos...) serve para acumular e evidenciar a multiplicidade de experiências, origens, perdas e esperanças que compõem a identidade coletiva dessas pessoas. O comando da questão pergunta qual aspecto essa imagem da viagem marítima busca destacar.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) existência de experiências plurais. O poema constrói sua força justamente na enumeração de uma vasta gama de itens carregados, que representam diferentes dimensões da experiência humana dos refugiados: traumas de guerra e desastres ambientais, qualificações profissionais, patrimônio cultural, memórias afetivas e sonhos futuros. A viagem marítima é o cenário que agrega todas essas experiências plurais em um único barco, simbolizando a complexidade e a diversidade da condição do refugiado.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) risco de choques culturais.: Distrator por reducionismo e extrapolação. Embora a menção aos diplomas que "nada significam na outra margem" aluda a um possível desencontro de valores, este é apenas um dentre os muitos elementos listados. O poema não focaliza o "risco" ou o conflito futuro, mas sim o acúmulo presente do que é carregado. O foco não é no choque, mas no patrimônio que se leva.
- B) impacto do ensino de história.: Distrator por reducionismo. O poema menciona eventos históricos traumáticos (genocídios, guerras) que os refugiados "carregam", mas não trata do "ensino" da história como disciplina ou sua influência. A referência é à experiência vivida da história, não ao seu estudo formal.
- C) importância da luta ambiental.: Distrator por reducionismo. Elementos ambientais estão presentes ("ilhas submersas", "mares que sobem por resíduos industriais"), mas são apresentados como causas do deslocamento, parte do conjunto de experiências traumáticas que os refugiados carregam. O poema não faz um chamado à ação ou destaca a "luta" ambiental como tópico central; ele a inclui como um dos muitos fatores em uma realidade plural.
- E) necessidade de capacitação profissional.: Distrator por reducionismo. A enumeração de diplomas (médico, engenheiro, enfermeiro) mostra que os refugiados possuem capacitação, mas o verso seguinte ("mesmo que não signifiquem nada na outra margem") relativiza essa importância e a coloca como apenas uma parte da bagagem, não como uma "necessidade" a ser destacada. O poema fala do que eles já têm e carregam, não do que lhes falta ou do que precisam adquirir.
Identificação Pedagógica
- Tema: Diversidade Cultural e Identitária / Condição Humana e Deslocamento.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, veiculados em diferentes mídias, para diferentes finalidades, por meio do compartilhamento de informações, experiências e ideias, respeitando as diferentes opiniões e posicionamentos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente com base em argumentos éticos e solidários.
Dica do Especialista
No ENEM, poemas e textos literários frequentemente usam enumeração ou acumulação para construir significado. Quando você se deparar com uma lista de elementos aparentemente desconexos, pergunte-se: "O que todos esses itens, juntos, estão mostrando?" A resposta geralmente aponta para uma ideia de totalidade, diversidade ou complexidade (como "experiências plurais"). Cuidado com alternativas que pegam apenas um item da lista e o transformam no tema central – isso é a armadilha do reducionismo.
Questão 3 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (Inglês)
Enunciado
Descrição do cartaz: Foto de parte de um lixão, com a frase "Food for thought" escrita entre sacos de lixo e restos de alimentos. Abaixo da foto, o texto: "The average American tosses 300 pounds of food each year, making food the number one contributor to America's landfills. Eat your leftovers and keep your perishables in the fridge - the Earth is counting on it".
Esse cartaz de campanha sugere que
Alternativas: A) os lixões precisam de ampliação. B) o desperdício degrada o ambiente. C) os mercados doam alimentos perecíveis. D) a desnutrição compromete o raciocínio. E) as residências carecem de refrigeradores.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um cartaz de campanha com uma mensagem em inglês. O candidato deve demonstrar compreensão do texto, identificando a ideia central e a sugestão implícita na mensagem. O cartaz combina uma imagem impactante (um lixão) com dados estatísticos (300 libras de desperdício por pessoa/ano) e um apelo à ação ("Eat your leftovers... the Earth is counting on it"). A expressão "Food for thought" é um jogo de palavras que significa algo para se refletir, mas, no contexto visual, remete literalmente à comida que virou lixo ("comida para o pensamento"). O texto estabelece uma relação causal clara: o desperdício de alimentos é o principal componente dos aterros sanitários, o que gera um problema ambiental. A sugestão final é uma mudança de comportamento para reduzir esse impacto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O texto afirma diretamente que o desperdício de comida ("the average American tosses 300 pounds of food") é o maior contribuinte para os aterros sanitários ("number one contributor to America's landfills"). O apelo final, "a Terra está contando com você", reforça a ideia de que essa prática tem consequências negativas para o meio ambiente, ou seja, o desperdício causa degradação ambiental.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) os lixões precisam de ampliação.: Extrapolação/Contradição. O texto trata da redução do desperdício para diminuir a quantidade de lixo, não da necessidade de expandir os aterros. A mensagem é exatamente o oposto: reduzir a carga sobre eles.
- C) os mercados doam alimentos perecíveis.: Extrapolação. O texto não menciona doação por parte de mercados. O foco está no comportamento individual do consumidor ("average American", "eat your leftovers", "keep your perishables in the fridge").
- D) a desnutrição compromete o raciocínio.: Distorção Semântica/Reducionismo. Esta alternativa tenta fazer uma ligação enganosa com a expressão "Food for thought" (alimento para o pensamento), interpretando-a de forma literal e desconectada do contexto. O cartaz não aborda desnutrição, mas sim o excesso e o desperdício.
- E) as residências carecem de refrigeradores.: Reducionismo/Extrapolação. A menção à geladeira ("fridge") é uma dica prática para conservar alimentos e evitar desperdício, não uma afirmação sobre a falta desse eletrodoméstico nas residências. O problema não é a falta de equipamento, mas o uso inadequado dele (não guardar os perecíveis).
Identificação Pedagógica
- Tema: Meio Ambiente e Consumo Sustentável / Compreensão Textual em Língua Estrangeira.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua inglesa como língua franca e instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Identificar o lugar social e as posições ideológicas de autores e/ou produtores de textos, relacionando textos ao seu contexto histórico, social e político, de modo a ampliar a compreensão, a criticidade e a autonomia.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de inglês frequentemente abordam temas contemporâneos e globais, como sustentabilidade e responsabilidade social. Fique atento ao título/imagem e ao apelo final do texto, pois eles geralmente sintetizam a mensagem principal. Desconfie de alternativas que pegam uma palavra solta do texto (como "fridge" ou "thought") e constroem uma ideia que não está respaldada no conjunto da mensagem. A resposta correta sempre estará ancorada em uma informação explícita ou em uma inferência direta do texto.
Questão 4 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (Inglês)
Enunciado
Descrição do cartum: Em um escritório, dois homens circulam segurando papéis e pastas, outros conversam em pares e um está trabalhando em um computador. Todos têm as mesmas feições e características físicas, e usam ternos, gravatas e sapatos iguais. Abaixo da imagem, o texto: "Oh, you'll love working here. Nobody treats you any differently just because of your age, race, or gender".
Ao retratar o ambiente de trabalho em um escritório, esse cartum tem por objetivo
Alternativas: A) criticar um padrão de vestimenta. B) destacar a falta de diversidade. C) indicar um modo de interação. D) elogiar um modelo de organização. E) salientar o espírito de cooperação.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta um cartum (charge ou tirinha) que utiliza a ironia como principal recurso de crítica social. A descrição visual é clara: todos os funcionários são idênticos (mesmas feições, roupas, características físicas). O texto verbal, em inglês, traduz-se como: "Ah, você vai adorar trabalhar aqui. Ninguém te trata de forma diferente por causa da sua idade, raça ou gênero".
A ironia reside no contraste entre o que é dito e o que é mostrado. A fala promete um ambiente sem discriminação, mas a imagem revela um ambiente onde a "igualdade de tratamento" foi alcançada de forma perversa: pela homogeneização total, pela eliminação da diversidade. O cartum, portanto, critica uma falsa ideia de igualdade que, na verdade, suprime as diferenças individuais e identitárias.
O comando da questão pergunta pelo objetivo do cartum ao retratar aquele ambiente. A resposta deve captar a mensagem crítica central, que vai além da mera descrição da cena.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B) destacar a falta de diversidade.
A mensagem principal do cartum é uma crítica à homogeneidade e à falta de representatividade em certos ambientes corporativos. A ironia do texto verbal só faz sentido quando contrastada com a imagem visual que mostra uma absoluta falta de diversidade (todos iguais em aparência, gênero presumivelmente masculino). O objetivo é justamente expor e criticar essa realidade, e não elogiá-la.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) criticar um padrão de vestimenta. Distrator (Reducionismo): A padronização do vestuário (ternos e gravatas iguais) é um detalhe visual que serve para reforçar a ideia maior de homogeneidade. Criticar apenas o código de vestimenta seria uma leitura superficial que ignora o cerne da crítica social sobre diversidade, que envolve idade, raça e gênero, como mencionado no texto.
-
C) indicar um modo de interação. Distrator (Extrapolação): A imagem mostra pessoas interagindo (conversando, circulando), mas isso é um elemento cênico, não o foco da mensagem. O cartum não está ensinando ou descrevendo um "modo" de interação; está usando a cena para construir uma crítica. O objetivo não é descrever como as pessoas interagem, mas quem são as pessoas que estão interagindo (ou a falta de variedade entre elas).
-
D) elogiar um modelo de organização. Distrator (Falta de Compreensão da Ironia): Esta alternativa cai na armadilha de tomar o texto verbal pelo seu valor literal. Quem faz essa leitura não percebe o recurso da ironia. O cartum faz exatamente o oposto: ele critica um modelo de organização que se vangloria de não discriminar, mas que, para isso, criou um ambiente absolutamente uniforme e excludente.
-
E) salientar o espírito de cooperação. Distrator (Extrapolação/Leitura Literal): Assim como na alternativa C, a presença de pessoas conversando pode sugerir cooperação, mas, novamente, esse não é o tema central. O cartum não fornece elementos para afirmar que há um "espírito de cooperação" especial ou que este é o ponto a ser salientado. A mensagem crítica está na composição do grupo, não na dinâmica de trabalho entre seus membros idênticos.
Identificação Pedagógica
- Tema: Crítica Social, Diversidade e Inclusão, Linguagem Não-Verbal e Ironia.
- Competência BNCC: Competência 2 – Compreender a língua inglesa como fenômeno cultural e social, mediadora de pessoas e de culturas.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 – Analisar e comparar textos em língua inglesa, considerando suas características linguísticas, estruturais e contextuais, para explicar relações de intertextualidade, intergenericidade e de produção de sentidos.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de língua estrangeira (inglês ou espanhol) frequentemente abordam temas sociais contemporâneos como diversidade, sustentabilidade, tecnologia e relações de trabalho. Fique atento ao uso de recursos de humor e ironia, muito comuns em cartuns, tirinhas e memes. A chave para resolvê-las está no contraponto entre o texto verbal e o visual. Nunca analise um isoladamente. Pergunte-se: "O que a imagem mostra que o texto não diz, ou vice-versa?" e "Qual o tom (sério, irônico, crítico) desse conjunto?". Isso te ajudará a evitar cair em distratores que fazem leituras literais ou superficiais.
Questão 5 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Spanglish (fragmento) Tato Laviera
pues estoy creando Spanglish bi-cultural systems scientific lexicographical inter-textual integrations two expressions existentially wired two dominant languages continentally abrazándose in colloquial combate imperio spanglish emerges sobre territorio bi-lingual las novelas mexicanas mixing with radiorocknroll immigrant/migrant nasal mispronouncements hip-hop, street salsa, spanish pop standard english classroom with computer technicalities spanglish is literally perfect
Nesse poema de Tato Laviera, o eu lírico destaca uma
ALTERNATIVAS: A) convergência linguístico-cultural. B) característica histórico-cultural. C) tendência estilístico-literária. D) discriminação cultural. E) censura musical.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema "Spanglish", do poeta porto-riquenho Tato Laviera, tematiza o fenômeno linguístico e cultural do Spanglish – a fusão e alternância entre o espanhol e o inglês, comum em comunidades hispânicas nos Estados Unidos. O eu lírico não apenas descreve, mas celebra essa criação. Ele utiliza termos como "bi-cultural systems", "inter-textual integrations" e "two expressions existentially wired" para enfatizar a junção de dois mundos. A menção a elementos culturais diversos ("las novelas mexicanas / mixing with radiorocknroll", "hip-hop, street salsa, spanish pop") reforça que essa fusão vai além da língua, atingindo a cultura como um todo. O comando da questão pede para identificar o que o eu lírico destaca, e a leitura do poema aponta para um processo de união e criação, não de separação ou crítica.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A) convergência linguístico-cultural. O poema é um manifesto sobre a formação de uma nova identidade a partir do encontro de duas línguas e culturas. Termos como "abrazándose" (abraçando-se), "integrations" e a afirmação final "spanglish is literally perfect" deixam claro que o foco está na convergência – no ato de se unir e criar algo novo – tanto no plano linguístico ("lexicographical") quanto no cultural ("bi-cultural").
Análise das Alternativas Incorretas
- B) característica histórico-cultural.: Esta alternativa é um reducionismo. Embora o Spanglish seja um fenômeno com raízes históricas (imigração), o poema não se detém em analisar uma característica do passado. Seu foco é dinâmico: no processo de criação presente ("estoy creando") e na emergência ("imperio spanglish emerges") de algo novo.
- C) tendência estilístico-literária.: Esta é uma extrapolação. O poema em si é um exemplo literário que usa o Spanglish, mas seu conteúdo não discute tendências ou escolas literárias. O eu lírico fala sobre um fenômeno social, cultural e linguístico vivido, não sobre um movimento estético literário.
- D) discriminação cultural.: Esta alternativa representa uma contradição direta com o tom do poema. Não há menção a preconceito, exclusão ou julgamento negativo. Pelo contrário, o vocabulário é de integração ("abrazándose", "perfect") e o retrato da mistura é vibrante e positivo.
- E) censura musical.: Esta é uma distorção baseada em elementos isolados. A questão menciona gêneros musicais ("radiorocknroll", "hip-hop", "salsa"), mas em um contexto de mistura ("mixing with"), não de proibição ou controle. O poema não aborda censura em nenhum momento.
Identificação Pedagógica
- Tema: Identidade Linguística e Cultural, Diversidade Cultural, Língua como Fenômeno Social.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e artísticos como manifestações culturais históricas e sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 - Analisar e refletir sobre as diferentes manifestações linguísticas, considerando seus contextos históricos, sociais e culturais, valorizando a diversidade e o multiculturalismo.
Dica do Especialista
No ENEM, poemas que tratam de contato entre línguas (como português com línguas indígenas, africanas ou de imigração) frequentemente avaliam a compreensão do fenômeno linguístico como expressão de identidade e resistência cultural. Fique atento ao tom do eu lírico: se é de celebração (como aqui), denúncia, nostalgia ou análise. Palavras-chave que indicam fusão, como "mistura", "encontro", "hibridismo" e "convergência", são fortes candidatas a gabarito. Desconfie de alternativas que inserem conflitos (discriminação, censura) se o texto não os apresentar de forma clara.
Questão 6 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Rui Barbosa
Mestre e companheiro, disse eu que nos íamos despedir. Mas disse mal. A morte não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima. Um dia supuseste "morta e separada" a consorte dos teus sonhos e das tuas agonias, que te soubera "pôr um mundo inteiro no recanto" do teu ninho; e, todavia, nunca ela te esteve mais presente, no íntimo de ti mesmo e na expressão do teu canto, no fundo do teu ser e na face de tuas ações. Esses catorze versos inimitáveis, em que o enlevo dos teus discípulos resume o valor de toda uma literatura, eram a aliança de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras núpcias, para a vida nova do teu renascimento e da tua glorificação, com a sócia sem nódoa dos teus anos de mocidade e madureza, da florescência e frutificação de tua alma. Para os eleitos do mundo das ideias a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas da outra. Quando eles atravessavam essa passagem do invisível, que os conduz à região da verdade sem mescla, então é que entramos a sentir o começo do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos.
Esse é um trecho do discurso de Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras em homenagem a Machado de Assis por ocasião de sua morte. Uma das características desse discurso de homenagem é a presença de
ALTERNATIVAS: A) metáforas relacionadas à trajetória pessoal e criadora do homenageado. B) recursos fonológicos empregados para a valorização do ritmo do texto. C) frases curtas e diretas no relato da vida e da morte do homenageado. D) contraposição de ideias presentes na obra do homenageado. E) seleção vocabular representativa do sentimento de nostalgia.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um trecho do discurso fúnebre proferido por Rui Barbosa em homenagem a Machado de Assis. Trata-se de um gênero discursivo específico, o elogio fúnebre, que tem como objetivo celebrar a vida e a obra do falecido, consolar os presentes e refletir sobre a morte e o legado. O comando da questão pede que identifiquemos uma das características desse discurso, com base na leitura atenta do trecho fornecido. A análise deve focar nos recursos linguísticos e estilísticos empregados por Rui Barbosa para construir sua homenagem.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
O discurso de Rui Barbosa é marcado pelo uso intenso de metáforas para falar sobre a vida, a obra e a morte de Machado de Assis. Ele não faz um relato biográfico direto, mas constrói uma imagem poética e elevada do homenageado. As metáforas estão diretamente ligadas à trajetória pessoal ("ninho", "mocidade e madureza", "florescência e frutificação de tua alma") e criadora ("teu canto", "aliança de ouro do teu segundo noivado", "anel de outras núpcias", "renascimento e da tua glorificação"). A própria ideia central do texto – de que a morte não é o fim, mas uma transformação e um renascimento – é construída por meio de metáforas ("não extingue: transforma; não aniquila: renova").
Análise das Alternativas Incorretas
-
B) recursos fonológicos empregados para a valorização do ritmo do texto.
- Distrator (Falta de Evidência): Embora o texto tenha um ritmo marcado, isso se deve mais às estruturas sintáticas paralelas (como "não extingue: transforma; não aniquila: renova") e à pontuação do que a recursos fonológicos explícitos (como aliterações, assonâncias ou rimas) que são típicos da poesia. O foco da questão e do texto não está na sonoridade, mas no sentido figurado das palavras.
-
C) frases curtas e diretas no relato da vida e da morte do homenageado.
- Distrator (Contradição ao Texto): Esta alternativa é a que mais claramente contradiz o texto apresentado. As frases de Rui Barbosa são longas, complexas e elaboradas, repletas de subordinação e períodos extensos (ex.: "Esses catorze versos... frutificação de tua alma."). Não há um relato direto e factual da vida de Machado.
-
D) contraposição de ideias presentes na obra do homenageado.
- Distrator (Extrapolação/Desvio de Foco): O texto faz contraposições ("não extingue: transforma"), mas elas se referem ao conceito de morte e ao legado do autor, não a ideias presentes na obra de Machado de Assis. O discurso é sobre o homem e seu legado, não uma análise literária de sua produção.
-
E) seleção vocabular representativa do sentimento de nostalgia.
- Distrator (Reducionismo/Inadequação): Embora haja um tom solene e reflexivo, o sentimento predominante não é a nostalgia (saudade do passado). O tom é de celebração, transcendência e consolação. Palavras como "renova", "renascimento", "glorificação", "verdade sem mescla" e "reino" apontam para uma visão positiva e projetada para o futuro do legado de Machado, não para um olhar melancólico para o passado.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Discursivo / Figuras de Linguagem
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e gramaticais, reconhecendo as variedades linguísticas e os recursos expressivos da língua.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos linguístico-gramaticais e semióticos, considerando especialmente o contexto de produção, a variedade linguística e os mecanismos de textualização e discursividade.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre análise de textos, especialmente discursos e textos não literários de caráter público, frequentemente cobram a identificação da função dos recursos linguísticos. Preste atenção não apenas no que é dito, mas no como é dito. Neste caso, a chave estava em perceber que Rui Barbosa não estava contando uma história, mas construindo uma imagem valorativa de Machado por meio de comparações implícitas (metáforas). Sempre relacione o recurso identificado ao objetivo do texto (homenagear, consolar, elevar a figura do biografado).
Questão 7 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição da campanha publicitária: Foto de uma mulher, com semblante satisfeito, amamentando seu bebê. Sob o título Por que é tão importante amamentar?, o seguinte texto: "O bebê recebe os anticorpos da mãe para proteção contra diversas doenças, como diarreia e infecções, principalmente respiratórias. Diminui o risco de asma, diabetes e obesidade em crianças. É um ótimo exercício para o desenvolvimento da face do bebê e para o crescimento de dentes fortes e bonitos. Desenvolve a fala e uma boa respiração".
Essa campanha publicitária do Ministério da Saúde visa
Alternativas: A) divulgar um conjunto de benefícios proporcionados pela amamentação. B) apresentar tratamentos para infecções respiratórias em bebês. C) defender o direito das mulheres de amamentar em público. D) orientar sobre os exercícios para uma boa amamentação. E) informar sobre o aumento de anticorpos nas mães.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta uma campanha publicitária institucional do Ministério da Saúde. O foco da análise está na função social do texto e na sua intencionalidade comunicativa. O título da campanha é uma pergunta retórica ("Por que é tão importante amamentar?"), e o corpo do texto é composto por uma lista de afirmações que respondem a essa pergunta, enumerando vantagens e benefícios da amamentação para o bebê. A imagem complementa a mensagem com um cenário positivo e afetivo. O comando da questão pede que se identifique o objetivo principal dessa campanha.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. A campanha tem como objetivo central divulgar um conjunto de benefícios proporcionados pela amamentação. Isso fica explícito na estrutura do texto, que lista, de forma didática e afirmativa, diversos pontos positivos (proteção contra doenças, redução de riscos de doenças crônicas, desenvolvimento facial e da fala) em resposta ao título questionador. A intenção é informar e sensibilizar a população sobre a importância da prática.
Análise das Alternativas Incorretas
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B) apresentar tratamentos para infecções respiratórias em bebês. Erro: Reducionismo e extrapolação. A campanha cita que a amamentação protege contra infecções respiratórias, mas isso é apenas um dos vários benefícios listados. O texto não se propõe a ensinar tratamentos para nenhuma doença específica. Focar em apenas um item da lista é um reducionismo que não capta a finalidade geral do material.
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C) defender o direito das mulheres de amamentar em público. Erro: Extrapolação. Embora a imagem mostre uma mulher amamentando, não há nenhum elemento verbal ou visual no texto que indique um contexto público ou uma defesa de direitos. A mensagem é sobre os benefícios da prática, não sobre o local ou o direito social de exercê-la. Esta alternativa projeta um debate contemporâneo que não está presente no texto fornecido.
-
D) orientar sobre os exercícios para uma boa amamentação. Erro: Interpretação literal equivocada. A palavra "exercício" aparece no texto, mas em sentido figurado/metafórico: "É um ótimo exercício para o desenvolvimento da face do bebê". A campanha não está ensinando técnicas, posições ou "exercícios" para a mãe realizar durante a amamentação. Trata-se de uma consequência natural do ato de sugar para o bebê, não de uma orientação prática para a mãe.
-
E) informar sobre o aumento de anticorpos nas mães. Erro: Inversão do foco e contradição. O texto é claro: "O bebê recebe os anticorpos da mãe". O beneficiário direto da informação é o bebê. A campanha não menciona em nenhum momento um aumento ou alteração nos níveis de anticorpos da mãe. Esta alternativa inverte o sujeito da ação, desviando-se completamente do foco principal da mensagem.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Textual / Campanha Publicitária de Cunho Social. Saúde Pública e Promoção de Hábitos Saudáveis.
- Competência BNCC: Competência 6 (Área de Linguagens) - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e aplicar os recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem análise de campanhas publicitárias, especialmente as institucionais, frequentemente avaliam a capacidade de identificar a tese central ou o objetivo comunicativo do texto. Uma técnica eficaz é buscar a ideia que unifica todos os elementos apresentados. No caso desta questão, todos os argumentos listados (da imunidade ao desenvolvimento da fala) convergem para uma única mensagem: "A amamentação é importante porque traz estes benefícios". Fuja de alternativas que se apegam a detalhes específicos ou que introduzem ideias não presentes no material de apoio.
Questão 8 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Carta aberta à população brasileira
Prezados Cidadãos e Cidadãs, O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial. Infelizmente, nosso país ainda não está preparado para atender às demandas dessa população. Este é o retrato da saúde pública no Brasil, que, apesar dos indiscutíveis avanços, apresenta um cenário de deficiências e falta de integração em todos os níveis de atenção à saúde: primária (atendimento deficiente nas unidades de saúde da atenção básica), secundária (carência de centros de referência com atendimento por especialistas) e terciária (atendimento hospitalar com abordagem ao idoso centrada na doença), ou seja, não há, na prática, uma rede de atenção à saúde do idoso. Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) vem a público manifestar suas preocupações com o presente e o futuro dos idosos no Brasil. É preciso garantir a saúde como direito universal. Esperamos que tanto nossos atuais quanto os futuros governantes e legisladores reflitam sobre a necessidade de investir na saúde e na qualidade de vida associada ao envelhecimento. Dignidade à saúde do idoso! Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2014.
O objetivo desse texto é
ALTERNATIVAS: A) sensibilizar o idoso a respeito dos cuidados com a saúde. B) alertar os governantes sobre os cuidados requeridos pelo idoso. C) divulgar o trabalho da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. D) informar o setor público sobre o retrocesso da legislação destinada à população idosa. E) chamar a atenção da população sobre a qualidade dos serviços de saúde pública para o idoso.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é uma carta aberta, um gênero textual de caráter público e argumentativo, geralmente publicado em veículos de comunicação. Seu objetivo principal é mobilizar a opinião pública sobre uma questão de interesse coletivo. A análise do texto revela que ele: 1. Destinatário: É dirigida explicitamente à "população brasileira" ("Prezados Cidadãos e Cidadãs"). 2. Tema Central: Denuncia as deficiências na rede de saúde pública para a população idosa. 3. Apelo Final: Embora mencione "governantes e legisladores", o apelo é feito no contexto de uma manifestação pública, visando criar pressão social. A carta busca, antes de tudo, conscientizar a sociedade sobre o problema.
Portanto, o comando da questão pede para identificar a finalidade comunicativa principal do texto, que é mobilizar a sociedade civil em torno da causa.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A carta tem como objetivo central "chamar a atenção da população sobre a qualidade dos serviços de saúde pública para o idoso". Isso fica evidente desde o destinatário ("população brasileira"), passando pela descrição detalhada das falhas nos três níveis de atenção à saúde, até o apelo final que, embora direcionado a governantes, é feito em um fórum público, buscando gerar debate e cobrança por parte da sociedade.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) "sensibilizar o idoso a respeito dos cuidados com a saúde." - Distrator por deslocamento de foco. O texto não é dirigido aos idosos, mas sim à população em geral sobre os cuidados que o Estado deve oferecer aos idosos. O tom é de denúncia de um serviço público, não de orientação individual.
- B) "alertar os governantes sobre os cuidados requeridos pelo idoso." - Distrator por reducionismo. Embora o texto mencione os governantes no penúltimo parágrafo, este não é o objetivo principal. O alerta aos governantes é uma consequência do objetivo maior, que é mobilizar a população. A carta é um instrumento de pressão da sociedade sobre os governantes.
- C) "divulgar o trabalho da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia." - Distrator por extrapolação. A SBGG se identifica como autora, mas o texto não descreve seu trabalho, serviços ou conquistas. A menção à entidade serve para dar autoridade e legitimidade ao posicionamento de denúncia, não para promover a instituição.
- D) "informar o setor público sobre o retrocesso da legislação destinada à população idosa." - Distrator por contradição/anacronismo. O texto critica a aplicação prática ("não há, na prática, uma rede") e a estrutura dos serviços de saúde, mas não menciona especificamente a legislação nem afirma que houve um retrocesso. A crítica é à implementação, não à lei em si.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Textual / Finalidade Comunicativa / Saúde Pública e Cidadania.
- Competência BNCC: Competência 6 - "Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação."
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - "Analisar, em textos de diferentes gêneros e domínios discursivos, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas e movimentos argumentativos, de recursos estilísticos e linguísticos, de composição e de circulação, considerando a autoria e o contexto de produção."
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre finalidade de textos argumentativos (como cartas abertas, editoriais, artigos de opinião) exigem que você identifique para quem o texto se dirige e qual ação ele pretende provocar. Não confunda o tema discutido com o objetivo do autor. Sempre pergunte: "Quem é o público-alvo?" e "O que o autor quer que esse público faça, sinta ou pense?". Aqui, o público é a população e a ação desejada é a conscientização sobre um problema de saúde pública.
Questão 9 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A petição on-line criada por um cidadão paulista surtiu efeito: casado há três anos com seu companheiro, ele pedia a alteração da definição de "casamento" no tradicional dicionário Michaelis em português. Na definição anterior, casamento aparecia como "união legítima entre homem e mulher" e "união legal entre homem e mulher, para constituir família". O novo verbete não traz em nenhum momento as palavras homem ou mulher - agora a definição de casamento se refere a "pessoas". Para o diretor de comunicação do site onde a petição foi publicada, a iniciativa mostra a "eficiência da mobilização". "Em dois dias, mudou-se uma definição que permanecia a mesma há décadas", afirma. E conclui: "A plataforma serve para todos os tipos de causas, para as mudanças que importam para as pessoas.".
A notícia trata da mudança ocorrida em um dicionário da língua portuguesa. Segundo o texto, essa mudança foi impulsionada pela
ALTERNATIVAS: A) inclusão de informações no verbete. B) relevância social da instituição casamento. C) utilização pública da petição pelos cidadãos. D) rapidez na disseminação digital do verbete. E) divulgação de plataformas para a criação de petição.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda um fato social contemporâneo: a mudança na definição de "casamento" em um dicionário tradicional, motivada por uma petição online. O texto destaca o processo de mobilização social via internet para promover uma alteração linguística que reflete uma transformação social (o reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo). O comando da pergunta é claro: identificar, segundo o texto, o que impulsionou essa mudança. A resposta deve ser extraída diretamente das informações fornecidas, sem extrapolações.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) utilização pública da petição pelos cidadãos.. O texto é explícito ao atribuir a mudança à eficácia de uma ferramenta de mobilização social. A petição foi "criada por um cidadão" e "surtiu efeito". A fala do diretor de comunicação reforça isso ao chamar a iniciativa de "eficiência da mobilização" e ao explicar que a plataforma serve para "as mudanças que importam para as pessoas". Portanto, o agente impulsionador foi a ação coletiva (o uso público da petição), e não características intrínsecas do casamento ou aspectos técnicos da divulgação.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) inclusão de informações no verbete.: Distrator por confusão de causa e efeito. A "inclusão de informações" (a mudança para "pessoas") é o resultado da mudança, não o seu impulsionador. A questão pergunta pela causa, não pela consequência.
- B) relevância social da instituição casamento.: Distrator por extrapolação/reducionismo. Embora o casamento seja uma instituição social relevante, o texto não atribui a mudança a essa relevância em si. O foco narrativo está no mecanismo (a petição) que permitiu que uma demanda social fosse ouvida, e não no status social do casamento como motivador da alteração.
- D) rapidez na disseminação digital do verbete.: Distrator por desvio de foco/anacronismo. A "rapidez" é mencionada ("Em dois dias..."), mas se refere à velocidade da resposta à petição, não à disseminação do novo verbete. A mudança foi impulsionada pela petição, não pela rapidez com que a nova definição se espalhou.
- E) divulgação de plataformas para a criação de petição.: Distrator por generalização. O texto menciona a plataforma, mas o diretor a apresenta como um meio que "serve para todos os tipos de causas". O que impulsionou a mudança específica relatada foi a utilização dessa plataforma para uma causa concreta (a petição pelo cidadão), e não a divulgação genérica das plataformas. A alternativa inverte o foco: do uso concreto para a propaganda do instrumento.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Mudança Social / Gêneros Digitais e Mobilização.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes linguagens e mídias, posicionando-se criticamente frente a eles.
Dica do Especialista
Fique atento aos verbos de comando! Questões que pedem "foi impulsionada por", "teve como causa", "ocorreu devido a" exigem que você localize no texto a ação ou o agente que deu início ao processo. Muitas vezes, alternativas plausíveis descrevem consequências, contextos ou detalhes secundários do fato, mas não a sua causa direta. Volte ao texto e pergunte: "O que, de fato, fez isso acontecer?". No ENEM, a resposta quase sempre está ancorada em uma informação textual explícita ou em uma inferência direta e incontestável.
Questão 10 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
A neozelandesa Laurel Hubbard fez história nos Jogos Olímpicos. Apesar de ter ficado de fora da disputa por medalhas, a levantadora de peso deixou sua marca na edição de Tóquio por ser a primeira mulher abertamente transgênero a participar de uma competição olímpica. No início da carreira, na década de 1990, a neozelandesa participava de disputas na categoria masculina. Em 2001, aos 23 anos, ela se afastou da atividade. "A pressão de tentar me encaixar em um mundo que talvez não tenha sido feito para pessoas como eu se tornou um fardo muito grande para suportar." Em 2012, Laurel começou sua transição de gênero por meio de terapias hormonais e, em 2013, declarou abertamente ser uma mulher trans. Para o Comitê Olímpico Internacional, a participação de mulheres trans nos Jogos é permitida caso o nível de testosterona, hormônio que aumenta a massa muscular, esteja abaixo de 10 nanomols por litro por pelo menos 12 meses.
No texto, os limites do potencial inclusivo do esporte são dados pela
ALTERNATIVAS: A) dificuldade de conseguir bons resultados esportivos. B) dependência de características biológicas padronizadas. C) inexistência de uma categoria para pessoas transgênero. D) necessidade de afastamento temporário das competições. E) impossibilidade de uso controlado de substâncias exógenas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta a trajetória da atleta transgênero Laurel Hubbard, destacando seu pioneirismo e os critérios estabelecidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para a participação de mulheres trans em competições. O comando da questão pede para identificar, com base no texto, qual fator impõe limites ao potencial inclusivo do esporte. A chave está na última frase, que apresenta a regra do COI: a participação é condicionada a um nível específico de testosterona (um hormônio) por um período determinado. Isso revela que a inclusão, neste caso, está sujeita à adequação a um parâmetro biológico pré-estabelecido.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O texto deixa claro que, para ser inclusivo e permitir a participação de atletas trans, o esporte de alto rendimento (representado pelo COI) estabelece como condição o atendimento a um critério biológico padronizado: um nível máximo de testosterona. A inclusão, portanto, tem seu limite na necessidade de se enquadrar nesse padrão fisiológico.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) dificuldade de conseguir bons resultados esportivos. (Extrapolação / Fora do Foco) O texto menciona que Laurel não disputou medalhas, mas isso é um dado factual sobre sua performance naquela Olimpíada, não o limite estrutural da inclusão apresentado pelo texto. A questão não é sobre desempenho, mas sobre os critérios de elegibilidade.
- B) dependência de características biológicas padronizadas. (CORRETA) Esta é a ideia central do último período do texto. A regra do COI transforma uma característica biológica (nível de testosterona) em um padrão obrigatório para a inclusão, mostrando que o potencial inclusivo esbarra nessa necessidade de padronização.
- C) inexistência de uma categoria para pessoas transgênero. (Contradição) O texto prova justamente o contrário. A existência da regra do COI e a participação histórica de Laurel Hubbard demonstram que há um caminho (mesmo que com condições) para a inclusão de atletas trans nas categorias existentes (no caso, a feminina). Não se criou uma categoria separada, mas sim uma regra de acesso.
- D) necessidade de afastamento temporário das competições. (Reducionismo / Detalhe secundário) O afastamento de Laurel em 2001 é um evento de sua trajetória pessoal, relacionado ao seu sofrimento antes da transição. Não é isso que o texto aponta como o limite geral do potencial inclusivo do esporte. O limite é a regra atual, não um evento passado de uma atleta.
- E) impossibilidade de uso controlado de substâncias exógenas. (Inversão Lógica / Contradição) O texto descreve que Laurel fez uso de "terapias hormonais", que são substâncias exógenas (introduzidas no corpo). A regra do COI, na verdade, pressupõe e regula esse uso, exigindo que ele resulte em um nível hormonal específico. Portanto, não há uma impossibilidade, mas sim uma permissão sob controle.
Identificação Pedagógica
- Tema: Identidade de Gênero, Inclusão Social e Biologia no Esporte.
- Competência BNCC: Competência 6 (Área de Linguagens) - Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. E Competência 3 (Área de Humanas) - Analisar e atuar sobre a realidade, avaliando argumentos, valores e intenções.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias em diversas situações de comunicação. A questão exige analisar o conflito entre a inclusão social e os padrões biológicos estabelecidos em uma instituição.
Dica do Especialista
Fique atento ao comando final da questão. Ele direciona sua leitura para encontrar a resposta no texto, não em seu conhecimento de mundo. Neste caso, a chave estava na última frase, que estabelecia uma condição (nível de testosterona). Alternativas que trazem elementos mencionados no texto, mas que não respondem exatamente ao que foi perguntado (como o afastamento ou a não conquista de medalhas), são distratores comuns. Identifique a ideia central que o texto constrói para responder ao comando.
Questão 11 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
"Ganhei 25 medalhas em mundiais, sete em Jogos Olímpicos, e sou uma sobrevivente de abuso sexual." Foi assim que Simone Biles se apresentou ao comitê do Senado norte-americano que investiga as supostas falhas do FBI no caso Larry Nassar. Biles e outras três atletas, vítimas dos abusos do ex-médico da equipe de ginástica feminina dos EUA, exigiram que os agentes da investigação sejam processados por falta de ação prévia contra Nassar, agora preso. Biles esclareceu que culpa Larry Nassar e "todo o sistema que o permitiu e o perpetrou", acusando a Federação de Ginástica e o Comitê Olímpico dos Estados Unidos de saberem "muito antes" que ela havia sofrido abusos. A melhor ginasta do mundo é um ícone. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, uma lesão psicológica a impediu de competir como previa. No entanto, ela chegou ao topo como uma líder no trabalho de acabar com o preconceito com os problemas de saúde mental. "Não quero que nenhum outro atleta olímpico sofra o horror que eu e outras centenas suportamos e continuamos suportando até hoje", afirmou.
O fato relatado na notícia chama a atenção acerca da necessidade de reflexão sobre a relação entre o esporte e
ALTERNATIVAS: A) o desempenho atlético internacional. B) a dimensão emocional dos atletas. C) os comitês olímpicos nacionais. D) as instituições de inteligência. E) as federações esportivas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um relato da atleta Simone Biles que vai além de suas conquistas esportivas. Ela se apresenta como uma sobrevivente de abuso sexual e denuncia um sistema (que inclui federações e comitês) que falhou em protegê-la. Um ponto central da notícia é a menção à "lesão psicológica" que a impediu de competir em Tóquio e seu papel como líder no combate ao preconceito contra problemas de saúde mental. Portanto, o comando da questão pede para identificar qual aspecto da relação esporte-e-sociedade é destacado pela reflexão proposta pela notícia. A chave está em perceber que o foco narrativo se desloca das instituições (que são parte do problema denunciado) para o indivíduo atleta e seu bem-estar integral, especialmente sua saúde mental e emocional.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. A notícia evidencia, através do depoimento de Simone Biles, que o esporte de alto rendimento não pode ser dissociado do cuidado com a saúde mental e emocional dos atletas. A "lesão psicológica" e a luta contra o preconceito em relação a esses problemas são elementos centrais que demandam uma reflexão profunda sobre como o esporte lida com a dimensão humana de seus praticantes.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [o desempenho atlético internacional]: Reducionismo. Embora o texto mencione as medalhas de Biles, ele as usa como contraponto para falar de algo muito mais profundo: seu sofrimento e resiliência. A reflexão proposta pela notícia vai além do desempenho, questionando o preço humano por trás dele.
- C [os comitês olímpicos nacionais]: Foco Incorreto. Os comitês e federações são citados como parte do "sistema" acusado por Biles. A notícia os coloca no centro de uma crítica, não como o foco de uma reflexão sobre a relação esporte-sociedade que a questão pede. A reflexão é consequência da falha dessas instituições, mas seu objeto é o bem-estar do atleta.
- D [as instituições de inteligência]: Extrapolação. O FBI é citado no contexto específico da investigação do caso. A notícia não propõe uma reflexão ampla sobre a relação entre esporte e instituições de inteligência, mas sim sobre como a falha de várias instituições (incluindo, mas não se limitando a essa) impacta a vida dos atletas.
- E [as federações esportivas]: Foco Incorreto (semelhante à C). Assim como os comitês, as federações são agentes citados na denúncia. Elas são o meio pelo qual o problema se perpetuou, mas a reflexão final da notícia (e da questão) aponta para a consequência humana: a necessidade de cuidar da dimensão emocional dos atletas.
Identificação Pedagógica
- Tema: Saúde Mental, Direitos Humanos e Ética no Esporte.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (Aqui aplicada à leitura crítica de uma notícia e sua implicação social).
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar, comparar e confrontar textos de diferentes gêneros, temáticas e épocas, considerando as condições de produção, recepção e circulação, para compreender a pluralidade de perspectivas, ideologias, interesses e conflitos nelas presentes.
Dica do Especialista
Fique atento ao foco narrativo e ao desfecho do texto. No ENEM, muitas questões de interpretação pedem que você identifique a tese central ou a reflexão proposta pelo autor. Elementos citados (como federações, comitês, medalhas) podem ser detalhes contextuais que sustentam uma ideia maior. Neste caso, a ideia maior é a humanização do atleta e a crítica a um sistema que negligencia sua saúde integral. Sempre pergunte: "Qual é a mensagem principal que o texto quer transmitir?"
Questão 12 - Ciências Humanas e suas Tecnologias / Educação Física
Enunciado
O acesso às Práticas Corporais/Atividades Físicas (PC/AF) é desigual no Brasil, à semelhança de outros indicadores sociais e de saúde. Em geral, PC/AF prazerosas, diversificadas, mais afeitas ao período de lazer estão concentradas nas populações mais abastadas. As atividades físicas de deslocamento, trajetos a pé ou de bicicleta para estudar ou trabalhar, por exemplo, são mais frequentes na classe social menos favorecida. Aqui, há uma relação inversa e perversa entre variáveis socioeconômicas de acesso às PC/AF. As maiores prevalências de inatividade física foram em mulheres, pessoas com 60 anos ou mais, negros, pessoas com autoavaliação de saúde ruim ou muito ruim, com renda familiar de até quatro salários mínimos por pessoa, pessoas que desconhecem programas públicos de PC/AF e residentes em áreas sem locais públicos para a prática.
O fator central que impacta a realização de práticas corporais/atividades físicas no tempo de lazer no Brasil é a
ALTERNATIVAS: A) diferença entre homens e mulheres. B) inexistência de políticas públicas. C) diversidade de faixa etária. D) variação de condição étnica. E) desigualdade entre classes sociais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma análise sociológica sobre o acesso desigual às Práticas Corporais/Atividades Físicas (PC/AF) no Brasil. Ele estabelece um paralelo direto entre esse acesso e outros indicadores sociais e de saúde, sugerindo que a desigualdade é estrutural. O comando da questão pede que se identifique o fator central que impacta a realização dessas práticas especificamente no tempo de lazer. O texto é explícito ao contrastar as PC/AF de lazer (prazerosas, diversificadas) das classes mais abastadas com as atividades de deslocamento (para trabalhar ou estudar) das classes menos favorecidas, apontando para uma "relação inversa e perversa entre variáveis socioeconômicas". Embora cite outros fatores (gênero, idade, etnia), ele os apresenta como características associadas a maior inatividade, mas subordinadas ao contexto socioeconômico.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
O texto inicia afirmando que o acesso é desigual "à semelhança de outros indicadores sociais", e imediatamente detalha essa desigualdade em termos de classe: atividades de lazer para os "mais abastados" versus atividades de deslocamento por necessidade para os "menos favorecidos". A expressão "relação inversa e perversa entre variáveis socioeconômicas" reforça que a desigualdade entre classes sociais é o eixo estruturante que organiza e explica as demais disparidades mencionadas posteriormente (gênero, idade, etnia, acesso a políticas públicas).
Análise das Alternativas Incorretas
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A) diferença entre homens e mulheres: Distrator por reducionismo. O texto menciona que as maiores prevalências de inatividade estão entre as mulheres, mas isso é apresentado como um dos vários fatores correlacionados, não como o fator central. A questão é sobre o acesso a PC/AF de lazer, e o gênero, neste contexto, é uma variável que interage com a condição socioeconômica, não a causa primária.
-
B) inexistência de políticas públicas: Distrator por extrapolação. O texto cita que pessoas que desconhecem programas públicos têm maior inatividade, mas não afirma que essas políticas são inexistentes. Pelo contrário, o problema pode ser de divulgação, acesso ou qualidade. O foco central do texto é na desigualdade de renda/classe como determinante do tipo de atividade física praticada.
-
C) diversidade de faixa etária: Distrator por reducionismo. Assim como o gênero, a idade (pessoas com 60 anos ou mais) é citada como um grupo com maior prevalência de inatividade. No entanto, o texto não a apresenta como a causa central da desigualdade no acesso às PC/AF de lazer, mas sim como uma característica que, combinada com a baixa renda, agrava a inatividade.
-
D) variação de condição étnica: Distrator por reducionismo. A condição étnica (negros) também aparece na lista de grupos com maior inatividade. No Brasil, a questão étnica está intrinsecamente ligada à desigualdade social e econômica histórica. O texto, ao listá-la junto com baixa renda, sugere essa intersecção, mas não eleva a etnia, isoladamente, ao status de fator central explicativo para o tipo de prática de lazer.
Identificação Pedagógica
- Tema: Desigualdade Social e Saúde Coletiva / Determinantes Sociais da Saúde.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a sociedade e a natureza, reconhecendo suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13CHS402 - Analisar e comparar indicadores de qualidade de vida e de desenvolvimento humano em diferentes países, considerando a inclusão, a justiça social e a sustentabilidade socioambiental.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que trazem textos analíticos frequentemente testam sua capacidade de identificar a tese central ou o argumento principal. Preste atenção nas palavras-chave de articulação: "em geral", "aqui há", "são mais frequentes". Neste caso, a expressão "à semelhança de outros indicadores sociais" já sinaliza que a desigualdade social é o pano de fundo para entender o fenômeno descrito. Não se deixe levar por alternativas que, embora mencionadas no texto, representam aspectos particulares e não a causa estrutural.
Questão 13 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A indústria do esporte eletrônico é um mercado que está crescendo em um ritmo mais rápido do que a economia mundial. Sua popularidade cresceu muito e no Brasil não é diferente. De acordo com os dados de uma pesquisa, mais de 64 por cento dos brasileiros que jogam videogame já ouviram falar de esporte eletrônico. No entanto, o que chama a atenção é o crescimento superior a 10 por cento do público praticante comparado ao ano anterior, que subiu de 44,7 por cento para 55,4 por cento. Trata-se de um percentual expressivo, já que o Brasil está no top 3 dentre os países que têm maior número de espectadores de esporte eletrônico do mundo. Comparado ao ano anterior, em 2020, o Brasil teve um marco de crescimento de 20 por cento na audiência. Mundo afora, a árdua dedicação de grandes gamers contribuiu para o reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional, aliado a outras cinco federações esportivas e suas desenvolvedoras de jogos, que direcionaram um olhar mais atento ao assunto, permitindo dar o primeiro passo para concretizar, pela primeira vez na história dos jogos eletrônicos, um evento olímpico oficial.
O contexto em que o esporte eletrônico é apresentado no texto demonstra o(a)
Alternativas: A) condição favorável à expansão dessa modalidade. B) promoção dessa prática por jogadores profissionais. C) impulsionamento de um processo de marketing. D) favorecimento de fabricantes dos jogos. E) modificação da audiência televisiva.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um panorama geral do crescimento do esporte eletrônico (e-sports) no Brasil e no mundo. Ele utiliza dados estatísticos concretos (percentuais de crescimento, posição no ranking mundial) e fatos institucionais (reconhecimento pelo Comitê Olímpico Internacional) para construir uma narrativa de expansão e consolidação da modalidade. O comando da questão pede que se identifique o que o contexto de apresentação do esporte eletrônico no texto demonstra. Ou seja, qual é a ideia central que os dados e informações, em conjunto, transmitem sobre a situação atual dos e-sports.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
O texto, de forma global, reúne uma série de evidências que apontam para um cenário propício ao crescimento dos e-sports: 1. Crescimento econômico acelerado: "ritmo mais rápido do que a economia mundial". 2. Popularidade em alta: "popularidade cresceu muito". 3. Aumento significativo da base de praticantes no Brasil: crescimento de mais de 10% (de 44,7% para 55,4%). 4. Posição de destaque em audiência: Brasil no "top 3" mundial. 5. Crescimento expressivo da audiência: aumento de 20% em um ano. 6. Reconhecimento e legitimação institucional: interesse e primeiro passo do Comitê Olímpico Internacional.
Esses elementos, em conjunto, pintam um quadro de condições favoráveis (econômicas, populacionais e institucionais) que sustentam e indicam a expansão contínua da modalidade.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) promoção dessa prática por jogadores profissionais.: Reducionismo/Desvio de Foco. Embora o texto mencione que "a árdua dedicação de grandes gamers contribuiu para o reconhecimento", essa é apenas uma parte do contexto apresentado. A questão central do texto não é a ação de promoção dos jogadores, mas sim o cenário macro de crescimento que inclui esse e outros fatores (dados de mercado, audiência, reconhecimento olímpico).
- C) impulsionamento de um processo de marketing.: Extrapolação. O texto não menciona estratégias de marketing, campanhas publicitárias ou esforços deliberados para vender o produto "esporte eletrônico". O crescimento é apresentado como um fenômeno orgânico (de popularidade, prática e audiência), que depois atrai o interesse de instituições. A questão fala do contexto de apresentação no texto, e não há menção a processos de marketing.
- D) favorecimento de fabricantes dos jogos.: Reducionismo/Desvio de Foco. As "desenvolvedoras de jogos" são citadas apenas como uma das partes que, junto com o COI e federações, estão dando um "olhar mais atento". O texto não desenvolve a ideia de que elas são as principais beneficiárias ou que o contexto apresentado visa favorecê-las. O foco está na modalidade (esporte eletrônico) como um todo.
- E) modificação da audiência televisiva.: Anacronismo/Extrapolação. O texto fala em crescimento da "audiência" de forma genérica, o que no contexto de e-sports se refere principalmente a plataformas de streaming online (como Twitch, YouTube). Não há qualquer menção a audiência televisiva tradicional. Portanto, afirmar que o contexto demonstra uma modificação nesse meio específico é uma inferência incorreta e fora do escopo informativo do texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Leitura e Interpretação de Texto / Gênero Textual: Texto Expositivo-Informativo.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LP03 - Analisar, interpretar e inferir informações em textos de diferentes gêneros e esferas de circulação, considerando o contexto de produção, a forma, os recursos linguísticos e os efeitos de sentido.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de síntese e identificação da ideia central a partir de diversos dados fornecidos no texto. Não se deixe levar por palavras-chave isoladas (como "gamers" ou "desenvolvedoras"). Leia o texto como um todo e pergunte-se: "Qual é o panorama geral que o autor está construindo com todas essas informações?". A alternativa correta será aquela que abrange e resume de forma mais precisa esse panorama completo, sem se prender a detalhes secundários.
Questão 14 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
O Marabaixo é uma expressão artístico-cultural formada nas tradições e na identificação cultural entre as comunidades negras do Amapá. O nome remonta às mortes de escravizados em navios negreiros que eram jogados na água. Em sua homenagem, hinos de lamento eram cantados mar abaixo, mar acima. Posteriormente, o Marabaixo se integrou à vivência das comunidades negras em um ciclo de danças, cantorias com tambores e festas religiosas, recebendo, em 2018, o título de Patrimônio Cultural do Brasil.
A manifestação do Marabaixo se constituiu em expressão de arte e cultura, exercendo função de
ALTERNATIVAS: A) ressignificar episódios dramáticos em novas práticas culturais. B) adaptar coreografias como imitação dos movimentos do mar. C) lembrar dos mortos no passado escravista como forma de lamento. D) perpetuar uma narrativa de apagamento dos fatos históricos traumáticos. E) ritualizar a passagem de atos fúnebres nas produções coletivas com espírito festivo.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta o Marabaixo como uma manifestação cultural afro-brasileira do Amapá. Ele descreve sua origem trágica (lamento pelas mortes nos navios negreiros) e sua evolução para uma prática cultural complexa, que integra dança, música, tambores e festas religiosas, sendo reconhecida como Patrimônio Cultural. A questão pergunta qual a função que essa manifestação exerce. A chave está em entender que a função vai além da simples lembrança do passado; ela transforma uma memória dolorosa em uma prática cultural viva, coletiva e afirmativa.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
O texto mostra claramente um processo de ressignificação: um episódio histórico dramático (mortes durante a travessia atlântica) deu origem a hinos de lamento. Posteriormente, essa memória não ficou presa apenas ao lamento, mas se integrou à vivência das comunidades em um ciclo que inclui danças e festas. Ou seja, a dor e a memória foram transformadas ("ressignificadas") em uma nova prática cultural, que fortalece a identidade do grupo. A concessão do título de Patrimônio em 2018 corrobora essa ideia de valorização e continuidade de uma prática ressignificada.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [CORRETA]: Como explicado, capta o processo de transformação de uma memória traumática em uma prática cultural identitária e celebrativa.
- B: Reducionismo e extrapolação. A alternativa se fixa em um detalhe etimológico ("mar abaixo, mar acima") e propõe que a coreografia imita o mar. O texto não menciona isso. A função da manifestação é muito mais profunda e simbólica do que uma simples representação física.
- C: Reducionismo. Embora a lembrança dos mortos seja a origem histórica, o texto deixa claro que o Marabaixo evoluiu para algo mais: "se integrou à vivência das comunidades negras em um ciclo de danças, cantorias com tambores e festas religiosas". Portanto, sua função atual não se resume a "lembrar como forma de lamento", mas sim a celebrar e vivenciar a cultura a partir dessa memória.
- D: Contradição explícita. O texto descreve justamente o oposto: o Marabaixo preserva e dá visibilidade a um fato histórico traumático (as mortes nos navios), não o apaga. Tornar-se Patrimônio Cultural é um ato de reconhecimento e preservação da memória.
- E: Reducionismo e imprecisão. A alternativa capta parte da ideia ("espírito festivo", "produções coletivas"), mas reduz a função a um mero "ritualizar a passagem de atos fúnebres". O Marabaixo não é apenas um ritual fúnebre transformado; é uma expressão cultural complexa que nasce de uma memória de luto, mas que cumpre funções sociais, religiosas e identitárias muito mais amplas para a comunidade no presente.
Identificação Pedagógica
- Tema: Patrimônio Cultural Afro-Brasileiro, Memória e Identidade.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos para diferentes fins, em diversas mídias. Competência 6 (Área de Humanas) - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. (Relacionada à análise da função da manifestação cultural).
Dica do Especialista
Fique atento a verbos como "ressignificar", "reinterpretar" e "reelaborar" em questões sobre manifestações culturais, especialmente as de origem afro-brasileira ou indígena. O ENEM frequentemente avalia a compreensão de como grupos sociais transformam memórias difíceis ou contextos de opressão em expressões artísticas e culturais que fortalecem sua identidade e resistência. A alternativa correta geralmente sintetiza essa transformação, indo além da mera descrição de uma característica ou da origem histórica.
Questão 15 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O uso das redes sociais como forma de ampliar universos foi uma descoberta recente para o artista Wolney Fernandes, que começou a criar quando o ambiente em Goiás era mais árido em relação às artes visuais. "Hoje, ser diferente é uma potência e quem sabe o que quer com a própria arte encontra espaço", diz. As colagens artísticas do goiano aparecem em capas de obras literárias pelo Brasil e exterior.
O artista goiano Wolney Fernandes busca expor seu trabalho por meio de plataformas virtuais com o objetivo de
ALTERNATIVAS: A) dar suporte à técnica de colagem em Artes Visuais, contornando dificuldades práticas. B) aproximar-se da estética visual própria da editoração de obras artísticas, como capas de livros. C) oferecer uma vitrine internacional para sua produção artística, a fim de dar mais visibilidade a suas obras. D) enfatizar o caráter original e inovador de suas criações artísticas, diferenciando-se das artes tradicionais. E) trazer um sentido tecnológico às suas colagens, uma vez que as imagens artísticas são recorrentes nas redes sociais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta o artista Wolney Fernandes e sua utilização das redes sociais. O foco da questão está em identificar o objetivo principal do artista ao usar essas plataformas, conforme inferido a partir das informações fornecidas. O texto destaca que o uso das redes foi uma "forma de ampliar universos" e que suas obras "aparecem em capas de obras literárias pelo Brasil e exterior". O comando pede para identificar a finalidade dessa exposição online.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. O texto é explícito ao afirmar que o uso das redes sociais serve para "ampliar universos", uma metáfora para expandir seu alcance e público. O resultado concreto dessa estratégia é que suas colagens "aparecem em capas de obras literárias pelo Brasil e exterior", indicando que a plataforma virtual funcionou como uma vitrine que proporcionou visibilidade nacional e internacional ao seu trabalho.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [dar suporte à técnica de colagem em Artes Visuais, contornando dificuldades práticas]: Erro por extrapolação. O texto não menciona nenhuma dificuldade prática com a técnica de colagem que as redes sociais ajudariam a contornar. O foco está na divulgação e alcance, não no suporte técnico ao processo criativo.
- B [aproximar-se da estética visual própria da editoração de obras artísticas, como capas de livros]: Erro por inversão de causa e efeito. As redes sociais não são usadas para ele se aproximar dessa estética; pelo contrário, é o seu trabalho artístico (já desenvolvido) que, ao ganhar visibilidade nas redes, acabou sendo selecionado para ilustrar capas. A plataforma é meio, não fim estético.
- D [enfatizar o caráter original e inovador de suas criações artísticas, diferenciando-se das artes tradicionais]: Erro por reducionismo. Embora o artista afirme que "ser diferente é uma potência", essa é uma constatação sobre o cenário atual das artes, não o objetivo declarado de usar as redes sociais. O objetivo da exposição online, conforme o texto, é a ampliação de seu universo/reconhecimento.
- E [trazer um sentido tecnológico às suas colagens, uma vez que as imagens artísticas são recorrentes nas redes sociais]: Erro por distorção do foco. O texto não sugere que o artista busca modificar a natureza ou o "sentido" de suas colagens ao publicá-las online. As redes são um canal de divulgação, não um elemento que redefine a essência de sua obra. A recorrência de imagens artísticas nas redes é um fato do contexto, não o objetivo do artista.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cultura Digital, Produção e Circulação Artística.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender e utilizar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar o funcionamento das linguagens, apropriando-se de seus recursos para expor ideias, pontos de vista e sentimentos, em diferentes contextos, e produzir sentidos que levem ao diálogo, à resolução de conflitos e à cooperação.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de inferir a finalidade de uma ação a partir de um texto. Fique atento aos verbos de objetivo (como "busca", "objetivo", "para") e às consequências diretas mencionadas. Muitas alternativas incorretas trazem elementos presentes no texto (como "ser diferente" ou "capas de livros"), mas os aplicam de forma equivocada, desconectada do comando central da questão. Sempre retorne à pergunta: "O que o texto diz, explicitamente, que leva a essa conclusão?"
Questão 16 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
O mais antigo grupo de rap indígena do país, Brô MCs, surgiu em 2009, na aldeia Jaguapiru, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Os integrantes conheceram o rap pelo rádio, ouvindo um programa que apresentava cantores e grupos brasileiros desse gênero musical. O Brô MCs conseguiu influenciar outros a fazerem rap e a lutarem pelas causas indígenas. Um dos nomes do movimento, Kunumí MC, é um jovem de 16 anos, da aldeia Krukutu, em São Paulo. O adolescente enxerga o rap como uma cultura da defesa e começou a fazer rimas quando percebeu que a poesia, pela qual sempre se interessou, podia virar música. Nas letras que cria, inspiradas tanto pelo rap quanto pelos ritmos indígenas, tenta incluir sempre assuntos aos quais acha importante dar voz, principalmente, a questão da demarcação de terras.
O movimento rap dos povos originários do Brasil revela o(a) ALTERNATIVAS: A) fusão de manifestações artísticas urbanas contemporâneas com a cultura indígena. B) contraposição das temáticas socioambientais indígenas às questões urbanas. C) rejeição da indústria radiofônica às músicas indígenas. D) distanciamento da realidade social indígena. E) estímulo ao estudo da poesia indígena.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta um fenômeno cultural contemporâneo: a apropriação do gênero musical rap por jovens indígenas. O rap, originário de contextos urbanos periféricos, é utilizado como ferramenta de expressão e luta por causas indígenas, como a demarcação de terras. O comando da questão pede que se identifique o que esse movimento revela. A análise deve se basear estritamente nas informações fornecidas pelo texto, que destaca a inspiração dupla (no rap e nos ritmos indígenas), a função social da música (defesa e dar voz a assuntos importantes) e a origem do contato (via rádio, com rap brasileiro).
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. O texto descreve explicitamente um processo de fusão: jovens indígenas conhecem o rap (uma "manifestação artística urbana contemporânea") pelo rádio e passam a criá-lo, inspirando-se também nos "ritmos indígenas" (elemento da cultura indígena). O resultado é um movimento que usa a linguagem do rap para tratar de causas indígenas, configurando uma síntese cultural.
Análise das Alternativas Incorretas
- B contraposição das temáticas socioambientais indígenas às questões urbanas.: Erro de interpretação (contradição). O texto não mostra uma oposição, mas sim uma utilização de uma forma de expressão urbana (rap) para veicular temáticas indígenas. Não há contraposição, e sim apropriação e ressignificação.
- C rejeição da indústria radiofônica às músicas indígenas.: Erro de extrapolação. O texto menciona o rádio como meio de acesso ao rap, não trata da aceitação ou rejeição da indústria às músicas indígenas. Essa informação não pode ser inferida a partir do texto fornecido.
- D distanciamento da realidade social indígena.: Erro de contradição frontal. O texto afirma exatamente o oposto. As letras dão voz a assuntos cruciais para a realidade indígena, como a demarcação de terras. O movimento é profundamente engajado e conectado a essa realidade.
- E estímulo ao estudo da poesia indígena.: Erro de reducionismo e extrapolação. Embora Kunumí MC mencione seu interesse por poesia, o texto não afirma que o movimento como um todo estimula o estudo da poesia indígena. O foco está na criação de uma nova expressão (rap indígena) que pode ter a poesia como uma de suas bases, mas o objetivo principal revelado é a fusão cultural e a luta política, não um incentivo acadêmico ou de estudo.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cultura, Identidade e Diversidade / Hibridismo Cultural.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar como as diferentes linguagens e seus recursos constroem sentidos e produzem efeitos de sentido nos textos, considerando os contextos de produção e recepção.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de síntese textual. O ENEM frequentemente apresenta textos sobre apropriações culturais e fenômenos sociais contemporâneos. Atenção: a resposta correta quase sempre é aquela que resume com precisão a ideia central do texto, sem adicionar opiniões ou informações externas. Desconfie de alternativas que usam verbos extremos como "rejeição" ou "distanciamento" quando o texto fala em "inspiração" e "dar voz". Procure pela alternativa que captura a relação principal estabelecida no texto, que neste caso é de fusão e ressignificação.
Questão 17 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Sol se põe embalado pelo Bolero de Ravel
O sol começa a descer por trás da vegetação da Ilha da Restinga, na outra margem do rio Paraíba, colorindo o céu de amarelo, laranja e lilás. Então se ouvem as primeiras notas do Bolero, do compositor francês Maurice Ravel, executadas pelo saxofonista Jurandy. É assim o pôr do sol da praia do Jacaré, em Cabedelo (Grande João Pessoa). Depois do Bolero, Jurandy toca Asa branca, de Luiz Gonzaga, e Meu sublime torrão, de Genival Macedo, espécie de hino não oficial da Paraíba.
A interpretação musical de Jurandy do Sax, codinome de José Jurandy Félix, apresenta um repertório caracterizado pela
ALTERNATIVAS: A) inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados. B) valorização de músicas que revelam mensagens de serenidade. C) consagração do repertório erudito como cultura dominante. D) iniciativa de estímulo à vocação turística da cidade. E) divisão hierárquica entre gêneros e estilos musicais.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto descreve uma apresentação musical em um cenário natural (pôr do sol na praia do Jacaré). O músico, Jurandy do Sax, executa um repertório que mescla três obras de origens e estilos distintos: "Bolero" (do compositor francês Maurice Ravel, uma peça erudita/clássica), "Asa Branca" (de Luiz Gonzaga, ícone da música popular brasileira, especificamente do baião nordestino) e "Meu Sublime Torrão" (de Genival Macedo, um hino regional paraibano). A questão pede que se identifique a característica principal desse repertório, com base na descrição fornecida.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
O repertório é caracterizado pela inter-relação de referenciais estéticos aparentemente distanciados. Isso porque o músico une, em uma mesma apresentação, obras de tradições musicais que, em um primeiro olhar, parecem muito distantes: a música erudita europeia (Ravel), a música popular nordestina de raiz (Gonzaga) e um hino regional (Macedo). Ele não estabelece barreiras entre esses estilos, apresentando-os em sequência, no mesmo contexto, criando um diálogo entre eles.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) valorização de músicas que revelam mensagens de serenidade.: Distrator por reducionismo e extrapolação. Embora o cenário (pôr do sol) sugira serenidade, o texto não analisa o conteúdo das letras ou mensagens das músicas. "Asa Branca", por exemplo, fala de seca e migração, temas fortes e não necessariamente serenos. A questão foca na origem e estilo das obras, não em seu conteúdo lírico ou efeito emocional.
- C) consagração do repertório erudito como cultura dominante.: Distrator por contradição e extrapolação. O texto não hierarquiza os estilos. O repertório erudito (Bolero) é apresentado ao lado de obras populares e regionais, em pé de igualdade na sequência do espetáculo. Não há indicação de que um seja "dominante" sobre os outros.
- D) iniciativa de estímulo à vocação turística da cidade.: Distrator por extrapolação. Embora a apresentação ocorra em um ponto turístico e possa, na prática, estimular o turismo, o texto descreve o repertório do músico, não os objetivos ou impactos econômicos de sua apresentação. A questão pede uma característica do repertório em si, não da finalidade do evento.
- E) divisão hierárquica entre gêneros e estilos musicais.: Distrator por contradição direta. Esta alternativa vai contra a evidência do texto. O músico justamente não divide os gêneros; ele os integra em seu show. A apresentação em sequência, sem estabelecer que um é superior ao outro, demonstra uma falta de hierarquia, não sua afirmação.
Identificação Pedagógica
- Tema: Cultura, Arte e Diversidade Cultural / Música como Linguagem.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender e utilizar a arte (música, teatro, dança e artes visuais) como linguagem, mantendo uma atitude de busca pessoal e/ou coletiva, com respeito à diversidade de expressões e saberes.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG404 - Analisar e explicar a função, a estrutura e as marcas linguísticas em textos pertencentes a diversos gêneros, considerando as condições de produção, circulação e recepção.
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente aborda temas que valorizam a mistura, o diálogo e a superação de fronteiras culturais. Questões que apresentam artistas ou obras que mesclam referências locais e globais, eruditas e populares, tradicionais e contemporâneas, geralmente apontam para respostas que enfatizam a inter-relação, a hibridização ou a valorização da diversidade. Fique atento para alternativas que criam hierarquias ou reduzem a análise a um único aspecto (como o efeito emocional ou o impacto econômico), quando o texto evidencia justamente a pluralidade.
Questão 18 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Artes
Enunciado
TEXTO 1 Descrição da pintura: Obra em óleo sobre tela intitulada Eternos caminhantes, de Lasar Segall. Cinco figuras humanas com cabeças e olhos grandes e desproporcionais ao corpo. As imagens se entrecruzam e os rostos retorcidos têm aspectos geométricos. Uma das figuras representa uma criança. (Fim da descrição)
TEXTO 2 Em 1933, a obra Eternos caminhantes ingressou em uma das primeiras edições das exposições de Arte Degenerada, promovida por membros do partido nazista alemão. Nos anos seguintes, ela voltaria a ser exibida na mostra denominada Exposição da Vergonha, promovida por pequenos grupos abastados. Em 1937, essa obra foi confiscada pelo Ministério da Propaganda daquele país, na grande ação nacional-socialista contra a "Arte Degenerada".
Quase cinquenta obras de Lasar Segall foram confiscadas pelo regime totalitário alemão na primeira metade do século 20, entre elas a obra Eternos caminhantes, considerada degenerada por
ALTERNATIVAS: A) representar uma estética tida como inconveniente para o ideário político vigente. B) manifestar um posicionamento político-cultural concebido por grupos de oposição. C) expressar a cultura artística por meio da representação parcial do corpo humano. D) apresentar uma composição que antecipa o imaginário artístico germânico. E) estimular discussões sobre o papel da arte na construção coletiva de cultura.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda um momento histórico crucial: a perseguição nazista à arte moderna, rotulada pejorativamente como "Arte Degenerada" (Entartete Kunst). O comando da questão pede a razão pela qual a obra de Lasar Segall foi considerada "degenerada" pelo regime nazista. Para respondê-la, é necessário cruzar a descrição da obra (TEXTO 1) com o contexto histórico-político fornecido (TEXTO 2). A estética expressionista de Segall, com figuras deformadas e angustiadas, era diametralmente oposta ao ideal artístico nazista, que pregava um classicismo heroico, realista e nacionalista, destinado a glorificar o Estado e a "raça ariana". Portanto, a condenação partia de um critério político-ideológico, não puramente estético ou técnico.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. A obra foi considerada degenerada porque sua estética expressionista (com figuras desproporcionais, rostos retorcidos e geometrização) era vista como "inconveniente" e subversiva ao ideário político vigente do nazismo, que buscava uma arte controlada, propagandística e alinhada aos seus valores de pureza, ordem e nacionalismo.
Análise das Alternativas Incorretas
- B [manifestar um posicionamento político-cultural concebido por grupos de oposição]: Distrator por atribuição indevida de intenção. O texto não afirma que a obra foi criada como um manifesto de grupos de oposição. A perseguição se deu porque a estética da obra era interpretada como oposição pelo regime, não porque ela fosse produto deliberado de um grupo oposicionista organizado. O foco está na recepção e censura pelo Estado, não na intenção original do artista.
- C [expressar a cultura artística por meio da representação parcial do corpo humano]: Distrator por reducionismo e erro conceitual. A representação parcial ou deformada do corpo é uma característica de várias vanguardas artísticas (Expressionismo, Cubismo) e não era, por si só, o motivo da condenação nazista. O motivo era a incompatibilidade política dessa representação. Além disso, a descrição fala em "cabeças e olhos grandes e desproporcionais" e "rostos retorcidos", que vão além de uma mera "representação parcial".
- D [apresentar uma composição que antecipa o imaginário artístico germânico]: Distrator por contradição histórica. Esta alternativa inverte completamente a lógica histórica. A arte nazista queria recuperar um suposto imaginário germânico clássico e puro. A obra de Segall, dentro da visão nazista, era exatamente o oposto: uma degeneração e uma negação desse imaginário idealizado, associada a influências "estrangeiras" e "judaicas" (Segall era judeu).
- E [estimular discussões sobre o papel da arte na construção coletiva de cultura]: Distrator por extrapolação. Embora a arte moderna de fato promovesse reflexões, o texto base não menciona esse ser o motivo do confisco. O motivo explícito é a campanha contra a "Arte Degenerada", uma ação de censura estatal com objetivos políticos imediatos de controle cultural e doutrinação, não uma preocupação com o debate cultural em si.
Identificação Pedagógica
- Tema: Arte e Política / Censura e Liberdade de Expressão / Modernismo e Vanguardas Artísticas.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG402 - Analisar os interesses políticos, econômicos e sociais que orientam a produção e a circulação de discursos nas diferentes mídias, reconhecendo suas implicações nos processos de manutenção ou transformação das relações de poder.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem o termo "Arte Degenerada" ou a perseguição nazista à cultura quase sempre têm como cerne a relação entre arte, poder e ideologia. Fique atento: a condenação nunca era apenas sobre "feio" ou "bonito", mas sobre o que aquela estética representava politicamente para um regime totalitário. A alternativa correta geralmente gira em torno de conceitos como "controle estatal", "alinhamento ideológico", "censura" e "propaganda".
Questão 19 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Logo no início de Gira, um grupo de sete bailarinas ocupa o centro da cena. Mãos cruzadas sobre a lateral esquerda do quadril, olhos fechados, troncos que pendulam sobre si mesmos em vaguíssimas órbitas, tudo nelas sugere o transe. Está estabelecido o caráter volátil do que se passará no palco dali para frente. Mas engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética dos cultos afro-brasileiros.
TEXTO 2 Descrição da fotografia: Um grupo de bailarinos, homens e mulheres, que preenchem todo o espaço de um palco com fundo escuro. Todos têm o dorso aparentemente nu e vestem saia de tecido leve e de cor clara. Com os braços em diferentes inclinações, os bailarinos perfazem movimentos de giro variados. (Fim da descrição)
No diálogo que estabelece com religiões afro-brasileiras, sintetizado na descrição e na imagem do espetáculo, a dança exprime uma
ALTERNATIVAS: A) crítica aos movimentos padronizados do balé clássico. B) representação contemporânea de rituais ancestrais extintos. C) reelaboração estética erudita de práticas religiosas populares. D) releitura irônica da atmosfera mística presente no culto a entidades. E) oposição entre o resgate de tradições e a efemeridade da vida humana.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão analisa a relação entre uma obra de arte contemporânea (o espetáculo de dança "Gira") e as religiões afro-brasileiras. O Texto 1 é fundamental: ele estabelece que a dança sugere elementos do transe, mas não é uma representação mimética (ou seja, uma cópia fiel) dos cultos. A chave está em entender que a obra dialoga com essa tradição, mas a transforma em uma nova expressão artística, dentro do contexto do palco e da dança erudita/contemporânea. O comando pede para identificar o que a dança "exprime" nesse diálogo específico.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. O texto deixa claro que a dança não é uma cópia ("representação mimética"), mas se apropria de elementos das práticas religiosas populares (o transe, os giros, a atmosfera) e os reelabora em um contexto estético erudito (um espetáculo de dança em um palco). A descrição da fotografia corrobora essa ideia de uma composição coreográfica cuidadosa ("braços em diferentes inclinações", "movimentos de giro variados").
Análise das Alternativas Incorretas
- A) crítica aos movimentos padronizados do balé clássico.: Distrator por extrapolação. Embora a dança contemporânea frequentemente se oponha aos cânones do balé clássico, o texto não faz qualquer menção a essa comparação. O foco exclusivo da questão é o diálogo com as religiões afro-brasileiras.
- B) representação contemporânea de rituais ancestrais extintos.: Distrator por contradição e reducionismo. O texto afirma que a obra não é uma representação (mimética). Além disso, caracterizar os rituais como "extintos" é um erro factual grave, pois as religiões afro-brasileiras são vivas e atuantes na sociedade contemporânea.
- D) releitura irônica da atmosfera mística presente no culto a entidades.: Distrator por extrapolação de tom. Nada no texto sugere ironia. Pelo contrário, a descrição ("sugere o transe", "caráter volátil") indica um tratamento sério e respeitoso, ainda que não literal. O termo "irônica" introduz um juízo de valor que não é sustentado pelo material fornecido.
- E) oposição entre o resgate de tradições e a efemeridade da vida humana.: Distrator por extrapolação temática. Esta alternativa propõe uma reflexão filosófica profunda (efemeridade da vida) que, novamente, não é abordada nem sugerida pelos textos. O foco está no processo de criação artística (reelaboração), não em uma oposição conceitual abstrata.
Identificação Pedagógica
- Tema: Artes / Cultura e Sociedade / Diálogo Intercultural.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos artísticos e culturais de diferentes gêneros e semioses, para diferentes contextos, considerando sua função social.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar e explicitar as relações entre linguagens artísticas e seus contextos de produção e circulação, considerando a diversidade de práticas e repertórios culturais.
Dica do Especialista
Fique atento aos operadores argumentativos que delimitam o sentido do texto. Nesta questão, o trecho "Mas engana-se quem pensa que vai assistir a uma representação mimética" é crucial. A conjunção adversativa "mas" sinaliza uma correção à primeira impressão, indicando que a relação não é de cópia, mas de algo mais complexo, como "inspiração" ou "reelaboração". Sempre busque a alternativa que melhor traduz essa nuance apresentada pelo autor.
Questão 20 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Contos e novelas João Alphonsus
Era um gato preto, como convinha a um cultor das boas letras, que já lera Poe traduzido por Baudelaire. Preto e gordo. E lerdo. Tão gordo e lerdo que a certa altura observei que ia perdendo inteiramente as qualidades características da raça, que são em suma o ódio de morte aos ratos. Já nem os afugentava! Os ratos de Ouro Preto são também dignos e solenes - não ria - tradicionalistas... descendentes de outros ratos que naqueles mesmos casarões presenciaram acontecimentos importantes da nossa história... No sobrado do desembargador Tomás Antônio Gonzaga, imagine o senhor uma reunião dos sonhadores inconfidentes, com os antepassados daqueles ratos a passearem pelo sótão ou mesmo pelo assoalho por entre as pernas dos homens absortos na esperança da independência nacional! E depois, os ancestres daqueles roedores que eu via agora deslizar sutilmente no meu quarto podiam ter subido pelo poste da ignomínia colonial, onde estava exposta a cabeça do Tiradentes! E quando as órbitas se descarnaram ignominiosamente, podiam até ter penetrado no recesso daquele crânio onde verdadeiramente ardera a literatura, com a simplicidade do heroísmo, a febre nacionalista...
Descrevendo seu gato, o narrador remete ao contexto e a protagonistas da Inconfidência para criar um efeito desconcertante centrado no
ALTERNATIVAS: A) desenho imaginativo do casario colonial de Ouro Preto. B) efeito de apagamento de limites entre ficção e realidade. C) vínculo estabelecido entre animais urbanos e literatura. D) questionamento sutil quanto à sanidade dos inconfidentes. E) contraste entre austeridade pomposa e imagem repugnante.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de João Alphonsus apresenta um narrador que descreve seu gato preto e gordo, que perdeu o instinto de caçar ratos. A partir dessa observação cotidiana e aparentemente banal, o narrador inicia um voo imaginativo, projetando os ratos que infestam sua casa no presente para o passado histórico de Ouro Preto. Ele especula que os ancestrais desses ratos poderiam ter testemunhado reuniões dos inconfidentes e, de forma ainda mais chocante e "desconcertante", poderiam ter penetrado no crânio decepado de Tiradentes. O efeito principal é justamente a fusão de um fato histórico grandioso e trágico (a Inconfidência Mineira) com elementos prosaicos, repulsivos e ficcionais (ratos invadindo um crânio), criando uma sensação de estranhamento no leitor.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O narrador, a partir de uma situação real (seu gato e os ratos), constrói um cenário histórico ficcional detalhado, atribuindo aos ratos um papel de testemunhas e até de participantes macabros dos eventos da Inconfidência. Essa construção narrativa borra deliberadamente a linha que separa a realidade factual do passado da imaginação ficcional do presente, gerando o efeito "desconcertante" mencionado no comando da questão.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) desenho imaginativo do casario colonial de Ouro Preto.: Distrator de Reducionismo. Embora o casario colonial seja mencionado ("naqueles mesmos casarões"), ele é apenas o cenário onde a narrativa se desenrola. O foco do efeito desconcertante não está na descrição arquitetônica, mas na ação imaginada dos ratos dentro desse cenário histórico.
- B) efeito de apagamento de limites entre ficção e realidade.: CORRETA. O texto funde elementos reais (Ouro Preto, a Inconfidência, Tiradentes) com uma construção ficcional e anacrônica (os ratos atuais como testemunhas e agentes no passado), criando um hibridismo narrativo típico de certas vertentes literárias modernas.
- C) vínculo estabelecido entre animais urbanos e literatura.: Distrator de Extrapolação. Existe um vínculo inicial (o gato de um "cultor das boas letras"), mas ele é apenas o ponto de partida. O desenvolvimento do texto e o efeito desconcertante vão muito além desse vínculo, mergulhando na especulação histórica e na imagem grotesca final.
- D) questionamento sutil quanto à sanidade dos inconfidentes.: Distrator de Contradição. O texto não questiona a sanidade dos inconfidentes; pelo contrário, refere-se a eles como "sonhadores" e descreve o heroísmo de Tiradentes. A loucura ou desequilíbrio sugerido está no voo imaginativo do próprio narrador, não nas figuras históricas.
- E) contraste entre austeridade pomposa e imagem repugnante.: Distrator de Aproximação. Este distrator capta um elemento presente no texto (a imagem repugnante dos ratos no crânio de Tiradentes contrasta com a solenidade histórica do evento). No entanto, ele é muito específico e descreve uma consequência do recurso principal, que é o apagamento dos limites entre ficção e realidade. O "efeito desconcertante" é mais abrangente e causado por essa fusão de planos.
Identificação Pedagógica
- Tema: Recursos Narrativos e Metalinguagem; Literatura e História.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos artísticos e literários de diferentes gêneros, mídias e contextos, valorizando a diversidade de produções artísticas nacionais e internacionais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar processos de produção e circulação de discursos, nas diferentes linguagens, considerando o contexto, os recursos utilizados, as condições de produção e recepção e os efeitos de sentido construídos.
Dica do Especialista
Fique atento a verbos de comando como "criar um efeito". Eles pedem que você identifique a intenção do autor ou a função de um recurso estilístico no texto. No ENEM, questões que abordam a relação entre ficção e realidade, ou que apresentam narradores com vozes imaginativas e subjetivas, frequentemente avaliam a percepção do candidato sobre a construção literária e seus efeitos de sentido. Pergunte-se sempre: "Qual a finalidade do autor ao escrever isso dessa forma?"
Questão 21 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Literatura
Enunciado
Sombras de reis barbudos José J. Veiga
Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou jogando um couro por cima, era apanhado pela proibição, nhoc - e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo
ALTERNATIVAS: A) culto ao medo, infiltrado em situações do cotidiano. B) sentimento de dúvida quanto à veracidade das informações. C) ambiente de sonho, delineado por imagens perturbadoras. D) incentivo ao desenvolvimento econômico com a iniciativa privada. E) espaço urbano marcado por uma política de isolamento das crianças.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um trecho do livro Sombras de Reis Barbudos, de José J. Veiga, publicado em 1972, durante o período da Ditadura Militar brasileira. A narrativa, embora alegórica e ficcional, é uma crítica ao autoritarismo. A "Companhia" é uma metáfora para o regime autoritário, que impõe regras arbitrárias e absurdas ("proibições inteiramente bobocas") e as reforça com medidas violentas e punitivas (cacos de garrafa nos muros, castigos rigorosos). A explicação do pai do narrador explicita a lógica do regime: em "épocas normais" bastam leis, mas em um estado de exceção, o poder não pode admitir "nenhuma brecha", usando tanto a ameaça física (os cacos) quanto a punição legal ("nhoc" - o gesto de torcer o pescoço). A questão pede que identifiquemos, na perspectiva ingênua do menino-narrador, qual aspecto do momento político dos anos 1970 (a Ditadura Militar) está sendo esboçado pela ficção.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. O texto mostra como o regime autoritário se sustenta através de um "culto ao medo". Esse medo não está apenas nas grandes repressões, mas se infiltra no cotidiano mais banal, através de proibições absurdas e da constante ameaça de punição (representada pelos cacos e pelo gesto do pai). O menino percebe o "exagero", mas é o pai quem explica a lógica implacável do controle total.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) sentimento de dúvida quanto à veracidade das informações.: Distrator de foco temático. Embora a narrativa de José J. Veiga tenha um caráter fantástico que pode causar estranhamento, o trecho em questão não trata da desconfiança em relação a notícias ou informações. O foco está no controle e no medo impostos pela "Companhia", não na veracidade do que é comunicado.
- C) ambiente de sonho, delineado por imagens perturbadoras.: Distrator de reducionismo estilístico. A obra de Veiga de fato mescla real e fantástico, criando uma atmosfera onírica. No entanto, a questão pede especificamente o "esboço do momento político". Reduzir a análise à atmosfera de sonho é ignorar a crítica social e política alegórica que é o cerne da interpretação solicitada.
- D) incentivo ao desenvolvimento econômico com a iniciativa privada.: Distrator de anacronismo e contradição. Esta alternativa propõe uma leitura completamente oposta ao teor do texto. A "Companhia" não incentiva nada; ela proíbe, controla e pune. Não há menção a desenvolvimento econômico ou à atuação da iniciativa privada. É uma leitura que desconsidera totalmente o contexto histórico da década de 1970 no Brasil.
- E) espaço urbano marcado por uma política de isolamento das crianças.: Distrator de reducionismo. É verdade que a proibição de pular muros atinge "principalmente os meninos", mas isso é um detalhe da narrativa. A política da "Companhia" não é especificamente de isolamento infantil, mas de controle total sobre a população. Focar nas crianças é tomar uma parte pelo todo e perder a dimensão política mais ampla que a alegoria constrói.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Narrativa Alegórica e Ditadura Militar. Identidade e Cidadania.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos artísticos e culturais de diferentes gêneros e semioses, para exercer o protagonismo e a autoria na vida pessoal e coletiva.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, no texto literário, as relações entre as partes e o todo, contextualizando-o e estabelecendo relações com outros textos, com outros conhecimentos e com a própria experiência, de modo a ampliar as possibilidades de construção de sentidos e de ressignificação do texto e do contexto.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de literatura muitas vezes usam textos que fazem crítica social ou política de forma indireta, através de alegorias, metáforas ou situações fantásticas. Fique atento: quando um texto fala de uma entidade opressora e arbitrária (como "a Companhia", "o Governo", "os Homens de Preto") em um contexto brasileiro do século XX, é muito provável que esteja se referindo ao período da Ditadura Militar (1964-1985). A chave é ligar os elementos de controle, medo, proibições absurdas e punição severa descritos na ficção ao contexto histórico real de censura e repressão.
Questão 22 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Migalhas Ana Martins Marques
Entre a toalha branca e um bule de café seria inapropriado dizer eu não te amo mais. Era necessário algo mais solene, um jardim japonês para as perdas pensadas, um noturno de tempestade para arrebentar de dor, uma praia de pedras para chorar em silêncio, uma cama alta para o incenso da despedida, uma janela dando para o abismo. No entanto você abaixa os olhos e recolhe lentamente as migalhas de pão sobre a mesa posta para dois.
Nesse poema, a representação do sentimento amoroso recupera a tradição lírica, mas se ajusta à visão contemporânea ao
ALTERNATIVAS: A) invocar o interlocutor para uma tomada de posição. B) questionar a validade do envolvimento romântico. C) diluir em banalidade a comoção de um amor frustrado. D) transformar em paz as emoções conflituosas do casal. E) condicionar a existência da paixão a espaços idealizados.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema "Migalhas", de Ana Martins Marques, trabalha com o tema do fim de um relacionamento. A tradição lírica, especialmente a romântica, costuma representar grandes emoções (como a dor da despedida) em cenários grandiosos e solenes. O eu lírico enumera esses cenários idealizados: "um jardim japonês", "um noturno de tempestade", "uma praia de pedras", "uma cama alta", "uma janela dando para o abismo". No entanto, o desfecho do poema subverte essa expectativa. A cena real e contemporânea se passa em um ambiente doméstico banal ("Entre a toalha branca e um bule de café"), e o gesto que marca o fim é simples, silencioso e cotidiano: "você abaixa os olhos e recolhe lentamente as migalhas de pão". A questão pede para identificar como o poema, ao mesmo tempo que recupera essa tradição de grandiosidade, se ajusta a uma visão contemporânea.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C.
O poema ajusta-se à visão contemporânea ao apresentar a grande comoção do fim do amor ("eu não te amo mais") não em um cenário épico, mas dissolvida no gesto banal e silencioso de recolher migalhas em uma mesa de café. A força dramática é "diluída" na rotina, contrastando com a lista de cenários solenes idealizados apresentados anteriormente. É na simplicidade do cotidiano que a emoção mais profunda e real se manifesta.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) invocar o interlocutor para uma tomada de posição. Distrator: Foco Incorreto. O poema não é um apelo ou uma invocação para uma decisão. O interlocutor ("você") age de forma quase autônoma ("abaixa os olhos e recolhe..."), e o foco está na descrição da cena e no contraste entre o esperado e o real, não em solicitar uma ação.
-
B) questionar a validade do envolvimento romântico. Distrator: Extrapolação. O texto trata do fim de um envolvimento, mas não questiona a validade do amor romântico em si. O questionamento presente é sobre a forma como representamos essas emoções, não sobre o sentimento em sua essência.
-
C) diluir em banalidade a comoção de um amor frustrado. Alternativa Correta. Esta é a operação central do poema. A "comoção" (a dor do "não te amo mais") é propositalmente colocada em um cenário banal (a mesa de café) e expressa por um gesto cotidiano (recolher migalhas), diluindo a dramaticidade esperada.
-
D) transformar em paz as emoções conflituosas do casal. Distrator: Contradição. Não há indicação de que as emoções se transformaram em paz. O gesto de recolher as migalhas é carregado de tensão silenciosa, tristeza e resignação. O conflito não é resolvido, mas internalizado e expresso de forma contida.
-
E) condicionar a existência da paixão a espaços idealizados. Distrator: Inversão de Sentido. Esta alternativa descreve justamente a tradição lírica que o poema recupera na primeira parte ("Era necessário algo mais solene..."). O ajuste contemporâneo, porém, é o oposto: mostrar que a paixão (ou seu fim) existe e se manifesta precisamente fora desses espaços idealizados, no cenário banal.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Contemporânea, Lírica e Cotidiano.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias e mobilizar esses conhecimentos para formular, negociar e sustentar posicionamentos éticos, respeitando a diversidade e os direitos humanos. (Aqui aplicada à análise crítica das representações do amor na tradição lírica versus na poesia contemporânea).
Dica do Especialista
Fique atento a poemas contemporâneos que dialogam com tradições literárias. Muitas vezes, a questão central está justamente no contraste ou na subversão do modelo antigo. Identifique: 1) O que a tradição (no caso, a lírica romântica) costuma fazer; 2) Como o texto atual se relaciona com isso (repetindo, criticando, invertendo). Neste caso, o poema lista os clichês da tradição para, em seguida, mostrar que a vida real é diferente – e é nessa diferença que reside sua força e sua "atualidade".
Questão 23 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Torto arado Itamar Vieira Junior
Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos de arroz em torrões marrons e vermelhos revolvidos. Gostava do som redondo, fácil e ruidoso que tinha ao ser enunciado. "Vou trabalhar no arado." "Vou arar a terra." "Seria bom ter um arado novo, esse arado tá troncho e velho." O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada.
Com a perda de parte da língua na infância, a narradora tenta voltar a falar. Essa tentativa revela uma experiência que
ALTERNATIVAS: A) reflete o olhar do pai sobre as etapas do plantio. B) metaforiza a linguagem como ferramenta de lavoura. C) explicita, na busca pela palavra, o medo da solidão. D) confirma a frustração da narradora com relação à terra. E) sugere, na ausência da linguagem, a estagnação do tempo.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O trecho do romance "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, apresenta a narradora (Belonísia) relembrando sua primeira tentativa de falar após um acidente na infância que a deixou sem parte da língua. A palavra escolhida, "arado", é carregada de significado: ela associa o som perfeito da palavra à imagem produtiva e fértil do trabalho de seu pai. No entanto, ao tentar pronunciá-la, o som que sai é descrito como uma "aberração", um "arado torto" que, em vez de preparar a terra, a destrói e a torna infértil. A questão pede que identifiquemos o que essa tentativa de fala revela sobre a experiência da narradora. O núcleo da análise está na relação metafórica estabelecida entre o ato de falar (a linguagem) e o ato de arar a terra.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. A experiência da narradora ao tentar falar a palavra "arado" metaforiza a linguagem como uma ferramenta de lavoura. Assim como o arado é o instrumento que prepara a terra para o plantio e a fecundidade, a linguagem é o instrumento que prepara o mundo para a comunicação, o entendimento e a construção de sentido. O "arado torto" da sua fala defeituosa simboliza uma linguagem imperfeita, que falha em seu propósito de conectar e fertilizar o campo das relações humanas, resultando em destruição e esterilidade simbólica.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [reflete o olhar do pai sobre as etapas do plantio]: Reducionismo/Desvio de Foco. A narradora menciona a imagem do pai arando apenas como a origem da palavra escolhida e do ideal de funcionalidade que ela representa. O foco do trecho não é descrever as etapas do plantio ou o olhar do pai, mas sim usar essa imagem como base para uma metáfora sobre sua própria condição linguística.
- C [explicita, na busca pela palavra, o medo da solidão]: Extrapolação. Embora o trecho comece mencionando que ela tentou falar porque "estava sozinha", o desenvolvimento central do parágrafo não explora o medo da solidão. A descrição detalhada está voltada para a qualidade do som, a comparação com o arado e a sensação de deformação, não para um sentimento de pavor pela solidão em si.
- D [confirma a frustração da narradora com relação à terra]: Contradição/Descontextualização. A narradora expressa deleite e admiração pela terra sendo arada por seu pai ("Me deleitava vendo..."). A frustração descrita é exclusivamente com a sua incapacidade de reproduzir a palavra "arado" de forma eficaz, não com a terra ou o trabalho agrícola.
- E [sugere, na ausência da linguagem, a estagnação do tempo]: Anacronismo/Falta de Suporte Textual. O texto não estabelece qualquer relação entre a falta de fala e a percepção do tempo. A experiência narrada é sobre a qualidade da linguagem (torta, infértil) e não sobre a passagem ou paralisação do tempo.
Identificação Pedagógica
- Tema: Interpretação Textual / Figuras de Linguagem (Metáfora)
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LP49 - Analisar, em textos literários, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais, da pontuação, do uso de recursos ortográficos e morfossintáticos e de outras notações, de modo a perceber a autonomia discursiva da literatura e sua contribuição para a diversidade cultural.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que trazem trechos literários muitas vezes pedem que você identifique a relação metafórica central construída pelo autor. Não se prenda apenas à superfície do texto (o arado como objeto). Pergunte-se: "O que esse objeto ou ação representa no contexto da experiência do personagem?". No caso, o arado não é só um arado; é a própria linguagem. Fique atento a adjetivos e verbos que qualificam a metáfora ("torto", "deformado", "deixá-la infértil") – eles são a chave para entender o sentido profundo que a questão avalia.
Questão 24 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A escravidão Olavo Bilac
Esses meninos que aí andam jogando peteca não viram nunca um escravo... Quando crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. [supressão de texto] Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopeia, o longo gemer da raça mártir - orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas.
Publicado em 1902, o texto de Olavo Bilac enfatiza as mazelas da escravidão no Brasil ao
ALTERNATIVAS: A) descrever de modo impessoal as consequências da exploração racial sobre as gerações futuras. B) contrapor a infância privilegiada das crianças da época à infância violentada das crianças escravizadas. C) antecipar o futuro apagamento das marcas da escravidão no contexto social. D) criticar a atenuação da violência contra os povos escravizados nas memórias retratadas pelos museus. E) imaginar a reação de indiferença de seus contemporâneos com os escravizados libertos.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Olavo Bilac, publicado em 1902 (14 anos após a abolição), é um exercício de memória e denúncia. O autor estabelece um contraste geracional: as crianças livres de sua época ("que aí andam jogando peteca") não vivenciaram a escravidão. Ele projeta que, no futuro, essas crianças terão conhecimento dos horrores por meio de museus e relatos, mas ressalta que essa indignação futura será sempre menor do que a daqueles que viveram aquele "horrível drama". O núcleo da questão está em identificar como o autor enfatiza as mazelas da escravidão. A ênfase não está apenas na descrição dos horrores, mas no dispositivo retórico usado: o contraste entre a experiência indireta, futura e musealizada, e a experiência direta, vivida e traumática da geração anterior.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. O texto critica a forma como a violência escravista será atenuada ou transformada em memória passiva no futuro. Bilac diz que as crianças "verão nos museus a coleção hedionda" e "terão notícias" dos horrores, mas sua indignação "nunca poderá ser tão grande" quanto a de quem viveu aquilo. Isso é uma crítica explícita à transformação da experiência brutal em objeto de museu, um registro que, por mais hediondo que seja, atenua a dimensão viva do sofrimento e da injustiça.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [descrever de modo impessoal as consequências da exploração racial sobre as gerações futuras]: Erro por contradição. O texto não é impessoal; é carregado de subjetividade e emoção, com termos como "hedionda", "maldita", "bestial", "satanica". Além disso, o foco não está nas consequências para as gerações futuras, mas na impossibilidade delas sentirem a mesma intensidade do trauma.
- B [contrapor a infância privilegiada das crianças da época à infância violentada das crianças escravizadas]: Erro por reducionismo. Embora haja um contraste inicial entre as crianças que jogam peteca (livres) e a realidade escravista, este não é o mecanismo principal do texto. O autor não desenvolve a infância das crianças escravizadas; ele expande o contraste para um nível mais amplo: a geração pós-abolição versus a geração que testemunhou a escravidão.
- C [antecipar o futuro apagamento das marcas da escravidão no contexto social]: Erro por extrapolação. O texto não sugere um apagamento. Pelo contrário, ele antecipa que as marcas estarão nos museus e serão conhecidas. A crítica é sobre a forma como essa memória será preservada (atenuada), não sobre seu desaparecimento.
- E [imaginar a reação de indiferença de seus contemporâneos com os escravizados libertos]: Erro por anacronismo e deslocamento de foco. O texto não trata da relação dos contemporâneos de Bilac (1902) com os libertos. O "eles" do texto são as crianças que jogam peteca (o futuro), não os adultos da época. A reação imaginada não é de indiferença, mas de uma indignação considerada insuficiente pelo autor.
Identificação Pedagógica
- Tema: Memória, História e Literatura. Denúncia Social e Escravidão.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para diferentes situações de interação social, considerando a construção composicional e o estilo de gênero.
- Habilidade BNCC: EM13LGG302 - Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
Dica do Especialista
Fique atento aos marcadores temporais e de contraste em textos do ENEM. Palavras como "mas", "nunca", "tão grande como" são cruciais para entender a argumentação do autor. Nesta questão, a conjunção adversativa "Mas" no início do último período é a chave: ela introduz a ideia central de que a indignação futura (de quem vê nos museus) NUNCA será igual à de quem viveu. Isso direciona a resposta para a crítica à memória musealizada (alternativa D). Sempre pergunte: "Qual é a ideia principal que o autor está defendendo ou destacando com esse contraste?"
Questão 25 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Rakushisha Adriana Lisboa
E assim as coisas continuaram acontecendo entre os dois, em quase sustos, um grande por acaso com cacoetes de gestos definitivos. Com o Nunca Mais se oferecendo o tempo todo, bastaria dizer foi um prazer ter te conhecido, bastaria não trocar telefones nem e-mails e enterrar a casualidade com a cal da sabedoria - nada poderia ser definitivo, os encontros duravam duas horas ou duas décadas ou duas vezes isso, mas em algum momento necessariamente seria o fim. De todos os grandes amores. De todos os pequenos. De todas as juras, das promessas, de todos os na-alegria-e-na-tristeza. De todos os não amores, os desamores, os casamentos para sempre, os rancores para sempre, de todas as paralelas que só se viabilizam na abstração da geometria, de todas as pequenas paixões e de todas as grandes paixões, de tudo que para na antessala da paixão, de todos os vínculos não experimentados, de todos.
O recurso que promove a progressão textual, contribuindo para a construção da ideia de que as relações amorosas têm um enredo comum, é a
ALTERNATIVAS: A) repetição do pronome indefinido "todos". B) utilização do travessão na marcação do aposto. C) retomada do antecedente pelo pronome "isso". D) contraposição de ideias marcada pela conjunção "mas". E) substantivação de expressões pela anteposição do artigo.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um fragmento literário que explora a efemeridade e o caráter transitório de todas as relações humanas, especialmente as amorosas. O narrador reflete sobre como qualquer vínculo, por mais intenso ou duradouro que pareça, está fadado a um fim. A pergunta pede para identificar o recurso linguístico que promove a progressão textual e, ao mesmo tempo, contribui para construir a ideia de que as relações amorosas têm um enredo comum. A progressão textual é o movimento do texto para frente, e nesse trecho ela se dá de forma acumulativa e expansiva, listando e englobando cada vez mais tipos de relações, para mostrar que todas, sem exceção, compartilham o mesmo destino final.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A). A repetição anafórica (no início de frases ou segmentos) do pronome indefinido "todos" (e suas variações "todas", "tudo") é o motor da progressão textual no parágrafo final. Cada repetição introduz uma nova categoria de relação amorosa ou vínculo ("grandes amores", "pequenos [amores]", "juras", "não amores", etc.), criando uma lista exaustiva e expansiva. Esse acúmulo progressivo tem um efeito de generalização: não importa o tipo, a intensidade ou a duração, todos os vínculos estão incluídos na mesma regra do fim inevitável. Portanto, a repetição constrói diretamente a ideia de um "enredo comum" a todas as relações.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) utilização do travessão na marcação do aposto: O travessão é usado para isolar uma explicação ou comentário ("- nada poderia ser definitivo..."), que funciona como uma conclusão ou reflexão sobre a ideia anterior. Embora seja um recurso coesivo importante, ele não é o principal responsável pela progressão e pela construção da ideia de enredo comum no texto como um todo. Seu papel é mais pontual e explicativo.
- C) retomada do antecedente pelo pronome "isso": O pronome "isso" em "duas vezes isso" retoma a expressão "duas décadas". É um recurso coesivo por retomada (ou anáfora), que evita a repetição de termos. No entanto, ele ocorre em um ponto específico do texto e não organiza a estrutura progressiva e acumulativa que gera a generalização sobre todas as relações.
- D) contraposição de ideias marcada pela conjunção "mas": A conjunção "mas" ("...mas em algum momento necessariamente seria o fim") introduz uma oposição entre a possibilidade de duração variável dos encontros e a certeza do seu fim. Esse contraste é fundamental para o conteúdo semântico da tese do texto (tudo acaba), mas não é o recurso que estrutura a progressão textual da longa enumeração que exemplifica e generaliza essa tese.
- E) substantivação de expressões pela anteposição do artigo: A substantivação ocorre quando uma palavra ou expressão de outra classe gramatical passa a funcionar como substantivo, muitas vezes marcada pelo artigo. No texto, temos "o Nunca Mais" e "os não amores". É um recurso estilístico que cria abstrações e dá peso conceitual a essas ideias. Contudo, ele não é o recurso estruturante da progressão. A enumeração que progride e generaliza é feita a partir da repetição de "De todos/as/os...", e não pela substantivação em si.
Identificação Pedagógica
- Tema: Estratégias de Construção Textual e Coesão
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar efeitos de sentido decorrentes de usos expressivos da linguagem, da escolha de determinadas palavras ou expressões e da ordenação, combinação e contraposição de ideias, em textos pertencentes a diferentes gêneros.
Dica do Especialista
Fique atento a perguntas que associam um recurso linguístico formal a um efeito de sentido específico no texto. No ENEM, não basta identificar a figura de linguagem ou o elemento gramatical; é preciso explicar como ele funciona naquele contexto para produzir determinado significado. Neste caso, a repetição não é um mero vício de estilo; é uma estratégia consciente de construção de sentido, criando ênfase, ritmo e, principalmente, a ideia de totalidade e universalidade ("todos"). Ao se deparar com enumerações ou listas em um texto, pergunte-se: qual é o efeito dessa acumulação? Ela serve para exemplificar, generalizar, intensificar uma ideia? Essa análise será crucial para encontrar a alternativa correta.
Questão 26 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Roberta Estrela D'Alva (fragmento)
A garganta é a gruta que guarda o som A garganta está entre a mente e o coração Vem coisa de cima, vem coisa de baixo e de repente um nó (e o que eu quero dizer?) Às vezes, acontece um negócio esquisito Quando eu quero falar eu grito, quando eu quero gritar eu falo, o resultado Calo.
A função emotiva presente no poema cumpre o propósito do eu lírico de
ALTERNATIVAS: A) revelar as desilusões amorosas. B) refletir sobre a censura à sua voz. C) expressar a dificuldade de comunicação. D) ressaltar a existência de pressões externas. E) manifestar as dores do processo de criação.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema apresenta um eu lírico que reflete sobre o ato de se expressar. A "garganta", órgão da fala, é metaforizada como uma "gruta que guarda o som", situada entre a "mente" (razão, pensamento) e o "coração" (emoção, sentimento). O texto descreve um conflito interno: a dificuldade em articular o que se deseja ("e o que eu quero dizer?"), a inversão entre a intenção e o ato ("quando eu quero falar eu grito, quando eu quero gritar eu falo"), culminando no silêncio forçado ("o resultado / Calo."). A função emotiva da linguagem (centrada no emissor, expressando seus sentimentos e estados de alma) é o foco da questão. O comando pede para identificar qual é o propósito dessa expressão emotiva do eu lírico.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C) expressar a dificuldade de comunicação.
O propósito central da expressão emotiva no poema é justamente dar voz à frustração e ao impasse de não conseguir se comunicar de forma eficaz. O eu lírico expõe seu sentimento de bloqueio ("um nó"), de confusão entre intenção e ação, e a consequência final que é o silêncio ("Calo"). Toda a carga emocional do texto está voltada para essa experiência subjetiva da dificuldade comunicativa.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) revelar as desilusões amorosas. Distrator por extrapolação/forçação de contexto. Embora poemas frequentemente tratem de amor, não há nenhum elemento no texto que aponte especificamente para uma "desilusão amorosa". A dificuldade expressa é com a comunicação em si, não com um relacionamento romântico.
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B) refletir sobre a censura à sua voz. Distrator por reducionismo/anacronismo. A interpretação de "censura" geralmente remete a um agente externo repressor (Estado, sociedade). O poema fala de um bloqueio interno ("vem coisa de cima, vem coisa de baixo" pode ser lido como pensamentos e emoções conflitantes dentro do sujeito). O "calo" é uma autossilenciamento, não uma imposição externa explícita.
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D) ressaltar a existência de pressões externas. Distrator por desvio de foco. As "coisas de cima e de baixo" podem, em uma leitura mais ampla, sugerir influências externas. No entanto, o núcleo do poema e da pergunta é a função emotiva, ou seja, como o eu lírico sente e exprime essa situação. O propósito não é "ressaltar" as pressões em si, mas expressar a dificuldade e a angústia que elas (ou os conflitos internos) causam no ato de comunicação.
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E) manifestar as dores do processo de criação. Distrator por generalização. Embora o ato de escrever/poetizar seja um processo criativo, o poema não tematiza especificamente a "criação artística". Ele fala da dificuldade básica de comunicação, de colocar o pensamento e o sentimento em palavras (fala/grito). Aplicá-lo apenas ao "processo de criação" é restringir demais seu sentido, que é mais universal (a dificuldade de qualquer pessoa se expressar).
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Poético / Funções da Linguagem / Expressão e Subjetividade.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, em diversas situações de interação, considerando a finalidade, o interlocutor, o lugar social de produção e as variedades linguísticas, sempre no plural, como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos linguísticos e multissemióticos, como os recursos gráfico-visuais, sonoros, gestuais, cênicos e cinéticos, considerando o contexto de produção, a circulação e a recepção.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre funções da linguagem exigem que você identifique o foco principal do texto. Para a função emotiva, pergunte-se: "O que o emissor está tentando expressar sobre seus próprios sentimentos?" Não confunda o tema geral com o propósito da expressão emocional. Leia o texto buscando os verbos e adjetivos que denotam estado de espírito (ex.: "esquisito", a sensação de "nó", a frustração da inversão "falar/gritar", a resignação do "calo"). Isso o levará diretamente ao cerne da questão.
Questão 27 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Ponciá Vicêncio Conceição Evaristo
Alguém muito recentemente cortara o mato, que na época das chuvas crescia e rodeava a casa da mãe de Ponciá Vicêncio e de Luandi. Havia também vestígios de que a terra fora revolvida, como se ali fosse plantar uma pequena roça. Luandi sorriu. A mãe devia estar bastante forte, pois ainda labutava a terra. Cantou alto uma cantiga que aprendera com o pai, quando eles trabalhavam na terra dos brancos. Era uma canção que os negros mais velhos ensinavam aos mais novos. Eles diziam ser uma cantiga de voltar, que os homens, lá na África, entoavam sempre, quando estavam regressando da pesca, da caça ou de algum lugar. O pai de Luandi, no dia em que queria agradar à mulher, costumava entoar aquela cantiga ao se aproximar de casa. Luandi não entendia as palavras do canto; sabia, porém, que era uma língua que alguns negros falavam ainda, principalmente os velhos. Era uma cantiga alegre. Luandi, além de cantar, acompanhava o ritmo batendo com as palmas das mãos em um atabaque imaginário. Estava de regresso à terra. Voltava em casa. Chegava cantando, dançando a doce e vitoriosa cantiga de regressar.
A leitura do texto permite reconhecer a "cantiga de voltar" como patrimônio linguístico que
ALTERNATIVAS: A) representa a memória de uma língua africana extinta. B) exalta a rotina executada por jovens afrodescendentes. C) preserva a ancestralidade africana por meio da tradição oral. D) resgata a musicalidade africana por meio de palavras inteligíveis. E) remonta à tristeza dos negros mais velhos com saudade da África.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Conceição Evaristo apresenta Luandi, um personagem afrodescendente, cantando uma "cantiga de voltar" aprendida com seu pai. A canção é descrita como um legado dos "negros mais velhos" para os "mais novos", originária da África e usada em contextos de retorno para casa. Um detalhe crucial é que Luandi não entende as palavras, mas sabe que é uma língua ainda falada por alguns, principalmente os idosos. O comando da questão pede que reconheçamos essa cantiga como um patrimônio linguístico, ou seja, um bem cultural transmitido através da linguagem. A análise deve focar em como esse patrimônio se mantém e qual sua função no texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C.
A cantiga funciona como um elo de preservação da ancestralidade. Ela é transmitida oralmente ("os negros mais velhos ensinavam aos mais novos"), carregando consigo a memória de uma prática cultural africana (o canto de regresso). Mesmo sem compreender o significado literal das palavras, Luandi perpetua o ritmo, a melodia e a função social da canção, mantendo viva a conexão com suas raízes. O texto deixa claro que é um patrimônio que sobrevive e se transmite, não algo extinto ou incompreensível em sua essência.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) representa a memória de uma língua africana extinta. Erro: Extrapolação/Contradição. O texto afirma explicitamente que "era uma língua que alguns negros falavam ainda, principalmente os velhos". Portanto, não se trata de uma língua extinta, mas sim de uma língua em uso, ainda que restrita a um grupo específico. O distrator tenta induzir ao erro ao focar apenas no aspecto de "memória", ignorando a vitalidade presente mencionada no fragmento.
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B) exalta a rotina executada por jovens afrodescendentes. Erro: Reducionismo/Desvio de Foco. A alternativa inverte o sentido da transmissão cultural. A cantiga não "exalta a rotina dos jovens"; pelo contrário, é um legado dos mais velhos para os mais novos. O foco do patrimônio está na ancestralidade e na tradição que é repassada, não na celebração da rotina contemporânea dos jovens.
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D) resgata a musicalidade africana por meio de palavras inteligíveis. Erro: Contradição com o Texto. Esta é a alternativa que mais diretamente contradiz uma informação-chave. O narrador diz: "Luandi não entendia as palavras do canto". Portanto, as palavras não são inteligíveis para ele. O "resgate" e a preservação se dão pelo ritmo, pela melodia e pelo ato de cantar, não pela compreensão semântica das palavras. O distrator pega um elemento verdadeiro ("musicalidade africana") e o associa a uma condição falsa ("palavras inteligíveis").
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E) remonta à tristeza dos negros mais velhos com saudade da África. Erro: Interpretação Contrária ao Tom. O texto descreve a cantiga como "alegre", "doce e vitoriosa". Não há qualquer indício de tristeza ou saudosismo doloroso associado ao canto. Pelo contrário, é um elemento de alegria e celebração do regresso. O distrator apela para um estereótipo emocional (a saudade triste) que não encontra respaldo na narrativa.
Identificação Pedagógica
- Tema: Patrimônio Cultural e Identidade Afro-Brasileira / Tradição Oral.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, interpretando-os e posicionando-se criticamente frente a eles, reconhecendo a linguagem como forma de construção de sentidos e exercício de cidadania.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, com ética e respeito à diversidade.
Dica do Especialista
Fique atento aos detalhes literais do texto. Questões como esta frequentemente apresentam alternativas que contêm elementos parcialmente verdadeiros (ex.: "memória", "musicalidade africana"), mas que, em sua formulação completa, incorrem em um erro específico que contradiz uma informação explícita. Sempre confronte cada alternativa com o que está escrito, palavra por palavra. No ENEM, a resposta correta é sempre aquela que pode ser integral e diretamente comprovada pela leitura atenta do fragmento.
Questão 28 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Zapeei os canais, como há dezenas de anos faço, e pá: parei num que exibia um episódio daquela velha família do futuro, Os Jetsons. Nesse episódio em particular, a Jane Jetson, esposa do George, tratava de dirigir aquele veículo voador deles. Meu queixo foi caindo à medida que as piadinhas machistas sobre mulheres dirigirem foram se acumulando. Impressionante! Que futuro careta aqueles roteiristas imaginavam! Seriam incapazes de projetar algo melhor, e não apenas em termos de tecnologias, robôs e carros voadores? Será que nossa máxima visão de futuro só atinge as coisas, e jamais as pessoas? Como a Jane, uma mulher de 33 anos no desenho, poderia ser o que foram as minhas bisavós? O futuro, naquele desenho, se esqueceu de ser melhor nas relações entre as pessoas. Aliás... tão parecido com a vida. Fiquei de cara, como dizemos aqui, ou como dizíamos na minha adolescência, pobre adolescência, aprendendo, sem querer e sem muita defesa, um futuro tão besta quanto o passado.
TEXTO 2 Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um do outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo. Até pelo menos a segunda metade do século 19, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de quê? De visibilidade, diria Hannah Arendt. De visibilidade pública. Do que as mulheres estiveram privadas até o século 20 foi de presença pública manifesta não em imagem, mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social.
A representação da mulher apresentada no Texto 1 pode ser explicada pelo Texto 2 no que diz respeito a(à)
ALTERNATIVAS: A) censura a formas de expressão femininas. B) ausência da figura feminina na vida pública. C) construções imaginárias cristalizadas na sociedade. D) limitações inerentes às figuras femininas e masculinas. E) dificuldade na atribuição de papéis masculinos e femininos.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão exige uma intertextualidade entre dois textos que discutem a representação social da mulher. O Texto 1 é um relato pessoal que critica a visão de futuro retrógrada do desenho Os Jetsons, que, apesar da tecnologia avançada, perpetua estereótipos machistas (piadas sobre mulheres ao volante). O autor se espanta que a projeção futurista não tenha evoluído nas relações humanas, mantendo a mulher em um papel similar ao de suas bisavós.
O Texto 2 oferece uma base teórica para entender essa representação. Ele define masculino e feminino como "formações imaginárias" construídas socialmente por oposição. Historicamente, essa construção relegou a mulher ao espaço privado, privando-a de visibilidade e palavra pública.
O comando pede que o candidato identifique no Texto 2 a explicação para a representação da mulher vista no Texto 1. Portanto, é preciso encontrar no Texto 2 o conceito-chave que justifica por que uma série futurista dos anos 60 ainda reproduzia papéis de gênero ultrapassados.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C.
O Texto 2 afirma que as categorias "masculino" e "feminino" são "formações imaginárias". Isso significa que são construções sociais, não verdades naturais ou biológicas. O Texto 1 mostra exatamente uma dessas formações imaginárias cristalizada (ou seja, fixa, imutável) na sociedade e projetada até para o futuro: a ideia de que mulheres são motoristas incompetentes, objeto de piadas. A visão "careta" dos roteiristas, criticada no Texto 1, é a perpetuação inconsciente dessas construções, que o Texto 2 ajuda a teorizar.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) censura a formas de expressão femininas. Distrator: Reducionismo e extrapolação. O Texto 2 fala que a palavra feminina estava reservada ao espaço doméstico e não produzia diferença na vida social, o que indica uma exclusão ou invisibilização, não necessariamente uma censura ativa e deliberada. O Texto 1 mostra piadas (uma forma de expressão) sendo feitas sobre a mulher, não a mulher sendo censurada por se expressar.
-
B) ausência da figura feminina na vida pública. Distrator: Anacronismo e contradição parcial. O Texto 2 descreve um contexto histórico ("até pelo menos a segunda metade do século 19") em que essa ausência era a regra. No entanto, o Texto 1 se passa em uma projeção de futuro (e por reflexo, na sociedade do século XX/XXI), onde a mulher (Jane Jetson) está visivelmente na vida pública (dirigindo um carro voador). O problema não é sua ausência, mas como ela é representada nesse espaço, ou seja, a qualidade da representação, que é estereotipada.
-
D) limitações inerentes às figuras femininas e masculinas. Distrator: Contradição direta ao Texto 2. Esta alternativa afirma que as limitações são inerentes (naturais, intrínsecas). O Texto 2 nega isso veementemente ao dizer que as diferenças são mínimas e que os papéis são "formações imaginárias" e "questão de estilo", ou seja, construções sociais, não limitações naturais.
-
E) dificuldade na atribuição de papéis masculinos e femininos. Distrator: Inversão de foco. O Texto 2 não fala sobre uma dificuldade em atribuir papéis. Pelo contrário, ele descreve como essa atribuição foi historicamente muito clara e definida ("o divisor de águas era claro"). O problema, explicado pelo texto, é que essa atribuição rígida é uma construção imaginária que privou as mulheres do espaço público. O Texto 1 mostra que essa atribuição de papel (mulher como má motorista) foi feita com facilidade, mas de forma preconceituosa.
Identificação Pedagógica
- Tema: Estudos de Gênero, Construção Social dos Papéis, Crítica à Representação Midíática.
- Competência BNCC: Competência 6 (Área de Linguagens) - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, posicionando-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Questões de intertextualidade como esta são comuns no ENEM. A chave é encontrar o conceito teórico no texto de apoio (Texto 2) que ilumina a situação concreta ou crítica apresentada no primeiro texto (Texto 1). Não tente forçar uma relação literal; busque a relação conceitual. Aqui, "formações imaginárias" (conceito) explica "futuro careta" e "piadinhas machistas" (situação). Fique atento a palavras que negam a construção social, como "inerente" ou "natural", pois costumam indicar alternativas incorretas em questões sobre gênero e sociedade.
Questão 29 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Descrição da peça publicitária: À esquerda da imagem, há três mulheres: uma asiática, uma negra e uma branca. Elas estão de máscaras que cobrem nariz e boca e olham para frente com expressão de confiança. Acima delas, está escrito: "Hashtag Juntas Somos Mais Fortes - Disque 180." À direita da imagem, há o texto: "A Defensoria não para! Eu uso máscara mas não me calo! Em tempos de isolamento social por conta da pandemia de covid-19, a Defensoria Pública alerta para o aumento da violência contra a mulher! Não se cale! Denuncie!".
Questão: Esse anúncio publicitário, veiculado durante o contexto da pandemia de covid-19, tem por finalidade
Alternativas: A) divulgar o canal telefônico de atendimento a casos de violência contra a mulher. B) informar sobre a atuação de uma entidade defensora da mulher vítima de violência. C) evidenciar o trabalho da Defensoria Pública em relação ao problema do abuso contra a mulher. D) alertar a sociedade sobre o aumento da violência contra a mulher em decorrência do coronavírus. E) incentivar o público feminino a denunciar crimes de violência contra a mulher durante o período de isolamento.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão apresenta uma peça publicitária da Defensoria Pública, criada no contexto específico da pandemia de covid-19 e do isolamento social. Para identificar sua finalidade principal, é preciso analisar o conjunto de elementos visuais e textuais, focando na mensagem central e no chamado à ação que a campanha pretende promover. O texto principal diz: "alertar para o aumento da violência contra a mulher! Não se cale! Denuncie!". A hashtag "Juntas Somos Mais Fortes" e a diversidade das mulheres retratadas reforçam um apelo ao empoderamento coletivo. O número 180 (Disque Denúncia) é um meio, não o fim da mensagem. A Defensoria Pública é a emissora da mensagem, mas o anúncio não tem como objetivo principal falar sobre a instituição em si. O comando da questão pede a finalidade do anúncio, ou seja, seu propósito mais amplo e impactante no contexto social apresentado.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E) incentivar o público feminino a denunciar crimes de violência contra a mulher durante o período de isolamento.
Esta alternativa sintetiza de forma completa a finalidade da campanha. Ela captura: 1. O público-alvo: "o público feminino". 2. O chamado à ação principal: "denunciar crimes de violência". 3. O contexto específico e urgente: "durante o período de isolamento" (decorrente da pandemia). A mensagem "Não se cale! Denuncie!" é o núcleo do anúncio. Tudo o mais (o alerta sobre o aumento, a informação sobre a Defensoria, o número 180) serve a esse propósito final de incentivar a denúncia.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) divulgar o canal telefônico de atendimento a casos de violência contra a mulher.
- Justificativa de erro (Reducionismo): Embora o número 180 (Disque 180) apareça na peça, ele é apresentado como um instrumento para se alcançar um fim maior: a denúncia. A finalidade do anúncio não é simplesmente informar um número, mas usar esse número como parte de uma campanha de mobilização. Focar apenas na divulgação do canal é reduzir o escopo da mensagem.
-
B) informar sobre a atuação de uma entidade defensora da mulher vítima de violência.
- Justificativa de erro (Foco Incorreto): A Defensoria Pública é claramente a autora da mensagem ("A Defensoria não para!"), mas o anúncio não se dedica a explicar ou detalhar como essa entidade atua. A instituição se coloca como a voz que emite o alerta e o incentivo, não como o tema central da comunicação. O foco está na situação das mulheres, não na instituição.
-
C) evidenciar o trabalho da Defensoria Pública em relação ao problema do abuso contra a mulher.
- Justificativa de erro (Extrapolação/Ênfase Errada): Similar à alternativa B, esta opção coloca o trabalho da Defensoria no centro da finalidade. O texto diz "A Defensoria não para!" e "a Defensoria Pública alerta...", o que mostra sua presença ativa, mas não "evidencia" seu trabalho. A ênfase da mensagem está no alerta e no incentivo à denúncia, ações que a Defensoria promove, mas que não são sinônimo de "evidenciar seu trabalho".
-
D) alertar a sociedade sobre o aumento da violência contra a mulher em decorrência do coronavírus.
- Justificativa de erro (Incompletude): Esta alternativa identifica corretamente uma parte crucial da mensagem: o alerta sobre o aumento da violência no contexto pandêmico. No entanto, ela para no diagnóstico do problema. A peça publicitária vai além: após o alerta, há um chamado à ação explícito ("Não se cale! Denuncie!"). Portanto, "alertar" é um meio para alcançar a finalidade de "incentivar a denúncia". A alternativa D captura o contexto e parte da mensagem, mas não a finalidade completa e mais impactante da campanha.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero, Violência contra a Mulher, Saúde Pública e Comunicação Social.
- Competência BNCC: Competência 6 (Área de Linguagens) - Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, comparar e posicionar-se criticamente em relação a textos e discursos de diferentes gêneros, considerando a forma, o conteúdo, a intenção, o contexto de produção e de recepção, as variedades linguísticas e os preconceitos embutidos na linguagem.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que envolvem análise de textos visuais ou campanhas publicitárias frequentemente testam sua capacidade de identificar a finalidade discursiva ou a tese central. Não se prenda apenas a um elemento isolado da imagem ou do texto (como um número de telefone ou o nome de uma instituição). Leia a peça como um todo e pergunte-se: "Qual é o principal efeito que essa mensagem quer causar no público?" ou "Qual ação ela pretende desencadear?". Normalmente, a alternativa correta será aquela que abrange o propósito mais amplo e transformador da mensagem, e não apenas uma informação pontual contida nela.
Questão 30 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
"São tantas formas de matar um preto Que para alguns sua morte é justificada Devia tá fazendo coisa errada Se não era bandido, um dia ia ser Por ser PRETO sua morte é defendida O PRETO sempre merece morrer".
A estrofe acima é do poeta e educador social Baticum Proletário, que atua na periferia de Fortaleza, no Ceará, preparando jovens - em quase sua totalidade negros - para enfrentar as dificuldades impostas pelo racismo estrutural no país. É a partir da arte que Baticum consegue envolver a juventude em um projeto de fortalecimento dessa população ao promover batalhas de rimas, slams e saraus com temáticas que discutem os problemas sociais. Não por acaso, o tema mais explorado nas rimas, versos e prosas é a violência. De acordo com o mais recente Atlas da violência, em 2019, os negros representaram 77 por cento das vítimas de homicídios, quase 30 assassinatos por 100 mil habitantes, a maioria deles jovens. O Atlas revela ainda que um negro tem quase 2,7 vezes mais chance de ser morto do que um branco, o que justifica o movimento de resistência crescente no Brasil.
O uso de citação e de dados estatísticos nesse texto tem o objetivo de
ALTERNATIVAS: A) ressaltar a importância da poesia para denunciar a morte de negros, que cresce a cada dia. B) destacar o crescimento exponencial da temática do preconceito na produção literária no Brasil. C) demonstrar o incremento no quantitativo de expressões artísticas na discussão de problemas sociais. D) evidenciar argumentos que reforçam a ideia de que os negros são vítimas em potencial da violência. E) salientar o aumento da participação de jovens nos movimentos de resistência na área da cultura.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma dupla estratégia argumentativa. Primeiro, utiliza a citação poética de Baticum Proletário, que expressa, de forma visceral e subjetiva, a naturalização e a justificativa social da violência letal contra pessoas negras. Em seguida, recorre a dados estatísticos objetivos do Atlas da Violência (77% das vítimas, taxa de 30/100 mil, risco 2,7 vezes maior) para quantificar e corroborar essa realidade. O comando da questão pergunta pelo objetivo do uso combinado desses dois recursos (citação e dados). A resposta deve identificar a função argumentativa central que ambos cumprem no texto, que é a de fundamentar e comprovar uma tese.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. O texto articula o discurso artístico (a poesia) com a informação factual (os dados) para construir uma argumentação sólida. A poesia traz a dimensão humana, discursiva e da percepção social ("sua morte é justificada"), enquanto os números trazem a comprovação material e quantificável dessa realidade. Juntos, eles servem para evidenciar argumentos que reforçam a ideia apresentada tanto no verso quanto na análise: a de que a população negra está em situação de vulnerabilidade e é vítima preferencial da violência homicida no Brasil.
Análise das Alternativas Incorretas
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A) ressaltar a importância da poesia para denunciar a morte de negros, que cresce a cada dia. Distrator: Reducionismo e extrapolação. Embora o texto fale sobre a poesia como ferramenta, o objetivo da citação específica e dos dados não é "ressaltar a importância da poesia" em si. O foco não é o valor do gênero literário, mas sim usar a poesia como um argumento a mais para comprovar a tese central sobre a violência. Além disso, os dados mostram uma realidade, mas não comprovam textualmente que as mortes "crescem a cada dia".
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B) destacar o crescimento exponencial da temática do preconceito na produção literária no Brasil. Distrator: Extrapolação. O texto fala do trabalho de um poeta/educador e de como ele usa a arte. Não há qualquer informação ou dado que permita generalizar para toda a "produção literária no Brasil" ou afirmar que há um "crescimento exponencial" dessa temática. O escopo do texto é muito mais específico.
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C) demonstrar o incremento no quantitativo de expressões artísticas na discussão de problemas sociais. Distrator: Desvio do foco. Similar à alternativa B, essa opção tira o foco do conteúdo da denúncia (a violência contra negros) e o coloca no meio (as expressões artísticas). O texto não apresenta números ou evidências sobre um "incremento no quantitativo" de saraus ou slams. Ele apresenta a arte como contexto e ferramenta para, então, usar sua produção (a citação) como parte do argumento principal.
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E) salientar o aumento da participação de jovens nos movimentos de resistência na área da cultura. Distrator: Inversão lógica. O texto afirma que o movimento de resistência é justificado pelos dados de violência ("o que justifica o movimento..."). Ou seja, os dados e a citação são a causa ou a razão apresentada. A alternativa E transforma o "aumento da participação de jovens" no objetivo da citação e dos dados, o que é uma inversão da relação lógica estabelecida no texto. Além disso, não há dados sobre "aumento" dessa participação.
Identificação Pedagógica
- Tema: Racismo Estrutural e Violência / Funções da Linguagem e Argumentação.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, atendendo a diferentes propósitos comunicativos, de acordo com as condições de produção do texto.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, quando for o caso.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de identificar a finalidade discursiva de elementos dentro de um texto. No ENEM, é comum que trechos com dados estatísticos, citações ou exemplos históricos não estejam lá apenas para ilustrar, mas para sustentar um ponto de vista. Sempre pergunte-se: "Qual a função deste trecho ou dado no argumento geral do autor?" Evite alternativas que focam em detalhes secundários ou que fazem generalizações não comprovadas pelo texto. A resposta correta geralmente sintetiza a relação direta entre o recurso usado e a tese central defendida.
Questão 31 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
[Texto de Eliane Brum fornecido]
Nesse texto, a estratégia usada para convencer o leitor de que uma grande parcela da população não compreende a linguagem daqueles que detêm o poder foi
Alternativas: A) revelar a origem religiosa da linguagem. B) questionar o temor sobre o futuro da linguagem. C) descrever a relação entre sociedade e linguagem. D) apresentar as consequências do esfacelamento da linguagem. E) criticar o obstáculo promovido pelos usos especializados da linguagem.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Eliane Brum discute a linguagem como um elemento estruturante da realidade humana e um instrumento de poder. A autora parte de uma referência bíblica para estabelecer a importância da palavra, mas rapidamente direciona o foco para um uso social concreto da linguagem: sua instrumentalização por grupos específicos para manter privilégios e excluir a maioria. O comando da questão pede que identifiquemos a estratégia argumentativa usada pela autora para convencer o leitor de um ponto específico: o de que "uma grande parcela da população não compreende a linguagem daqueles que detêm o poder". Portanto, devemos localizar no texto como ela constrói essa convicção no leitor.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E.
A estratégia central da autora é justamente criticar o fenômeno pelo qual linguagens técnicas ou especializadas (jurídica, médica, burocrática, científica) funcionam como uma barreira. Ela não apenas descreve, mas faz uma crítica social ao apontar que esse é um mecanismo proposital ("propositalmente ser impedida") que submete a população a uma violência e mantém desigualdades. A pergunta retórica "Quem entende linguagem de advogados...?" é o núcleo dessa estratégia crítica e persuasiva.
Análise das Alternativas Incorretas
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A revelar a origem religiosa da linguagem. (Distrator de desvio temático) A menção à Bíblia no início do texto serve como um ponto de partida universal para falar da importância da palavra, não como a estratégia principal para convencer sobre a exclusão linguística promovida pelo poder. A autora usa a referência religiosa para depois contrastar com a realidade social, mas a estratégia de convencimento sobre o ponto específico da questão está em outro lugar.
-
B questionar o temor sobre o futuro da linguagem. (Distrator de extrapolação) O texto levanta uma questão sobre o "fim" e o "silenciamento" no último parágrafo, mas isso é uma consequência ou uma projeção do problema que está sendo criticado. A estratégia para convencer o leitor sobre a incompreensão atual da linguagem do poder não é questionar o futuro, mas sim criticar a realidade presente.
-
C descrever a relação entre sociedade e linguagem. (Distrator de reducionismo) Embora o texto faça isso em linhas gerais (ex.: "Como humanos, a linguagem é o mundo que habitamos"), essa é uma constatação ampla e filosófica. A questão pede a estratégia para um ponto específico (a incompreensão da linguagem dos poderosos). A simples descrição da relação sociedade-linguagem é muito genérica e não capta o caráter crítico e direcionado do argumento principal.
-
D apresentar as consequências do esfacelamento da linguagem. (Distrator de foco no efeito, não na causa) Assim como a alternativa B, esta foca nas consequências ("o fim", "o silenciamento", "gritos sem compreensão") apresentadas no último parágrafo. No entanto, a pergunta é sobre a estratégia para convencer da incompreensão atual. A autora primeiro convence o leitor dessa incompreensão (criticando os usos especializados) e, então, apresenta as possíveis consequências catastróficas.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Usos Sociais da Língua / Linguagem e Poder.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes linguagens e suas manifestações específicas em determinados grupos ou subgrupos sociais.
Dica do Especialista
Fique atento aos verbos que definem a estratégia argumentativa ("revelar", "questionar", "descrever", "apresentar", "criticar"). Eles indicam ações diferentes do autor. Muitas questões do ENEM sobre interpretação pedem que você identifique como o autor constrói seu ponto de vista, não apenas o que ele diz. Sempre relacione a alternativa escolhida diretamente ao trecho do texto que sustenta o argumento principal solicitado no comando.
Questão 32 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará desenvolveu um dicionário para traduzir sintomas de doenças da linguagem popular para os termos médicos. Defruço, chanha e piloura, por exemplo, podem ser termos conhecidos para muitos, mas, durante uma consulta médica, o desconhecimento pode significar um diagnóstico errado. "Isso é um registro histórico e pode ser muito útil para estudos dessas comunidades, na abordagem médica delas. É de certa forma pioneiro no Brasil e, sem dúvida, um instrumento de trabalho importante, porque a comunicação é fundamental na relação médico-paciente", avalia o reitor da instituição.
Ao registrarem usos regionais de termos da área médica, pesquisadores
ALTERNATIVAS: A) apontaram erros motivados pelo desconhecimento da variedade linguística local. B) explicaram problemas provocados pela incapacidade de comunicação. C) descobriram novos sintomas de doenças existentes na comunidade. D) propiciaram melhor compreensão dos sintomas dos pacientes. E) divulgaram um novo rol de doenças características da localidade.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma iniciativa acadêmica: a criação de um dicionário que faz a ponte entre a linguagem popular/regional (ex: "defruço", "chanha", "piloura") e a terminologia médica técnica. O problema central identificado é que a falta de compreensão desses termos regionais pelo profissional de saúde pode levar a diagnósticos incorretos. A ação dos pesquisadores, portanto, foi documentar e traduzir esse vocabulário. A questão pergunta qual foi o principal resultado ou efeito prático desse trabalho de registro.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) propiciaram melhor compreensão dos sintomas dos pacientes.
A finalidade explícita do dicionário, conforme o texto, é ser um "instrumento de trabalho importante, porque a comunicação é fundamental na relação médico-paciente". Ao traduzir os termos regionais para a linguagem médica, o dicionário tem como objetivo direto facilitar a compreensão do que o paciente está relatando, permitindo um diagnóstico mais preciso. O texto não foca em "erros" ou "incapacidades" prévias, mas na solução (o dicionário) que melhora a compreensão.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) apontaram erros motivados pelo desconhecimento da variedade linguística local. Distrator (Extrapolação/Foco Incorreto): O texto menciona que o desconhecimento dos termos pode levar a um diagnóstico errado, mas a ação dos pesquisadores não foi "apontar erros". Eles desenvolveram uma ferramenta (dicionário) para solucionar um problema de comunicação. O foco da questão está no resultado positivo da ação dos pesquisadores, não na mera identificação de um problema.
-
B) explicaram problemas provocados pela incapacidade de comunicação. Distrator (Reducionismo/Contradição): Esta alternativa é reducionista e até contradiz o espírito do texto. O texto não atribui uma "incapacidade de comunicação" a ninguém; ele mostra uma barreira linguística específica (vocabulário regional x técnico). Além disso, o trabalho dos pesquisadores vai além de "explicar problemas"; ele oferece uma solução prática para superá-los.
-
C) descobriram novos sintomas de doenças existentes na comunidade. Distrator (Extrapolação): Esta alternativa confunde a natureza do trabalho. Os pesquisadores registraram novos nomes (termos) para sintomas já conhecidos pela medicina, não descobriram novos sintomas em si. "Defruço" é um nome regional para uma condição, não uma nova manifestação clínica desconhecida da ciência médica.
-
E) divulgaram um novo rol de doenças características da localidade. Distrator (Extrapolação/Erro de Conceito): O dicionário trata da linguagem usada para descrever sintomas e doenças, não da divulgação de novas doenças. Não há indicação no texto de que as doenças em si sejam "características da localidade" (endêmicas). O que é regional é o vocabulário, não necessariamente as patologias.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Práticas de Leitura / Linguagem e Saúde.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, reconhecendo nesses discursos a presença de estratégias de persuasão e/ou manipulação, e posicionar-se criticamente em relação a eles.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que envolvem textos sobre língua e sociedade frequentemente testam sua capacidade de identificar a proposta central de um projeto ou pesquisa e diferenciá-la de conclusões parciais ou distorcidas. Fique atento aos verbos que definem a ação principal (no caso, "desenvolveram um dicionário para traduzir"). A alternativa correta geralmente é aquela que reflete de forma mais direta e precisa o objetivo ou o benefício imediato dessa ação, conforme apresentado no texto. Evite escolher alternativas que ampliem indevidamente o escopo da pesquisa ("descobriram", "divulgaram novas doenças") ou que se fixem apenas no problema, ignorando a solução apresentada.
Questão 33 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Mandioca, macaxeira, aipim e castelinha são nomes diferentes da mesma planta. Semáforo, sinaleiro e farol também significam a mesma coisa. O que muda é só o hábito cultural de cada região. A mesma coisa acontece com a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Embora ela seja a comunicação oficial da comunidade surda no Brasil, existem sinais que variam em relação à região, à idade e até ao gênero de quem se comunica. A cor verde, por exemplo, possui sinais diferentes no Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. São os regionalismos na língua de sinais. Essas variações são um dos temas da disciplina Linguística na língua de sinais, oferecida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) ao longo do segundo semestre. "Muitas pessoas pensam que a língua de sinais é universal, o que não é verdade", explica a professora e chefe do Departamento de Linguística, Literatura e Letras Clássicas da Unesp. "Mesmo dentro de um mesmo país, ela sofre variação em relação à localização geográfica, à faixa etária e até ao gênero dos usuários", completa a especialista. Os surdos podem criar sinais diferentes para identificar lugares, objetos e conceitos. Em São Paulo, o sinal de "cerveja" é feito com um giro do punho como uma meia-volta. Em Minas, a bebida é citada quando os dedos indicador e médio batem no lado do rosto. Também ocorrem mudanças históricas. Um sinal pode sofrer alterações decorrentes dos costumes da geração que o utiliza.
Nesse texto, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) ALTERNATIVAS: A) passa por fenômenos de variação linguística como qualquer outra língua. B) apresenta variações regionais, assumindo novo sentido para algumas palavras. C) sofre mudança estrutural motivada pelo uso de sinais diferentes para algumas palavras. D) diferencia-se em todo o Brasil, desenvolvendo cada região a sua própria língua de sinais. E) é ininteligível para parte dos usuários em razão das mudanças de sinais motivadas geograficamente.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto aborda um tema central da sociolinguística: a variação linguística. Ele desmistifica a ideia de que a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é uma língua uniforme e universal, apresentando-a como um sistema vivo e dinâmico. A questão pede que o candidato identifique a afirmação que resume corretamente a ideia principal do texto sobre a Libras. O texto compara explicitamente a variação na Libras com a variação nas línguas orais (exemplos da mandioca e do semáforo) e lista fatores de variação: região, idade, gênero e mudanças históricas. Portanto, a resposta correta deve capturar essa noção de que a Libras, assim como as línguas orais, está sujeita a variações.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A. O texto estabelece, desde o início, um paralelo direto entre a variação nas línguas orais ("a mesma coisa acontece com a Língua Brasileira de Sinais") e conclui com a fala da especialista, que reforça que a Libras sofre variações internas. A alternativa A sintetiza perfeitamente essa ideia central: a Libras "passa por fenômenos de variação linguística como qualquer outra língua".
Análise das Alternativas Incorretas
- B) apresenta variações regionais, assumindo novo sentido para algumas palavras.: Erro de Redução/Extrapolação. O texto menciona variações regionais, mas não afirma que os sinais diferentes atribuem um novo sentido às palavras. O sentido (o conceito de "cerveja" ou "verde") permanece o mesmo; o que muda é a forma (o sinal) de expressá-lo. A alternativa confunde variação de forma com mudança de significado.
- C) sofre mudança estrutural motivada pelo uso de sinais diferentes para algumas palavras.: Erro de Extrapolação. O texto não discute mudanças na estrutura da língua (como sua gramática ou sintaxe). Ele fala de variação lexical (sinais diferentes para o mesmo conceito) e diacrônica (mudanças ao longo do tempo), que são fenômenos que ocorrem dentro de um sistema estrutural que permanece coeso. A alternativa atribui uma consequência (mudança estrutural) que não é mencionada ou inferível do texto.
- D) diferencia-se em todo o Brasil, desenvolvendo cada região a sua própria língua de sinais.: Erro de Reducionismo/Contradição ao Texto. Esta é uma distorção grave da informação. O texto afirma que a Libras é a "comunicação oficial da comunidade surda no Brasil" e que sofre variações, não que se fragmenta em línguas diferentes. A expressão "sua própria língua" contradiz a ideia de uma língua nacional com dialetos ou variantes, que é o ponto do texto.
- E) é ininteligível para parte dos usuários em razão das mudanças de sinais motivadas geograficamente.: Erro de Extrapolação. O texto em nenhum momento sugere que as variações regionais tornam a comunicação ininteligível. Pelo contrário, ao tratar a variação como um fenômeno natural e compará-lo ao das línguas orais, o texto pressupõe que os falantes (no caso, os sinalizantes) lidam com essas diferenças, assim como um gaúcho e um cearense entendem que "chimarrão" e "mate" podem se referir à mesma bebida. A alternativa introduz uma consequência negativa e problemática que não está no texto.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Diversidade Sociocultural. Reconhecimento da Libras como língua viva e sujeita a variações, promovendo a valorização da identidade surda e da diversidade linguística brasileira.
- Competência BNCC: Competência 9 - Reconhecer a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil, reconhecendo suas características linguísticas como próprias de uma língua natural.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG904 - Analisar e reconhecer os processos de variação e mudança linguística, em diferentes situações de comunicação, reconhecendo a diversidade do português brasileiro e combatendo preconceitos linguísticos. (A habilidade aplica-se analogamente à Libras, seguindo o mesmo princípio linguístico).
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre variação linguística frequentemente buscam que você identifique a língua como um fenômeno social, dinâmico e heterogêneo. Fique atento a textos que quebram estereótipos (como "a língua de sinais é universal") e apresentam exemplos concretos de variação. A alternativa correta geralmente será aquela que generaliza o exemplo do texto para um princípio linguístico amplo, sem exagerar ou distorcer as informações fornecidas. Desconfie de alternativas que usam termos absolutos como "sempre", "nunca", "totalmente" ou, como nesta questão, "ininteligível" e "sua própria língua".
Questão 34 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Como é bom reencontrar os leitores da Revista da Cultura por meio de uma publicação com outro visual, conteúdo de qualidade e interesses ampliados! ]cultura[, este nome simples, e eu diria mesmo familiar, nasce entre dois colchetes voltados para fora. E não é por acaso: são sinais abertos, receptivos, propícios à circulação de ideias. O DNA da publicação se mantém o mesmo, afinal, por longos anos montamos nossas edições com assuntos saídos das estantes de uma grande livraria - e assim continuará sendo. Literatura, sociologia, filosofia, artes... nunca será difícil montar a pauta da revista porque os livros nos ensinam que monotonia é só para quem não lê.
O uso não padrão dos colchetes para nomear a revista atribui-lhes uma nova função e está correlacionado ao(à)
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda a variação linguística e a função da linguagem, temas centrais na prova de Linguagens do ENEM. O texto apresenta o editorial de uma revista que passa por uma reformulação, adotando um novo nome: "]cultura[". O enunciado destaca que os colchetes, sinais tipográficos normalmente usados para inserções ou citações, estão "voltados para fora" e são descritos como "abertos, receptivos, propícios à circulação de ideias". O comando da questão pede que o candidato correlacione esse uso não padrão (ou seja, fora da norma culta) dos colchetes com um elemento apresentado no texto. A resposta deve ser extraída diretamente da interpretação do editorial, que justifica a escolha gráfica.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D. O texto associa explicitamente os colchetes "voltados para fora" a "sinais abertos, receptivos, propícios à circulação de ideias". Em seguida, reforça que o "DNA da publicação" vem dos livros e que sua pauta é diversa (Literatura, sociologia, filosofia, artes...). Portanto, o uso não convencional do sinal gráfico está diretamente ligado à construção da identidade da revista, que se define por ser um espaço de acolhimento e divulgação ("recepção e promoção") das ideias que circulam nos livros.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [perfil de público-alvo, constituído por leitores exigentes e especializados em leitura acadêmica]: Extrapolação. Embora a revista trate de temas acadêmicos (humanidades), o texto não descreve seu público como "exigente e especializado". Pelo contrário, usa um tom familiar e convida à circulação de ideias, sugerindo acessibilidade, não exclusividade técnica.
- B [propósito do editor, chamando a atenção para o rigor normativo nos textos da revista]: Contradição. O uso é explicitamente "não padrão", ou seja, foge ao rigor normativo. O editor está justamente inovando e dando uma nova função ao sinal, não enfatizando a obediência às regras tradicionais.
- C [exclusividade na seleção temática, direcionada para a área das ciências humanas]: Reducionismo. A revista de fato cita temas das humanidades, mas o texto nega a "exclusividade" e a "monotonia". A frase final ("monotonia é só para quem não lê") e a menção a "interesses ampliados" mostram que a proposta é de diversidade, não de restrição temática.
- E [padrão editorial dos artigos, organizados em torno de uma proposta de design inovador]: Desvio do Foco. A questão é sobre a função atribuída aos colchetes no nome da revista, correlacionada a sua identidade e proposta. O "design inovador" é mencionado ("outro visual"), mas não é o cerne da justificativa para os colchetes. A inovação gráfica serve a um propósito maior de comunicação e identidade, não é um fim em si mesma.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Funções da Linguagem / Análise Textual e Argumentativa.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os usos da norma-padrão e as variedades linguísticas, reconhecendo a adequação de cada uma delas a diferentes situações de comunicação, em especial as variedades próprias do universo digital.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre variação linguística frequentemente apresentam usos criativos ou não padrão da língua. A chave é não assumir que isso é um "erro", mas buscar no próprio texto a justificativa funcional para essa escolha. Pergunte-se: "Que efeito de sentido ou que valor simbólico essa inovação traz para o texto?". Neste caso, a forma gráfica (] [) foi diretamente relacionada a um conceito (abertura). Fique atento a essas correlações explícitas entre forma e conteúdo no enunciado.
Questão 35 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
TEXTO 1 Alegria, alegria (fragmento) Caetano Veloso O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia Eu vou Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos Eu vou Por que não, por que não?
TEXTO 2 Anjos tronchos (fragmento) Caetano Veloso Uns anjos tronchos do Vale do Silício Desses que vivem no escuro em plena luz Disseram vai ser virtuoso no vício Das telas dos azuis mais do que azuis Agora a minha história é um denso algoritmo Que vende venda a vendedores reais Neurônios meus ganharam novo outro ritmo E mais, e mais, e mais, e mais, e mais
Embora oriundas de momentos históricos diferentes, essas letras de canção têm em comum a
ALTERNATIVAS: A) referência às cores como elemento de crítica a hábitos contemporâneos. B) percepção da profusão de informações gerada pela tecnologia. C) contraposição entre os vícios e as virtudes da vida moderna. D) busca constante pela liberdade de expressão individual. E) crítica à finalidade comercial das notícias.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão exige uma leitura comparativa de dois fragmentos de letras de Caetano Veloso, compostas em contextos históricos distintos: "Alegria, alegria" (1967) e "Anjos tronchos" (2021). O comando pede para identificar o elemento comum a ambos os textos. É necessário analisar o núcleo temático de cada um e encontrar o ponto de convergência, evitando extrapolações ou leituras que se apliquem apenas a um dos textos.
- Texto 1 (1967): Reflete sobre a experiência do sujeito lírico diante da profusão de informações das "bancas de revista", repletas de "fotos", "nomes" e "notícia". Há uma sensação de sobrecarga ("Quem lê tanta notícia") mesclada com um certo desprendimento ("alegria e preguiça").
- Texto 2 (2021): Aborda diretamente o impacto da tecnologia digital ("Vale do Silício", "telas", "algoritmo") na constituição da subjetividade. O poema fala de um "vício" nas telas e de como a história pessoal se tornou um "denso algoritmo", gerando um fluxo incessante e acelerado de estímulos ("e mais, e mais, e mais").
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. Ambos os textos compartilham a percepção da profusão de informações gerada pela tecnologia de sua época. No Texto 1, a tecnologia representada é a mídia de massa impressa (revistas, fotos), que já causava uma sensação de excesso ("tanta notícia"). No Texto 2, a tecnologia é a digital (algoritmos, telas), que intensifica exponencialmente esse fluxo e remodela a percepção e a cognição ("Neurônios meus ganharam novo outro ritmo").
Análise das Alternativas Incorretas
- A [referência às cores como elemento de crítica a hábitos contemporâneos]: Reducionismo e extrapolação. Embora ambos os textos mencionem cores ("olhos cheios de cores"; "azuis mais do que azuis"), no Texto 1 as cores estão associadas à experiência sensorial diante das revistas, não necessariamente a uma crítica. No Texto 2, a cor "azul" remete às telas de dispositivos, mas o foco da crítica não é a cor em si, e sim o vício e a reconfiguração algorítmica da vida. A cor não é o elemento comum central que estrutura a crítica em ambos.
- C [contraposição entre os vícios e as virtudes da vida moderna]: Extrapolação. Essa contraposição é explícita apenas no Texto 2 ("virtuoso no vício"). O Texto 1 não estabelece uma dicotomia clara entre vício e virtude; ele apresenta uma atitude mais ambivalente e contemplativa ("alegria e preguiça", "amores vãos") diante do excesso midiático.
- D [busca constante pela liberdade de expressão individual]: Extrapolação e contradição. O Texto 1 pode ser lido como um gesto de individualidade ("Eu vou / Por que não?"), mas não tematiza uma "busca constante" por liberdade de expressão. O Texto 2, por sua vez, fala de uma subjetividade capturada e modelada por algoritmos ("minha história é um denso algoritmo"), o que está mais para uma limitação ou reconfiguração dessa liberdade do que para sua busca.
- E [crítica à finalidade comercial das notícias]: Reducionismo. Esta alternativa se aplica, de forma limitada, apenas ao Texto 2, que menciona "vende venda a vendedores reais", aludindo à lógica comercial dos algoritmos e da economia de atenção. O Texto 1, ao falar de "bancas de revista", pode tangenciar o mundo comercial, mas não faz uma crítica explícita à finalidade comercial das notícias. O foco comum não é a comercialização, e sim o volume e a natureza do fluxo informacional.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura e Tecnologia; Produção e Recepção de Sentidos; Gênero Canção.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, em diversas situações de comunicação, considerando sua função social, seu circuito comunicativo, suas condições de produção, suas unidades composicionais e sua estética, para interagir em diferentes contextos e exercer a cidadania.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar, comparar e interpretar textos de diferentes gêneros, considerando a forma, o conteúdo, a intencionalidade, o contexto de produção e de recepção, as variedades linguísticas e os recursos expressivos e semióticos de cada texto.
Dica do Especialista
Questões de leitura comparativa no ENEM frequentemente pedem o ponto de contato essencial entre os textos. Cuidado com alternativas que: 1. São verdadeiras apenas para um dos textos (como a E, mais forte no Texto 2). 2. Pegam um elemento secundário presente em ambos e o elevam à categoria de tema central (como a A, com as cores). 3. Fazem leituras muito específicas ou anacrônicas, projetando conceitos de um contexto histórico no outro. A chave é sempre voltar aos textos e verificar se a ideia proposta na alternativa é sustentada de forma clara e direta em cada um deles.
Questão 36 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Dão Lalalão João Guimarães Rosa
Do povoado do Ão, ou dos sítios perto, alguém precisava urgente de querer vir por escutar a novela do rádio. Ouvia-a, aprendia-a, guardava na ideia, e, retornado ao Ão, no dia seguinte, a repetia a outros. Assim estavam jantando, vinham os do povoado receber a nova parte da novela do rádio. Ouvir já tinham ouvido tudo, de uma vez, fugia da regra: falhara ali no Ão, na véspera, o caminhão de um comprador de galinhas e ovos, seo Abrãozinho Buristém, que carregava um rádio pequeno, de pilhas, armara um fio no arame da cerca... Mas queriam escutar outra vez, por confirmação. - "A estória é estável de boa, mal que acompridada: taca e não rende..." - explicava o Zuz ao Dalberto. Soropita começou a recontar o capítulo da novela. Sem trabalho, se recordava das palavras, até com clareza - disso se admirava. Contava com prazer de demorar, encher a sala com o poder de outros altos personagens. Tomar a atenção de todos, pudesse contar aquilo noite adiante. Era preciso trazer luz, nem uns enxergavam mais os outros; quando alguém ria, ria de muito longe. O capítulo da novela estava terminando.
Nesse trecho do conto, o gosto dos moradores do povoado por ouvir a novela de rádio recontada por Soropita deve-se ao(à) Alternativas: A) qualidade do som do rádio. B) estabilidade do enredo contado. C) ineditismo do capítulo da novela. D) jeito singular de falar aos ouvintes. E) dificuldade de compreensão da história.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O trecho apresenta um momento de sociabilidade e fruição cultural em um povoado isolado. A novela de rádio, um produto da cultura de massa, chega de forma intermitente e precária (através do caminhão de um vendedor). No entanto, o texto desloca o foco do meio técnico (o rádio) para o ato humano da narração oral. Soropita não é um mero reprodutor; ele "reconta" com prazer, demora-se, "enche a sala com o poder de outros altos personagens". A questão pergunta pela razão do gosto dos moradores por ouvir a novela recontada por Soropita, e não simplesmente pelo rádio. A resposta está na transformação que a narração de Soropita opera sobre o conteúdo.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) jeito singular de falar aos ouvintes.
O texto é explícito ao descrever a performance de Soropita: ele conta "com prazer de demorar", buscando "encher a sala com o poder de outros altos personagens" e "tomar a atenção de todos". Isso vai além de uma simples repetição do que foi ouvido no rádio; é uma recriação singular, um evento social onde o narrador, com seu estilo próprio, dá vida à história, transformando-a em uma experiência coletiva e quase ritualística (sugerida pela necessidade de trazer luz e pelo riso que vem "de muito longe"). O gosto dos ouvintes está diretamente ligado a essa mediação artística e pessoal de Soropita.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) qualidade do som do rádio.: Distrator por contradição e extrapolação. O texto menciona que o rádio era "pequeno, de pilhas" e foi conectado precariamente ao "arame da cerca". Além disso, a questão foca no gosto pela recontação, não pela transmissão original. A qualidade do som do aparelho é irrelevante para o prazer de ouvir Soropita.
- B) estabilidade do enredo contado.: Distrator por reducionismo e má interpretação. A expressão "estável de boa" é um comentário de um personagem (Zuz) sobre a história em si, não sobre a narração de Soropita. Significa que a trama é boa, mas se arrasta ("acompridada: taca e não rende"). Este é um juízo sobre o conteúdo, não a causa do gosto pela performance do narrador.
- C) ineditismo do capítulo da novela.: Distrator por contradição direta. O texto afirma claramente: "Ouvir já tinham ouvido tudo, de uma vez" e que queriam escutar "outra vez, por confirmação". Portanto, o capítulo não era inédito para eles; já o conheciam. O prazer está justamente em revivê-lo através da narração de Soropita.
- E) dificuldade de compreensão da história.: Distrator por invenção/ausência textual. Em nenhum momento o texto sugere que os moradores tinham dificuldade de entender a história. Pelo contrário, Soropita se recordava "das palavras, até com clareza" e os ouvintes buscavam uma "confirmação", indicando que compreendiam o enredo. A "dificuldade" não é um elemento presente nem motivador do gosto descrito.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Modernismo (2ª fase/Regionalismo), Gênero Narrativo, Função Social da Narrativa Oral.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, atendendo a diferentes propósitos comunicativos.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, quando for o caso. (Aqui, aplica-se à análise da mediação cultural e da transformação de um produto midiático em experiência comunitária).
Dica do Especialista
O ENEM frequentemente explora, em questões de literatura, o contraste entre o conteúdo e a forma ou mediação. Atenção aos verbos e adjetivos que descrevem a ação do personagem. Nesta questão, termos como "recontar", "com prazer de demorar", "encher a sala com o poder" e "tomar a atenção" são pistas decisivas de que o foco está no como (o jeito singular de Soropita) e não no o quê (a história em si). Sempre retorne ao texto para verificar se a alternativa proposta tem suporte literal na narrativa.
Questão 37 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
As cinzas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, consumido pelas chamas no mês de setembro de 2018, são mais do que restos de fósseis, cerâmicas e espécimes raros. O museu abrigava, entre mais de 20 milhões de peças, os esqueletos com as respostas para perguntas que ainda não haviam sido respondidas - ou sequer feitas - por pesquisadores brasileiros. E o incêndio pode ter calado para sempre palavras e cantos indígenas ancestrais, de línguas que não existem mais no mundo. O acervo do local continha gravações de conversas, cantos e rituais de dezenas de sociedades indígenas, muitas feitas durante a década de 1960 com antigos gravadores de rolo e que ainda não haviam sido digitalizadas. Alguns dos registros abordavam línguas já extintas, sem falantes originais ainda vivos. "A esperança é que outras instituições tenham registros dessas línguas", diz a linguista Marilia Facó Soares. A pesquisadora, que trabalha com os índios Tikuna, o maior grupo da Amazônia brasileira, crê ter perdido parte de seu material. "Terei que fazer novas viagens de campo para recompor meus arquivos. Mas obviamente não dá para recuperar a fala de nativos já falecidos, geralmente os mais idosos", lamenta.
A perda dos registros linguísticos no incêndio do Museu Nacional tem impacto potencializado, uma vez que
ALTERNATIVAS: A) exige a retomada das pesquisas por especialistas de diferentes áreas. B) representa danos irreparáveis à memória e à identidade nacionais. C) impossibilita o surgimento de novas pesquisas na área. D) resulta na extinção da cultura de povos originários. E) inviabiliza o estudo da língua do povo Tikuna.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
A questão aborda o trágico incêndio do Museu Nacional em 2018, focando especificamente na perda do acervo de registros linguísticos indígenas. O texto destaca que essas gravações documentavam línguas já extintas, sem falantes vivos, e eram registros únicos (não digitalizados) de cantos, rituais e conversas. O comando da questão pede para identificar o motivo pelo qual essa perda tem um "impacto potencializado", ou seja, um efeito amplificado e mais grave. A chave está em compreender que a perda de registros únicos de línguas extintas representa uma perda definitiva de parte da história e da diversidade cultural do Brasil, afetando a memória coletiva e a identidade nacional de forma irreversível.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a B. O texto deixa claro que os registros perdidos eram de línguas já extintas, sem falantes vivos, e que em muitos casos eram os únicos registros existentes ("não dá para recuperar a fala de nativos já falecidos"). Portanto, a perda não é apenas de objetos, mas de vozes, histórias e conhecimentos ancestrais que compõem a memória e a identidade plural do Brasil. Esse impacto é "potencializado" porque é irreparável; uma vez perdidos, esses elementos não podem ser recuperados, causando um dano permanente ao patrimônio cultural e histórico nacional.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) exige a retomada das pesquisas por especialistas de diferentes áreas. (Distrator por reducionismo e extrapolação) Embora o texto mencione que a pesquisadora terá que fazer novas viagens, isso é uma consequência prática e pontual, não o "impacto potencializado" central. A questão foca no impacto amplo e irreversível da perda, não no trabalho de reconstituição. Além disso, o texto não fala em "diferentes áreas", mas sim no trabalho específico da linguista.
- C) impossibilita o surgimento de novas pesquisas na área. (Distrator por absolutismo) A alternativa é muito radical. O texto não diz que novas pesquisas são impossíveis, mas sim que uma parte específica e irrecuperável do material base se perdeu. A própria pesquisadora menciona a "esperança" de que outras instituições tenham cópias e a necessidade de novas viagens de campo, indicando que a pesquisa pode continuar, ainda que prejudicada.
- D) resulta na extinção da cultura de povos originários. (Distrator por generalização indevida) Esta alternativa comete um erro grave de interpretação. A perda de registros de línguas extintas não é o mesmo que causar a extinção da cultura de povos originários. Muitos povos, como os Tikuna mencionados, continuam vivos e com suas culturas. A alternativa confunde a documentação com a realidade viva da cultura.
- E) inviabiliza o estudo da língua do povo Tikuna. (Distrator por contradição com o texto) O texto é claro ao dizer que a pesquisadora trabalha com os Tikuna, "o maior grupo da Amazônia brasileira". Isso implica que a língua e a cultura Tikuna são vivas e têm muitos falantes. A perda de parte do material da pesquisadora é um revés, mas não inviabiliza o estudo de uma língua que continua sendo falada por uma grande comunidade. O impacto potencializado refere-se às línguas já extintas, não às vivas.
Identificação Pedagógica
- Tema: Patrimônio Cultural, Memória e Identidade. Diversidade Linguística Brasileira.
- Competência BNCC: Competência 3 (Área de Linguagens) - Compreender e produzir textos orais e escritos de diferentes gêneros, em diversas situações de comunicação, considerando a interlocução, a finalidade e o contexto sociodiscursivo. / Competência 6 (Área de Humanas) - Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, reconhecendo suas posições ideológicas e seus efeitos de sentido. / Habilidade EM13CHS101 - Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos, mediante a compreensão das relações de poder e dos conflitos sociais, políticos, econômicos e culturais, com base em diferentes instrumentos e linguagens.
Dica do Especialista
Questões do ENEM que tratam de patrimônio cultural, memória e identidade frequentemente buscam avaliar a compreensão do aluno sobre a importância da preservação e o caráter irreversível de certas perdas. Fique atento aos termos que indicam gravidade e singularidade no texto, como "únicos", "já extintos", "irrecuperáveis". A alternativa correta geralmente sintetiza o impacto social e histórico mais amplo do evento descrito, evitando conclusões literais, exageradas ou que reduzam o problema a uma consequência prática imediata.
Questão 38 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias / Ciências Humanas e suas Tecnologias
Enunciado
Na Idade Média, as notícias se propagavam com surpreendente eficácia. Segundo uma emérita professora de Sorbonne, um cavalo era capaz de percorrer 30 quilômetros por dia, mas o tempo podia se acelerar dependendo do interesse da notícia. As ordens mendicantes tinham um papel importante na disseminação de informações, assim como os jograis, os peregrinos e os vagabundos, porque todos eles percorriam grandes distâncias. As cidades também tinham correios organizados e selos para lacrar mensagens e tentar certificar a veracidade das correspondências. Graças a tudo isso, a circulação de boatos era intensa e politicamente relevante. Um exemplo clássico de fake news da era medieval é a história do rei que desaparece na batalha e reaparece muito depois, idoso e transformado.
A propagação sistemática de informações é um fenômeno recorrente na história e no desenvolvimento das sociedades. No texto, a eficácia dessa propagação está diretamente relacionada ao(à)
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto descreve o complexo ecossistema de comunicação na Idade Média, desconstruindo a ideia de que era uma época de informações estagnadas. Ele apresenta múltiplos agentes (ordens mendicantes, jograis, peregrinos, vagabundos) e múltiplos meios (deslocamento de pessoas, correios organizados, selos de autenticação) que, em conjunto, permitiam uma circulação surpreendentemente eficaz de notícias e, consequentemente, de boatos. O comando da questão pede para identificar a que a eficácia dessa propagação está diretamente relacionada, com base nas informações do texto.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E) diversidade dos meios disponíveis em uma época histórica. O texto fundamenta a eficácia da propagação justamente na pluralidade de canais e agentes mencionados: a mobilidade de diferentes grupos sociais (mendicantes, jograis, etc.), a existência de serviços postais organizados e técnicas de autenticação (selos). É essa diversidade, atuando em conjunto, que explica a capacidade de as informações – verdadeiras ou falsas – circularem com eficácia.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) velocidade de circulação das notícias: Distrator por reducionismo. Embora o texto mencione que "o tempo podia se acelerar", a velocidade é apresentada como uma consequência ou uma variável, não como a causa principal da eficácia. A eficácia decorre da estrutura diversificada que possibilitava essa circulação, seja rápida ou lenta.
- B) nível de letramento da população marginalizada: Distrator por extrapolação/anacronismo. O texto não faz qualquer menção ao nível de instrução ou letramento dos grupos citados (mendicantes, vagabundos). O foco está no seu papel como agentes móveis de transmissão oral, não em sua capacidade de leitura ou escrita. É um anacronismo projetar preocupações modernas sobre alfabetização nesse contexto.
- C) poder de censura por parte dos serviços públicos: Distrator por contradição. O texto menciona que as cidades tinham correios e selos para "tentar certificar a veracidade", o que é um mecanismo de controle e autenticação, não necessariamente de censura. Além disso, a eficácia descrita resulta da circulação que ocorria apesar ou ao lado desses controles, inclusive de boatos ("fake news"), o que contradiz a ideia de que a censura era o fator de eficácia.
- D) legitimidade da voz dos representantes da nobreza: Distrator por extrapolação. O texto não atribui a eficácia a qualquer grupo específico da nobreza. Pelo contrário, destaca agentes muitas vezes à margem da estrutura de poder formal (mendicantes, jograis, vagabundos). A "voz da nobreza" não é apresentada como o canal principal ou legitimador do processo de propagação.
Identificação Pedagógica
- Tema: História da Comunicação e Cultura Medieval / Mídia e Sociedade.
- Competência BNCC: Competência 4 (Área de Linguagens) - Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, ou Competência 3 (Área de Humanas) - Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG403 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos discursos veiculados nas diferentes mídias, ou Habilidade EM13CHS302 - Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem a diversidade sociocultural.
Dica do Especialista
Esta questão é um excelente exemplo de como o ENEM avalia a leitura atenta e a interpretação literal do texto. Muitas alternativas parecem plausíveis com base no nosso conhecimento geral sobre a Idade Média (censura, analfabetismo, poder da nobreza), mas a resposta correta está ancorada estritamente na argumentação construída pelo autor. A chave foi perceber que o texto listou diversos fatores (agentes e meios) e a alternativa E sintetizou essa ideia com o termo "diversidade". Treine identificar a tese central de um texto e como os exemplos e detalhes servem para sustentá-la.
Questão 39 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Se a interferência de contas falsas em discussões políticas nas redes sociais já representava um perigo para os sistemas democráticos, sua sofisticação e maior semelhança com pessoas reais têm agravado o problema pelo mundo. O perigo cresceu porque a tecnologia e os métodos evoluíram dos robôs, os "bots" - softwares com tarefas on-line automatizadas -, para os "ciborgues" ou "trolls", contas controladas diretamente por humanos com ajuda de um pouco de automação. Mas pesquisadores começam agora a observar outros padrões de comportamento: quando mensagens não são programadas, sua publicação se concentra só em horários de trabalho, já que é controlada por pessoas cuja profissão é exatamente essa, administrar um perfil falso durante o dia. Outra pista: a pobreza vocabular das mensagens publicadas por esses perfis. Um funcionário de uma empresa que supostamente produzia e vendia perfis falsos explica que às vezes "faltava criatividade" para criar mensagens distintas controlando tantos perfis falsos ao mesmo tempo.
De acordo com o texto, a análise de características da linguagem empregada por perfis automatizados contribui para o(a)
ALTERNATIVAS: A) controle da atuação dos profissionais de TI. B) desenvolvimento de tecnologias como os "trolls". C) flexibilização dos turnos de trabalho dos controladores. D) necessidade de regulamentação do funcionamento dos "bots". E) identificação de padrões de disseminação de informações inverídicas.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto discute a evolução e o perigo das contas falsas ("bots", "ciborgues" ou "trolls") nas redes sociais, especialmente no contexto político. Ele destaca que pesquisadores estão analisando padrões de comportamento para identificar essas contas, como a concentração de postagens em horário comercial e, principalmente, a "pobreza vocabular" das mensagens. O comando da questão pergunta qual é o objetivo ou resultado prático dessa análise específica das características linguísticas.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a E. O texto apresenta a análise da linguagem (a "pobreza vocabular") como uma "pista" que, junto com outros padrões de comportamento (como os horários de postagem), permite aos pesquisadores identificar contas falsas. A finalidade última dessa identificação é combater a disseminação de informações inverídicas (falsas), que é o perigo central apontado no início do texto para os sistemas democráticos.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [controle da atuação dos profissionais de TI]: Extrapolação/Fora do Escopo. O texto menciona profissionais que controlam perfis falsos como uma ocupação, mas não há qualquer menção ou inferência sobre controlar a atuação de profissionais de Tecnologia da Informação (TI) de forma geral. O foco está nos controladores de perfis falsos, não na categoria ampla de TI.
- B [desenvolvimento de tecnologias como os "trolls"]: Contradição. O texto descreve a análise como uma ferramenta para identificar e combater essas contas falsas, não para desenvolvê-las. A questão trata de detectar um problema, não de criar a tecnologia que o causa.
- C [flexibilização dos turnos de trabalho dos controladores]: Reducionismo/Desvio de Foco. O texto cita o horário de trabalho como um padrão observado para identificar as contas. A análise visa usar essa informação para detectá-las, não para discutir ou alterar a jornada dos controladores. É confundir a pista com uma possível consequência para o agente do problema.
- D [necessidade de regulamentação do funcionamento dos "bots"]: Extrapolação. Embora o texto aponte os perigos das contas falsas, ele não avança para a discussão sobre regulamentação. A análise da linguagem é apresentada como uma ferramenta de identificação no campo da pesquisa, não como um argumento direto para a criação de leis ou normas.
Identificação Pedagógica
- Tema: Letramento Digital e Análise Crítica da Informação.
- Competência BNCC: Competência 4 - Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna e geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LP26 - Analisar, em textos de diferentes gêneros e domínios discursivos, os efeitos de sentido decorrentes de recursos verbais e não verbais, de escolhas lexicais, de tempos e modos verbais, da pontuação e de outras notações, de recursos gráficos, da diagramação e da formatação, para fazer inferências, construir sínteses e/ou estabelecer relações de intertextualidade.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de inferência direta a partir do texto. A resposta correta está sempre ancorada em informações explícitas ou em conexões lógicas muito próximas, sem "viajar" para conclusões externas. No ENEM, desconfie de alternativas que, mesmo parecendo verdadeiras no mundo real, não encontram suporte direto na passagem lida. Aqui, a chave foi perceber que a "pobreza vocabular" era uma pista para um fim maior: identificar contas que disseminam desinformação.
Questão 40 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Maio foi colorido de amarelo, e o foi porque mundialmente amarelo é a cor convencionada para as advertências. No trânsito, essas advertências têm sido fatais. A estimativa, caso nada seja feito, é a de que se atinjam assustadoras 2,4 milhões de mortes no trânsito em 2030 em todo o mundo. A pressa constante, o sentimento de invencibilidade, a certeza de invulnerabilidade, a necessidade de poder, a falta de civilidade, a certeza de impunidade, a ausência de solidariedade, a inexistência de compaixão e o desrespeito por si próprio são circunstâncias reais que, não raro, concorrem para o comportamento violento no trânsito. O Maio Amarelo, que preconiza a atenção pela vida, é uma das iniciativas nesse sentido. E é precisamente a atenção pela vida que está esquecida. Essa atenção, por certo, requer menos pressa, mais civilidade, limites assegurados, consciência de vulnerabilidade, solidariedade, compaixão e respeito por si e pelo outro. Reafirmar e praticar esses princípios e valores talvez seja um caminho mais seguro e menos violento, que garanta a vida e não celebre a morte.
Considerando os procedimentos argumentativos utilizados, infere-se que o objetivo desse texto é
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma estrutura argumentativa típica de campanha de conscientização. Ele inicia contextualizando o "Maio Amarelo", apresenta um dado alarmante (2,4 milhões de mortes estimadas) para chamar a atenção para a gravidade do problema, lista causas comportamentais e psicológicas da violência no trânsito e, finalmente, propõe uma mudança de atitude baseada em valores como civilidade, solidariedade e respeito. O comando da questão pede que se infira o objetivo do texto, ou seja, sua finalidade comunicativa principal, com base nos procedimentos argumentativos utilizados. A análise deve focar no propósito do autor ao escrever, que vai além de simplesmente informar.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D) sensibilizar o público para a importância de uma direção responsável. O texto utiliza dados alarmantes e uma lista de comportamentos negativos para criar um apelo emocional e racional. Em seguida, propõe explicitamente a adoção de valores positivos ("menos pressa, mais civilidade... respeito") como solução. O fecho do texto ("Reafirmar e praticar esses princípios e valores talvez seja um caminho mais seguro...") é um claro chamado à ação e à reflexão, característico de um texto que visa sensibilizar e mobilizar o leitor para uma causa.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) enumerar as causas determinantes da violência no trânsito. (Reducionismo / Foco Incorreto) Embora o texto enumere várias causas (pressa, falta de civilidade, etc.), essa enumeração não é o objetivo final. Ela serve como argumento para justificar a necessidade da campanha e da mudança de comportamento. O objetivo é mais amplo: sensibilizar para a mudança.
- B) contextualizar a campanha de advertência no cenário mundial. (Extrapolação / Foco Parcial) O texto começa contextualizando a cor amarela e menciona dados mundiais, mas isso é apenas a abertura para desenvolver seu argumento principal. O cerne do texto não é explicar a campanha em si, mas usá-la como pano de fundo para um apelo à responsabilidade.
- C) divulgar dados numéricos alarmantes sobre acidentes de trânsito. (Reducionismo / Meio confundido com Fim) A divulgação do dado de 2,4 milhões de mortes é um recurso argumentativo utilizado para chocar o leitor e dar peso à mensagem principal. Não é o objetivo final do texto, que é a sensibilização.
- E) restringir os problemas da violência no trânsito a aspectos emocionais. (Contradição / Leitura Superficial) O texto menciona aspectos emocionais e psicológicos (como sentimento de invencibilidade), mas também aborda questões sociais (civilidade, solidariedade, impunidade) e propõe soluções práticas (limites assegurados). Portanto, não restringe o problema, mas o aborda de forma multifacetada. Além disso, restringir não seria um objetivo plausível para um texto de campanha.
Identificação Pedagógica
- Tema: Gênero Textual / Campanha de Conscientização. Argumentação e Persuasão.
- Competência BNCC: Competência 6 - Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG603 - Analisar, em textos de diferentes gêneros e domínios discursivos, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas lexicais, tempos e modos verbais, ordem de palavras, relações lógico-discursivas, pontuação e outras notações, recursos gráficos, imagéticos e sonoros.
Dica do Especialista
No ENEM, questões que perguntam sobre o "objetivo" ou "finalidade" de um texto exigem que você vá além do conteúdo explícito. Pergunte-se: "O que o autor quer que eu sinta, pense ou faça após a leitura?". Textos como este, que apresentam um problema grave e em seguida sugerem uma mudança de atitude, quase sempre têm como objetivo sensibilizar, conscientizar ou mobilizar o leitor. Fique atento aos verbos no final do texto e ao tom geral da mensagem.
Questão 41 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
A sessão do Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou uma mudança histórica e inédita no lema olímpico, criado em 1894 pelo Barão Pierre de Coubertin para expressar os valores e a excelência do esporte. Mais de 120 anos depois, o lema tem sua primeira alteração para ressaltar a solidariedade e incluir a palavra "juntos": mais rápido, mais alto, mais forte - juntos. A mudança foi aprovada por unanimidade pelos membros do COI e celebrada pelo presidente da entidade.
De acordo com o texto, a alteração do lema olímpico teve como objetivo a
ALTERNATIVAS: A) unificação do lema anterior ao atual. B) aproximação entre o lema olímpico e o COI. C) junção do lema olímpico com os princípios esportivos. D) associação entre o lema olímpico e a cooperatividade. E) vinculação entre o lema olímpico e os eventos atléticos.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto apresenta uma notícia sobre a primeira alteração no lema olímpico em mais de um século. O comando da questão é direto: pede o objetivo dessa alteração, conforme explicitado no texto. A informação-chave está na frase: "o lema tem sua primeira alteração para ressaltar a solidariedade e incluir a palavra 'juntos'". Portanto, a análise deve focar em identificar qual alternativa traduz corretamente a ideia de "ressaltar a solidariedade" por meio da inclusão da palavra "juntos".
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a D). O texto é explícito ao afirmar que a mudança foi feita "para ressaltar a solidariedade". A palavra "juntos", adicionada ao lema, é a materialização linguística desse valor. A "cooperatividade" é um sinônimo direto do conceito de solidariedade aplicado ao contexto esportivo e coletivo, que é exatamente o objetivo da alteração: associar o lema a esse princípio.
Análise das Alternativas Incorretas
-
A) unificação do lema anterior ao atual. Erro: Reducionismo/Desvio de Foco. O texto fala em uma "alteração" ou "mudança", não em uma "unificação". Unificar implicaria fundir duas coisas distintas em uma só, o que não é o caso. O lema anterior foi modificado, não unificado a um novo.
-
B) aproximação entre o lema olímpico e o COI. Erro: Extrapolação. Não há nenhuma informação no texto que sugira que o lema estava distante do COI ou que a mudança visava uma maior aproximação com a entidade. O COI é o próprio criador e guardião do lema.
-
C) junção do lema olímpico com os princípios esportivos. Erro: Generalização Vaga/Contradição. O texto diz que o lema original já foi criado "para expressar os valores e a excelência do esporte". Portanto, ele já estava intrinsecamente ligado aos princípios esportivos. A alteração visa ressaltar um princípio específico (a solidariedade), não fazer uma junção genérica que já existia.
-
E) vinculação entre o lema olímpico e os eventos atléticos. Erro: Reducionismo/Anacronismo. O lema "Mais rápido, mais alto, mais forte" já é historicamente e diretamente vinculado às competições e eventos atléticos. A novidade da alteração não é criar essa vinculação, mas sim acrescentar uma dimensão de coletividade ("juntos") a ela.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Semântica / Leitura e Interpretação de Textos.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e semióticos como elementos constitutivos dos textos, considerando seus contextos de produção e recepção.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG202 - Analisar e comparar textos de diferentes gêneros, considerando sua organização e suas escolhas linguísticas, para explicar possíveis relações de intertextualidade, intergenericidade e retextualização.
Dica do Especialista
Questões como esta testam sua capacidade de localizar a informação precisa que responde ao comando. A chave está em identificar os verbos de finalidade (como "para ressaltar") e os substantivos-chave que eles introduzem ("solidariedade"). Desconfie de alternativas que trazem ideias genéricas (como "princípios esportivos") ou que se referem a relações que já estavam consolidadas antes da mudança. Foque no que a alteração efetivamente trouxe de novo.
Questão 42 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Mais iluminada que outras Jarid Arraes
Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos. Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem - dizem e eu ouvi e depois também li - liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.
Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora
ALTERNATIVAS: A) revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade. B) questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão. C) reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina. D) sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade. E) mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um conto da escritora Jarid Arraes, que constrói uma narrativa em primeira pessoa. A análise deve focar nos recursos expressivos (escolhas vocabulares, imagens, metáforas, ritmo) e no seu efeito de sentido. O texto se divide em dois movimentos: 1. Autorretrato corporal e identitário: A narradora descreve seu corpo com termos que mesclam o cotidiano ("maquiagem comprada por dezenove e noventa") com uma força quase mítica e violenta ("corpo faminto, dentado, cruel", "Animal da caatinga", "Engolidora de espadas e espinhos"). Ela rejeita a domesticação ("não quero domá-las"). 2. Memória histórica: A narradora conecta sua existência a um fato histórico (a abolição no Ceará), mas o faz de forma indireta e carregada de dor, descrevendo os "corpos" escravizados com marcas de violência ("dedos contados", "calcanhares prontos", "umbigos em fogo").
O comando da questão pede para identificar o que esses recursos expressivos, no conjunto, revelam. A chave está na conexão entre a descrição do corpo individual/poderoso da narradora e a descrição dos corpos coletivos/marcados pela história.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a A.
Os recursos expressivos do texto constroem uma identidade que é, simultaneamente, afirmada em sua potência ("Forte demais") e atravessada por uma herança histórica de violência. A narradora se descreve como um "Animal da caatinga" – uma referência geográfica e identitária ao Nordeste – e, em seguida, evoca a violência escravocrata que também marcou essa região. As marcas no corpo escravizado ("dedos contados", "umbigos em fogo") ecoam metaforicamente na descrição de seu próprio corpo como "dentado" e "violento", sugerindo uma identidade forjada na resistência a essas violências históricas (de raça) e possivelmente às opressões de gênero.
Análise das Alternativas Incorretas
- B) questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.
- Erro: Reducionismo e extrapolação. O texto menciona o fato histórico ("Ceará aboliu... quatro anos antes"), mas os recursos expressivos não estão a serviço de questioná-lo. A repetição "Dizem e eu ouvi, mas depois também li" sugere um processo de apropriação crítica da história, não um questionamento factual do pioneirismo. O foco narrativo está nos corpos e no sofrimento, não na validação histórica.
- C) reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.
- Erro: Contradição e reducionismo. Apesar de haver uma descrição corporal, os termos usados fogem completamente dos padrões estéticos convencionais de valorização ("faminto, dentado, cruel, violento"). A autoestima aqui é construída pela aceitação de uma força bruta e ancestral, não pela adequação a padrões.
- D) sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.
- Erro: Extrapolação. Embora haja elementos fortes e simbólicos ("Animal da caatinga", "Engolidora de espadas"), o tom não é onírico (de sonho), mas visceral e concreto. Não há no texto referências ou desejos explícitos de resgate espiritual. A conexão é histórica e corporal, não metafísica.
- E) mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.
- Erro: Inversão lógica e reducionismo. Esta alternativa tenta criar uma relação direta que o texto não estabelece. A "paisagem" (caatinga) é usada como metáfora para o corpo da narradora ("Animal da caatinga"), não o contrário. Os corpos transformados pela escravidão são descritos em si mesmos, não como mimetização da paisagem. A alternativa isola um elemento (paisagem) e força uma relação de espelhamento que não é o centro da construção expressiva.
Identificação Pedagógica
- Tema: Construção Identitária, Literatura Contemporânea, Memória e Violência Histórica.
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos para exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva, de forma crítica, criativa, ética e solidária.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG302 - Analisar visões de mundo, conflitos de interesse, preconceitos e ideologias presentes nos textos, problematizando-os e posicionando-se criticamente em relação a eles, com ética e respeito.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de interpretação sobre textos literários contemporâneos, especialmente de autoras mulheres e/ou negras, frequentemente abordam a interseccionalidade (como raça, gênero e classe se cruzam na experiência). Fique atento: a resposta correta geralmente sintetiza os diferentes planos do texto (o individual e o coletivo, o presente e o passado) sem reduzir a complexidade da obra a apenas um deles. Se uma alternativa parecer focar em apenas uma camada de leitura (apenas o histórico, apenas o estético), desconfie.
Questão 43 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
De quem é esta língua? José Eduardo Agualusa
Uma pequena editora brasileira, a Urutau, acaba de lançar em Lisboa uma "antologia antirracista de poetas estrangeiros em Portugal", com o título Volta para a tua terra. O livro denuncia as diversas formas de racismo a que os imigrantes estão sujeitos. Alguns dos poetas brasileiros antologiados queixam-se do desdém com que um grande número de portugueses acolhe o português brasileiro. É uma queixa frequente. "Aqui em Portugal eles dizem / - eles dizem - / que nosso português é errado, que nós não falamos português", escreve a poetisa paulista Maria Giulia Pinheiro, para concluir: "Se a sua linguagem, a lusitana, / ainda conserva a palavra da opressão / ela não é a mais bonita do mundo./ Ela é uma das mais violentas".
O texto de Agualusa tematiza o preconceito em relação ao português brasileiro. Com base no trecho citado pelo autor, infere-se que esse preconceito se deve
ALTERNATIVAS: A) à dificuldade de consolidação da literatura brasileira em outros países. B) aos diferentes graus de instrução formal entre os falantes de língua portuguesa. C) à existência de uma língua ideal que alguns falantes lusitanos creem ser a falada em Portugal. D) ao intercâmbio cultural que ocorre entre os povos dos diferentes países de língua portuguesa. E) à distância territorial entre os falantes do português que vivem em Portugal e no Brasil.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto de Agualusa apresenta um recorte de uma discussão sociolinguística: o preconceito linguístico sofrido por falantes do português brasileiro em Portugal. A questão pede que o candidato infira a causa desse preconceito com base exclusivamente no trecho citado. A chave está na fala da poetisa Maria Giulia Pinheiro, que relata a atitude de alguns portugueses: eles consideram o português do Brasil "errado" e afirmam que os brasileiros "não falam português". Essa postura revela uma visão purista e normativa, que eleva uma variedade linguística (a de Portugal) à condição de modelo único e correto, desqualificando as demais.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. O trecho evidencia que o preconceito surge da crença, por parte de alguns falantes em Portugal, de que existe uma forma "correta" e ideal da língua – a que eles falam –, em contraposição à variedade brasileira, que é tachada de "errada". Isso é um claro exemplo de preconceito linguístico baseado na noção de uma norma-padrão idealizada e única.
Análise das Alternativas Incorretas
- A [à dificuldade de consolidação da literatura brasileira em outros países]: Extrapolação. O texto foca no preconceito contra a fala cotidiana, a língua em uso. Não há qualquer menção ao status, aceitação ou dificuldades da literatura brasileira no exterior. O assunto é a língua falada, não a produção literária.
- B [aos diferentes graus de instrução formal entre os falantes de língua portuguesa]: Reducionismo e contradição. A poetisa não atribui o desdém a diferenças de escolaridade. Pelo contrário, ela, uma escritora publicada, é alvo do preconceito. O texto sugere que o julgamento é sobre a variedade da língua (brasileira vs. portuguesa), independentemente do nível de instrução do falante.
- D [ao intercâmbio cultural que ocorre entre os povos dos diferentes países de língua portuguesa]: Contradição. O intercâmbio cultural é geralmente visto como um fator positivo de troca e enriquecimento mútuo. O texto, no entanto, descreve uma situação de conflito e desvalorização, não de intercâmbio harmonioso. A antologia até denuncia o racismo, que é uma barreira ao verdadeiro intercâmbio.
- E [à distância territorial entre os falantes do português que vivem em Portugal e no Brasil]: Falsa Causa. A distância geográfica é um fato histórico que contribuiu para a diferenciação das variedades linguísticas. No entanto, o texto não aponta a mera distância como causa do preconceito. O preconceito é uma atitude social e ideológica ("eles dizem que nosso português é errado"), não uma consequência automática da geografia.
Identificação Pedagógica
- Tema: Variação Linguística e Preconceito.
- Competência BNCC: Competência 9 - Reconhecer a linguagem como instrumento de construção de identidades, exercício de cidadania e expressão de mundo.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG904 - Analisar, em textos de diferentes gêneros, os efeitos de sentido decorrentes de escolhas linguísticas e a presença de variedades linguísticas, identificando preconceitos e estereótipos.
Dica do Especialista
Questões como esta avaliam sua capacidade de ler além das linhas, inferindo ideias implícitas no texto. Fique atento a verbos como "infere-se" ou "depreende-se". Eles indicam que a resposta não está escrita de forma explícita, mas pode ser deduzida a partir das pistas dadas. Aqui, a pista estava na fala reportada: a alegação de que uma variedade é "errada" só faz sentido se quem alega acreditar que a sua é a única "certa". Esse é o cerne do preconceito linguístico, um tema muito caro ao ENEM.
Questão 44 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Crônica da casa assassinada Lúcio Cardoso
Ainda daquela vez pude constatar a bizarrice dos costumes que constituíam as leis mais ou menos constantes do seu mundo: ao me aproximar, verifiquei que o Sr. Timóteo, gordo e suado, trajava um vestido de franjas e lantejoulas que pertencera a sua mãe. O corpete descia-lhe excessivamente justo na cintura, e aqui e ali rebentava através da costura um pouco da carne aprisionada, esgarçando a fazenda e tornando o prazer de vestir-se daquele modo uma autêntica espécie de suplício. Movia-se ele com lentidão, meneando todas as suas franjas e abanando-se vigorosamente com um desses leques de madeira de sândalo, o que o envolvia numa enjoativa onda de perfume. Não sei direito o que colocara sobre a cabeça, assemelhava-se mais a um turbante ou a um chapéu sem abas de onde saíam vigorosas mechas de cabelos alourados. Como era costume seu também, trazia o rosto pintado - e para isto, bem como para suas vestimentas, apoderara-se de todo o guarda-roupa deixado por sua mãe, também em sua época famosa pela extravagância com que se vestia - o que sem dúvida fazia sobressair-lhe o nariz enorme, tão característico da família Meneses.
Pela voz de uma empregada da casa, a descrição de um dos membros da família exemplifica a renovação da ficção urbana nos anos 1950, aqui observada na
ALTERNATIVAS: A) opção por termos e expressões de sentido ambíguo. B) crítica social inspirada pelo convívio com os patrões. C) descrição impressionista do fetiche do personagem. D) presença de um foco narrativo de caráter impreciso. E) ambiência de mistério das relações entre familiares.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O texto é um trecho do romance Crônica da Casa Assassinada (1959), de Lúcio Cardoso, marco da renovação da ficção urbana brasileira dos anos 1950. A questão pede que identifiquemos, na descrição do personagem Sr. Timóteo, um exemplo dessa renovação. O foco está na técnica narrativa e na percepção subjetiva empregadas. A narração é feita por uma empregada, o que já insere uma perspectiva de classe e um olhar de fora para dentro da família decadente. A descrição não é objetiva ou realista; ela captura a impressão que a cena causa na narradora, com ênfase nas sensações visuais, táteis e olfativas (o "suplício" do corpete, a "enjoativa onda de perfume"), caracterizando uma abordagem impressionista.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. A descrição do Sr. Timóteo se concentra na aparência extravagante e no sofrimento físico que seu travestimento causa ("suplício"), capturando a impressão subjetiva e sensorial da narradora sobre o personagem. Isso exemplifica o impressionismo, uma técnica narrativa que privilegia a percepção momentânea e sensorial sobre a análise psicológica profunda ou a descrição objetiva, alinhando-se à renovação estética da época.
Análise das Alternativas Incorretas
- A) opção por termos e expressões de sentido ambíguo. (Distrator: Reducionismo) Embora haja subjetividade, a linguagem do trecho não é predominantemente ambígua. Termos como "suplício", "enjoativa", "bizarrice" são bastante diretos em transmitir a impressão negativa da narradora. A renovação em questão vai além da mera ambiguidade.
- B) crítica social inspirada pelo convívio com os patrões. (Distrator: Extrapolação) A narradora é uma empregada, o que poderia sugerir uma crítica de classe. No entanto, o trecho foca na descrição impressionista da extravagância e decadência do Sr. Timóteo, não em uma crítica explícita às relações sociais ou de trabalho. A crítica, se existente, é indireta e subordinada à técnica descritiva.
- D) presença de um foco narrativo de caráter impreciso. (Distrator: Contradição) O foco narrativo é, na verdade, muito preciso: é a perspectiva limitada e subjetiva de uma empregada ("pude constatar", "verifiquei", "Não sei direito"). A imprecisão mencionada ("Não sei direito o que colocara sobre a cabeça") é um recurso estilístico que reforça o caráter impressionista (a impressão confusa), não uma falha ou imprecisão do foco narrativo em si.
- E) ambiência de mistério das relações entre familiares. (Distrator: Desvio de Foco) O texto sugere uma família com costumes bizarros e decadentes, o que pode criar uma atmosfera estranha. Contudo, a questão pede o que a descrição do personagem exemplifica da renovação da ficção. O trecho analisado é uma descrição impressionista de um indivíduo, não uma exploração direta das relações ou de uma ambiência de mistério familiar.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Modernismo e Pós-Modernismo / Técnicas Narrativas
- Competência BNCC: Competência 3 - Compreender e produzir textos artísticos e culturais de diferentes gêneros, mídias e contextos, valorizando a diversidade de produções artísticas nacionais e internacionais.
- Habilidade BNCC: Habilidade EM13LGG304 - Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
Dica do Especialista
No ENEM, questões sobre tendências literárias (como a "renovação da ficção urbana nos anos 1950") frequentemente pedem que você relacione um recurso estilístico específico do trecho (neste caso, a descrição impressionista) com o contexto histórico-literário mais amplo. Fique atento: a resposta geralmente está no como o texto foi escrito (a técnica), e não apenas no o que ele descreve (o tema). Treine identificar adjetivos e verbos que denotem sensações e impressões subjetivas – eles são pistas fortes para o impressionismo.
Questão 45 - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Enunciado
Girassol da madrugada (fragmento) Mário de Andrade
Teu dedo curioso me segue lento no rosto Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou. Que silêncio, prenda minha... Que desvio triunfal da verdade, Que círculos vagarosos na lagoa em que uma asa gratuita roçou...
Tive quatro amores eternos... O primeiro era moça donzela, O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma, O terceiro era a rica senhora, O quarto és tu... E eu afinal me repousei dos meus cuidados
Perante o outro, o eu lírico revela, na força das memórias evocadas, a
ALTERNATIVAS: A) vergonha das marcas provocadas pela passagem do tempo. B) indecisão em face das possibilidades afetivas do presente. C) serenidade sedimentada pela entrega pacífica ao desejo. D) frustração causada pela vontade de retorno ao passado. E) disponibilidade para a exploração do prazer efêmero.
Resolução Comentada
Contexto e Análise
O poema de Mário de Andrade apresenta um eu lírico que, diante de um interlocutor (o "outro" mencionado no comando da questão), faz um balanço de sua vida afetiva. Ele descreve as marcas do tempo em seu rosto ("sulcos", "sombras machucadas") e, em seguida, enumera seus "quatro amores eternos". A chave da questão está na última estrofe, onde o eu lírico, ao se dirigir ao quarto amor (o "tu" do poema), declara: "E eu afinal me repousei dos meus cuidados". O comando pede que identifiquemos o que o eu lírico revela "na força das memórias evocadas". Portanto, devemos focar no estado emocional resultante dessa reflexão sobre o passado, e não em sentimentos isolados expressos em versos específicos.
Gabarito Comentado
A alternativa correta é a C. O eu lírico, ao revisitar suas experiências amorosas passadas, não demonstra angústia, arrependimento ou inquietação. Pelo contrário, a enumeração culmina na constatação de que, no amor atual ("o quarto és tu"), ele finalmente encontrou repouso e paz ("me repousei dos meus cuidados"). A "força das memórias evocadas" leva a um sentimento de serenidade, que é "sedimentada" (consolidada, firmada) justamente por essa "entrega pacífica ao desejo" presente.
Análise das Alternativas Incorretas
- A vergonha das marcas provocadas pela passagem do tempo: Distrator por reducionismo e contradição. Embora o poema mencione "sulcos" e "sombras machucadas", o tom não é de vergonha, mas de aceitação contemplativa. O foco não está na vergonha, mas no percurso de vida ("por onde a vida passou") que levou à serenidade final. O eu lírico permite que o dedo do outro percorra essas marcas, o que sugere intimidade e não ocultação.
- B indecisão em face das possibilidades afetivas do presente: Distrator por contradição direta. O eu lírico não demonstra qualquer indecisão. Ele já fez sua escolha ("o quarto és tu") e declara ter encontrado nela seu repouso. A afirmação é categórica e conclusiva.
- D frustração causada pela vontade de retorno ao passado: Distrator por extrapolação. Não há, no texto, nenhum indício de frustração ou de desejo de voltar ao passado. As memórias são evocadas, mas sem nostalgia dolorosa. Elas servem como contraste para destacar a paz encontrada no presente.
- E disponibilidade para a exploração do prazer efêmero: Distrator por anacronismo e contradição. O poema fala de "amores eternos", o que já se opõe à ideia de efemeridade. Além disso, o estado final é de "repouso" e término dos "cuidados" (preocupações, ansiedades), o que é antagônico a uma postura de exploração contínua de prazeres passageiros.
Identificação Pedagógica
- Tema: Literatura Brasileira - Modernismo; Análise do Discurso Poético; Subjetividade e Afetividade.
- Competência BNCC: Competência 2 - Compreender os fenômenos linguísticos e literários como elementos constitutivos dos discursos, considerando seus contextos de produção e recepção.
- Habilidade BNCC: EM13LGG202 - Analisar, em textos literários, os efeitos de sentido decorrentes do uso de recursos estilísticos e semânticos, relacionando-os com as escolhas do autor e com o contexto de produção da obra.
Dica do Especialista
No ENEM, questões de interpretação de poemas frequentemente testam a capacidade de perceber o tom global ou a conclusão emocional do eu lírico, em contraste com impressões isoladas de versos específicos. Cuidado com alternativas que capturam um detalhe do texto, mas ignoram o seu desfecho ou mensagem central. Sempre busque a alternativa que melhor sintetiza a relação entre o passado evocado e o estado presente expresso no poema. Palavras como "afinal", "repouso" e "eternos" são pistas decisivas para a compreensão do todo.